Blog do Mario Magalhaes

Como no tempo de Camus, futebol ensina sobre grandeza e miséria humanas
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Mário Magalhães

vale de novo

Nos destroços do Avro, na Colômbia, o fim de tantos sonhos – Foto Raul Arboleda/AFP

 

Escritor dublê de goleiro ou goleiro dublê de escritor, o franco-argelino Albert Camus (1913-1960) assinalou, em tradução livre: ''O que eu mais sei sobre a moral e as obrigações do ser humano eu devo ao futebol''.

Cinquenta e seis anos depois da morte do vencedor do Prêmio Nobel de Literatura, sua lição permanece. Poucas vezes foi tão eloquente como ontem, na morte de 71 passageiros e tripulantes de um Avro que caiu na Colômbia. Entre eles, quase todo o time da Chapecoense finalista da Copa Sul-Americana e duas dezenas de jornalistas que cobririam em Medellín o jogo de ida da decisão.

A dor pungente e a solidariedade em todo o planeta mostraram a face mais generosa da humanidade. Embora às vezes divida, quase sempre o futebol une, na paixão e na comoção. Em estádios, treinos, na privacidade doméstica, a desgraça comoveu.

A repetição de jogadas de partidas recentes da Chape ensinou sobre perseverança, resistência até o instante derradeiro, superação na adversidade. O sonho alimentado por defesas milagrosas do goleiro _como Camus_ Danilo. Isso mesmo: quem disse que milagre não existe?

A iniciativa do Club Atlético Nacional de propor a entrega do título à Chape é uma das atitudes mais emocionantes da história do futebol, própria de campeões. Por isso, torço para que os dois clubes repartam o caneco.

Do infortúnio florescem atos dignos até na lama. Cartolas propuseram medidas honradas de preservação do clube catarinense na primeira divisão do Campeonato Brasileiro. Uma coalização de afetos. Por exemplo, com o empréstimo de boleiros para recompor o elenco.

Nada disso mitiga a dor, mas aduba a esperança num tempo de tanta desesperança.

O futebol é metáfora da vida, costuma-se dizer. Por que não a vida é metáfora do futebol? O futebol expõe a grandeza humana, e também a miséria.

Houve quem tenha tentado se promover com a dor alheia. Quem tenha tripudiado do sofrimento. Ou aproveitado a tragédia para proselitismo político vulgar. O João Saldanha dizia que a estupidez humana não tem limites. A miséria e a insensibilidade também não.

O ano de 2016 não deveria nem ter começado. Para o jornalismo, foi uma baixa atrás da outra. Colegas como Sérgio Costa, Geneton Moraes Neto, Luiz Antônio Novaes. Da turma que se despediu ontem, convivi com o Paulo Julio Clement em viagens mundo afora. Entre suas muitas virtudes estavam a garra jornalística, a paixão pelo futebol e a decência profissional. Li há pouco na ''Folha'' que o Paulo Julio, aos 51 anos, era entre o pessoal da imprensa um dos três mais velhos no voo. Na Copa de 1994, quando estivemos juntos nos Estados Unidos, estávamos virando trintões. Éramos pouco mais que guris, ainda assim com mais idade do que jornalistas que partiram ontem. Tempo, tempo, tempo…

Na cultura das redações, o jornalismo esportivo foi historicamente espezinhado, minimizado. Nos jornais, os novatos iam para a cobertura esportiva ou policial, em que ganhavam menos. Isso começou a mudar com a televisão, sobretudo quando, pena, o entretenimento sufocou o jornalismo. Mas no jornalismo impresso e da internet essa cultura sobrevive. Decorre de preconceito elitista, de direita e de esquerda, contra o futebol, esporte que começou restrito a bacanas e se transformou em fenômeno popular. Costumam dizer que o jornalista esportivo é pouco crítico. Na minha opinião, não existe mais subserviência ao poder, no jornalismo brasileiro, que nas editorias de política e economia.

O 29 de novembro já seria triste para mim, pela primeira vez sem comemorar o aniversário do melhor amigo que a vida me deu _ele se foi em fevereiro.

