Blog do Mario Magalhaes

Corrupção: a piada que virou verdade
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Mário Magalhães

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O Hospital Central da PM do Rio de Janeiro, alvejado pela corrupção – Foto Zulmair Rocha/UOL

 

A piada é antiga.

Num jantar de quatro prefeitos, os ditos-cujos contaram vantagem sobre roubalheira.

Um puxou a fotografia de uma estrada e confidenciou o tamanho da propina que embolsara: ''Dez por cento''.

Outro mostrou no celular o release da inauguração da nova praça de sua cidade: ''Vinte por cento''.

Um terceiro sorriu com ar de menosprezo ao colega. Folheou a revista da prefeitura, onde se destacava em página dupla uma escola: ''Cinquenta por cento''.

Com o prazer de quem dá o xeque-mate, o último abriu no tablet o arquivo com imagens de um hospital suntuoso: ''Era  maquete. Nunca o construí. Cem por cento!''

A anedota tragicômica talvez tenha inspirado uma turma aqui no Rio.

Em dezembro de 2015, oficiais da Polícia Militar foram presos sob acusação de desviar dinheiro público do Fundo de Saúde da corporação.

Uma das armações teria sido o pagamento de R$ 4,2 milhões na compra de ácido peracético para o Hospital Central da PM. O tal ácido é usado para limpar material e equipamento hospitalares.

O busílis é que aparentemente o ácido nunca havia sido entregue.

Com o acordo de delação premiada de dois empresários fornecedores do hospital, agora se sabe o que de fato aconteceu. Suspeita confirmada: não entregaram nada.

Em entrevista ao repórter Eduardo Tchao, um dos sócios da empresa de produtos médico-hospitalares Medical West disse que o hospital encomendou 15 mil galões de ácido.

Seu depoimento: ''A gente já sabia que não iria entregar. Eu fiquei com R$ 1,7 milhão, se não me engano. Aí eu paguei imposto, quase R$ 400 mil de impostos. Cinquenta e cinco por cento teriam que ficar com eles e quarenta e cinco por cento com a gente, da empresa. A gente repassou a ele R$ 2,1 milhões, para o major Delvo''.

Entregavam o butim em bar e shopping.

O major Delvo Nicodemos é um dos oficiais presos.

Trocando em miúdos: dos R$ 4,2 milhões destinados à compra do ácido, corruptos e corruptores ficaram com cem por cento, como o prefeito mais ladrão da piada.

Só não o igualaram totalmente porque, na lavagem do dinheiro, recolheram impostos.

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Palavras malditas (22): descontinuar
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Mário Magalhães

Máquina de escrever de meados dos anos 1960 – Reprodução “The New York Times''

 

Outra noite informaram na TV que um programa científico público foi descontinuado.

Pelo rádio, eu soube que ameaçam descontinuar o fornecimento de leite para crianças pobres.

Toda semana noticiam a descontinuação de um periódico impresso.

Está errado? Não.

Mas o propósito do verbo descontinuar não é esclarecer e enfatizar, e sim eufemizar o fato.

Ele é mais suave para contar que preferiram gastar 6 bilhões de reais com veículos militares blindados a investir em ciência.

Falando descontinuar, parece menos imoral o sacrifício da alimentação de estudantes cujas famílias não têm como supri-la em níveis saudáveis.

Quando se escreve descontinuar, em vez de acabar, terminar, extinguir ou fechar, busca-se adoçar a pílula amarga.

Andam empregando tanto esse eufemismo que logo perguntarão a alguém como vai o casamento e ouvirão como resposta:

''Resolvemos descontinuar''.

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Rio adiado
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Mário Magalhães

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Em 2015, com o serviço de limpeza interrompido, a Uerj já sofria com o lixo

 

Na UTI, abandonada pelo Estado do Rio, a Uerj adiou a volta às aulas. Já tinha adiado o vestibular.

Todo mês o governo adia o pagamento do salário dos servidores estaduais.

Carente de recursos, o Teatro Municipal adiou a ópera. A despeito do nome, o teatro se vincula ao Estado.

O Maracanã é uma goleada de adiamentos.

