Blog do Mario Magalhaes

Freio no pré-sal sugerido por Marina seria catastrófico para o Extremo Sul
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Mário Magalhães

Caso não tenha mudado de novo seu programa lançado na sexta-feira _no sábado recuou em passagens sobre direitos LGBT_, a candidata Marina Silva (PSB) propõe mesmo frear com pé de chumbo a política nacional de investimento no pré-sal.

O programa praticamente ignora essa mina de ouro. Talvez temerosos de declarar com todas as letras a proposta de liquidar a orientação governamental em vigor, os correligionários de Marina escreveram assim, ao apresentar a plataforma: “3) realinhamento da política energética para focar nas fontes renováveis e sustentáveis, tanto no setor elétrico como na política de combustíveis, com especial ênfase nas fontes renováveis modernas (solar, eólica, de biomassa, geotermal, das marés, dos biocombustíveis de segunda geração); 4) redução do consumo de combustíveis fósseis''.

Nas “Diretrizes de nossa política nacional de energia'', enumerando os eixos de ação, não aparecem as palavras “petróleo'' e “pré-sal''. Apenas uma referência indireta, mas nem tanto: “Reduzir o consumo absoluto de combustíveis fósseis''.

(Para ler o programa de Marina na íntegra, basta clicar aqui.)

Deixo para quem sabe mais as observações sobre a impossibilidade, ao menos durante décadas, de o Brasil dispensar a energia poluente do petróleo; a evidência de que, se a Petrobras não explorar a camada do pré-sal, outros o farão, sobretudo empresas privadas chinesas, norte-americanas e europeias; os recursos a serem arrecadados com o pré-sal seriam destinados a educação e saúde, portanto a questão não se resume a energia e combustíveis; abrir mão do pré-sal equivale ao sujeito tirar a sorte grande na loteria, mas jogar no lixo o bilhete premiado; sem o pré-sal, Estados como o Rio de Janeiro sofrerão danos devastadores.

Trato de um aspecto mais pontual: se Marina Silva vencer a eleição e aplicar sua proposta de secundarizar a exploração do pré-sal, o Extremo Sul do Brasil regredirá décadas, com aumento do desemprego, depressão econômica e expansão da pobreza.

Refiro-me à região gaúcha do Polo Naval de Rio Grande e São José do Norte. Especialmente, à cidade mais populosa daquelas bandas, Pelotas. O polo criado no governo Lula (a paternidade, no caso, é o de menos) recuperou o território que de uns tempos para cá passou a ser chamado de “Metade Sul'' do Estado do Érico Verissimo,do Lupicínio Rodrigues e do Vitor Ramil.

No século 19, Pelotas talvez tenha sido a cidade mais rica da região Sul do país. A exploração do charque em larga escala gerou fábulas de dinheiro. A economia se baseava em relações escravagistas, com multidões de africanos aprisionados desembarcando dos navios no litoral de Rio Grande. Em mil oitocentos e pouco, para cada branco de Pelotas havia um africano. Até hoje Pelotas e Rio Grande são famosas pelo melhor Carnaval do Estado, reflexo da ampla população e cultura negras nos dois municípios. A fortuna dos barões de Pelotas esteve na origem da fama gay local: os pais abonados enviavam os herdeiros para estudar na França e em Portugal, os rapazes voltavam educados e viraram alvo de comentários dos homens rudes e preconceituosos do seu tempo.

Isso, a farra da dinheirama, acabou no século 20. A economia desse Extremo Sul permaneceu agrária, com os velhos senhores feudais e novos burgueses do campo mantendo uma concentração obscena da, agora menor, riqueza. Enquanto a Serra gaúcha se industrializou e prosperou, Pelotas (que já foi a segunda cidade com mais habitantes no Estado, depois de Porto Alegre) e Rio Grande empobreceram.

Com uma excelente escola técnica federal, uma universidade federal respeitável e outra católica também, nos anos 1970 e 1980 Pelotas passou a formar mão-de-obra qualificada para “exportar'': não havia bons empregos por lá.

Os índices sociais despencaram a níveis de regiões paupérrimas do Nordeste, e a decadência da economia fez estragos em todos os segmentos da vida cotidiana.