A partir de agora, será também o dia de celebrar a memória de apaixonados pelo futebol e pelo jornalismo que foram embora antes, muito antes da hora.

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2016, o ano que nem deveria ter começado
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Mário Magalhães

chap vale

Os destroços do avião, em foto reproduzida do Twitter

 

Caiu na Colômbia o avião que levava os guerreiros da Chapecoense em seu épico sul-americano.

E também os jornalistas que contariam a decisão.

Enquanto não divulgarem a lista de mortos, o melhor é torcer por mais sobreviventes do que o noticiário indica.

2016 não deveria nem ter começado.

Mais uma vez, ecoa neste ano o Renato Russo mais triste:

Hoje a tristeza não é passageira

Hoje fiquei com febre a tarde inteira

E quando chegar a noite

Cada estrela parecerá uma lágrima.

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De Lacerda a Marighella, histórias de Fidel Castro que passam pelo Brasil
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Mário Magalhães

blog - fidel castro

O cubano Fidel Castro (1926-2016), nos velhos tempos – Foto Acervo Folha

 

Morto na sexta-feira aos 90 anos, o cubano Fidel Castro viveu histórias e historietas com o Brasil e brasileiros.

Onze delas:

1) em maio de 1959, com menos de seis meses no poder, Fidel veio ao Brasil. Embora tivesse lutado na Sierra Maestra ao lado de militantes comunistas como seu irmão Raúl Castro e o argentino Ernesto Guevara, o Che, o caráter político do principal líder da Revolução Cubana ainda era nebuloso. Aqui, poucos se entusiasmaram tanto com ele como o deputado federal Carlos Lacerda (1914-1977). Mais popular prócer da União Democrática Nacional, partido de direita, Lacerda conheceu o visitante num jantar no bairro carioca do Humaitá. No seu jornal, ''Tribuna da Imprensa'', estampou na primeira página uma fotografia sua, sorriso rasgado, com Fidel. Estavam na casa da família Nabuco. Comeram galinha, e Fidel aceitou uma taça de champanha. Lacerda assinalou suas impressões: ''Nunca vi alguém falando tanto sem ser nada prolixo''; Fidel tem ''imenso desejo de realizar uma grande obra'', pertence à espécie dos ''libertadores idealistas''; em tom elogioso, interpretou o barbudo como um ''Bolívar do nosso tempo'', ''um desses temperamentos bolivarianos para os quais a ambição do poder é pequena porque eles aspiram a muito mais _porque aspiram à glória''. Lacerda endossou o que denominou  ''justiçamentos'' de alegados criminosos vinculados ao regime decaído de Fulgencio Batista. As execuções seriam celebrizadas como ''paredão''. Lacerda: ''Não se trata de uma vingança, mas de uma reparação que, na ordem moral, está justificada''. À medida que o governo cubano caminhou para a esquerda, até se reivindicar comunista, o anticomunista Lacerda passou a atacar com virulência os revolucionários caribenhos;

2) em abril de 1959, oito representantes do novo governo cubano haviam visitado o Rio. O sindicato dos barbeiros traquinou e ofereceu cortes gratuitos para as barbas hirsutas dos antigos guerrilheiros. Os enviados de Fidel recusaram o presente;

3) durante o governo Jânio Quadros (1961), Fidel Castro permitiu que brasileiros das Ligas Camponesas treinassem guerrilha em Cuba. A preparação militar de 13 militantes de fato ocorreu;

4) quando o presidente Jânio Quadros renunciou, em agosto de 1961, Fidel conclamou os brasileiros a subirem as montanhas para resistir a golpistas. Imaginava um país com serras semelhantes às da ilha do Caribe;

5) principal dirigente do PCB, Luiz Carlos Prestes disse em entrevista pouco depois do triunfo dos guerrilheiros cubanos, em janeiro de 1959: ''Fidel Castro é um aventureiro pequeno-burguês''. Antes, em conversa partidária, o mais importante líder comunista da história do Brasil se referira a Fidel como ''agente da CIA''. Mais tarde, com a aproximação entre Cuba e União Soviética, apesar das relações ciclotímicas entre os dois governos, Prestes e Fidel se acercariam;

