Blog do Mario Magalhaes

Do arquivo secreto do Dops: gravação da Câmara expõe radicalização em 1964
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Mário Magalhães

Gravações como as acima ficavam guardadas aqui, no antigo prédio do Dops – Foto Pedro Oswaldo Cruz/Acervo Inepac

 

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A gravação acima, dividida em três arquivos, soma uma hora, 2 minutos e 31 segundos, mas vale por dezenas de horas-aula de um bom curso de história do Brasil. Para ouvi-la, basta clicar em cima dos ícones.

O áudio original é contínuo _quebrei-o em três por inépcia.  Documenta um discurso do deputado Almino Affonso na Câmara, na virada de fevereiro para março de 1964, a um mês do golpe de Estado. Almino militava no PTB, a mesma agremiação do presidente João Goulart, e que nada tem a ver com o atual PTB de Roberto Jefferson.

O grande antagonista de Almino no debate-boca é o deputado Adauto Lúcio Cardoso, da UDN, o mais retumbante partido oposicionista.

O confronto retórico, em que ambos os contendores buscam se legitimar reivindicando a defesa da democracia, transcorre em torno de manifestações que impediram na marra correligionários dos dois de falar publicamente em várias cidades.

De um lado, barraram o deputado petebista Leonel Brizola, mais à esquerda do que seu cunhado Jango. Do outro, o governador da Guanabara (Estado equivalente ao hoje município do Rio), Carlos Lacerda, trombeta da direita.

A gravação foi guardada pela polícia política carioca, o Dops (Departamento de Ordem Política e Social). Não se sabe se foi enviada pela Câmara dos Deputados, se foi feita em Brasília por algum agente ou se, mais provável, foi gravada diretamente da transmissão radiofônica. Hoje o velho arquivo secreto do Dops integra o acervo do Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro.

O pinga-fogo ensina muito sobre aqueles tempos de meio século atrás.

É constrangedora para os atuais parlamentares a comparação com o talento oratório de Almino e Adauto, azougues da palavra e homens ilustrados, embora Brizola e sobretudo Lacerda falassem ainda melhor. (Para ser justo, Almino demonstra ao microfone pensar mais rápido do que o então ex-governador do Rio Grande do Sul e futuro governador do Rio.)

O clima de radicalização já era indisfarçável, basta ouvir.

Próceres da UDN convocavam empresários e proprietários de terras a se armarem em defesa dos seus interesses, que os deputados entendiam ameaçados pelas reformas preconizadas por Jango. O belicoso deputado Padre Vidigal pregava ''armai-vos uns aos outros''. Incrivelmente, o governo assistiria à banda passar, até a consumação do golpe ao qual o presidente não resistiu.

À luz da história, Adauto encarnava o farisaísmo. Enquanto apregoava as virtudes da democracia, já se mancomunava com hierarcas do Exército para depor, sem votos, o presidente constitucional.

Se João Goulart tivesse tido a vontade política e a energia demonstradas pelo tribuno Almino, talvez tivesse encarado o golpe, ou pelo menos tentado.

Almino Affonso tinha 34 anos no dia do debate, Adauto, 59.

Adauto Lúcio Cardoso morreria em 1974. Partidário da ditadura por anos, acabou ministro do Supremo Tribunal Federal. Num gesto de democrata e liberal das antigas, pediu aposentadoria do STF em 1971, depois de votar sozinho contra um dispositivo de censura prévia a livros e periódicos instituído pelo governo, como registra o CPDOC da FGV (leia aqui).

Almino foi cassado pelos golpistas, amargou o exílio, e ao voltar reintegrou-se à vida nacional, contribuindo com numerosos governos. Tem hoje 84 anos.


Rock vigiado (ou o dia em que o araponga ficou doidão)
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Mário Magalhães

Capa do disco lançado na época do Hollywood Rock, 1975 – Foto reprodução blog Lágrima Psicodélica

 

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A ditadura deixou determinada herança capaz de provocar as mais sacudidas gargalhadas: a ignorância de alguns agentes, mais burros que os próprios burros. Eles confundiam cubismo com Cuba, o romance ''A Capital'' com os volumes de ''O Capital'', o romance ''O Vermelho e o Negro'' com comunismo e variações encarnadas. Sem falar na intimação policial ao dramaturgo Sófocles, que viveu séculos antes de Cristo, para depor.