A despeito da desigualdade social atávica que persiste, o cenário melhorou com o Polo Naval de Rio Grande. Dezenas de milhares de vagas, boa parte para peões qualificados, foram abertas nos estaleiros e em função deles. Plataformas de petróleo já saíram prontinhas dali, e há expectativa de que para o pré-sal sejam feitas muitas outras. Em Pelotas não há estaleiro, mas muitos trabalhadores moram lá (a uma hora de ônibus), para fugir dos preços exorbitantes dos imóveis em Rio Grande.

O polo tem muitos problemas, e um deles é a ressaca provocada a cada término de plataforma. Os contratos dos trabalhadores são encerrados, até os empregados retomarem seus postos com novas encomendas. O dinheiro que a economia movimenta resultou em aumentos de preços que castigam os mais pobres. Mas é em função do polo que há não somente mais empregos, como ocupações mais bem remuneradas.

Escolas na região passaram a formar técnicos para o polo, empresas foram abertas e se desenvolveram para fornecer de alimentação a equipamentos.

O Polo Naval foi decisivo para a retomada do desenvolvimento regional da Metade Sul. Uma política que leve ao seu fim seria socialmente catastrófica. Com menos investimento no pré-sal e baque na produção de petróleo, os estaleiros fechariam ou reduziriam seus portes.

Os candidatos a governador e senador no Rio Grande do Sul, alguns manjados balaqueiros (marrentos ou contadores de vantagem, em linguagem gaudéria),  terão de se pronunciar sobre as propostas dos candidatos a presidente em relação a petróleo, Polo Naval de Rio Grande e pré-sal.

Quem calar consentirá.

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Mistérios do jornalismo: Campos era tão bom e Marina é tão ruim assim?
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Mário Magalhães

Uma observação preliminar: é não apenas legítimo como recomendável que o jornalismo escrutine com mais disposição ainda os candidatos presidenciais com chances maiores de chegar ao Planalto ou nele permanecer.

Por isso, é bem-vinda a cobertura mais sistemática e jornalisticamente ambiciosa das propostas e da campanha de Marina Silva (PSB), hoje favorita para vencer o pleito.

O que eu não consigo entender são dois fenômenos, que se combinam ou se contradizem:

1) se o falecido candidato Eduardo Campos (PSB) tinha tantas virtudes, por que o jornalismo não as alardeou enquanto ele vivia? Era segredo?;

2) será que Marina Silva, ex-vice da chapa de Eduardo e sua sucessora, merece um retrato tão desequilibrado como o que está sendo pintado? Se ela apresenta na essência as mesmas propostas de Eduardo, ou o programa do antigo governador de Pernambuco não era essa Coca-Cola toda ou passou a ser avaliado de modo diferente de acordo com seu porta-voz mais autorizado, que é o candidato à Presidência.

Talvez Campos não fosse tão bom, nem Marina seja tão ruim assim.

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Trave, essa maldita, atrapalha, mas não barra ascensão do Flamengo
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Mário Magalhães

Bola na trave não altera o placar, sim, eu sei, sabemos, qualquer bebê sabe.

Para os súditos da objetividade, pelota no pau equivale a carência de precisão.

Mas, isso eu também sei, pode ser falta de sorte.

No domingo, o Flamengo acertou três vezes o poste no Barradão, sem que a bola voltasse para algum rubro-negro (carioca) concluir.

Diante do Criciúma, uma semana antes, foram duas na trave no primeiro tempo.

Menos mal que nos 2 a 0 sobre o Criciúma e no quinto triunfo consecutivo, 2 a 1 ontem contra o Vitória, duas partidas longe de casa, as bolas que teimaram em não entrar não fizeram falta.

Vai ver a sorte está se guardando para quando tiver que fazer a diferença.

O Flamengo já está em nono no Brasileiro.

Deixaram chegar… e só adivinho sabe no que vai dar.

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Parentes de mortos na ditadura pedem a Dilma demissão do general Enzo Peri
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Mário Magalhães

Parentes de mortos e desaparecidos políticos na ditadura, veteranos opositores do regime instaurado em 1964 e entidades de defesa dos direitos humanos enviaram uma carta aberta à presidente Dilma Rousseff reivindicando a demissão do comandante do Exército, general Enzo Peri.

