Blog do Mario Magalhaes

Rio: Polícia Militar reage conforme noticiário
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Mário Magalhães

Aviso à margem da lagoa Rodrigo de Freitas - Foto Marcelo Piu/Agência O Globo

Aviso à margem da lagoa Rodrigo de Freitas – Foto Marcelo Piu/Agência O Globo

 

Havia um prefeito do Rio que concorria com o sol para ver quem acordava mais cedo. Ele principiava o dia na internet, consultando a seção de cartas do jornal “O Globo''. O espaço é tradicional amplificador de queixas sobre mazelas urbanas. Por e-mail ou, um pouco mais tarde, por telefone, o prefeito instava os secretários a solucionarem com urgência os problemas que afligiam os leitores.

Quem tinha conhecimento de tal hábito galhofava: o governante define prioridades conforme as cartas que lê; analfabetos estavam ferrados.

Conhecedor da idiossincrasia, um servidor municipal estava cansado de apelar a determinado órgão da prefeitura para resolver um rolo na Urca. Esperto, escreveu para “O Globo'' com nome falso, a carta foi veiculada, e na mesma manhã da publicação uma tropa de funcionários deu conta do recado.

É mais ou menos o que acontece hoje com o policiamento na cidade e adjacências. A Polícia Militar sabe onde ocorrem mais assaltos, porém só se mobiliza com determinação visível depois que os crimes ecoam no noticiário. Isto é, após notícias ruins.

Tome-se o exemplo do médico Jaime Gold, o ciclista covardemente assassinado a facadas na terça-feira, às margens da lagoa Rodrigo de Freitas. A lagoa tem tido presença limitada de PMs e guardas municipais, como sabe qualquer um que circule pela sua ciclovia de quase oito quilômetros. Desde ontem, não faltam policiais por lá.

Ou da Cinelândia. Quase abandonado, um dos corações do Rio (nossa cidade tem muitos corações) vinha sendo cenário de mais de um roubo diário. Daqui da minha redação de um jornalista só, eu ouvia a gritaria cotidiana de pega ladrão. Três semanas atrás, escutei berros na rua Álvaro Alvim. Alarme falso, era um ratão gigantesco assustando os pedestres. Dali a meia hora, os berros denunciaram mais um assalto.

Pelas dez da manhã de hoje, deparei-me na Cinelândia com PMs a pé, a cavalo, em carro estacionado diante da Câmara, além de numerosos guardas municipais. A mudança sobreveio depois de a TV Globo exibir cena de ladrões atacando e esfaqueando aqui pertinho.

Há um sem-número de lugares mal policiados. O aterro do Flamengo, onde muita gente corre e pratica outros esportes, é um deles. Para receber a atenção devida, só com mais tragédias.

Se é assim no Centro e na zona sul, imagine onde a população só vira notícia em caso de desgraça grande, tipo, e olhe lá, um botijão de gás explodir e matar uma família inteira. Como é sabido, repetido, e a poucos comove, a média de PMs por habitantes é muitíssimo maior nos bairros de moradores mais ricos do que nos de pobres.

Os índices oficiais de criminalidade costumam ser alardeados pelas autoridades de segurança pública para defender essa ou aquela ideia. Mas os concernentes a furtos e roubos são relativos, porque parcela expressiva das vítimas desistiu de registrar os delitos. Muitas só vão à delegacia ou recorrem aos serviços online quando são obrigadas, por exigências para a emissão de novos documentos.

A crescente impressão de falta de policiamento do Rio vai sendo confirmada pela crônica dos roubos com emprego de facas. O problema se agrava também em virtude dos contingentes ocupados com o programa das ditas unidades de polícia pacificadora. Sem abordar aqui méritos e deméritos das UPPs, elas exigem recursos humanos que são retirados de outras funções. Devido a necessidades políticas e eleitorais, o programa mais importante do governo estadual na segurança foi  ampliado sem que houvesse suficiente aumento dos efetivos. Por isso há tanto lugar com parco ou nenhum policiamento.

A PM corre de um lado para o outro de acordo com o noticiário. Não dá conta do que tem que dar, sustentada que é com os impostos dos cidadãos. Cobertor curto, cobre aqui, descobre acolá.

Aparentemente, as autoridades achavam que estava tudo bem encaminhado, considerando seus valores e objetivos. Diante das evidências, o discurso triunfal foi substituído por desabafos e, no debate sobre responsabilidades, jogo de empurra.