Tudo isso existiu e faz mesmo rir. O problema são reconstituições históricas que tomam características marginais, como o anedotário de repressores analfas, como a alma da ditadura. A ditadura (1964-1985) não tinha graça.

O que não apaga episódios inacreditáveis de estupidez, como um relatório sobre o Hollywood Rock de 1975. Parece que o mentecapto estava doidão. A reportagem do Sergio Torres e minha saiu na ''Folha'' em junho de 2000. Divirta-se:

* * *

Rock vigiado

Por Sergio Torres e Mário Magalhães

Foi como se o agente secreto da polícia política tivesse tomado um ácido lisérgico antes do trabalho: o relatório sobre o Hollywood Rock de 1975, promovido como ''o primeiro grande concerto de rock brasileiro'', mistura delirantemente música, comportamento de jovens, drogas e ''comunismo internacional''. Mostra a tendência da ditadura (1964-85) então vigente de associar quase todas as manifestações artísticas à oposição ao governo.

Revela a incompreensão e a paranoia de quem pensava ser o músico Gilberto Gil o inspirador de todas as bandas de rock; a maconha, o detonador de ''contorções''; e os comunistas, os fornecedores de drogas.

O relatório número 002 foi emitido no dia 5 de fevereiro de 1975 pela Seção de Buscas Especiais do Dops (Departamento de Ordem Política e Social) do então Estado da Guanabara. Era a polícia política carioca.

O documento original, com o carimbo ''confidencial'', foi encontrado na semana passada no Arquivo Público do Estado do Rio.

É assinado pelo comissário de Polícia Civil Deuteronomio Rocha dos Santos. Logicamente, ele não consumiu nenhum ácido antes de ir trabalhar. Seu relato, contudo, contém tantas confusões que hoje parece peça cômica.

Em quatro noites de sábado consecutivas, o primeiro Hollywood Rock foi produzido por Nelson Motta no campo do Botafogo, na zona sul do Rio.

Em 11 de janeiro, apresentaram-se Rita Lee e seu grupo Tutti Frutti. No dia 18, Mutantes e Veludo. No dia 25, O Peso, Vímana e O Terço. Fechando o festival, no dia 1º de fevereiro, estiveram Erasmo Carlos, Cely Campello e Raul Seixas.

Na primeira parte do documento de sete páginas (há uma oitava com um panfleto do festival anexado), o policial faz um retrospecto _denominado por ele de ''antecedentes''_ que mistura rock com pop, categoria musical bem mais ampla.

''A partir do sucesso do conjunto Secos & Molhados, conseguido com sua apresentação no Maracanãzinho em 10 de fevereiro de 1974, deflagrou-se no país uma epidemia do rock'', diz o documento. O conjunto, que tinha Ney Matogrosso como cantor, era tipicamente pop, e não roqueiro.

Na lista de quem se apresentava ''nas principais capitais do Sul do país'', eram citadas bandas de certa projeção à época, como O Terço, Veludo, Vímana (que viria a ter Lulu Santos, Ritchie e Lobão na formação mais conhecida), Bicho da Seda, O Peso e Almôndegas (esta nem roqueira era).

O araponga relacionava, porém, nomes como Vaso Sanitário, grupo que Nelson Motta nem sabe se existiu.

A influência de Gil nas bandas foi assim definida pelo agente do Dops: ''Seus componentes são grupos de jovens brasileiros que, motivados pela efervescência do rock promovida diariamente pela imprensa escrita e falada e pelos toques precisos de Gilberto Gil, se propuseram a fazer o que denominam de 'som'''.

Depois do show dos Mutantes, ''a maioria dos jovens fez uso de cigarros, que, pelo modo com o qual os manipulavam, dava a nítida impressão de tratar-se de maconha''.

''(…) Inúmeros jovens de ambos os sexos apresentavam sinais de se encontrarem sob dependência psíquica; uns dançavam e contorciam-se no chão: olhos esgazeados, avermelhados, balbuciando frases desconexas.''

Esse relato fez parte do capítulo ''atração do ilegal''. O policial tinha obsessão por atitudes _na terceira noite, ''apesar dos inúmeros casais existentes, não se constatou qualquer ato contra os costumes. As moças, ao fazerem necessidades fisiológicas, dada a inexistência de sanitários nas proximidades do campo, as faziam sob as vistas dos rapazes, sem que eles as importunassem''.

