Blog do Mario Magalhaes

Filho de Cabral é único candidato do PMDB à Câmara com duas aparições na TV
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Mário Magalhães

Sérgio Cabral e o filho Marco Antônio, em encontro do PMDB – Foto Zulmair Rocha/UOL

 

Na propaganda eleitoral desta terça-feira no Rio, o único candidato do PMDB à Câmara dos Deputados que apareceu duas vezes jamais ocupou cargo legislativo ou mesmo concorreu em eleições: Marco Antônio Neves Cabral, 23.

O Neves materno é da mesma família do candidato a presidente Aécio Neves (PSDB). Mas o privilégio no programa de televisão, ao menos no exibido à noite, decorre do outro sobrenome _Marco Antônio é filho do ex-governador Sérgio Cabral.

Se o pai tivesse permanecido no governo do Estado, sem ceder o posto ao vice Luiz Fernando Pezão, o estudante de direito não poderia disputar o pleito de 2014, devido ao parentesco.

Agora, não apenas disputa, mas tem a chance de aparecer mais do que outros candidatos do partido. O padrão foi cada um dar o seu recado uma vez, e não duas.

O programa de Marco Antônio Cabral na TV pode ser visto clicando aqui.

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Propaganda na TV: Dilma exibe Lula, Aécio ‘esquece’ FHC
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Mário Magalhães

O maior contraste do primeiro dia da propaganda eleitoral na TV não foi entre o tempão de Dilma Rousseff (PT), o tempo de Aécio Neves (PSDB) e o tempinho do PSB, que logo mais anuncia Marina Silva como candidata.

A principal diferença foi a maneira com que petistas e tucanos parecem encarar o custo-benefício da imagem de seus ex-presidentes.

Os primeiros recorreram a Luiz Inácio Lula da Silva para pedir voto para a correligionária e se manifestar sobre a morte de Eduardo Campos.

Os segundos ignoraram Fernando Henrique Cardoso, como vai se transformando em tradição nas campanhas do partido.

Os marqueteiros ensinam que a comunicação de campanha deve tratar do futuro, e não do passado. Essa percepção não elimina o peso do que foi no que será. Noutras palavras, como a passagem de cada agremiação pelo Planalto pode indicar o porvir.

Na TV, cada um vende seu peixe da melhor forma, submisso à Lei de Ricupero: o que é bom a gente mostra, o que é ruim a gente esconde. A decisão de mostrar um ex-presidente e esconder o outro é pragmática: as pesquisas de uma campanha sugerem que Lula rende voto e que FHC tira. Se não for isso, Fernando Henrique começará a aparecer nos programas de Aécio.

O traço comum na maioria das inserções desta terça-feira foi a reverência à memória de Eduardo Campos. No programa do PSB, Marina Silva apareceu ao lado do companheiro, mas não falou.

Não tem relevância política, mas registro que José Maria Eymael (PSDC) não colocou para tocar seu velho jingle. Revolução eleitoral.

Pastor Everaldo (PSC) é craque ao dar seu recado sozinho, sem interlocutor. No “Jornal Nacional'' de ontem, contudo, a confiança do horário dito gratuito se desmanchou diante das perguntas dos entrevistadores.

À tarde e à noite, o PCB escalou o dirigente Ivan Pinheiro para discursar. O candidato Mauro Iasi não falou.

Está só começando.

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Ditadura: Míriam Leitão conta como, grávida e nua, foi torturada com jiboia
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Mário Magalhães

Reprodução do site do “Observatório da Imprensa''

 

Por muito tempo, a jornalista Míriam Leitão não quis contar como foi sua prisão na época da ditadura. “Para não parecer que me vitimizo'', Míriam me disse há pouco.

Com altivez, ela denunciou os torturadores quando foi interrogada na Justiça Militar, nos anos 1970. Como tantas militantes que combateram a covardia, Míriam é mulher de verdade.

Uma das virtudes dos grandes repórteres é a persistência. E Luiz Cláudio Cunha é um grande repórter. O gaúcho persistiu e convenceu a mineira a falar sobre a quadra sombria em que penou nas mãos da barbárie.

Grávida, Míriam foi torturada nua. Trancaram-na com uma cobra.