O que não muda é a vocação policial de tratar como bandidos os moradores de favelas e comunidades humildes. Às vésperas da Páscoa, assassinaram o menino Eduardo de Jesus, 10, no complexo do Alemão. Agora, um policial civil reconhece ter matado dois jovens no morro do Dendê. Se fosse no Leblon, a casa teria caído.

Para proteger aposentados que vão ao banco retirar seus modestos proventos, falta PM. Para reprimir sem-teto e outros miseráveis, nunca. O Estado envia policiais para os morros, mas não serviços sociais elementares.

Não faltam interpretações sociológicas e até psicanalíticas para a violência de assaltantes que têm esfaqueado mesmo quem não reage. Um elemento para entender a selvageria é a disseminação do crack. Quando mais o crack progride, maior é a desgraça social, incluindo a violência. Não digo que o crack tenha influenciado o que ocorreu na lagoa. Mas em muitos episódios, pesou.

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Se vale o programa na TV, o PSDB aposta em 2018, e não no impeachment
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Mário Magalhães

 

A frase mais significativa no programa de dez minutos que o PSDB levou ao ar na TV na noite de ontem foi pronunciada por Fernando Henrique Cardoso, concorde-se ou não com a opinião do ex-presidente: “A raiz da crise atual foi plantada bem antes da eleição da atual presidente. Os enganos e desvios começaram já no governo Lula''.

(Para assistir ao programa, basta clicar na imagem no alto.)

A manifestação do mais influente integrante do partido que governou o Brasil por oito anos consolida a escolha partidária de não apostar na proposta de impeachment da presidente constitucional.

“Sangram'' Dilma, na expressão do senador Aloysio Nunes Ferreira Filho, para desidratar o antagonista mais robusto na disputa de 2018 pelo Planalto, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Se houve um grande derrotado na emissão televisiva tucana, foi o estandarte do afastamento de Dilma.

Ele é recusado por peessedebistas que reconhecem o resultado legítimo das urnas e a inexistência de provas de participação da presidente em falcatruas.

Por quem, não guardando pudores em relação ao impeachment, não quer entregar o país diretamente ao PMDB, a agremiação de Michel Temer, o vice que assumiria.

E pelos aspirantes que no cenário atual são coadjuvantes do protagonista, o senador Aécio Neves. Dando nome aos bois, o governador Geraldo Alckmin e o senador José Serra, que não apareceram no programa de TV, ao contrário de Aécio.

Se ao bater no governo o PSDB agradou o eleitorado que rejeita Dilma e o PT, frustrou aqueles que tremulam a bandeira do impeachment.

O deputado Carlos Sampaio denunciou a mudança nas regras do seguro-desemprego, silenciou sobre os índices de brasileiros sem trabalho nos anos FHC e foi obrigado a calar na sua habitual pregação pró-impeachment.

Fica claro que, salvo reviravolta hoje improvável, o próximo presidente da República será escolhido no voto, em 2018, para sorte da democracia.

Mesmo sabendo do risco, que se confirmou, de ser alvo de panelaços, Lula deu a cara no programa do PT na televisão, avisando que ao menos não está fora da batalha sucessória.

FHC mirou seus dardos de maior calibre em Lula, evidenciando ser este o maior oponente.

Cada vez mais Dilma, dona de indigentes índices de aprovação popular, será vinculada a Lula.

O impeachment murchou.

O jogo de 2018 já está sendo jogado.

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Agora é oficial: jornalismo no Facebook será submetido à censura
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Mário Magalhães

O Facebook censurou esta foto, depois recuou. E se não recuasse? – Reprodução Ministério da Cultura

 

“O jornalismo no Facebook será censurado?'', indagou o blog outro dia.

Sim, respondeu o Facebook, como informa hoje reportagem de Nelson de Sá.

Noutras palavras, ao veicular diretamente nessa plataforma de mídia social o material que produzem, as organizações jornalísticas passam a se submeter a um conjunto de valores e regras alheios.

Exemplo: se um editor do “New York Times'' julga relevante publicar a fotografia de três mulheres de seios nus, protestando diante de um mandatário qualquer, a notícia pode ser banida do Facebook, caso um funcionário desta corporação (“comunidade'' é nome fantasia) considere que aparecem demasiados mamilos na imagem.

Na intermediação entre o fato e sua difusão jornalística o Facebook se impõe como censor.