Ao concluir o relatório, o comissário fez o que pareceu a avaliação política mais ''densa'' do Hollywood Rock: ''Os fatos acima relatados demonstram em que ponto se encontra nossa juventude, sendo corroída pelo vírus das drogas''.

''Isso vem corroborar a existência de uso de tóxicos como arma política, visando o aliciamento, envolvimento e dependência química da juventude, tornando-a escrava da droga para, mediante chantagem e comprometimento, formá-la como novos informantes e agentes fiéis do comunismo internacional.''

Inexistem evidências de que organizações de esquerda tenham, em qualquer momento do regime militar, considerado as drogas como aliadas.

Pelo contrário: para algumas delas, serviam para ''tirar o eixo'' da sua militância.

As características fundamentais do relatório do Dops são o preconceito e a desinformação. Nesse caso, não se fez mal a ninguém.

Durante os governos militares, porém, serviços de repressão semelhantes promoveram tortura, morte e desaparecimento de adversários políticos.

O documento encontrado pela Folha, além de registrar a visão de certos ''arapongas'' sobre o rock e a juventude, contribui para a história da música: foram anotados os repertórios de vários shows _o disco ao vivo selecionou só alguns números.

É possível saber que Rita Lee tocou ''Mamãe Natureza'' e ''Esse Tal de Rock'n'Roll'' na sua apresentação, com nove músicas.

Erasmo Esteves Carlos _assim chamado no tom formal da polícia_ atacou com ''Vem Quente Que Estou Fervendo'', entre outras, e Raul Seixas com ''Gîtâ'' e ''Al Capone'', as duas com letras compostas em parceria com Paulo Coelho.

Aparentemente, o araponga falhou ao não registrar algumas músicas. Mas, salvo engano, as citadas foram apresentadas.

O agente do Dops não se pronunciou sobre o desempenho das bandas. A imprensa registra que o Vímana foi vaiado, que um temporal interrompeu o show dos Mutantes e que a estrutura era ''precária''. Com a ''atração pelo ilegal'', informa o relatório confidencial, correu tudo bem.


Torturador bom é torturador preso: lugar do coronel Malhães é na cadeia
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Mário Magalhães

O coronel Paulo Malhães presta depoimento na Comissao da Verdade, no Arquivo Nacional, nesta terça-feira (25)

O matador Paulo Malhães depõe à Comissão da Verdade – Foto Daniel Marenco/Folhapress

 

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Se não está claro, enfatizo: o título acima constitui uma boutade. Inexiste torturador bom. Mesmo quando, na forma rigorosa e escrupulosa da lei, termina atrás das grades, que é seu justo lugar. Jamais o torturador tem boas causas. O torturador representa o mal.

À Comissão Estadual da Verdade do Rio de Janeiro, o coronel reformado Paulo Malhães havia dito que ele e seus parceiros do Centro de Informações do Exército cortavam dedos, arrancavam arcadas dentárias e extirpavam as vísceras de presos políticos mortos na tortura. O propósito era impedir o reconhecimento dos corpos, se fossem encontrados. E que os cadáveres, atirados em rios, não viessem a boiar (leia aqui).

O oficial e seus cúmplices não violaram os direitos humanos necessariamente em virtude de patologias psíquicas. Eles atuaram na condição de agentes públicos. Isto é o fundamental: a ação foi do Estado, contra cidadãos que estavam sob sua custódia.

Nesta terça-feira, Malhães voltou a depor, desta feita à Comissão Nacional da Verdade (aqui). Na essência, manteve o testemunho: torturou, matou e ocultou corpos. Cumpria o seu dever, supõe.

O matador reforça a convicção de que a tortura contra opositores era política de Estado e que os desaparecimentos forçados tinham a chancela da alta hierarquia das Forças Armadas, portanto dos governantes da ditadura (1964-1985). As ordens vinham de cima, ele esclarece.

O coronel Malhães não deveria estar solto, mas preso.

A Lei de Anistia de 1979 não tem nem uma vírgula anistiando torturadores e autores de execução, muito menos responsáveis por desaparecimentos forçados. Essa livre e desmiolada interpretação advoga a impunidade.

E se tivesse? Nenhuma tirania tem o direito de se auto-anistiar. O Congresso Nacional, naquele tempo, havia sido descaracterizado, por um sem-número de cassações, a introdução de senadores biônicos (sem voto popular), a proibição de partidos políticos e a ausência de amplas liberdades nas eleições.