É muito provável que um dos seus algozes tenha sido Paulo Malhães, o coronel do Exército morto meses atrás, depois de revelar atrocidades perpetradas contra seres humanos indefesos que ele e seus comparsas torturaram e mataram.

O depoimento histórico de Míriam Leitão a Luiz Cláudio Cunha e a reportagem que acompanha as memórias da ex-presa política estão no site do “Observatório da Imprensa'' (aqui).

Abaixo, o blog publica o que Míriam narrou a Luiz Cláudio:

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*

'Eu sozinha e nua. Eu e a cobra. Eu e o medo'

Eu morava numa favela de Vitória, o Morro da Fonte Grande. Num domingo, 3 de dezembro de 1972, eu e meu companheiro na época, Marcelo Netto, estudante de Medicina, acordamos cedo para ir à praia do Canto, próxima ao centro da capital. Acordei para ir à praia e acabei presa na Prainha. É o bairro que abriga o Forte de Piratininga, essa construção bonita do século 17. Ali está instalado o quartel do 38º Batalhão de Infantaria do Exército, do outro lado da baía.

Eu tinha dado quatro plantões seguidos na redação da rádio Espírito Santo e já tinha quase um ano de profissão. Eu vestia uma camisa branca larga, de homem, sobre o biquini vermelho. Caminhando pela Rua Sete em direção à praia, alguém gritou de repente:

– Ei, Marcelo?

Nos viramos e vimos dois homens correndo em nossa direção com armas. Eu reconheci um rosto que vira em frente à Polícia Federal. Meu ônibus sempre passava em frente à sede da PF e eu tentava guardar os rostos.

– É a Polícia Federal – avisei ao Marcelo

Em instantes estávamos cercados. Apareceram mais homens, mais um carro. Voltei a perguntar:

– O que está acontecendo?

Eles nos algemaram e empurraram o Marcelo para o camburão. Era uma camionete Veraneio, sem identificação. Eu tive uma reação curiosa: antes que me empurrassem sentei no chão da calçada e comecei a gritar, a berrar como louca, queria chamar a atenção das pessoas na rua. Mas ainda era cedo, manhã de domingo, havia pouca gente circulando. Achava que quanto mais gente visse aquela cena, mais chances eu teria de sair viva. Como eu berrava, me puxaram pelos cabelos, me agarraram para me colocar no carro. Eu, ainda com aquela coisa de Justiça na cabeça, reclamei:

– Moço, cadê a ordem de prisão?

O homem botou a metralhadora no meu peito e respondeu com outra pergunta:

– Esta serve?

As algemas eram diferentes, eram de plástico, e estavam muito apertadas, doíam no pulso. Viajamos sem capuz, eu e Marcelo, em direção a Vila Velha, onde fica o quartel do Exército. Eu ainda achava que não era nada comigo, que o alvo era o Marcelo. Ele estava no quarto ano de Medicina e tinha acabado de liderar a única greve de estudantes do país daquele ano, que trancou por dois dias as aulas na universidade de Vitória e paralisou os trabalhos no Hospital de Clínicas. Achei que estava presa só porque estava indo à praia com o Marcelo.

A Veraneio entrou no pátio do quartel, o batalhão de infantaria. Nos levaram por um corredor e nos separaram. Marcelo foi viver seu inferno, que durou 13 meses, e eu o meu. Sobre mim jogaram cães pastores babando de raiva. Eles ficavam ainda mais enfurecidos quando os soldados gritavam: “Terrorista, terrorista!”. Pareciam treinados para ficar mais bravos quando eram incitados pela palavra maldita. De repente, os soldados que me cercavam começaram a cantar aquela música do Ataulfo Alves: “Amélia não tinha a menor vaidade/ Amélia é que era mulher de verdade”. Só então percebi que minha prisão não era um engano. “Amélia” era o codinome que o meu chefe de ala no PCdoB tinha escolhido pra mim: “Você, a partir de agora, vai se chamar Amélia”. Quis reagir na hora, afinal não tenho nada de Amélia, mas não quis discordar logo na primeira reunião com o dirigente.