Trata-se de perigo para o jornalismo e a cidadania.

A concentração midiática implica a generalização dos valores do Facebook. Não é o caso de discutir se são sábios ou estúpidos, mas de reconhecer que a diversidade de critérios e a pluralidade de vozes vitaminam a democracia.

Cada empreitada do jornalismo mantém seus próprios códigos e padrões. Na década de 1980, um jornal no qual eu trabalhava proibia a publicação de qualquer palavrão (um dia eu conto como, em 1987, emplaquei um montão deles).

Hoje estampa sem cerimônia palavrões até na primeira página, e mais ainda na internet. É direito do jornal proceder assim ou assado. Mas passará a se sujeitar às idiossincrasias do Facebook, se vier a nele veicular matérias inteiras, e não apenas, como hoje, somente o link.

A fotografia lá no alto foi divulgada na página do Ministério da Cultura no Facebook. Ameaçado de processo, por violar a legislação brasileira que assegura a livre circulação de informações, o Facebook voltou atrás.

E se não voltasse?

Por enquanto, a encrenca maior é com a nudez. Se o princípio é o da censura, abre-se o caminho para banir outros conteúdos jornalísticos legítimos, porém incômodos.

O blog reproduz abaixo a reportagem que saiu hoje na “Folha'':

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Facebook vai censurar nudez em notícias publicadas no Instant Articles

Por Nelson de Sá

Lançado na quarta-feira (13), o projeto Instant Articles, do Facebook, para publicar na plataforma reportagens do jornal “The New York Times'', do “BuzzFeed'' e de mais sete veículos americanos e europeus, não poderá incluir nudez ou “ameaça direta à segurança pública''.

“Esse conteúdo não é tratado de forma diferente de todos os outros publicados no Facebook'', afirmou a assessoria de imprensa da rede social. “Solicitamos que todo conteúdo publicado diretamente obedeça aos nossos Padrões da Comunidade.''

Os padrões listados pela plataforma são agora menos restritivos, após uma série de controvérsias –uma delas em torno da remoção do perfil da revista “The New Yorker'', em 2012, por um cartum em que apareciam os mamilos de uma mulher desenhada.

Sobre nudez o Facebook faz hoje, entre outros avisos: “Restringimos algumas imagens de seios que mostram os mamilos. Removemos fotos com foco em nádegas totalmente expostas [e] descrições de atos sexuais que exponham detalhes vívidos''.

A rede se justifica e até se desculpa antecipadamente: “Alguns públicos podem ser mais sensíveis a esse tipo de conteúdo. Nossas políticas podem ser mais duras do que gostaríamos e restringir conteúdos compartilhados com objetivos legítimos''.

Em questão sensível para o jornalismo, os padrões do Facebook também alertam: “Removemos ameaças reais feitas a figuras públicas, bem como discursos de ódio direcionados a elas''. E remetem a “ferramentas para [o usuário] evitar conteúdos ofensivos''.

O site “Gawker'', que não entrou na primeira lista de organizações jornalísticas do Instant Articles, questionou a cobertura de imprensa do lançamento por “omitir'' que o Facebook, com seus Padrões da Comunidade, não tem nada de “neutro'' quanto ao conteúdo jornalístico.

O próprio “NYT'' perguntou, num texto: “O que acontece quando editores decidirem que o certo, jornalisticamente, é mostrar foto com seios que o Facebook não permita?''. Não respondeu, mas anotou que “é por isso que nenhum veículo quer se tornar dependente da rede''.

Para ler o texto completo, basta clicar aqui.


Cartola da CBF ataca Juca Kfouri, insulta o jornalismo e exibe intolerância
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Mário Magalhães

Crítica de cartola da CBF vale como elogio a Juca Kfouri – Foto ESPN

 

De onde menos se espera é que não sai nada, já dizia o Barão de Itararé, tendo ou não inventado a tirada certeira.

Novo secretário-geral da famigerada Confederação Brasileira de Futebol, Walter Feldman havia se notabilizado pela relevante sugestão apresentada como deputado federal: a introdução do pôquer como jogo nas escolas públicas.

De pátria de chuteiras a pátria do carteado, já pensou?

Que nada mais inspirado saísse de tal cachola era o esperado, mas o neocartola excedeu-se: com o intuito de barrar legislação que tenta moralizar um pouquinho a administração do futebol, o ex-secretário de Gilberto Kassab e agora operador de Marco Polo Del Nero escreveu artigo desvairado atacando o blogueiro Juca Kfouri, insultando o jornalismo e esbanjando intolerância.

