Blog do Mario Magalhaes

Juiz ladrão
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Mário Magalhães

A crônica, a sociologia e a história do futebol guardam lugar de honra para uma instituição nacional: o juiz ladrão.

Contam que num jogo renhido a bola saiu pela lateral, e o apitador se traiu: ''É nossa!''

O juiz ladrão é aquele que emprega dois pesos e duas medidas. Estabelece critérios distintos, de acordo com a camisa do clube.

Dá pênalti para uma equipe e, em lance igual na outra área, diz que não foi nada.

Se a bola toca na mão do zagueiro visitante, é pênalti. Para o beque da casa, a interpretação é de toque involuntário _não houve dolo, julga o juiz ladrão.

É complicado flagrar o juiz ladrão. Os episódios de culpa incontestável foram pouquíssimos. Eu me lembro de dois, nos anos 1990.

Brasil, o país do futebol.

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A semelhança de Gilmar Mendes com Garrincha
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Mário Magalhães

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O ministro Gilmar Mendes, do STF e do TSE – Foto Ed Ferreira/Folhapress

 

Do jornalista Claudio Renato Passavante, observador do futebol e do poder:

''Gilmar Mendes é o Garrincha do Supremo: só dribla pra direita''.

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João Doria é o Benjamin Button que não rejuvenesce
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Mário Magalhães

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João Doria, de vermelho, em 2011 – Foto Julian Marques/Folhapress

 

Embalado como o novo na política, João Doria tem sido personagem de notícias curiosas.

O prefeito de São Paulo teve a habilitação suspensa. Entre a coleção de infrações estão dirigir acima da velocidade permitida e avançar sinal vermelho. Logo ele, um pregador contra limites de velocidade que julga excessivamente baixos (a transparência exigia que informasse ter sido pessoalmente punido com base nas regras em vigor). Descoberta a suspensão da carteira, Doria alegou que não conduzia os automóveis. Mas assumira as multas, sem transferi-las a quem de direito.

Em março se soube que ele tinha uma dívida de IPTU próxima a 100 mil reais. Doria a contestava na Justiça. O nome do prefeito constava da lista de devedores do município que ele governa. Os R$ 90.929,61 foram pagos em 29 de março.

Doria é mais um político praticante da lei ''faça o que eu digo, mas não o que eu faço''. Eles estão em todos os partidos grandes.

Seu estilo não inova. Já nasce envelhecido, como o protagonista de ''O curioso caso de Benjamin Button'', filme de David Fincher inspirado num conto de F. Scott Fitzgerald.

Ao contrário do personagem interpretado por Brad Pitt, Doria não vai remoçando. Nasceu na política com batida de ancião, no que isso tem de ruim, e não de bom. Lembra gente como Jânio Quadros e Fernando Collor de Mello.

Jânio e Collor chegaram à Presidência. Doria pode até alcançá-la, mas de novo não tem nada. É mais do mesmo.

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Temer, o ‘decorativo’: Carta mais ridícula da República faz um ano e meio
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Mário Magalhães

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Dilma Rousseff e Michel Temer, o vice missivista – Foto Daniel Marenco/Folhapress

 

Na semana em que a Justiça Eleitoral retoma o julgamento da validade da eleição de Dilma Rousseff e Michel Temer, completa um ano e meio a carta de queixumes do então vice à então presidente.

A correspondência de 7 de dezembro de 2015 consagrou-se como a mais ridícula da história da República, até onde a memória alcança. Nem os bilhetinhos seriais que o presidente Jânio Quadros remetia aos subordinados eram tão grotescos.

O amuado Temer enumerou lamúrias. Mais do que um anão político melindrado, expôs seu tamanho existencial.

O pobre coitado caricatural que o missivista busca encarnar logra um feito: é razoável considerar Dilma besta ou bestial, isso ou aquilo, mas fica difícil ao olhar retrospectivo não compreender receios que ela demonstrava e provocaram o chororô do vice chorão.

''Passei os quatro primeiros anos de governo como vice decorativo'', Temer magoou-se.

E proclamou, com a sinceridade de correligionário de Eduardo Cunha: ''Desde logo lhe digo que não é preciso alardear publicamente a necessidade da minha lealdade. Tenho-a revelado ao longo destes cinco anos''.

Temer, o leal, suscetibilizou-se: ''Sempre tive ciência da absoluta desconfiança da senhora e do seu entorno em relação a mim e ao PMDB''.

Com o que se sabe em junho de 2017, a desconfiança era pouca.

Mostrou-se fiel, não propriamente à presidente constitucional, mas aos sócios políticos: ''A senhora, no segundo mandato, à última hora, não renovou o Ministério da Aviação Civil onde o Moreira Franco fez belíssimo trabalho elogiado durante a Copa do Mundo. Sabia que ele era uma indicação minha. Quis, portanto, desvalorizar-me. Cheguei a registrar este fato no dia seguinte, ao telefone''.