6) o Partido Comunista Brasileiro empenhou-se em campanhas de solidariedade a Cuba, alvo de incursões armadas patrocinadas pelos Estados Unidos. O dirigente que coordenava a atuação nessa frente era o ex-deputado Carlos Marighella (1911-1969). Em março de 1963, aconteceria no Rio uma conferência internacional de solidariedade aos cubanos. O governador da Guanabara (equivalente na época ao atual município do Rio de Janeiro) proibiu o evento. O governador se chamava Carlos Lacerda. A conferência foi transferida para Niterói. Entre os signatários da sua convocação havia correligionários de Lacerda na UDN, mas da ala Bossa Nova, moderada, de centro. Um deles era José Sarney, jovem deputado do Maranhão;

7) em 19 de abril de 1964, Fidel Castro discursou sobre o golpe de Estado vitorioso no Brasil no princípio do mês. Retribuiu os ataques que recebia de Carlos Lacerda: “O presidente [João] Goulart foi deposto por um golpe […] no qual um dos principais cérebros foi o mais reacionário homem deste continente. Um homem que, como solução para o problema da pobreza no Estado do Rio de Janeiro [na verdade, Estado da Guanabara], onde ele é governador, propôs a eliminação física de mendigos [a acusação não tinha lastro nos fatos]. É claro que há muitos deles lá, como em qualquer nação subdesenvolvida e explorada. Um homem com uma mente fascista _o governador do Estado da Guanabara, Lacerda, ou o porco, você pode chamá-lo do que quiser”;

8) em 1966, Lacerda já rompera com a ditadura. No comecinho de fevereiro, um diplomata norte-americano almoçou no restaurante da Maison de France, no Rio, com o publisher do ''Jornal do Brasil''. Incomodado pela militância oposicionista do ex-governador, Manuel Francisco do Nascimento Brito falou à mesa: ''Lacerda é diabólico e maquiavélico, provavelmente um dos homens mais inteligentes e amorais hoje no cenário brasileiro. Ele [Nascimento Brito] o vê empregando os métodos de Fidel Castro para alcançar o poder''. Essas palavras constam de relatório classificado como ''confidencial'', despachado pelo diplomata para o Departamento de Estado, em Washington;

9) depois do golpe de 1964, Fidel firmou um acordo secreto com o deputado cassado Leonel Brizola, exilado no Uruguai. O gaúcho de Carazinho mandou militantes para Cuba, onde os adestraram em guerrilha rural. Em 1967, o pacto com Brizola foi trocado pela aliança com Carlos Marighella, então na clandestinidade. Em julho, Marighella viajou para Havana, onde participou da conferência da Organização Latino-Americana de Solidariedade. Em maio de 1969, o Serviço Nacional de Informações brasileiro elaborou um relatório com base em delação de um desertor da inteligência cubana. Trecho: ''Marighella é atualmente o único líder revolucionário brasileiro recebendo reconhecimento e apoio de Cuba, tendo Fidel Castro dito que 'põe toda sua esperança em Marighella'''. Para Alexina Crespo, ex-mulher do advogado Francisco Julião, das Ligas Camponesas, Fidel disse que Marighella era um ''revolucionário engajado, de caráter''. De acordo com a jornalista Claudia Furiati, biógrafa de Fidel, seu biografado afirmou, sobre o guerrilheiro baiano: É ''um revolucionário de muita lucidez''. Marighella e Fidel se encontraram em Havana. Ao todo, uns 250 brasileiros frequentaram cursos de guerrilha em Cuba, a maioria relativa integrante da ALN (Ação Libertadora Nacional), organização armada fundada por Marighella e o jornalista Joaquim Câmara Ferreira;

10)  Marighella foi assassinado por policiais da ditadura em 4 de novembro de 1969. Nos meses que antecederam sua morte, ele estava contrariado com o que considerava intromissão de agentes cubanos em discussões e decisões de militantes da ALN que estavam na ilha. Marighella enviou uma militante de confiança para cuidar do assunto. Ela foi recebida por Fidel Castro, a quem se queixou;

11) a CIA, que tentou várias vezes matar Fidel, recrutou uma Castro como colaboradora: Juanita, irmã do governante, adotou na agência o codinome ''Donna''. Em suas memórias, Juanita Castro revelou que quem a encaminhara para a agência dos EUA havia sido a brasileira Virgínia Leitão da Cunha, mulher de Vasco Leitão da Cunha, embaixador do Brasil em Havana no alvorecer da Revolução Cubana. Ele foi o primeiro ministro das Relações Exteriores da ditadura parida em 1964.