Os signatários protestam sobretudo contra a circular emitida pelo general-de-exército restringindo ao seu gabinete o fornecimento de informações sobre o período 1964-1985, numa decisão que dificulta a apuração de órgãos oficiais sobre crimes de Estado ocorridos naquela época.

A revelação sobre a difusão do documento ocorreu no dia 22 de agosto, pelo repórter Chico Otávio (leia aqui).

O blog está aberto à manifestação de Dilma e dos demais candidatos à Presidência. O que pensam sobre a exigência de exoneração do comandante do Exército? Como decide a presidente e o que os outros candidatos fariam em seu lugar em relação à lei do silêncio imposta pelo general Enzo Peri?

Abaixo, a reprodução da carta aberta:

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*

Carta aberta

À Excelentíssima Senhora Presidenta da República

DILMA ROUSSEFF,
Senhora Presidenta,

O general Enzo Peri, comandante do Exército, acaba de afrontar os poderes da República, aos quais deve obediência. O general encaminhou a todas as unidades do Exército uma ordem ilegal, segundo a qual nenhuma delas deve fornecer informações requisitadas por órgãos como o Ministério Público Federal (MPF) ou outros interessados, cabendo exclusivamente ao gabinete do comandante decidir sobre as respostas.

Portanto, o general Enzo está zombando do ordenamento jurídico, que dá ao MPF a prerrogativa de investigar. Pior ainda, Presidenta Dilma.

O general Enzo está zombando dos brasileiros, incluindo a comandante em chefe das Forças Armadas, a Presidenta da República, que sancionou a lei que criou a Comissão Nacional da Verdade (CNV).

Mas há um agravante nessa história, Presidenta Dilma. É que o general Enzo é reincidente.

Como Vossa Excelência deve recordar, ainda no governo Lula o general foi um dos pivôs de uma grave crise política, em 2009, ao acompanhar o ministro Nelson Jobim, da Defesa, num verdadeiro motim contra o Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH-3). Jobim e os comandantes militares ameaçaram demitir-se caso o presidente não alterasse o PNDH-3, retirando dele modestos avanços democráticos relacionados à revogação da Lei da Anistia e à investigação dos crimes da Ditadura Militar. Infelizmente, o presidente Lula cedeu à chantagem e preferiu mutilar o PNDH-3.

Já no atual governo, mantido no cargo apesar da rebelião antidemocrática que encabeçou, o general Enzo mantém-se na linha da resistência ativa à CNV e às políticas de direitos humanos da Presidência da República. Deu suporte às seguidas negativas e embaraços criados aos pedidos de documentos feitos pela CNV às Forças Armadas.

Mais recentemente, em gesto que chocou a consciência democrática, ademais de humilhar os familiares das vítimas e os ex-presos políticos, o comandante do Exército passou da resistência dissimulada ao escárnio, ao endossar os debochados resultados da “sindicância” realizada a pedido da CNV a respeito das instalações militares que, sabidamente, notoriamente abrigaram aparatos de tortura e execução de presos políticos durante a Ditadura Militar.

Diante desses fatos, Presidenta Dilma Rousseff, só nos resta exortá-la a demitir o general Enzo Peri, para o bem da democracia e da sociedade brasileira.

Não é admissível que alguns generais continuem asfixiando a democracia brasileira. Não é razoável que chefes militares continuem zombando da luta por memória, verdade e justiça sem que sejam punidos. O que está em jogo é a democracia e o futuro do Brasil!

Presidenta Dilma, reafirme a soberania popular: demita o general Enzo.