O texto do cartola foi publicado domingo na “Folha'' (para ler, basta clicar aqui).

O arrazoado do auxiliar do continuador de José Maria Marin, aquele que sucedeu Ricardo Teixeira, o herdeiro político de João Havelange, tentou responder a coluna de Juca Kfouri veiculada no mesmo jornal (leia neste link).

A despeito da defesa que faz de si e do patrão, o texto de Walter Feldman trai diversionismo. Lá pelo fim, ele pontua: “Juca e eu estamos em campos opostos. Ele gosta de medida arbitrária. Eu, do debate democrático''.

Eis a questão central. A CBF articula lobby no Congresso para barrar medida provisória de março que  “institui o Programa de Modernização da Gestão e de Responsabilidade Fiscal do Futebol Brasileiro''.

Embora com limitações, a medida com força de lei desincentiva o _repare no eufemismo_ uso privado que dirigentes muitas vezes fazem do patrimônio de entidades esportivas.

Os campos estão definidos: o pessoal do Bom Senso apoia a MP, e a CBF se opõe, conduzindo a cruzada da cartolagem embalada pelo chilique do secretário-geral de Del Nero.

Feldman ataca o jornalista ao se referir a inexistentes “ofensas pessoais que Juca Kfouri pratica''.

Kfouri anotara: “Feldman é uma figura singular na vida pública nacional. Basta dizer que trocou o braço direito de Marina Silva, da 'nova política', pelo de Marco Polo Del Nero, da velhíssima''.

A observação do colunista é objetiva, procedente e jornalística, pois o secretário-geral é figura pública e há interesse público nas ações da entidade que controla o futebol e a seleção.

Não há “ofensa pessoal''.

A crítica seria injusta, embora legítima, se o novo comando da CBF equivalesse a novos valores. Não é o caso.

Considere-se recente reportagem de “O Estado de S. Paulo'' que recupera informações conhecidas e acrescenta outras: contrato celebrado ainda na gestão de Ricardo Teixeira concede às empresas organizadoras de amistosos da seleção poderes sobre a convocação.

Contrato da “velha'' CBF.

Mas que foi defendido pela “nova'' CBF de Del Nero e Feldman, nesta nota.

Mais detalhes do velho-novo procedimento da entidade estão aqui.

O subordinado proclama, em seu artigo: “O presidente Marco Polo Del Nero assumiu em 16 de abril pronto para dar uma arrancada modernizadora para o futebol brasileiro''.

Não é fato e seria surpreendente: o capo da CBF fulgura como protagonista da cartolagem desde os tempos em que era vice-presidente da Federação Paulista de Futebol capitaneada por Eduardo José Farah.

O Farah!

Em seguida, Del Nero exerceu por anos a presidência da FPF.

Mais tarde, assumiu como o segundo de Marin na CBF.

Que “arrancada modernizadora'' ele ofereceu como bambambã das carcomidas gestões Farah e Marin?

Será que a “arrancada modernizadora'' começou com Del Nero e Marin comprando apartamentos de luxo, santa coincidência!, no mesmo prédio da Barra?

Walter Feldman diz: “Tenho aversão á intolerância''.

O tom truculento que empregou demonstra o contrário.

Ele é propagandista de quem, Del Nero, foi apontado por uma revista como veterano membro do violento Comando de Caça aos Comunistas _ainda é tempo de o presidente da CBF negar.

Del Nero, o favorito de Marin, o então deputado que bradou contra o jornalismo da TV Cultura pouco antes de o diretor de jornalismo da emissora, Vladimir Herzog, ser preso e morto na tortura.

Exemplos de tolerância?

No terreno mais objetivo, Feldman proclama que, “se [um clube] atrasar salário, perde pontos''.

No mesmo domingo, Juca Kfouri explicava, com eficiência de tridente barcelonista: “Mas, atenção, o que a CBF chama de fair play financeiro é para inglês ver, porque depende de denúncia de atleta. Na Federação Paulista de Futebol não funcionou e na CBF não funcionará. Ou você acha que os clubes que estão participando do Brasileirão estão em dia com suas obrigações? Agora, imagine o que aconteceria para um jogador corintiano que denunciasse o clube. Não pisar mais no Corinthians, ou ter de contratar segurança para andar em São Paulo, seria o de menos. Nenhum outro clube lhe daria emprego, porque os cartolas, em regra, também são corporativistas''.