O comandante do batalhão era o coronel Sequeira [tenente-coronel Geraldo Cândido Sequeira, que exerceu o comando do 38º BI entre 10 de março de 1971 a 13 de março de 1973], que fingia que mandava, mas não via nada do que acontecia por lá. O homem que de fato mandava naquele lugar, naquele tempo, era o capitão Guilherme, o único nome que se conhecia dele. Ele era o chefe do S-2, o setor de inteligência do batalhão. Todos os interrogatórios e torturas estavam sob a coordenação dele. Ele pessoalmente nada fazia, mas a ele tudo era comunicado. Nesse primeiro dia me deu um bofetão só porque eu o encarei.

– Nunca mais me olhe assim! – avisou.

Fui levada para uma grande sala vazia, sem móveis, com as janelas cobertas por um plástico preto. Com a luz acesa na sala, vi um pequeno palco elevado, onde me colocaram de pé e me mandaram não recostar na parede. Chegaram três homens à paisana, um com muito cabelo, preto e liso, um outro ruivo e um descendente de japonês. Mandaram eu tirar a roupa. Uma peça a cada cinco minutos. Tirei o chinelo. O de cabelo preto me bateu:

– A roupa! Tire toda a roupa.

Fui tirando, constrangida, cada peça. Quando estava nua, eles mandaram entrar uns 10 soldados na sala. Eu tentava esconder minha nudez com as mãos. O homem de cabelo preto falou:

– Posso dizer a todos eles para irem pra cima de você, menina. E aqui não tem volta. Quando começamos, vamos até o fim.

Os soldados ficaram me olhando e os três homens à paisana gritavam, ameaçando me atacar, um clima de estupro iminente. O tempo nessas horas é relativo, não sei quanto tempo durou essa primeira ameaça. Viriam outras.

Eles saíram e o homem de cabelo preto, que alguém chamou de Dr. Pablo, voltou trazendo uma cobra grande, assustadora, que ele botou no chão da sala, e antes que eu a visse direito apagaram a luz, saíram e me deixaram ali, sozinha com a cobra. Eu não conseguia ver nada, estava tudo escuro, mas sabia que a cobra estava lá. A única coisa que lembrei naquele momento de pavor é que cobra é atraída pelo movimento. Então, fiquei estática, silenciosa, mal respirando, tremendo. Era dezembro, um verão quente em Vitória, mas eu tremia toda. Não era de frio. Era um tremor que vem de dentro. Ainda agora, quando falo nisso, o tremor volta. Tinha medo da cobra que não via, mas que era minha única companhia naquela sala sinistra. A escuridão, o longo tempo de espera, ficar de pé sem recostar em nada, tudo aumentava o sofrimento. Meu corpo doía.

Não sei quanto tempo durou esta agonia. Foram horas. Eu não tinha noção de dia ou noite na sala escurecida pelo plástico preto. E eu ali, sozinha, nua. Só eu e a cobra. Eu e o medo. O medo era ainda maior porque não via nada, mas sabia que a cobra estava ali, por perto. Não sabia se estava se movendo, se estava parada. Eu não ouvia nada, não via nada. Não era possível nem chorar, poderia atrair a cobra. Passei o resto da vida lembrando dessa sala de um quartel do Exército brasileiro. Lembro que quando aqueles três homens voltaram, davam gargalhadas, riam da situação. Eu pensava que era só sadismo. Não sabia que na tortura brasileira havia uma cobra, uma jiboia usada para aterrorizar e que além de tudo tinha o apelido de Míriam. Nem sei se era a mesma. Se era, talvez fosse esse o motivo de tanto riso. Míriam e Míriam, juntas na mesma sala. Essa era a graça, imagino.

Dr. Pablo voltou, depois, com os outros dois, e me encheu de perguntas. As de sempre: o que eu fazia, quem conhecia. Me davam tapas, chutes, puxavam pelo cabelo, bateram com minha cabeça na parede. Eu sangrava na nuca, o sangue molhou meu cabelo. Ninguém tratou de minha ferida , não me deram nenhum alimento naquele dia, exceto um copo de suco de laranja que, com a forte bofetada do capitão Guilherme, eu deixei cair no chão. Não recebi um único telefonema, não vi nenhum advogado, ninguém sabia o que tinha acontecido comigo, eu não sabia se as pessoas tinham ideia do meu desaparecimento. Só três dias após minha prisão é que meu pai recebeu, em Caratinga, um telefonema anônimo de uma mulher dizendo que eu tinha sido presa. Ele procurou muito e só conseguiu me localizar no fim daquele dezembro. Havia outros presos no quartel, mas só ao final de três semanas fui colocada na cela com a outras presas: Angela, Badora, Beth, Magdalena, estudantes, como eu.