 

Em 28 de agosto de 2014 – 35 anos da votação da anistia

 

Assinam:

CDH e Memória Popular de Foz do Iguaçu

Coletivo Catarinense Memória, Verdade, Justiça

Coletivo Contra a Tortura

Coletivo Merlino

Coletivo MVJ João Batista Rita de Criciuma – SC

Coletivo pela Educação, Memória e Justiça – RS

Coletivo Político Quem

Comissão da Verdade de Bauru “Irmãos Petit''

Comissão de Direitos Humanos de Passo Fundo (CDHPF)

Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos

Comitê Catarinense Pró Memória

Comitê Popular de Santos por Memória Verdade e Justiça

Comitê Verdade, Memória e Justiça de Pelotas e Região

Fórum de Reparação e Memória do RJ

Fórum Direito à Memória, Verdade e Justiça do ES

Grupo Tortura Nunca Mais Rio de Janeiro – GTNM/RJ

Instituto de Estudos da Violência do Estado – IEVE

Movimento Camponês Popular – MCP

Movimento Nacional de Direitos Humanos (MNDH) Nacional

Movimento Nacional de Direitos Humanos no Rio Grande do Sul (MNDH-RS)

Movimento Reforma Já

Núcleo de Preservação da Memória Política

Rede Brasil – Memória, Verdade , Justiça

Rede Social de Justiça e Direitos Humanos

 Adilson Oliveira Lucena

Alberto Henrique Becker

Alessandra Gasparotto

Aluizio Ferreira Palmar

Álvaro Okura

Amanda Brandão

Ana Bursztyn Miranda

Ana Maria Muller

André Nin Ferreira

Ângela Mendes de Almeida

Ângela Telma Lucena

Antonio Carlos Fon

Aton Fon Filho

Benardo Kucinski

Carlos Gilberto Pereira – Carlão

Carlos Lichtsztejn

Carlos Roberto Pittoli

Carlos Russo Jr.