O presidente da República, general Figueiredo, era um ditador. Isto é, concentrava poderes exacerbados sem ter recebido mandato popular (havia sido eleito indiretamente).

O crime de tortura é imprescritível.

O de desaparecimento forçado é considerado crime continuado pelo direito internacional: enquanto o corpo não aparece, o crime é permanente.

O mundo melhora quando veteranos da repressão do III Reich, das ditaduras latino-americanas, do Khmer Vermelho e outros tantos verdugos são democraticamente julgados, condenados e cumprem penas, mesmo quando nonagenários.

O coronel Paulo Malhães circulando livremente e fazendo apologia da tortura ofende a memória de suas vítimas e humilha o país que busca liquidar ou minimizar a impunidade.

Impunidade não combina com democracia.

Orgulhoso, ele conta o que fez. Assisti-lo com a mesma frieza com que ele narra suas covardias, sem exigir que passe pelos tribunais e seja punido, equivale a sinal verde para que, um dia, tudo volte a acontecer como na ditadura instaurada há 50 anos.

As consciências democráticas não clamam por vingança, olho por olho, dente por dente. O coronel Malhães no pau de arara consagraria suas ideias. Ele merece é julgamento civilizado e exemplar, como um réu igual aos outros, nos conformes da lei.

E aí? Vai ficar tudo por isso mesmo?


Maria Thereza Goulart faz inventário de perdas e medos causados pelo golpe
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Mário Magalhães

blog - maria thereza goulart

Maria Thereza, mais bela que Jacqueline Kennedy, ao lado de Jango no Comício da Central, em 1964

 

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''Perdi pessoas que eu amava sem poder dizer adeus. Perdi amigos, perdi meu lar e perdi minha pátria. Fiquei sem meus sonhos, vivendo uma realidade de incertezas e desafetos.''

Assim Maria Thereza Goulart, 73, escreve sobre perdas provocadas pelo golpe de Estado de 1964, que depôs seu marido da Presidência. Ela também relembra o medo, ''grande inimigo''.

O texto da viúva de Jango foi publicado no site do Instituto João Goulart, instituição da qual ela é presidente de honra.

Ei-lo, na íntegra.

* * *

Lembranças de 64

Por Maria Thereza Goulart

O que o Golpe mudou em minha vida?

É muito difícil ter as respostas certas para essa pergunta.

Até hoje, 50 anos depois eu me questiono para conseguir entender o porquê daqueles momentos tão assustadores que de repente mudaram o rumo de nossas vidas, de nossa pátria e de nosso povo.

As mudanças foram infinitas.

Perdi pessoas que eu amava sem poder dizer adeus.

Perdi amigos, perdi meu lar e perdi minha pátria.

Fiquei sem meus sonhos, vivendo uma realidade de incertezas e desafetos.

Tive medo sim e pensei que aqueles momentos eram de uma perseguição coletiva que acabaria envolvendo nosso futuro.

Esse medo tornou-se um grande inimigo capaz de me confundir entre o ódio e o perdão.

Eram muitas perguntas sem respostas, que me faziam pensar algumas vezes que nós éramos os responsáveis por todos aqueles acontecimentos.

O tempo foi passando e os desafios foram diários.

Esquecer não foi fácil e eu aprendi muito com o sofrimento.

Aconteceram novas mudanças, meus filhos cresceram, voltamos para a nossa pátria, para uma nova vida e novos amigos em um tempo de esperança.

Nossas vidas, no entanto ficaram com um grande espaço vazio sem a presença de nosso melhor amigo, pai e companheiro.

Hoje sinto meu coração comprometido com o passado e em vários momentos de melancolia, olho para o céu azul, e me encontro de volta para o Uruguai mudando os rumos de meus pensamentos neste tempo de espera para outros caminhos.

Sei que minha vida mudou, continuo meu destino, até quando não sei.


‘O guerrilheiro gentleman’, ensaio de Carlos Fraenkel sobre o avô ‘Toledo’
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Mário Magalhães

O jornalista Joaquim Câmara Ferreira, ao ser preso em janeiro de 1948

O jornalista Joaquim Câmara Ferreira, ao ser preso em janeiro de 1948

 

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Carlos Fraenkel é docente dos departamentos de Filosofia e Estudos Judaicos da McGill University, em Montreal, no Canadá. E professor de Filosofia e Religião Comparada na Faculdade de Filosofia e na Faculdade de Teologia da Oxford University, no Reino Unido.