Não foi somente o descaso com Moreira que abalou o coração do remetente: ''No episódio Eliseu Padilha, mais recente, ele deixou o ministério em razão de muitas 'desfeitas', culminando com o que o governo fez a ele, ministro, retirando, sem nenhum aviso prévio, nome com perfil técnico que ele, ministro da área, indicara para a Anac''.

Dilma, a insensível, machucara os sentimentos do companheiro de chapa: ''Recordo, ainda, que a senhora, na posse, manteve reunião de duas horas com o vice-presidente Joe Biden _com quem construí boa amizade_ sem convidar-me, o que gerou em seus assessores a pergunta: o que é que houve que, numa reunião com o vice-presidente dos Estados Unidos, o do Brasil não se faz presente?''

A presidente não pensou no Brasil: ''Até o programa 'Uma Ponte para o Futuro', aplaudido pela sociedade, cujas propostas poderiam ser utilizadas para recuperar a economia e resgatar a confiança, foi tido como manobra desleal''.

O amigo do vice de Obama confundiu o conjunto da sociedade com, suas referências, o jornalismo propagandístico (contradição em termos) e o patronato mais endinheirado. O programa peemedebista contribuiu _contribui, pois está em vigor_ para piorar ainda mais a vida da maioria dos brasileiros.

O desabafo derradeiro: ''Finalmente, sei que a senhora não tem confiança em mim e no PMDB, hoje, e não terá amanhã''.

O tempo mostrou que era para confiar?

Michel Temer, o autor da cartinha ressentida, é hoje o presidente do Brasil.

(P.S.: para ler a íntegra da carta de Temer a Dilma, basta clicar aqui.)

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Democracia de tapetão
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Mário Magalhães

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Ministro Herman Benjamin, do Tribunal Superior Eleitoral – Foto Ueslei Marcelino/Reuters

 

As bandas (ou bandos) puxam daqui pra lá, de lá pra cá, fazem mais barulho do que, no engarrafamento, buzina de carro de motorista insensato.

Pretendem influenciar o processo sobre a chapa Dilma-Temer cujo julgamento o Tribunal Superior Eleitoral planeja retomar amanhã.

Os destinos do Brasil passaram a ser definidos não pela soberania do voto popular, mas nos tapetões do Judiciário e do Legislativo.

Dilma Rousseff foi deposta pelo Congresso, com o beneplácito do STF, não por causa das provas agora à disposição da Justiça Eleitoral _são outros quinhentos. E sim sob o pretexto das ditas pedaladas fiscais e outros procedimentos contábeis.

Michel Temer, vice na mesma coligação, ganhou o posto para o qual não havia sido escolhido pelo voto direto. Pode cair se o TSE se pronunciar pela cassação da chapa.

Temer não tem legitimidade para ocupar o Planalto. Nunca teve.

Não chegou lá por vontade dos eleitores. Corre o risco _chance para o país_ de voltar para casa também sem consulta aos brasileiros.

O equilíbrio entre poderes vitamina a democracia. Mas ela fraqueja quando arrancam dos cidadãos a decisão sobre os governantes.

A pressão de grupos se dirige para os tribunais e o Congresso.

Gostam de lobby e demonizam o voto popular.

Vive-se uma democracia de tapetão. Isso é democracia?

Na democracia, presidente se elege no voto.

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Palavras malditas (27): venho por meio desta
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Mário Magalhães

Máquina de escrever de meados dos anos 1960 – Reprodução “The New York Times''

 

Juro que eu supunha extinto tal desvario. Mas recebi uma correspondência abrindo com ''Venho por meio desta''.

Só pode ser por meio desta. Se fosse por meio de outra, outra então seria a mensagem.

''Venho por meio desta'' é como certas pessoas desagradáveis: quando a gente pensa que se livrou delas, as pestes dão um jeito de reaparecer.

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A crise à mesa no Rio
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Mário Magalhães

A crônica de fechamento de restaurantes e cafés cariocas se alarga. De casa estrelada, como a da Roberta Sudbrack, ao Entretapas, Terzetto Café, Al-Farabi (que era também livraria). Até a churrascaria Estrela do Sul, tradicionalíssima em Botafogo, teve de desistir. A receita não banca mais os custos. O Rio é o epicentro da crise nacional, que não ignora as mesas da cidade.

Espalham-se tentativas de resistir, nas quais o consumidor perde. Num restaurante a quilo na rua Evaristo da Veiga, o pato habitual duas vezes por semana tornou-se bissexto. Os molhos de suas receitas agora acompanham outras carnes, mais baratas. Na rua Santa Luzia, na seção do sushi a quilo, não servem mais a fatia de peixe cru sobre o bolinho de arroz. Agora, só os rolinhos com peixe mais sumido que o Rubem Fonseca de convescote literário. O preço não caiu. Um supermercado já havia se antecipado ao agravamento da crise, diminuindo o tamanho das (ótimas) pizzas que serve.