Cecília Boal

Cecília Coimbra

César Augusto Teles

Claudio Antonio Weyne Gutierrez

Clélia de Mello

Cloves de Castro

Criméia Alice Schmidt de Almeida

Cristina Rauter

Damaris Oliveira Lucena

Danilo Morcelli

Darci T. Miyaki

Denise Oliveira Lucena

Derlei Catarina De Lucca

Dr. Emilio Peluso Neder Meyer

Dulce Maia de Souza

Edson Luis de Almeida Teles

Eliana Rolemberg

Eliete Ferrer

Elizabeth Silveira e Silva

Elza Ferreira Lobo

Elzira Vilela

Emilia Eiko Kita Lopes

Enrique Serra Padrós

Fátima de Oliveira Setubal

Felipe Carvalho Nin Ferreira

Felipe Nin Ferreira

Fernando José Maia da Silva

Francisco Carvalho Junior

Francisco Celso Calmon Ferreira da Silva 

Galiazzo Pimentel

Gilberto Carvalho Molina

Graziane Ortiz Righi

Helenalda Resende de Souza Nazareth

Heloisa Fernandes

Igor Grabois

Ivan Akselrud de Seixas

Jailson Tenório dos Reis

Janaina Athaydes Contreiras

Janaína de Almeida Teles

Janne Calhau Mourão

João Carlos Schmidt de Almeida Grabois

Jocimar Souza Carvalho

José Carlos Moreira da Silva Filho

José Keniger

Jose Luiz Saavedra Baeta

José Reginaldo Veloso de Araújo – Padre Reginaldo Veloso

José Roberto Torres de Miranda

Laura Petit da Silva

Lorena Moroni Girão Barroso

Lucia Vieira Caldas – Lucinha Alves

Manoel Cyrillo de Oliveira Netto

Marcelo Chalréo

Marcia Curi

Marcio Gontijo

Maria Amélia de Almeida Teles

Maria Carolina Bissoto

Maria Coleta Oliveira

Maria Consuelo Porto Gontijo

Maria Lygia Quartim de Moraes

Maria Madalena Prata Soares

Marília Kayano Morais

Marta Moraes Nehring

Miguel Nin Ferreira

Nei Tejera Lisboa

Nicolau Bruno de Almeida Leonel

Noeli Tejera Lisboa

Pádua Fernandes

Paulo Cesar Ribeiro

Paulo Nin Ferreira

Paulo Santos Gonçalves

Pe. Geraldo Marcos Labarrère Nascimento, jesuita

Pedro Casaldàliga Pla

Pedro Estevam da Rocha Pomar

Pedro Nin Ferreira

Ramiro Nodari Goulart

Raquel Britto

Raul Carvalho Nin Ferreira

Raul Elwanger

Regina Merlino Dias de Almeida

Renan Quinalha

Ricado Kobaiashi

Ricardo Rezende Figueira

Risomar Fasanaro

Rodrigo Ghiringhelli de Azevedo

Rodrigo Nin Ferreira

Rosalina Santa Cruz

Ruy Guimarães

Sérgio Pestana

Sonia Maria Haas

Suzana Keniger Lisbôa

Tatiana Merlino Dias de Almeida

Terezinha Souza Amorim

Thais Barreto

Umberto Trigueiros

Valter Pomar

Vera Vital Brasil

Victória Lavínia Grabois Olímpio

Vivian Mendes

Wolf Hornke

Yara Maria Moreira de Faria Hornke

Yuri Rosa de Carvalho


Entre os quatro ‘grandes’ do Rio, Garotinho é o único a diminuir rejeição
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Mário Magalhães

Uma das novidades mais expressivas da pesquisa Ibope para governador do Rio divulgada nesta semana foi a queda da rejeição de Anthony Garotinho (PR). Entre os quatro candidatos com mais chances, o deputado foi o único a conseguir esse progresso.

Em julho, 44% dos entrevistados afirmavam que não votariam em Garotinho “de jeito algum''. Agora, são 35%, ainda o maior índice, porém caindo.

A rejeição aos principais adversários de Garotinho aumentou ou oscilou para cima (a margem de erro do levantamento é de três pontos): Luiz Fernando Pezão (PMDB) de 17% para 20%; Marcelo Crivella (PRB) de 15% para 19%; e Lindberg Farias (PT) de 17% para 19%.

Em intenção de voto, o cenário apresentado pelo instituto em 31 julho mostrava empate técnico na liderança entre Garotinho (21%), Crivella (16%) e Pezão (15%). Lindberg tinha 11%.

Em 26 de agosto, o Ibope apontou Garotinho líder com 28%. Em segundo lugar, igualdade entre Pezão, 18%, e Crivella, 16%. Lindberg somou 12%, e Tarcísio Motta (PSOL), oscilou de 1% para 3%.

A robusta rejeição a Garotinho faz com que ele até agora seja o candidato favorito de Pezão, Crivella e Lindberg para o provável segundo turno, embora os comandos das campanhas não manifestem publicamente tal preferência. É impossível saber se o ex-governador terá fôlego para diminuir ainda mais a proporção de eleitores que o descartam.

Houve uma inflexão na campanha de Garotinho, com mais acenos à classe média. E que acenos: reduzir o IPVA dos automóveis para a metade, benefício que hoje ampara empresas de ônibus. E passar a vistoria dos carros, que provoca filas imorais no Detran, de anual para bienal.

Parece ter dado certo: entre os eleitores de nível superior, pior desempenho de Garotinho, ele saltou de 10% para 18%.

Também avançou no povão. Com a proposta-promessa de reintroduzir ou ampliar programas sociais implantados no passado por ele _cheque cidadão, restaurantes populares e outros_, Garotinho agora alcança 41% das preferências de quem cursou até a velha quarta série fundamental _um mês atrás, o índice era de 30%.

Garotinho aparece forte no segundo turno, informa o Ibope. Se a eleição fosse hoje, teria 34% contra 33% de Crivella (empate técnico), e bateria Pezão por 38% a 31% e Lindberg por 37% a 29%.

Embora com menos tempo no horário eleitoral do que Lindberg e muito menos que Pezão, Garotinho tem feito um programa _do ponto de vista da marquetagem_ certeiro, centrado num tema. Assim também são suas participações diárias na cobertura do “RJTV'', da Globo. Nenhum candidato no Rio se aproveita tão bem da televisão como Garotinho (o programa de Romário, concorrente ao Senado, também é muito bem feito).

Nem o noticiário ruim para Garotinho, como a revelação de que policiais da banda podre o apoiam, tem lhe causado danos relevantes. Seu maior problema é a vasta rejeição, sedimentada nos governos dele e da mulher, Rosinha, no Estado do Rio.