Seu nome reverencia o revolucionário brasileiro Carlos Marighella (1911-1969).

Foi um pedido do seu avô, Joaquim Câmara Ferreira, que Carlos Fraenkel não teve tempo de conhecer: Câmara foi assassinado na tortura, em outubro de 1970, pela equipe do delegado Sérgio Fernando Paranhos Fleury. A mesma turma que 11 meses antes fuzilara Marighella.

A revista ''Brasileiros'' traz em sua alentada edição de março um ensaio de dez páginas que Fraenkel escreveu sobre o avô. O trabalho foi publicado originalmente semanas atrás, na ''Nation'', a mais antiga revista norte-americana, fundada em 1865.

Um dos mais relevantes personagens da esquerda brasileira em todos os tempos, o jornalista Câmara Ferreira (1913-1970) foi preso e torturado na ditadura do Estado Novo (1937-1945); militou por mais de três décadas no Partido Comunista; em janeiro de 1948, foi em cana ao resistir de arma na mão à invasão policial ao jornal que ele comandava; fundou com Marighella a Ação Libertadora Nacional (ALN), maior organização da luta armada contra a ditadura instaurada em 1964; constituiu uma espécie de comissário político do sequestro do embaixador norte-americano Charles Burke Elbrick, em setembro de 1969; até ser trucidado pelos tiras do Dops paulista.

Câmara Ferreira era também conhecido pelos nomes de guerra ''Toledo'' e ''Velho''. Discreto, não tem o reconhecimento que a história do Brasil lhe deve, goste-se ou não dele e de suas ideias. O inspirado ensaio do neto ajuda a conhecê-lo melhor.

* * *

O guerrilheiro gentleman

Por Carlos Fraenkel 

Gentleman não é propriamente o primeiro atributo que nos vem à mente quando pensamos em revolucionários latino-americanos, de Simón Bolívar a Fidel Castro. No entanto, é assim que parentes, amigos e companheiros políticos descrevem o meu avô, Joaquim Câmara Ferreira. Junto com Carlos Marighella e Carlos Lamarca, ele foi um dos protagonistas mais destacados da luta armada contra a ditadura militar instalada no Brasil de 1964 a 1985. Ele é conhecido, em particular, como o estrategista político do golpe mais espetacular do movimento de guerrilha brasileiro: o sequestro, em setembro de 1969, do embaixador americano Burke Elbrick, que, tendo ficado detido três dias, foi colocado em liberdade em troca de 15 presos políticos. Essa ação fez com que meu avô se tornasse um dos principais inimigos do Estado. Meu tio lembra-se de uma noite, quando jogava bilhar em um bar: “De repente, um amigo me perguntou ‘Esse não é seu pai?’. Quando olhei para cima, vi sua foto em um cartaz de ‘Terroristas Procurados’ ao lado do balcão”. Menos de um ano depois, o regime o prendeu, torturou e matou.

Um guerrilheiro gentleman? Muitos dos que o conheceram até hoje tentam entender essa aparente contradição. Lembram-se dele como pessoa afável, tolerante e despretensiosa. Durante décadas, foi um dos líderes do Partido Comunista Brasileiro, responsável, em particular, pelas ações do partido na imprensa (sobretudo em jornais). E por que ele, tendo já ultrapassado com folga os 50 anos, decidira trocar a máquina de escrever pela metralhadora? A transição não fora fácil. “Começar um treinamento militar na minha idade!”, disse ele não sem auto-ironia a um amigo em Cuba, onde brasileiros da organização de resistência que ele ajudara a fundar preparavam o combate guerrilheiro. Não obstante, ele participou das aulas de tiro todos os dias.

Minha mãe estava grávida de mim quando meu avô morreu. A última carta escrita por ele foi endereçada a meus pais, que haviam se estabelecido na Alemanha Ocidental como refugiados políticos. “Será que realmente tenho idade para ser avô?”, ele brincou, e perguntou se eles iriam honrar “nosso grande País” mediante a escolha de meu nome: Rosa, de Rosa Luxemburgo, se fosse uma menina, e Carlos, de Carlos Marighella, se fosse um menino.