Fiquei 48 horas sem comer. Eu entrei no quartel com 50 kg de peso, saí três meses depois pesando 39 kg. Eu cheguei lá com um mês de gravidez, e tinha enormes chances de perder meu bebê. Foi o que médico me disse, quando saí de lá, com quatro meses de gestação. Eu estava deprimida, mal alimentada, tensa, assustada, anêmica, com carência aguda de vitamina D por falta de sol. Nada que uma mulher deve ser para proteger seu bebê na barriga. Se meu filho sobrevivesse, teria sequelas, me disse o médico.

– A má notícia eu já sei, doutor, vou procurar logo um médico que me diga o que fazer para aumentar as chances do meu filho.

Mas isso foi ao sair. Lá dentro achei que não havia chance alguma para nós. Eu era levada de uma sala para outra, numa área administrativa do quartel, onde passava por outras sessões de perguntas, sempre as mesmas, tudo aos gritos, para manter o clima de terror, de intimidação. Na noite seguinte, atravessei a madrugada com uma sessão de interrogatório pesado, o Dr. Pablo e os outros dois berrando, me ameaçando de estupro, dizendo que iam me matar. Um dia achei que iria morrer. Entraram no meio da noite na cela do forte para onde eu fui levada após esses dois dias. Falaram que seria o último passeio e me levaram para um lugar escuro, no pátio do quartel, para simular um fuzilamento. Vi minha sombra refletida na parede branca do forte, a sombra de um corpo mirrado, uma menina de apenas 19 anos. Vi minha sombra projetada cercada de cães e fuzis, e pensei: “Eu sou muito nova para morrer. Quero viver”.

Um dia, um outro militar, que não era nenhum daqueles três, botou um revólver na minha cabeça e falou: “Eu posso te matar”. E forçou aquele cano frio na minha testa. Me deu um sentimento enorme de solidão, de abandono. Eu me senti absolutamente só no mundo. Pela falta de notícias, imaginava que o Marcelo estava morto. Entendi que iria morrer também e que ninguém saberia da minha morte, pensei. Mas não quis demonstrar medo. Lembro que o homem do revólver tinha olhos azuis. Olhei nos seus olhos e respondi: “Sim, você pode pode me matar”. E repeti, falando ainda mais alto, com ar de desafio: “Sim, você pode!”

Um dos interrogatórios foi feito na sala do capitão Guilherme, o S-2 que mandava em todos ali. Era noite, ele não estava, e me interrogaram na sala dele. Lembro dela porque havia na parede um quadro com a imagem do Duque de Caxias. Estava ainda com o biquíni e a camisa, era a única roupa que eu tinha, que me protegia. Nessa noite, na sala, de novo fui desnudada e os homens passaram o tempo todo me alisando, me apalpando, me bolinando, brincando comigo. Um deles me obrigou a deitar com ele no sofá. Não chegaram a consumar nada, mas estavam no limite do estupro, divertindo-se com tudo aquilo.

Eu estava com um mês de gravidez, e disse isso a eles. Não adiantou. Ignoraram a revelação e minha condição de grávida não aliviou minha condição lá dentro. Minha cabeça doía, com a pancada na parede, e o sangue coagulado na nuca incomodava. Eu não podia me lavar, não tinha nem roupa para trocar. Quando pensava em descansar e dormir um pouco, à noite, o lugar onde estava de repente era invadido, aos gritos, com um bando de pastores alemães latindo na minha cara. Não mordiam, mas pareciam que iam me estraçalhar, se escapassem da coleira. E, para enfurecer ainda mais os cães, os soldados gritavam a palavra que enlouquecia a cachorrada: “Terrorista, terrorista!…”

As primeiras três semanas que passei lá foram terríveis. Só melhorou quando o Dr. Pablo e seus dois companheiros foram embora. Entendi então que eles não pertenciam ao quartel de Vila Velha. Tinham vindo do Rio, é o que chegaram a conversar entre eles, em papos casuais: “E aí, quando voltarmos ao Rio, o que a gente vai fazer lá…” Isso fazia sentido, porque o quartel de Vila Velha integra o Comando do I Exército, hoje Comando do Leste, que tem o QG no Rio de Janeiro.