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Depois de Marina bombar em pesquisa, Romário leva nome de candidata à TV
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Mário Magalhães

Pela primeira vez, o programa eleitoral do candidato a senador Romário propagandeou quarta-feira na TV o nome de sua correligionária Marina Silva, postulante ao Planalto. Ambos são filiados ao PSB.

O logotipo da chapa Marina-Beto Albuquerque aparece na tela na maior parte do tempo (para assistir, basta clicar na imagem acima ou aqui).

Na véspera do programa, o Ibope revelou Marina com números pujantes na corrida pela Presidência (no Rio, Romário lidera com vantagem de 15 pontos a disputa pelo Senado).

O nome de Marina ainda não havia sido citado nem exibido no programa do deputado federal (saiba mais aqui).

A sigla do PSB e o símbolo do partido continuam fora. Só permaneceram até o segundo dos quatro programas.

Mantém-se o silêncio sobre Lindberg Farias (PT), candidato ao governo do Rio pela coligação integrada pelo PSB.

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Lei da Anistia faz 35 anos hoje; a impunidade dos torturadores persiste
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Mário Magalhães

vale anistia

Plástico da campanha da anistia – Coleção do blogueiro

 

Trinta e cinco anos atrás, no dia 28 de agosto de 1979, o “Diário Oficial da União'' publicava a lei nº 6.683, que passaria à história como a Lei da Anistia. Assinaram-na o ditador João Baptista Figueiredo e seus ministros.

De lá para cá, torturadores, assassinos, genocidas e outros autores de crimes contra a humanidade foram punidos mundo afora, da Argentina à Sérvia, do Camboja à Alemanha.

Menos no Brasil.

Aqui, os velhos agentes do Estado que torturaram, mataram e sumiram com corpos de oposicionistas, privando as famílias de oferecerem uma despedida digna aos seus filhos, irmãos, pais e mães, continuam livres por aí.

Vão morrendo aos poucos e deixando a mensagem às futuras gerações: podem barbarizar de novo, porque dá em nada, é crime sem castigo.

A campanha da anistia mobilizou milhares de brasileiros na segunda metade da década de 1970. Exigia anistia ampla, geral e irrestrita aos perseguidos pela ditadura imposta em 1964. Jamais reivindicou a impunidade que a ditadura concedeu a si mesma e aos seus.

O plástico reproduzido acima é memorabilia daquelas jornadas, presente que ganhei de uma alma generosa.

Dez anos atrás, às vésperas do aniversário de um quarto de século da Lei da Anistia, escrevi na “Folha'' o artigo republicado abaixo. A ferida segue purulenta.

A propósito, o que pensam sobre o assunto os candidatos à Presidência? Algo novo ou só a velha defesa mal disfarçada da impunidade dos agentes da ditadura?

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Anistia e tortura: uma ferida purulenta

Efemérides são oportunidade para redescobrir o passado e aprender com suas lições. São também armadilha: celebram mitificações, protocolos e lugares-comuns. O calendário de 2004 é gordo: 70 anos da primeira Constituição depois da República Velha, 60 do Dia D, meio século do tiro de Getúlio, quatro décadas do golpe de Estado, duas da Campanha das Diretas, uma da última curva do Senna.

No mês que vem, faz 25 anos a canetada com que o general João Baptista Figueiredo sancionou a Lei da Anistia. Será uma pena se o país desperdiçar a chance de encarar uma ferida purulenta e já longeva: a impunidade dos autores -e responsáveis- de atos de tortura, assassinato e desaparecimento forçado de oposicionistas na ditadura (1964-85).

Um bom começo é a releitura da lei 6.683, de agosto de 1979. Convencionou-se em círculos amplos interpretar que teria ocorrido um perdão de mão dupla: anistiavam-se os punidos por crimes políticos de 1961 a 1979, bem como os agentes do Estado que houvessem cometido violência de toda espécie contra aqueles.

Estes estariam abrigados no chapéu dos “crimes conexos'', assim definidos: “crimes de qualquer natureza relacionados com crimes políticos ou praticados por motivação política''. Nenhum dos 15 artigos, contudo, fala em tortura.

Seria difícil: a anistia beneficiou quem foi condenado ou punido de algum modo. Ignora-se a existência de torturadores processados e castigados na Justiça devido aos flagelos físicos a que submeteram prisioneiros.