A vida do meu avô esteve ligada à de Marighella por décadas de militância no Partido Comunista Brasileiro. Mas a decisão mais radical que tomaram juntos foi a de deixar o partido em 1967 para fundar a Ação Libertadora Nacional (ALN), que se tornou a maior e mais importante organização de luta armada no Brasil. Em 1969, Marighella escreveu o Minimanual do Guerrilheiro Urbano, em que falava da experiência de adaptar às grandes cidades brasileiras a tática de guerrilha desenvolvida por Che Guevara e outros para o meio camponês de Cuba. O Minimanual passou a ser leitura obrigatória para os movimentos militantes no mundo inteiro, desde as Brigate Rosse, na Itália, até a Symbionese Liberation Army, nos Estados Unidos, sem mencionar os grupos revolucionários na América Latina. No exílio, também meus pais se depararam com o Minimanual quando a Rote Armee Fraktion (RAF) o utilizou para instalar o terror na Alemanha Ocidental durante o governo social-democrático. A República Federal da Alemanha, pretendia a RAF, nada mais era do que um fascismo camuflado. Meus pais, que defendiam uma linha política de centro-esquerda, não compraram a ideia. Em uma foto minha, com 2 anos de idade, eu vestia um anoraque com um autocolante que dizia “Willy wählen” (“Vote em Willy”), uma referência a Willy Brandt, o líder do Partido Social-Democrata da Alemanha naquela altura.

Ainda que eu jamais tivesse encontrado meu avô pessoalmente, consegui conhecê-lo bastante bem por meio de uma biografia política escrita pelo historiador brasileiro Luiz Henrique de Castro Silva, lançada em 2010, por ocasião de uma cerimônia em homenagem ao meu avô no Memorial da Resistência em São Paulo. O memorial está localizado em um lugar emblemático, o antigo Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), um dos instrumentos da ditadura para aniquilar a oposição política. No auditório lotado, a Comissão de Anistia do Ministério da Justiça pediu solenemente desculpas pelos crimes cometidos pelo Estado brasileiro contra o meu avô. Ele foi declarado “herói do povo brasileiro” e cidadão honorário de São Paulo.

Esse reconhecimento póstumo é parte de uma ampla reavaliação do período da ditadura militar, processo que teve início em 1995 com a Lei dos Desaparecidos e a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos e adquiriu vigor quando o Partido dos Trabalhadores (PT), liderado por Luiz Inácio Lula da Silva, venceu as eleições em 2002. Os esforços culminaram na Comissão Nacional da Verdade, criada pela sucessora de Lula, Dilma Rousseff, que havia participado da resistência armada como estudante e fora detida em 1970, sendo torturada e ficando presa durante três anos. Uma boa amiga de minha mãe dividiu uma cela com ela. O mandato da Comissão consiste em trazer à luz as violações de direitos humanos cometidas pelo Estado brasileiro entre 1946 e 1988, com enfoque especial sobre o período da ditadura militar. Esse projeto é tão controverso quanto importante: o que está em jogo é nada menos do que a memória histórica do Brasil. Qual o cenário em que ela se insere? Quem tem o direito de fazer parte dela e qual o papel que lhe é atribuído? Era o meu avô um terrorista e bandido ou um lutador pela liberdade e pela justiça? Foram os seus torturadores carrascos de um regime tirânico ou defensores de uma ordem política justa?

Para ler a íntegra basta clicar aqui.


Do arquivo secreto do Dops: rádio transmite rebelião dos marinheiros em 64
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Mário Magalhães

 

"Última Hora", 27.março.1964

''Última Hora'', 27.março.1964

 

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Quando a noite cair, logo mais, a rebelião dos marinheiros deflagrada na virada de 25 para 26 de março de 1964 completará 50 anos. Os marujos se insurgiram contra humilhações atávicas e perseguições recentes. Oficiais das Forças Armadas consideraram o movimento uma afronta à hierarquia, sobretudo a anistia concedida pelo presidente João Goulart aos revoltosos.

Uma das raras emissoras pró-Jango e mais próxima ainda do então deputado Leonel Brizola, a Rádio Mayrink Veiga atendeu aos apelos  do governo e não irradiou de imediato a revolta, transcorrida em dependências do sindicato dos metalúrgicos, no Rio.