O Rio, como todo o Brasil, sofre com o adiamento do crescimento da economia, das oportunidades de trabalho e do progresso alardeado há meses. A ponte para o futuro desemboca no passado.

Como diria um otimista, é melhor adiar do que cancelar.

Nem por isso certos adiamentos são bons.

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Sabáticas: Falando sozinho
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Mário Magalhães

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Robert Durst: ''Matei todos eles, é claro'' – Foto Edmund D. Fountain/The New York Times/2015

 

Li numa entrevista um psicólogo bambambã identificando como muito bem resolvidas pessoas que falam sozinhas. Conheço uma que adorou o diagnóstico. Bom para elas, mas sei não. Se for por aí, estou longe de me resolver.

É o que também acha a gurizada do prédio de um conhecido meu, tipo excêntrico que anda no elevador em conversas exaltadas. Com o espelho, ignorando os vizinhos. Sai pela calçada, volta para casa, sempre confabulando com ele mesmo. As crianças o têm na conta de maluco.

Deve ter suas vantagens. Jamais encontra um argumento contrário, alguém para lhe dizer que está por fora. Ou encontra? Vai que se contrapõe: “Sabe de nada, inocente!” Daí principia a discussão. Está explicado o tom passional do meu conhecido. Ele bate boca com sua sombra.

Quem se deu mal foi Robert Durst, protagonista de um documentário da HBO nos Estados Unidos. O milionário havia escapado da suspeita de três homicídios: de sua mulher, desaparecida em 1982 e dada como morta; da senhora, abatida com um tiro na cabeça, que deporia na Justiça sobre o sumiço da mulher de Durst; e, alegando legítima defesa para escapar da condenação, de um homem cujo cadáver acabou esquartejado.

Ferrou-se por falar sozinho. No derradeiro episódio da série The Jinx, ele deu uma longa entrevista e correu ao banheiro. Pareceu esquecer que estava com um microfone sem fio. E o microfone estava ligado. Em meio a digressões solitárias durante o xixi, Durst esclareceu: “Que diabos eu fiz? Matei todos eles, é claro”. Foi em cana, encurralado por muitas provas.

Outro perigo é falar dormindo. No décimo sono, uma amiga caprichou no dengo: “Que loiro lindo”, sussurrou. Seu marido, de cabelos mais pretos que o velho papel-carbono, estava acordado e surtou. Ela contou que sonhava com um sobrinho bebê.

Se o peixe morre pela boca, melhor ficar de boca fechada.

(Publicado originalmente na revista Azul Magazine, maio de 2015)

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Crivella brinca de ‘pós-verdade’
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Mário Magalhães

Marcelo Crivella canta no programa do Silvio Santos, em 2015 – Reprodução/Folhapress

Marcelo Crivella canta no programa do Silvio Santos, em 2015 – Reprodução/Folhapress

 

A história é tão curta quanto eloquente.

A Companhia de Engenharia de Tráfego do Rio de Janeiro tinha novo titular, anunciado pelo governo Marcelo Crivella: Paulo Cezar Ribeiro, professor da Coppe/UFRJ.

Ao lado do vice-prefeito e secretário de Transportes, Fernando Mac Dowell, o professor deu entrevistas, foi à TV contar seus planos.

Na quarta-feira, o ''Diário Oficial'' do município, em vez de nomear Paulo Cezar Ribeiro presidente da CET-Rio, nomeou Virgínia Maria Salerno Soares.

Ribeiro, que não é leitor do ''Diário Oficial'', soube da novidade por um repórter do jornal ''O Globo''.

Crivella explicou anteontem, compungido, o motivo da mudança: ''Paulo Cezar, infelizmente, foi diagnosticado com uma doença grave. Ele pediu para se afastar e ser tratado''.

Ribeiro tomou um susto. Não havia sido diagnosticado com doença grave, muito menos pedira para se afastar.

Ontem, o prefeito emendou, dizendo que confundira Ribeiro com uma servidora da Rioluz. Atacou um ''repórter, talvez imaturo'', que o indagara sobre a Cet-Rio. ''Eu pedi a esse repórter, porque era uma questão pessoal, de foro íntimo, de caso grave, que ele não mencionasse. Mas, infelizmente, isso foi vencido por ambições pessoais que eu acho que não constroem o relacionamento nosso com a imprensa. A gente, quando fala de doenças graves, essas coisas são particulares.''