P.S.: as informações acima constam de uma biografia que escrevi e de outra que estou escrevendo. O livro ''Marighella: O guerrilheiro que incendiou o mundo'' foi publicado pela Companhia das Letras, mesma editora do livro, previsto para 2017, que contará a vida de Carlos Lacerda.

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Sabáticas: Memórias de um glutão
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Mário Magalhães

blog - a festa de babette

A caminho do banquete, no filme ''A Festa de Babette'' – Foto reprodução AlloCiné

 

Uma badalada churrascaria do Rio ousou cobrar em dobro de um solitário comensal que chegou às duas da tarde e partiu às cinco. Como ele atravessou os alegados horários do almoço e do jantar, a conta somou dois rodízios, desaforo que o freguês se negou a pagar.

Ao ler a notícia, lembrei-me de outra casa de carnes carioca que, como a da garfada inusitada, também já ostentou mais saúde e sabores. Foi lá que eu devorei a mais pantagruélica refeição da minha vida de glutão.

Mais ou menos da uma às cinco da tarde de um sábado, um amigo e eu percorremos vorazmente o roteiro completo do que os gaúchos denominam espeto corrido, com acréscimos peculiares como, na largada do banquete, crustáceos grelhados. Depois de nos lambuzarmos com as sobremesas, perguntaram se, enfim, queríamos café. Espantados, ouviram que iríamos recomeçar.

Dito e feito: serviram novamente linguiças, picanha, costela e tudo mais, e põe mais nisso. Ninguém teve de pagar dobrado.

Como telefone celular só existia em filme futurista, quase perdi a namorada aflita, a quem esqueci de avisar sobre a comilança noite adentro. Por sorte, ela perdoou meu incurável pecado da gula e dali a um tempo vivemos experiência semelhante em Nova York.

Num restaurante do West Village, dois jovens japoneses seduziam olhos e estômagos esgrimindo suas facas e honrando o balcão como ateliê culinário. Nem nas viagens ao Japão eu me encantara com sushis e sashimis tão bonitos.

O talento dos garotos como mestres-cucas estava à altura dos seus dotes de artesãos. As pequenas obras de arte esculpidas com peixe cru e bolinhos de arroz eram deliciosas. O jantar não tinha fim.

“The check, sir?”, indagava o garçom, admirado com o desvario do casal fominha. Mais de dez vezes recusei a conta: “The menu, please”. A cada nova dupla de sushis pedida, os sushimen sorriam triunfantes.

A vocação para comilão vem de longe. A memória da família guarda um apelido de infância, Mestre Empadinhas, derivado da minha veneração pelas ditas cujas. Contam que mastiguei com sofreguidão um cacho inteiro de bananas. Noutra feita, acabei no hospital, ao enfiar no ouvido um grão cru de feijão. Dizem que germinou, mas eu tenho cá minhas dúvidas.

(Publicado originalmente na revista Azul Magazine, agosto de 2014)

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Geddel caiu; estão faltando duas cartinhas de demissão…
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Mário Magalhães

BRASILIA, DF, BRASIL, 01-09-2016, 12h00: O ministro da secretaria política Geddel Vieira Lima, durante entrevista à FOLHA, em seu gabinete. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress, PODER) ***EXCLUSIVA*** ***ESPECIAL***

O ministro Geddel Vieira Lima, que pediu demissão – Foto Pedro Ladeira/Folhapress

 

O ministro Geddel Viera Lima pediu as contas.

Faltam duas cartinhas de demissão, não é mesmo, presidente Michel Temer e ministro Eliseu Padilha?

Tudo é história: Geddel foi ministro de Temer e de Luiz Inácio Lula da Silva. No governo Dilma Rousseff, ocupou uma vice-presidência da Caixa Econômica Federal. Acabou como um dos principais articulares do impeachment da presidente.