Mas no fim da tarde do dia 26 entrou com tudo. Cobriu, transmitindo com algum atraso, o momento em que novas tropas da Marinha cercaram o prédio _de manhã, fuzileiros convocados para reprimir haviam deposto as armas, confraternizado com os companheiros e aderido a eles. Em resposta ao cerco da tarde, os marinheiros entoaram o Hino Nacional.

Tudo isso pode ser ouvido agora porque as transmissões da Mayrink Veiga eram gravadas pela polícia política da Guanabara (a repartição celebrizou-se pela sigla que adotou por certo tempo, Dops, Departamento de Ordem Política e Social).

O Dops guardou os registros no arquivo organizado, desde os anos 1930, pelo policial Cecil Borer, que em março de 1964 chefiava o departamento. O acervo hoje está sob guarda do Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro.

Essa preciosidade histórica sobreviveu ao tempo. Foi-me apresentada no alvorecer do século XXI pela historiadora Jessie Jane Vieira de Souza, que dirigia o arquivo com extremos zelo e competência.

Se houver, são pouquíssimos os documentos históricos, como o áudio que pode ser ouvido clicando lá em cima, que exibem tão claramente a radicalização política às vésperas do golpe de Estado que viria em menos de uma semana.

O ato da Associação dos Marinheiros e Fuzileiros Navais do Brasil seria uma cerimônia pelo segundo aniversário da entidade. Havia ordens de prisão contra seus líderes, por participarem de manifestações a favor das reformas estruturais que João Goulart começava a implantar.

O presidente da associação era o marinheiro José Anselmo dos Santos, chamado pela imprensa de cabo Anselmo. De acordo com Cecil Borer, naquela época o marujo já era agente infiltrado do Dops, do Centro de Informações da Marinha e da Central Intelligence Agency dos EUA. Como espião da ditadura, anos mais tarde levaria à morte muitos guerrilheiros, inclusive sua própria mulher, grávida.

Por muito tempo, numerosos historiadores, memorialistas e palpiteiros sugeriram que o discurso pronunciado por Anselmo à noite havia sido escrito pela CIA. Hoje não há mais dúvidas de que o redator foi outro, o veterano dirigente comunista Carlos Marighella (1911-69). Reconstituí a revolta dos marinheiros em detalhes no capítulo ''O ghost-writer'' da biografia ''Marighella – O guerrilheiro que incendiou o mundo'' (Companhia das Letras).

É verdade que Jango anistiou marinheiros que protestavam. Muito mais grave, ele não havia punido os comandantes das três Forças que tentaram um golpe na crise aberta em agosto de 1961, quando o presidente Jânio Quadros renunciou.

Certa historiografia, inclusive de esquerda, ''culparia'' os marinheiros pelo golpe, um despropósito. Entre as aberrações impostas pela Armada, os marujos eram proibidos de se casar antes de completar dez anos na Marinha. A restrição inexistia para oficiais.

No começo do século XX, os castigos físicos ainda eram legais na Força. Os que apanhavam eram praças e, quase todos, negros. Em 1910, a Revolta da Chibata confrontou o expediente saudosista da escravidão. Liderou-a João Cândido Felisberto. O velho marinheiro negro foi o convidado de honra da festa dos marinheiros de 1964 que em poucas horas se transformou na rebelião que marcaria o Brasil.


Delfim Netto, o sabichão, agora diz que não sabia dos crimes da ditadura
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Mário Magalhães

O ex-ministro Delfim Netto – Foto Karime Xavier – 2.jul.13/Folhapress

 

Poucos protagonistas da ditadura receberam e recebem tratamento tão reverencial do jornalismo brasileiro quanto o economista Delfim Netto. No regime de 21 anos, parido com a deposição do presidente constitucional João Goulart em 1964, Delfim encabeçou três Ministérios _Fazenda, Agricultura e Planejamento_, nos governos dos generais Costa e Silva, Médici e Figueiredo. Na década de 1970, ocupou o cargo de embaixador na França.

Em dezembro de 1968, foi um dos fervorosos signatários do Ato Institucional 5, que restringiu ainda mais as liberdades. Contribuiu decisivamente para uma das mais longevas heranças  da ditadura: o agravamento da obscena desigualdade no país.