Quando o trio voltou para o Rio, a situação ficou menos ruim. Eles já não tinham mais nada para perguntar. Me tiraram da cela da fortaleza e me levaram para a cela coletiva. Foi melhor. Na cela do forte não havia janelas, a porta era inteiriça e minhas companhias eram apenas as baratas. Fiz uma foto minha, agora em 2011, ao lado da porta.

Até que chegou o dia de assinar a confissão, para dar início ao IPM, o inquérito policial-militar que acontecia lá mesmo, dentro do quartel. Me levaram para a sala do capitão Guilherme, o S-2, e levei um susto. Lá estava o Marcelo, que eu pensava estar morto. Os militares saíram da sala e nos deixaram sozinhos. Quando eu fui falar alguma coisa, o Marcelo me fez um sinal para ficar calada. Ele levantou, foi até a parede e levantou o quadro do Duque de Caxias. Estava cheio de fios e microfones lá atrás. Era tudo grampo.

Depois disso, o Marcelo foi levado para o Regimento Sampaio, na Vila Militar, no Rio de Janeiro, e lá ficou nove meses numa solitária. Sem banho de sol, sem nada para ler, sem ninguém para conversar. Foi colocado lá para enlouquecer. Nove longos e solitários meses… Nós, todos os presos, e os que já estavam soltos nos encontramos mais ou menos em junho na 2ª Auditoria da Aeronáutica, para o que eles chamam de sumário de culpa, o único momento em que o réu fala. Eu com uma barriga de sete meses de gravidez. O processo, que envolvia 28 pessoas, a maioria garotos da nossa idade, nos acusava de tentativa de organizar o PCdoB no estado, de aliciamento de estudantes, de panfletagem e pichações. Ao fim, eu e a maioria fomos absolvidos. O Marcelo foi condenado a um ano de cadeia. Nunca pedi indenização, nem Marcelo. Gostaria de ouvir um pedido de desculpas, porque isso me daria confiança de que meus netos não viverão o que eu vivi. É preciso reconhecer o erro para não repeti-lo. As Forças Armadas nunca reconheceram o que fizeram.

Nunca mais vi o capitão Guilherme, o S-2 que comandou tudo aquilo. Uma vez ele apareceu no Superior Tribunal Militar como assessor de um ministro. Marcelo foi expulso do curso de Medicina, após a prisão, e virou jornalista. Fomos para Brasília em 1977. Por ironia do destino, Marcelo só conseguiu vaga de repórter para cobrir os tribunais. E lá no STM, um dia, ele reviu o capitão Guilherme. Depois disso, não soubemos mais dele. Nem sei se o S-2 ainda está vivo.

O que eu sei é que mantive a promessa que me fiz, naquela noite em que vi minha sombra projetada na parede, antes do fuzilamento simulado. Eu sabia que era muito nova para morrer. Sei que outros presos viveram coisas piores e nem acho minha história importante. Mas foi o meu inferno. Tive sorte comparado a tantos outros.

Sobrevivi e meu filho Vladimir nasceu em agosto forte e saudável, sem qualquer sequela. Ele me deu duas netas, Manuela (3 anos) e Isabel (1). Do meu filho caçula, Matheus, ganhei outros dois netos, Mariana (8) e Daniel (4). Eles são o meu maior patrimônio.

Minha vingança foi sobreviver e vencer. Por meus filhos e netos, ainda aguardo um pedido de desculpas das Forças Armadas. Não cultivo nenhum ódio. Não sinto nada disso. Mas, esse gesto me daria segurança no futuro democrático do país. [Depoimento a Luiz Cláudio Cunha]


Garotinho quase duplica intenção de voto espontânea, mas rejeição se mantém
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Mário Magalhães

 

Com a retumbante queda de seis pontos (24% para 18%) do candidato Marcelo Crivella (PRB), deixando Anthony Garotinho (PR) líder isolado (25%) na corrida pelo governo do Estado do Rio, a pesquisa Datafolha de agosto teve dois aspectos minimizados em relação ao levantamento de julho.