Como comprova o vídeo da quarta-feira, quem falou em doença grave, diante de numerosos repórteres, foi Crivella.

''Não houve mentira nenhuma. Houve uma pequena confusão'', afirmou mais tarde o prefeito.

Pelo visto, ele parece brincar de ''pós-verdade''. Uma coisa é o discurso, outra é o fato.

Sobre a troca, uma das versões informa que haveria problema para Ribeiro manter na CET-Rio o salário que recebe na universidade.

Fato: na terça-feira, a CET-Rio, onde Ribeiro já estava trabalhando informalmente, multou mais de 90 ônibus em torno da Central do Brasil.

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Trump, o desafio aos espiões e a lição do governo Collor
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Mário Magalhães

Fernando Collor, ainda presidente, em 1992 – Foto Lula Marques/Folhapress

Fernando Collor, ainda presidente, em 1992 – Foto Lula Marques/Folhapress

 

Os territórios e as circunstâncias são diferentes, mas há alguma semelhança entre o que acontece hoje nos Estados Unidos e o Brasil da virada da década de 1980 para a de 1990.

Desde a campanha o presidente eleito Donald Trump vem espinafrando as agências de informações do seu país.

Criticou-as pela conclusão de que a correspondência eletrônica do comitê de Hillary Clinton havia sido raqueada pela Rússia _anteontem voltou atrás e admitiu que tal espionagem ocorreu.

Malhou-as por terem avisado Barack Obama e o próprio Trump sobre um dossiê focado no presidente eleito.

Trump as enxovalha e, querendo ou não, provoca-as.

Voltemos no tempo, e ao Brasil.

Antes de vencer a eleição presidencial de 1989, Fernando Collor de Mello tentou conversar com o ministro-chefe do Serviço Nacional de Informações, Ivan de Souza Mendes. O general recusou-se a recebê-lo.

Collor queria tratar de documentos do SNI que haviam aparecido na imprensa e nos quais o ainda governador de Alagoas era descrito em termos pejorativos.

Humilhado, não deixou por menos: em seu primeiro dia no Planalto, março de 1990, acabou com o SNI.

O monstrengo criado pela ditadura em 1964 chegava ao fim com uma canetada, embora a estrutura e os conceitos que o embalaram por décadas permanecessem.

Sobreviveu, sobretudo, o pessoal, agora lotado no sucessor do ''serviço'': o Departamento de Inteligência da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República.

Seu propósito, ao menos no papel, seria coletar e analisar informações.

A extinção do SNI prejudicou os interesses de muitos dos seus servidores, em particular militares.

Funcionários ou não do Departamento de Inteligência, eles foram a campo por conta própria para ''coletar'' um tipo específico de informações, as daninhas ao governo Collor. Com o olhar mais atento para falcatruas.

Arapongas foram fontes sigilosas importantes de jornalistas até a agonia de Collor e, em dezembro de 1992, seu justo impeachment.

Eles se vingavam do presidente que os atacou. A importância desses agentes no desfecho da administração Collor está por ser contada plenamente.

Do ponto de vista legal, o controle sobre as agências de informações e inteligência são muito mais severos nos EUA do que no Brasil.

Mas CIA, NSA e outras siglas têm vasto histórico de burla às leis.

Trump pode ter problemas se os espiões, provocados e desafiados, resolverem ir à forra.

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O papelão dos repórteres diante de Trump
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Mário Magalhães

Donald Trump, presidente eleito dos Estados Unidos - Foto Seth Wenig/AP

Donald Trump, presidente eleito dos Estados Unidos – Foto Seth Wenig/AP

Na primeira entrevista coletiva na condição de presidente eleito, Donald Trump foi o de sempre. Quer dizer, agora com mais poder. Que será ainda maior a partir do dia 20, quando tomará posse.