Nem por isso o ex-ministro deixou de ser uma espécie de oráculo na economia nacional. Quando parece não se saber muito bem para onde o barco vai, Delfim é consultado, como uma espécie de bússola. Sobre os males que ele ajudou a causar ao Brasil e aos brasileiros, só é indagado em efemérides relativas ao golpe de Estado e os governos dele gerados. Ainda bem que existem as efemérides.

O brilhante Delfim Netto _aqui inexiste ironia_ costuma mostrar desembaraço para se pronunciar sobre isso e aquilo, está sempre por dentro. Gato mestre. Menos quando se trata de violações de direitos humanos na ditadura à qual serviu. Até as formiguinhas que caminhavam nas calçadas de delegacias e quartéis sabiam da tortura, menos o superministro.

Sua alegada ignorância foi reiterada ontem numa entrevista conduzida com maestria pelo repórter Aguinaldo Novo (leia aqui).

Delfim reafirmou que nada sabia: ''Uma vez perguntei ao presidente Médici  se havia tortura. Ele me disse que não. Nós ouvimos, como todos, coisas aqui e ali. Acreditei nele''.

E dá para acreditar em Delfim?

Por que se fiou no ditador? ''Confiei porque era um sujeito correto, decente.''

E ao inspetor Luis Apollonio, mais célebre quadro da polícia política paulista, com atuação dos anos 1930 até pelo menos 1969, o que indagou? Delfim era seu sobrinho.

Sem constrangimento, o antigo ministro justificou a concentração de poderes proporcionada pelo AI-5: ''Fizemos uma reforma tributária que durou 25 anos. Em 1973, o Brasil era citado pelo Banco Mundial como exemplo nessa área''.

E a história cita tal política de tributos como combustível para a expansão da concentração de renda.

Sobre fraude em números oficiais da inflação, como a que aparentemente ocorre hoje na Argentina, Delfim enrolou.

Referendou e legitimou (tentou legitimar) o golpe.

Sentenciou que ''não tem nada do que se arrepender''.

E ainda tripudiou de velhos adversários, que passaram a lhe conferir ares de sábio, como conselheiro governamental nos anos do presidente Lula. ''Quem mudou mais, o senhor ou os inimigos?'', questionou o repórter.

Delfim deitou e rolou: ''Eles se aproximaram de mim''.

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Livro: ‘Imprensa norte-americana serviu às elites na crise de 2008’
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Mário Magalhães

Imprensa dos EUA cobre a crise – Foto reprodução Deutsche Welle

 

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O livro em questão é ''The Watchdog That Didn't Bark – The Financial Crisis and the Disappearence of Investigative Journalism'' ou ''o cão de guarda que não latiu, a crise financeira e o desaparecimento do jornalismo investigativo''.

Quem se habilitará a publicá-lo no Brasil?

Eis a resenha de autoria da repórter Eleonora de Lucena, veiculada sábado na ''Folha'':

* * *

Imprensa norte-americana serviu às elites na crise de 2008

Por Eleonora de Lucena

Por parcialidade, arrogância, falta de visão e de investimentos, a mídia nos EUA falhou: não alertou o público sobre a construção da crise que explodiu em 2008 e que ainda reverbera no mundo. O noticiário se contentou em ouvir versões róseas de executivos financeiros, não investigou a realidade e deixou seus leitores sem informação relevante.

Pior: reforçou uma avaliação errada da situação e serviu aos interesses do mercado financeiro. A análise desse retumbante fracasso é do jornalista Dean Starkman, que dissecou arquivos, fez entrevistas e pesquisou a história de publicações.

O resultado está em ''The Watchdog That Didn't Bark – The Financial Crisis and the Disappearence of Investigative Journalism'' [o cão de guarda que não latiu, a crise financeira e o desaparecimento do jornalismo investigativo], livro obrigatório para jornalistas –e não só.

Starkman afirma que o problema ocorre quando o mercado de mídia passa por transformações que colocam em xeque modelos de negócios. Redações menores, focadas no curtíssimo prazo e com menos fôlego para encarar investigações demoradas e custosas levaram os principais órgãos do jornalismo americano a perder a maior história da década, diz ele.

Enquanto tradicionais empresas jornalísticas enfrentam crise e não conseguem ver o contexto maior da notícia, o setor financeiro cresce de forma desregulada. Se até meados da década de 1980 as finanças não obtinham mais do que 16% dos ganhos corporativos da economia, nos anos 2000 já abocanhavam mais de 40% desses lucros.

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