Mais claro _e honesto_ impossível. Por isso Kfouri incomoda.

O secretário-geral insulta o jornalismo ao sugerir que espírito crítico seja sinônimo de torcida contrária: “Juca é contra o 'fair play', como é contra tudo o que acontece no futebol. Dentro e fora de campo, desmerece vitórias e comemora insucessos com mais vigor do que qualquer adversário. Eu vejo magia nos campos. Ele vê bruxarias. Eu acho que futebol é paixão. Ele acha que é rancor''.

Digo com a experiência de repórter que cobriu a CBF por muitos anos: parece o Ricardo Teixeira falando.

Ressurge a velha ladainha de poderosos contrariados com o escrutínio público, democrático e jornalístico: queixam-se de que, se o jornalismo publica que há uma epidemia de meningite em curso, é porque pretende sabotar a saúde pública; se revela os Papéis do Pentágono, serve ao “inimigo''; se difunde notícias sobre a rendição do Japão, só pode ser traição ao imperador; se escarafuncha a corrupção, é porque odeia o país; se denuncia a tortura em Abu Ghraib, é coisa de amigo de terrorista; se mostra a roubalheira no esporte, torce contra a amarelinha.

A esse discurso, Teixeira, atual morador de Boca Ratón, juntava dezenas de processos, em nome próprio ou da CBF, contra Juca Kfouri.

Cada processo valeu ao processado como um diploma de integridade jornalística.

Walter Feldman cometeu: “Eu amo futebol. Ele [Juca Kfouri], talvez, simplesmente, não ame''.

Eis, aí, outro ataque a quem, Juca Kfouri, vibra e sofre com o futebol _ainda que não vibrasse e não sofresse, não deixaria de ser o jornalista decente que é.

E insulto aos jornalistas, aos quais cabe ser sobretudo fiscal do poder, e não bajulador de cartola.

Baixaria intolerante: para contestar ideias incômodas, o secretário-geral busca a desqualificação pessoal do crítico.

Só faltou o “ame-o ou deixe-o''.

O Barão de Itararé sabia mesmo das coisas.

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Comparar titulares com reservas ajuda a entender falta de ousadia do Fla
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Mário Magalhães

O meia Almir foi apresentado pelo Flamengo nesta terça-feira

Almir, meia técnico: melhor ou pior que Arthur Maia? – Foto Gilvan de Souza/Flamengo

 

Eis os 11 titulares do Flamengo no empate de ontem, 2 a 2 com o Sport: Paulo Victor, Pará, Bressan, Wallace, Anderson Pico, Jonas, Canteros, Almir, Gabriel, Alecsandro e Everton.

E os 12 no banco: César, Samir, Frauches, Marcelo, Thallyson, Armero, Cáceres, Luiz Antônio, Márcio Araújo, Arthur Maia, Eduardo da Silva e Paulinho.

Contundido, o titular Marcelo Cirino fez forfait.

E houve ao menos um suplente, o lateral-esquerdo Pablo Armero, que certamente jogará assim que recuperar a forma.

Experimente comparar titulares com reservas.

É impressionante a paridade entre uma e outra equipe. Elimine Thallyson, para o cotejo de 11 contra 11.

O nível muito igual decorre do perfil do elenco, mediano. Um ou outro um pouco acima da média, um ou outro abaixo, no geral tudo parelho.

Um problema grave do Flamengo em 2015, como em 2014, é este: faltam jogadores muito bons ou ótimos, aqueles dois ou três que se destacam pela qualidade notoriamente superior ao conjunto. Na conquista mais recente do Campeonato Brasileiro, o hexa de 2009, eram Pet e Adriano.

Essa mediocridade ajuda a entender por que Vanderlei Luxemburgo apostou num estilo pusilânime. A entender, não justificar.

Em pleno Maracanã, a equipe entrou fechada atrás, esperando o Sport, para se impor nos contra-ataques.

As fichas do visitante foram jogadas assim também, todavia com mais eficiência, e o jogo foi modorrento na primeira parte.

Vanderlei deveria ter ousado mais, porém é injusto ignorar o elenco limitado à sua disposição.

Almir, veterano vindo do Bangu, foi titular. Quem é melhor, ele ou o reserva Arthur Maia? É provável que a resposta dependa do ciclo da Lua e das marés. São jogadores pau a pau.