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Se não há dois critérios, se cair Geddel, Temer tem de cair junto
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Mário Magalhães

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Michel Temer: La Vue – Foto Ueslei Marcelino/Reuters

 

É razoável supor que quem considerava grave a interpelação de Geddel Vieira Lima a Marcelo Calero considera igualmente grave a abordagem de Michel Temer ao então ministro da Cultura. Ambos, Temer e Geddel, com idêntico propósito: mudar, na marra ou com jeitinho, decisão do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Parecer do Iphan vetou a construção de um espigão de 30 andares, batizado La Vue, na orla de Salvador. O presidente e o ministro da Secretaria de Governo contrariaram-se com a decisão do instituto. Calero recusou-se a se curvar ao chefe e ao colega de Ministério. Pediu as contas.

Se não há dois pesos e duas medidas, se Geddel cair, Temer tem de cair junto.

Os louvaminheiros do presidente se apressarão em alegar: Geddel comprou apartamento no edifício, e Temer, não. Logo, seriam casos diferentes.

Não na essência, o ato de servidor público tentar interferir em atribuição de órgão público, o Iphan, para favorecer entidade privada, a construtora do prédio cafona.

Como não assisti a uma só aula de direito, abstenho-me, por inépcia, de tipificar eventuais crimes que poderiam ter sido cometidos.

Socorrem-me os repórteres Camila Mattoso e Leandro Colon. De acordo com integrantes do Ministério Público Federal, um dos crimes a investigar seria o de ''advocacia administrativa, tipificada pelo artigo 321 do Código Penal. Trata-se do ato de 'patrocinar, direta ou indiretamente, interesse privado perante a administração pública, valendo-se da qualidade de funcionário'''.

O outro, crime de responsabilidade.

Além de Temer e Geddel, o ministro Eliseu Padilha (Casa Civil) também reconheceu ter falado com Calero sobre o não aos 30 andares projetados para o La Vue.

A despeito de malabarismos retóricos, eis a real: se não houver critérios distintos, Geddel, Padilha e Temer estão no mesmo barco, inclusive na hipótese de naufrágio.

P.S.: no fim da manhã, Geddel caiu; estão faltando duas cartinhas de demissão…

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Só em republiqueta presidente e governo agem por prédio residencial de luxo
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Mário Magalhães

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Michel Temer, o vice que virou presidente – Foto Pedro Ladeira/Folhapress

 

Um dos aspectos mais grotescos do affair em torno da construção do edifício La Vue é a mobilização do presidente e de ao menos dois ministros para liberar um prédio residencial de luxo vetado por servidores públicos especializados em patrimônio histórico e artístico. E agindo para a Advocacia-Geral da União cuidar do caso. Tudo bancado, do salário dos governantes ao do pessoal da AGU, com o sofrido dinheiro dos contribuintes.

Isso não é coisa de República, mas de republiqueta.

Como quase todo mundo sabe, o ministro Geddel Vieira Lima (Secretaria de Governo) procurou reiteradamente o ministro Marcelo Calero (Cultura) para tratar da edificação projetada com 30 andares em Salvador. Geddel comprara um apartamento no prédio. Calero pediu demissão e contou que o antigo colega de Ministério o pressionara para mudar a decisão do Iphan de proibir o espigão na Ladeira da Barra _o instituto autorizou no máximo 13 pisos. Geddel alega que não o pressionou.

Calero disse à Polícia Federal que o ministro Eliseu Padilha (Casa Civil) também o abordou sobre o La Vue.

Mais grave, o ex-ministro afirmou que, mais de uma vez, Michel Temer teve a mesma atitude.

O presidente e os ministros Geddel e Padilha confirmaram as conversas, mas sustentam que não peitaram Calero.

Tendo peitado ou não, é inaceitável que os pesos pesados do governo interpelem um ministro de Estado por causa de interesses de empreendimento privado como o prédio de nome francês.

Nem discuto agora os investimentos cortados em obras públicas que poderiam gerar milhares de empregos na construção civil.

E sim a intervenção do Planalto num instituto público como o Iphan, para favorecer ambições particulares.