É ruim, mas nada comparado ao perrengue de quem comia nos restaurantes populares mantidos pelo Estado. A maioria continua fechada. Se um dia vierem a reabrir, será complicado: suas instalações foram alvo de furtos e saques.

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Vai, Vinicius Junior, ser feliz na vida
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Mário Magalhães

Em contraste com o time tristonho, Vinicius Junior alegrou o domingo – Foto Staff Images/Flamengo

 

Deu tristeza ver o Flamengo no empate em zero com o Botafogo.

Com elenco muito mais caro e mais descansado, o time não conseguiu anotar um golzinho sequer.

E ainda devemos um agradecimento caloroso ao Roger, que perdeu um gol facílimo de fazer. O Roger é o maior especialista em impedimento que eu tenho visto por aí. Em ficar impedido, é evidente.

Quando a armação de jogada coube ao Réver, no primeiro tempo, sintetizou-se a anemia criativa. Como seria previsível, o ataque deu em nada.

A escalação do Willian Aarão pela direita ofensiva é pusilânime. Ele é colocado ali mais para defender do que para atacar. O eficiente segundo volante-meia acaba desperdiçado num papel que não sabe executar. Errou demais, mas o erro maior é do Zé Ricardo, que o situou onde não deveria.

Não é que a equipe não lute. O problema é jogar um futebol macambúzio, tristonho. De longe, parece que a cabeça permanece refém do revés na Libertadores.

A primeira etapa valeu apenas por ver a elegância do Juan e a disposição do Ederson, cabra que se recusa a se esconder, busca o jogo, tem fome de bola e técnica acima da média.

Na partida modorrenta na maior parte do tempo, combinando com o sol do meio-dia, o pouco de alegria ficou para depois do intervalo.

Foi bacana ver o regresso do Diego, trazendo a esperança de que o rubro-negro volte a pegar, no tranco.

E um prazer assistir ao Vinicius Junior. O garoto de 16 anos entrou intrépido, infernizou a defesa alvinegra, driblou, acertou bola no travessão.

Não sei se o jogador com nome de poeta já faz poesia no gramado, mas que encanta, ah, como encanta. Outro poeta, Carlos, diria: vai Vinicius, ser gauche na vida.

Tomara que no Flamengo, no Real Madrid, na seleção, onde estiver, seja muito feliz. Por ele e pelo futebol.

E o Botafogo?

Com folha salarial bem menor do que a do Flamengo, o Jair Ventura classificou o time para a fase de mata-mata da Libertadores. E, desfalcado antes e durante o jogo, não perdeu ontem.

No confronto dominical com o Zé Ricardo, foi superior. Tem sido melhor.

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Palavras malditas (26): confessou
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Mário Magalhães

Máquina de escrever de meados dos anos 1960 – Reprodução “The New York Times''

 

Volta e meia leio e ouço que fulana ou fulano, uma dita celebridade, ''confessou'' que ama o namorado ou a namorada.

Imagino que o ser amado não valha nada. Se valesse, não haveria confissão. É previsível amar a pessoa que se namora. A confissão seria: namoro sicrana, mas a odeio.

Um jogador de futebol, escreveram, ''confessou'' ter se preparado com afinco para o jogo decisivo.

Tal comportamento é o esperado. Confissão seria revelar que passou a semana na gandaia, indo direto da farra para os treinos matinais. Que, em vez de caprichar na alimentação, comeu rabada com agrião todos os dias e entornou uma garrafa de caninha por refeição. Que não cuidou do tornozelo inchado, maltratando-o em acrobacias na suruba.

Nenhum policial confessa que se empenha na solução de um crime.

Quem confessa é o Temer, que confessou terem ocorrido alguns dos diálogos mais cabeludos gravados pelo Joesley. E o Mantega, que confessou ter conta secreta na Suíça.

Depois de gritos, urros e sussurros, ninguém diz para o parceiro: confesso que você me dá prazer.

Eis uma confissão possível: todos esses gemidos não passam de fingimento.

A confissão pressupõe algo errado, inapropriado.

Uma vez me disseram: confesso que adoro brigadeiro.

Do jeito que eu gosto de chocolate, confissão para mim seria proclamar aversão ao doce.

E o ator que ''confessou'' amar o cinema?

Onipresente nas telas, a confissão só teria sentido se ele achasse degradante trabalhar em filmes.

Nenhuma ''confissão'' é mais disparatada do que uma publicada num Dia das Mães: ''Amo a minha mãe'', ''confessa'' beltrana.

A mãe dela deve ser uma megera.

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