O primeiro foi o vigoroso avanço de Garotinho na intenção espontânea de voto, aquela em que o entrevistador não cita ao entrevistado o nome de candidatos. O ex-governador pulou de 7% para 12%, além da margem de erro de três pontos percentuais. Subiu 71% em um mês.

É muito provável que o desempenho de Garotinho na cobertura eleitoral da TV Globo tenha sido decisivo. Com domínio do meio, o deputado federal trata de um só assunto, busca um cenário associado ao tema, faz um diagnóstico crítico, relembra programas sociais de sua administração e propõe soluções (ou divulga promessas). Tudo em pouco tempo.

Em voto espontâneo, Luiz Fernando Pezão (PMDB) permaneceu com 8%, Crivella oscilou de 4% para 5% e Lindberg Farias (PT) seguiu com 2%.

O segundo aspecto minimizado na pesquisa é que mesmo tendo crescido na intenção de voto espontânea e oscilado para cima nas respostas estimuladas (24% para 25%), quando a lista de postulantes é informada, Garotinho manteve a enorme rejeição. Os entrevistados que disseram que não votariam nele “de jeito nenhum'' no primeiro turno passaram de 39% para 40%.

O problema é tamanho para Garotinho que Crivella, batido por 25% a 18% no levantamento estimulado, venceria hoje Garotinho em eventual segundo turno: 44% a 32%.

Outra informação relevante do Datafolha é a resposta à pergunta sobre “a área de pior desempenho do governo do Estado do Rio de Janeiro''. Disparado, o item “saúde/hospitais'' liderou com 53%. Os adversários do governador-candidato Pezão vão explorar esse tema na propaganda eleitoral da TV.

No geral, diante do cartão com todos os candidatos, o resultado do Datafolha é o que aparece na ilustração lá no alto, reprodução da “Folha''.

A tendência continua a mesma no Rio de Janeiro: deve haver segundo turno, Pezão deve ser um dos contendores, e Garotinho, Crivella e Lindberg devem definir a segunda vaga.

É cedo para prever algum impacto da candidatura presidencial da evangélica (como Garotinho e Crivella) Marina Silva (PSB) na disputa pelo Palácio Guanabara.

Para ler a íntegra do relatório do Datafolha, basta clicar aqui.

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‘Observatório da Imprensa’ faz série sobre função de ombudsman
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Mário Magalhães

Na “Folha'' desta segunda-feira:

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'Observatório da Imprensa' faz série sobre ombudsman

O programa “Observatório da Imprensa'' inicia nesta segunda (18) uma série sobre o cargo de ombudsman no jornalismo brasileiro, que completa 25 anos em setembro.

“Ombudsman'' é uma palavra sueca que significa representante do cidadão. Na imprensa, o termo é utilizado para designar o representante dos leitores num jornal.

A função de ombudsman de imprensa foi criada nos EUA, nos anos 1960. No Brasil, a Folha foi o primeiro jornal a adotá-la. Em 24 de setembro de 1989, passou a publicar semanalmente a coluna de seu ombudsman.

Entre suas atribuições estão receber, investigar e encaminhar queixas de leitores; realizar a crítica interna e, uma vez por semana, aos domingos, produzir uma coluna de comentários críticos sobre os meios de comunicação.

Intitulada “A Voz dos Ouvidores'', a série do “Observatório da Imprensa'', terá oito programas. Em cada um deles, o jornalista e apresentador Alberto Dines entrevista dois convidados.

A estreia é com Caio Túlio Costa, primeiro ombudsman da Folha, e Vera Guimarães Martins, no cargo desde maio. Até hoje, 11 jornalistas já ocuparam o posto no jornal.

Com exceção de Renata Lo Prete, que não pode participar por problemas de agenda, os outros dez falarão ao novo programa: Mario Vitor Santos, Junia Nogueira de Sá, Marcelo Leite, Bernardo Ajzenberg, Marcelo Beraba, Mário Magalhães, Carlos Eduardo Lins da Silva e Suzana Singer.