O servidor público deve defender o Estado e os cidadãos, não o bolso de empreiteiros. A regra vale para Temer, Dilma, Lula, FHC, qualquer governante.

A hipocrisia presidencial atingiu o despudor. ''Precisamos aprender no país a respeitar as instituições'', disse recentemente Temer, provocando e avacalhando os adolescentes que ocupam escolas país afora.

Na posse do sucessor de Calero, Temer não pronunciou o nome do antigo ministro, que somente ontem acabou sendo elogiado em nota.

O discurso do presidente na posse de Roberto Freire, sabendo que Calero partira por não ceder ao reclamos do chefe, foi de desfaçatez assombrosa.

Como escrito outro dia, comparado a Temer, Geddel é só um probleminha.

De personagens controversos da República, Temer e seus lugares-tenentes se transformaram em figuras de republiqueta e ópera-bufa.

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Lançamento do livro ‘100 Melhores Filmes Brasileiros’ rola 6ª-feira no Rio
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Mário Magalhães

 

Boa nova: o livro ''100 Melhores Filmes Brasileiros'' será lançado nesta sexta-feira, a partir das 19h, na Livraria Blooks de Botafogo.

A coletânea apresenta uma centena de ensaios, de autoria de uma centena de críticos de cinema, sobre uma centena de filmes.

Nove autores participarão da noite de autógrafos, incluindo a Roni Filgueiras, crítica inspirada e contemporânea querida dos tempos de faculdade.

Roni escreveu sobre ''Ganga Bruta'', clássico de Humberto Mauro da década de 1930.

Até amanhã, na Blooks!

(Abaixo, o blog reproduz o release.)

*

Livro ‘100 Melhores Filmes Brasileiros’ terá lançamento no Rio

Na próxima sexta-feira, dia 25, acontece o lançamento no Rio da publicação 100 Melhores Filmes Brasileiros, organizada pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine), editora Letramento e Canal Brasil, e que reúne ensaios dos mais representativos críticos e estudiosos de cinema em atividade sobre os filmes que se destacaram na história de nossa cinematografia.

A noite de autógrafos carioca, que ocorrerá na Livraria Blooks, dentro do Espaço Itaú de Cinema, reunirá nove dos 100 colaboradores de todo o Brasil desta obra que se destaca pela abrangência de gêneros, metragens e períodos históricos que abarcam a seleção das melhores produções nacionais. Paulo Henrique Silva, presidente da associação, adianta que 100 Melhores Filmes Brasileiros é o primeiro de uma série de livros que serão publicados pela Abraccine nos próximos anos. ''No início de 2017 deverá ser lançado Bernardet 80 Anos: o Impacto de seu Pensamento no Cinema Brasileiro, sobre um dos principais teóricos de cinema do Brasil e do mundo, que completou 80 anos em agosto''.

O livro teve lançamentos regionais, seguindo o calendário dos festivais de cinema (Gramado, Brasília, Mostra de São Paulo) e feiras de livros e continuará em várias praças em 2017. A edição também  inspirou um ciclo com 20 títulos, de setembro até este mês, exibidos no Canal Brasil. Entre os críticos do Rio estarão na livraria de Botafogo: André Miranda (crítico de O Globo, que assinou Vidas Secas), Daniel Schenker (O Globo, que escreveu sobre Anjos do Arrabalde: as Professoras), Francisco Russo (Pra Frente, Brasil), Lucas Salgado (Edifício Master), Marcelo Müller (do site Papo de Cinema analisou Santiago), Ricardo Cota (A Hora e a Vez de Augusto Matraga), Roberto Cunha (Tropa de Elite 2 – O Inimigo Agora É Outro), Roni Filgueiras (analisou o clássico Ganga Bruta) e Susana Schild (O Globo, A Hora da Estrela).

Sobre o livro

Publicação de grande contribuição aos estudos sobre a sétima arte no Brasil, Os 100 Melhores Filmes Brasileiros tem confecção luxuosa, em formato de livro de arte com páginas fartamente ilustradas. São 100 autores, entre associados da entidade criada em 2011 e convidados, que buscaram um viés ensaístico, resultando em análises que certamente se tornarão referência no estudo dos filmes selecionados, partindo de Limite, a mais antiga produção presente na lista, lançada em 1931, e primeira colocada.