A anistia foi concedida individualmente. Não se tem notícia de quem tenha pronunciado seu próprio nome, assumido que amarrou seres humanos no pau-de-arara, seviciou-os com choques elétricos, matou-os a pauladas, sumiu com seus cadáveres, e tenha requerido perdão legal. Não há acusação e punição, inexiste anistia.

Considerar a Lei da Anistia como salvo-conduto aos torturadores poderia sugerir um direito nonsense: o regime que promoveu a barbárie teria a prerrogativa de se auto-anistiar. Estimularia o preceito segundo o qual o autor do crime pode ser também autor do perdão a si mesmo.

Voltar os olhos para o que passou não é exercício de arqueologia política. Ajuda a entender o presente. É difícil acreditar que o emprego disseminado da tortura hoje em dependências policiais não seja herdeiro da impunidade que amparou os torturadores de outrora.

Não basta que a história conte a tortura. É preciso conhecer os algozes e puni-los, como exemplo às gerações. Recorrer ainda ao clichê da “fragilidade da democracia brasileira'' para desculpar os torturadores é expediente destinado a eternizar o temor de reabrir feridas. Elas nunca cicatrizaram.

Consagra a hipocrisia o país que proclama ter a anistia zerado o jogo para os torturadores, mas não lhes permite ocupar certos postos da administração pública. Está certo no veto, justamente porque a Lei da Anistia não os anistiou. Nem deveria. Ao mandar os velhos torturadores para a cadeia, a Argentina avisa: nunca mais. Ao deixar para lá os seus, o Brasil dá sinal verde a novas tragédias.

(Mário Magalhães, “Folha de S. Paulo'', 12 de julho de 2004)


Ecos dos protestos de junho de 2013 turbinam Marina
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Mário Magalhães

Ao chegar em casa tarde da noite, em 13 de junho do ano passado, comentei: “Isso tudo vai desaguar na Marina”.

“Isso tudo” era o imenso protesto com mais de 100 mil participantes que percorrera horas antes a avenida Rio Branco, aqui no Rio.

Não arrisquei prognóstico ou análise mais ambiciosa, entre outros motivos porque a conjuntura era nebulosa. Pitaquei: na babel de vozes daquela segunda-feira, o maior alvo havia sido o governador (“Ei, Cabral, vai tomar…”); e a grande novidade, a palavra de ordem “Sem partido, sem partido”.

Como a ex-senadora, ex-ministra de Lula e ex-petista Marina Silva organizava uma nova agremiação, que negava ser mais um partido, o espírito contra tudo e contra todos da manifestação poderia respaldar uma candidatura apresentada como “diferente” na eleição de 2014.

De lá para cá, a Rede Sustentabilidade marineira foi barrada pela Justiça Eleitoral (publiquei o post “Registro da Rede é direito democrático de milhões de eleitores de Marina”). Num lance perspicaz e surpreendente, ela se aliou _e se filiou_ ao PSB e topou concorrer a vice na chapa de Eduardo Campos. Com a morte do ex-governador de Pernambuco, tornou-se candidata presidencial.

Deu na pesquisa divulgada ontem pelo Ibope: Dilma Rousseff (PT) lidera com 34%, seguida por Marina (PSB), 29%, e Aécio Neves (PSDB), 19%. Se o segundo-turno fosse hoje, Marina derrotaria Dilma por acachapantes 45% a 36%.

Marina já amealhara perto de 20% dos sufrágios em 2010. A comoção provocada pela morte do neto de Miguel Arraes contribui para o cenário atual mais promissor. É inegável, contudo, que os ecos de 2013 impulsionam sua campanha. Parte da multidão que foi às ruas e dos milhões que ficaram em casa torcendo pelos manifestantes julga ter encontrado seu candidato.

Junho de 2013 reuniu da extrema-direita à extrema-esquerda. Inexistiu uma agenda comum. Nem mesmo a reivindicação de barrar o aumento das passagens dos transportes públicos foi determinante em numerosas cidades, onde a mobilização eclodiu depois de a Polícia Militar de São Paulo surrar manifestantes. Mas havia um sentimento comum, de “mudança” e de busca do “novo”, por mais difuso que esses valores sejam.