Também serão entrevistados dois representantes do jornal cearense “O Povo'' (o biógrafo Lira Neto e a jornalista Daniela Nogueira), que mantém o cargo há 20 anos.

Completam a lista o cineasta Jorge Furtado (diretor do documentário sobre jornalismo “O Mercado de Notícias'') e o ator e roteirista Fábio Porchat, apresentador do programa “Tudo pela Audiência''.

Para ler a íntegra da matéria e conhecer a programação da série do “Observatório'', basta clicar aqui.


Dunga ofende memória do futebol e cria clima com Neymar
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Mário Magalhães

Dunga, técnico da seleção – Foto Julio Cesar Guimarães/UOL

 

O entrevistador Luiz Maklouf Carvalho, tremendo repórter, perguntou:

“Sem meias palavras, Neymar é craque ou não é?''

Dunga, o entrevistado, entrou de carrinho:

“Ele é o melhor jogador brasileiro. Para ter carimbo de craque, tem de ter o carimbo de campeão do mundo nas costas. Mas vamos trabalhar, na Seleção, para ele jogar acima da média que define um craque''.

Noutros termos, o técnico da seleção disse que Neymar não é craque.

A declaração, feita à revista “Época'' (a íntegra da entrevista está aqui), ofende a memória do futebol.

É tão estúpida que tira o “carimbo de craque'' de Zico, Platini, Cruijff, Di Stéfano, Leandro, Zizinho, Puskas, Sócrates, Messi e uma infinidade de craques. Nenhum deles venceu uma Copa.

A aberração é tamanha que, conforme o critério de Dunga, ele, campeão em 94, foi mais jogador do que Falcão.

Beira a insanidade.

Se fosse mais uma dessas afirmações de Dunga às quais nos habituamos, passaria quase em branco. Mas ele agora se pronuncia como treinador da seleção.

Deve achar que motiva Neymar. Ocorre o contrário. Como sua sentença é absurda demais, cria constrangimento ao jovem craque brasileiro.

Haja ressentimento!

Cheiro estranho no ar, melhor tapar o nariz.

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Primeiro retrato: Marina é ruim para Dilma e muito pior para Aécio
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Mário Magalhães

 

O retrato da disputa presidencial recém-divulgado pelo Datafolha foi feito em circunstâncias excepcionais, a comoção pela morte de Eduardo Campos (a ilustração acima saiu na “Folha'' desta segunda-feira). No rol de candidatos apresentados, o do PSB passou a ser Marina Silva, a vice da chapa do neto de Miguel Arraes. Só adivinhos sabem se o levantamento agora recolhe intenções de voto vitaminadas na antiga senadora ou se marca apenas o começo da sua ascensão. Recuso-me a chutar.

Algumas impressões, contudo, são fortes.

Com uma postulante que aparece quatro pontos à frente de Dilma Rousseff no segundo turno, se os próceres do PSB não confirmarem Marina, firmam o atestado de óbito da legenda (a ambientalista ostenta 47% a 43% contra a petista, empate técnico, no limite da margem de erro de 2 pontos).

O resultado do Datafolha sacramenta Marina candidata, com autoridade para impor condições ao partido que hoje a abriga.

Marina castiga tanto a campanha da presidente quanto a do tucano Aécio Neves.

De julho para cá, a aprovação (ótimo/bom) ao governo Dilma subiu de 32% para 38%. Porém, com Marina na corrida, a postulante à reeleição manteve os 36% de intenção de voto.

Aécio prosseguiu com os mesmos 20%.

Em suma, PSB trocou os 8% de Eduardo Campos no mês passado pelos 21% de Marina em agosto possivelmente colhendo simpatia entre quem não pretendia escolher nem o PT nem o PSDB.

O estrago, todavia, não é igual na campanha dois dois antigos líderes das pesquisas. A aprovação ao governo rendeu a Dilma o aumento de quatro para oito pontos (47% a 39%) sobre Aécio em eventual segunda volta entre eles.

Dilma continua com seu lugar no segundo turno, rodada final que antes não era certa, mas que sempre tive como provável.