Entre as obras analisadas, há desde produções de clássicos diretores, como Glauber Rocha, Leon Hirszman, Nelson Pereira dos Santos, Eduardo Coutinho, Paulo Cezar Saraceni, Rogério Sganzerla e Carlos Reichenbach, a filmes recentes, a exemplo de Cidade de Deus, Central do Brasil, O Palhaço e Que Horas Ela Volta?, o mais jovem da lista.

A escolha dos filmes teve como base uma votação promovida pela Abraccine no ano passado, com 100 associados e convidados de todo o Brasil, divulgada em novembro. É a primeira vez que uma publicação reúne, nessa seleção, curtas-metragens, representados por obras como Di e Ilha das Flores.

Serviço

Lançamento do livro 100 Melhores Filmes Brasileiros no Rio de Janeiro

Sexta-feira, 25 de novembro, a partir das 19h

Livraria Blooks, Espaço Itaú de Cinema

Onde: Praia de Botafogo, 316 – Botafogo, Rio de Janeiro – RJ, 22250-040

Telefone: (21) 2559-8750

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Comparado a Temer, Geddel é só um probleminha
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Mário Magalhães

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O ministro Geddel Vieira Lima, nomeado e prestigiado por Michel Temer – Pedro Ladeira/Folhapress

 

''Tem muita espuma nessa polêmica'', sentenciou o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, acerca do affair Geddel Vieira Lima.

É possível que o deputado tenha razão. Mas é preferível não dizer o que certamente há sob a vasta ou escassa espuma, para preservar de escatologia esta quarta-feira.

Como se sabe, o ministro da Secretaria de Governo procurou o colega titular da Cultura para tratar de um veto do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.

O Iphan barrara um espigão de nome francês e 30 andares que está sendo erguido numa das áreas, a Ladeira da Barra, de vista mais bela da orla de Salvador.

Geddel comprou uma unidade do prédio. Tem outros vínculos, de família, com o negócio.

Marcelo Calero disse que foi pressionado para peitar o Iphan e pediu as contas do Ministério da Cultura.

O chefe da Secretaria de Governo alegou que tratou do La Vue, mas não pressionou ninguém.

Embora um ministro tenha interpelado outro sobre decisão de instituto público contrária aos interesses privados do primeiro, Michel Temer preferiu deixar para lá.

Geddel vem sendo criticado com gosto, o que é saudável para a democracia. Ele faz por merecer. Quanto maior _e sensato_ o espírito crítico, melhor para os cidadãos.

O curioso é que o mesmo espírito crítico se manifesta bem mais tímido em relação a Temer.

Foi ele quem nomeou Geddel, a despeito do currículo, para um posto-chave na administração.

Só quem ignora a trajetória do ministro se surpreende com o episódio na Bahia.

Temer o levou para o coração do Planalto, e agora tenta mantê-lo até quando suportar as pressões tipo ''assim já está pegando mal demais''.

O que é mais grave: Geddel fazer o que fez ou Temer, sabendo o que aconteceu, prestigiar o companheiro?

O líder do governo no Congresso é Romero Jucá. Aquele que pontificou em tempos idos: ''Tem que mudar o governo pra poder estancar essa sangria''.

Temer recebeu um cheque de R$ 1 milhão da Andrade Gutierrez na campanha eleitoral de 2014. Um empreiteiro mudou a versão sobre a natureza do cheque. Preservou o presidente e talvez tenha reverenciado a lei Jucá.

O empresário Marcelo Odebrecht contou que desembolsou R$ 10 milhões a peemedebistas, a pedido de Temer.

As ações atribuídas a Geddel são graves, e o ministro já deveria ter sido demitido.

Mas são menos graves do que as que envolvem Temer, até porque este preside a República.

Para o governo, Geddel é um probleminha.

O problemão se chama Michel Temer.

Se o espírito crítico que escrutina Geddel se aplicasse a Temer com o mesmo vigor, o pai de Michelzinho estaria em apuros.

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