Trump avacalhou as agências de inteligência; comemorou a construção de fábricas de automóveis nos Estados Unidos, e não no México; confirmou que erguerá um muro entre os dois países; reconheceu que os EUA são raqueados por todo mundo, inclusive Rússia e China; mencionou informações sobre a campanha eleitoral de Hillary Clinton obtidas por interceptação ilegal de correspondência eletrônica; negou conflito de interesses no modelo que definiu para tocar seus negócios particulares enquanto ocupar a Casa Branca; e reiterou que certas notícias divulgadas sobre ele são típicas da Alemanha nazista.

Escolheu a dedo, o indicador direito ou esquerdo, os repórteres que poderiam lhe fazer perguntas. Houve repórter que, em tom submisso, agradeceu por ter sido um dos eleitos.

Antes da entrevista, o futuro presidente fez uma preleção sobre jornalismo e liberdade de imprensa. Em seguida ironizou repórter, interrompeu pergunta.

Muito mais grave, proibiu que o repórter da CNN lhe dirigisse uma pergunta.

Trump acusou a emissora de veicular mentiras, por ter informado a existência de um alegado dossiê sobre Trump. A CNN silenciou sobre o conteúdo do suposto dossiê. Ao contrário do BuzzFeed, que publicou a tal papelada na íntegra.

''Você não'', disse Trump agressivamente a Jim Acosta, o repórter da CNN que tentava perguntar. ''Sua empresa é terrível''. Emendou: ''Vocês são notícias falsas''.

É prerrogativa de Donald Trump e de qualquer pessoa achar o que bem quiser da CNN, do BuzzFeed e do jornalismo em geral. Quando mais uma sociedade pensa, escrutina e discute o jornalismo, mais chances têm a sociedade e o jornalismo de serem melhores.

O jornalismo é um serviço público cuja essência é a difusão de informações. Mesmo se exercido por companhias privadas, é _ou deve ser_ um serviço público. Informar é contraditório com propagandear. A principal deficiência do jornalismo contemporâneo é o sufocamento da informação pela propaganda.

Nenhuma autoridade com mandato conferido pelos cidadãos tem o direito de escolher repórter e pergunta conforme as convicções e idiossincrasias do poder.

Até aí, Trump foi Trump.

Lamentável foi observar que os repórteres presentes, ao menos os que perguntaram depois da atitude contra o jornalista da CNN, continuaram como se nada tivesse acontecido.

Aceitaram como cordeiros que Trump proibisse pergunta.

Não se trata de solidariedade corporativa com Acosta, mas de consciência democrática e jornalística sobre uma aberração como a imposta por Trump.

O problema não foram as perguntas, todas jornalisticamente legítimas e a maioria com espírito crítico _ao contrário do que se vê em determinada bajulação cotidiana a Michel Temer.

Mas o papelão de submeter-se a um capricho antidemocrático.

Os repórteres participaram da coletiva representando empresas privadas e públicas. O vexame foi da imprensa.

Não interessa a opinião de cada um sobre Trump. A ideia vale para qualquer situação e qualquer político. Depois do veto do presidente eleito, os repórteres só deveriam perguntar depois de o jornalista da CNN fazer a sua pergunta.

Em 1999, o repórter Luiz Maklouf Carvalho foi convidado pelo programa ''Roda Viva'' para ser um dos entrevistadores de Luiz Inácio Lula da Silva. O futuro presidente barrou a presença de Maklouf. O ''Roda Viva'' e os demais entrevistadores aceitaram. Se eu fosse um deles, teria ido embora na hora _se soubesse antes, não teria comparecido. Quando entrevistado escala entrevistador, o espírito crítico cede lugar à camaradagem, e o jornalismo se descaracteriza.

Ontem, pior que Trump, foram os repórteres.

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Palavras malditas (21): inauguração
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Mário Magalhães

Máquina de escrever de meados dos anos 1960 – Reprodução “The New York Times''

 

Alguém se lembra da inauguração do Temer, da Dilma, do Lula, do FHC, do Itamar, do Collor, do Sarney?

Não digo inaugurar uma escola, uma estrada ou um hospital, mas tomar posse.

Em linguagem de gente, presidente toma posse, assume o cargo. Até os marechais Castello Branco e Costa e Silva tomaram posse, sabe-se bem como.