Já Aécio, e por isso o senador perde muito mais com o novo cenário, é a passagem ao embate derradeiro que passa a estar ameaçada. Para chegar lá, ele terá que confrontar Marina, mesmo sem contundência, o que poderia levá-lo a perder o apoio de eleitores da ex-ministra, no caso de segundo turno PT x PSDB.

As vigorosas manifestações de junho de 2013 exibiram uma babel de vozes. Entre elas, e talvez a mais marcante, os gritos de “sem partido''. Embora em um partido tradicional, Marina e sua rede tendem a se beneficiar dos ecos do ano passado.

Com Marina no jogo, há repercussões até em pequenos partidos. O Psol tinha um grupo disposto a apoiar a campanha presidencial de Marina pela Rede, agrupamento que não conseguiu se legalizar a tempo de concorrer. Com a adesão a Eduardo Campos, aqueles psolistas desistiram da aliança. E agora, vão abandonar a ex-deputada Luciana Genro, candidata do Psol ao Planalto?

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Há 45 anos, guerrilha tomou rádio e transmitiu manifesto de Marighella
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Mário Magalhães

 

blog - val

“Diário da Noite'', vespertino paulistano, edição de 15 de agosto de 1969

 

Com uma reportagem de fôlego em texto e áudio, o repórter Leandro Melito reconstituiu nesta sexta-feira no Portal EBC um dos maiores feitos propagandísticos da luta armada contra a ditadura, ocorrido na manhã de 15 de agosto de 1969: a transmissão pela Rádio Nacional, de São Paulo, de um manifesto escrito pelo guerrilheiro Carlos Marighella (1911-1969), então proclamado pelo regime como o inimigo público número 1.

Para ler a matéria “Há 45 anos, organização de Marighella tomava transmissores de rádio'', basta clicar aqui.

Os guerrilheiros da Ação Libertadora Nacional, organização dirigida por Marighella e o jornalista Joaquim Câmara Ferreira (1913-1970), pretendiam driblar a censura aos meios de comunicação, veiculando mensagem de oposição ao governo.

Ao contrário do que muita gente supõe, os militantes não ocuparam os estúdios da emissora, em São Paulo, mas as instalações onde ficavam seus transmissores, para os lados de Diadema.

A Rádio Nacional paulista, em contraste com a homônima carioca, não era pública, e sim propriedade das Organizações Globo.

Marighella queria, porém seus companheiros não o deixaram participar da ação.

A voz que os ouvintes escutaram gravada numa fita não era a de Marighella, mas a do jovem guerrilheiro Gilberto Luciano Belloque, entrevistado na ótima reportagem de Leandro Melito.

O único preso em seguida à transmissão foi o valente jornalista Hermínio Sacchetta, que dirigia o vespertino “Diário da Noite''. Somente esse jornal publicou o manifesto na íntegra, conforme Sacchetta havia combinado com seu velho amigo Câmara Ferreira.

O jornal foi apreendido das bancas, mas a maioria dos exemplares já havia sido vendida.

Nem o título em tom crítico (“terroristas''…), para disfarçar, conseguiu livrar Sacchetta de duas semanas de cana, da demissão do “Diário da Noite'' e de cinco anos sem emprego, barrado em todos os jornais.

Sacchetta, que se opunha à guerrilha como instrumento de luta contra a ditadura, jamais se arrependeu da ajuda que deu a Câmara Ferreira, Marighella e os militantes da ALN.

O episódio inspirou um belo clipe dos Racionais, “Mil faces de um homem leal'', com direção de Daniel Grinspum (assista aqui).

Na biografia “Marighella – O guerrilheiro que incendiou o mundo'' (Companhia das Letras), eu conto em minúcias a tomada da rádio, no capítulo “Quem não se comunica se trumbica''.

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Fluminense vai ao tapetão contra o América… Brincadeira do ‘Meia Hora’!
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Mário Magalhães

 

valee

 

Enquanto corria a barca, isto é, a história do Brasil, anteontem o Fluminense levava um chocolate humilhante do América de Natal, 5 a 2 no Maracanã, e era eliminado da Copa do Brasil.

De brincadeira, o jornal carioca “Meia Hora'', inspirado na trajetória recente do tricolor, sugeriu nesta sexta-feira um recurso ao tapetão para o Flu permanecer na competição mata-mata.

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