Marina é mesmo o “novo”?

É esse sentimento que Marina Silva pretende encarnar que a transforma hoje em favorita. A questão é se, em outubro, os eleitores continuarão achando que a candidata expressa a “mudança” e o “novo”.

Esse é o conteúdo que está em disputa, e o marqueteiro João Santana, de Dilma Rousseff, sabe bem disso. Antes mesmo da veiculação dos números do Ibope, ele gravou mensagem de Lula que foi ao ar no horário eleitoral noturno desta terça-feira na TV. Sem citar Marina, o ex-presidente sugeriu que sua antiga ministra não constitui o “novo”, que seria representado pela governante há quase quatro anos no cargo.

No debate da Band encerrado na madrugada de hoje, Luciana Genro (PSOL), em seu pior desempenho televisivo em muito tempo, empregou tom semelhante: Marina não é o “novo” autêntico _e na essência programática, afirmou a ex-deputada, se parece demais com Dilma e Aécio.

Agora, o eleitorado quer o “novo”, mas a rigor ignora o que Marina propõe para o Brasil. Para muita gente, ela desfralda a bandeira da mudança, mas não se sabe qual mudança.

Aécio é o candidato preferido do agronegócio. Nos governos Lula e Dilma, a agricultura e a pecuária bateram recordes de produção, recordes de faturamento e recordes de lucro _portanto, o PT no Planalto não foi um adversário do agronegócio.

E Marina? A ambientalista aceitou como seu vice o deputado Beto Albuquerque (PSB), que mantém vínculos com o agronegócio, inclusive o que produz alimentos transgênicos. Isso é o “novo”?

Dilma e Aécio não defendem a mudança da legislação restritiva ao direito de aborto (não se trata de ser contra ou a favor “do aborto”, mas do direito de interromper a gravidez com garantias de saúde). A legislação atrasada todo ano provoca a morte de milhares de brasileiras pobres, que não contam com a rede pública para fazer o que as de classe média para cima fazem em clínicas privadas clandestinas.

Pois Marina também é contra o direito ao aborto. “Novo”?

E o casamento entre pessoas do mesmo sexo? Marina reitera suas restrições. Sem novidades.

E em relação à obscena desigualdade social do Brasil? Entre os principais conselheiros da candidata estão uma banqueira, um empresário de grande porte e um economista com identidades com o PSDB. Tudo legítimo, assim funciona a democracia. Mas é por esse caminho que haverá “mudança” digna do nome no maior drama brasileiro, a desigualdade?

A cura de muitas doenças degenerativas teria mais chances com pesquisa com células-tronco embrionárias. Os testes com essas células podem levar a descobertas que salvem vidas.

Marina? É contra, em virtude de suas convicções religiosas. Qual “novo”?

Aécio Neves olha para trás, anunciando Armínio Fraga como futuro ministro em eventual governo tucano. Nada de “novo”.

Dilma Rousseff dá a entender que manterá a política econômica que não confronta com mais vigor a desigualdade, ainda mais com os recentes aumentos da taxa de juros que transfere bilhões para os ricos. Descarta o “novo''.

A agenda de Marina é sintetizada numa frase pronunciada por ela no debate da Band: “O problema do Brasil não é a sua elite, mas a falta de elite”. Se isso é o “novo”, então tá.

O cenário só seria melhor para Marina se sua ascensão tivesse ocorrido mais em cima da eleição.

Há semanas pela frente para ela ser atacada, e é o que farão agora Dilma e Aécio.

Mas Marina também tem semanas para crescer mais ainda, se a maioria dos brasileiros considerá-la o novo procurado desde junho de 2013.

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Candidatos usam sósia esperto na propaganda ou usaram sósia bronco na Band
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Mário Magalhães

Das duas uma: ou alguns candidatos a presidente têm usado sósias muito inteligentes no horário eleitoral da TV, capazes de discorrer com sabedoria sobre tudo e todos, ou mandaram sósias quase mentecaptos para o debate que a Band promoveu até o começo da madrugada de hoje.

Não podem ser a mesma pessoa.

Será que o TSE vai investigar?

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