De quatro em quatro anos, falam em inauguração do presidente. O dos Estados Unidos.

O pessoal traduz sem cerimônia a palavra inglesa ''inauguration'' como inauguração. E tasca que a inauguração do Trump será no dia 20 de janeiro.

É claro como esta terça-feira ensolarada que tal tradução literal é um despropósito _como o Trump, cuja posse está próxima.

O que ele vai inaugurar (estabelecer) é um tempo ainda mais bicudo.

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Temer vai ao funeral de Mário Soares, mas faltou ao velório de dom Paulo
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Mário Magalhães

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Quando São Paulo está mais longe do que Lisboa – Foto Ueslei Marcelino/Reuters

 

Michel Temer chegou de madrugada a Lisboa, onde assistirá ao funeral de Mário Soares.

Muito justo, pelo tamanho histórico do estadista português e por suas relações calorosas com o Brasil.

Mas Temer faltou em dezembro ao velório de dom Paulo Evaristo Arns.

A despedida ao frade franciscano que se tornou cardeal foi em São Paulo.

Não se trata de comparar Mário Soares e dom Paulo.

E sim de sublinhar a desfaçatez de um ocupante da Presidência ao desprezar a homenagem a um brasileiro, como o grande português, também gigante das batalhas pela democracia.

O noticiário informou que Temer teve medo de ser hostilizado na catedral da Sé.

Outros figurões da República, de quase todos os matizes políticos, podem ter tido medo, mas não deixaram de comparecer.

Poucas vezes um presidente teve tanto pavor da praça pública, mesmo no tempo em que o cruzeiro era a moeda.

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Cacete de meio
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Mário Magalhães

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Pão francês ou, para os gaúchos, cacetinho – Foto Eduardo Knapp/Folhapress

 

Um monte de marmanjos desembarcou do avião, pegou as malas e caminhou para os micro-ônibus no aeroporto da cidade equatoriana de Cuenca. Iríamos para o hotel, às vésperas da estreia da seleção na Copa América de 1993. O jornalismo esportivo era um mundo ainda mais masculino do que hoje. Um repórter não entendeu a orientação e indagou pelo transporte. É só entrar na buseta, esclareceram.

Daí em diante, foram semanas de trocadilhos com o tamanho, a temperatura e o conforto do veículo cujo nome em castelhano se pronuncia com o som de cê no lugar de esse. Cada um mais infame que o outro. Como numa turma de colegiais em excursão.

Esse tipo de brincadeira ocorre _ou ocorria_ em viagens a outros países. Nos Estados Unidos, pergunta-se pelo dia de pagamento (payday) como quem confessa um pum. Na Alemanha, elogia-se o vigor da vaca (kuh). Na França, tentando conter o riso, anuncia-se a partida para um encontro (rendez-vous, que se fala “randevu”) e se louva o formoso pescoço (cou, com ó mudo) da Mona Lisa.

Para muita gente, são besteirolas insossas, pueris e preconceituosas. Mas que divertem alguns. Como brasileiros em Portugal, onde se pode chamar um garoto de puto sem contrariá-lo (pois a palavra significa garoto), camisa de jogador de futebol é camisola, e punheta de bacalhau dá água na boca.

Constrangedor é tropeçar na ignorância. Como a minha, quase três décadas atrás, mal chegado a Lisboa. Pedi um durex no escritório, e a Adelina me olhou com uma cara estranha. Insisti, e ela olhou com a cara muito mais estranha. Até que uma colega me socorreu: durex em Portugal é marca de camisinha.

Pior foi a moça que nos anos 1960 trocou a região da campanha do Rio Grande do Sul pelo posto 6 de Copacabana. Ela chegou à padaria carioca, abriu um sorriso e encheu a boca: “Um cacete de meio, por favor!”

O cabra no balcão se assombrou, e a (no futuro) minha mãe repetiu com gosto, enfatizando o “de meio”. Perante o homem atônito, a gaúcha apontou para uma bisnaga, que na terra dela atendia pela alcunha de cacete de meio (quilo).

A mãe aprendeu a lição e nunca pediu no Rio pães franceses nos termos em que se acostumara: cacetinhos.

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