Sem nomes que até agora façam a diferença, Vanderlei tranca a equipe na retaguarda, para surpreender o rival com saídas rápidas.

Isso funciona muitas vezes, está aí Mourinho para provar.

Não é, porém, a tradição rubro-negra. Mesmo com timecos o Flamengo costuma aproveitar o Maracanã para se impor. Por isso nunca caiu para a segundona.

Ontem o empate saiu depois que o Sport ficou com um a menos e com jogador de linha no gol. Enfim, com o sufoco do Flamengo.

A reação rubro-negra _carioca_ valeu, depois de estar perdendo por 2 a 0.

Só foi obtida com a ajuda das circunstâncias _para que se enganar?

É possível melhorar com o atual elenco.

Mas sonhar mais além depende de contratação de peso.

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Carga pesada
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Mário Magalhães

Detalhe de caminhão na Barra da Tijuca, quarta-feira de manhã

Detalhe de caminhão na Barra da Tijuca, quarta-feira de manhã


Com advogado e tapetão do Brasil, talvez o Boca ganhasse os pontos do River
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Mário Magalhães

Leonel Vangioni, do River, depois de atingido pelo aparente gás de pimenta – Foto Juan Mabromata/AFP

 

A vergonha na Bombonera ainda tem muitos aspectos obscuros.

As imagens mostram um torcedor do Boca Juniors aprontando, com a mão a atravessar o plástico do túnel, no regresso dos jogadores do River Plate para o segundo tempo.

Isso deixa claro que o clube da casa não ofereceu segurança aos visitantes.

O clássico acabou pela metade.

Mas não se sabe ao certo quem atacou atletas do River com a substância apontada como gás de pimenta.

Um vídeo divulgado pelo “Olé'' (assista aqui) dá margem à suspeita de que a estupidez tenha sido obra da polícia.

Reitero que o Boca, ao não garantir a integridade física dos rivais, deve ser punido com a perda dos pontos e a consequente eliminação da Libertadores. Basta aplicar o que o regulamento prevê.

Alguns toques sobre o vexame:

1) já apareceu alguém culpando a madame Kirchner? Pois não disseram que a presidente havia mandado matar o promotor?;

2) depois dos estragos vistos na pele, nos olhos e na respiração de jogadores do River, a polícia aqui no Brasil ainda terá a desfaçatez de afirmar que gás de pimenta não causa dor e desespero? Num alérgico e cardiopata, pode matar;

3) se o Boca contratar certos advogados brasileiros, desses que obram o milagre de time rebaixado jogar a primeira divisão, talvez até consiga, na Conmebol, vencer a partida no tapetão e castigar o River pelas agressões que o River sofreu.

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O jornalismo no Facebook será censurado?
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Mário Magalhães

Cena do filme “Dona Flor e seus dois maridos''

 

Desde ontem grandes companhias de jornalismo e comunicação estão veiculando suas produções diretamente no Facebook.

Entre as que já deram a largada e estão na iminência de dar destacam-se BBC, NBC, “The New York Times'', “The Guardian'', “Der Spiegel'', BuzzFeed.

Há pouco material, e a iniciativa ainda é uma experiência.

Até agora, os grupos de mídia divulgavam com chamadas curtas seu conteúdo na rede social. Ao se deparar com elas, o internauta era obrigado a clicar no link, para acessar o site original da publicação. Assim funciona também no Brasil.

No novo estatuto, a informação integral estará no Facebook, dispensando outro acesso.

Do ponto de vista do negócio, a novidade oferece vantagens e desvantagens para os produtores de notícias.

A vantagem mais evidente é o potencial incremento da audiência do conteúdo.

A desvantagem mais insinuante é a diminuição do tráfego no site produtor.

Jornalismo é uma operação cara. Com menos público, portanto menos publicidade e, em certos casos, assinantes, é possível ou provável que a receita caia.

Com menos dinheiro, fica mais difícil enviar repórteres para contar acontecimentos distantes. Ou cobrir, com profissionais mais qualificados, da segurança pública à falta d'água. Contratar os designers mais talentosos.

Não tenho informações suficientes para saber se há mais chances de ganhar ou perder.

Quem lucra, certamente, é o Facebook, vitaminando sua audiência e compartilhando parcela do faturamento publicitário.

O que parece obscuro é a condição do contrato em teste: o acordo impõe aos parceiros as regras jornalísticas e comportamentais do Facebook?

Se isso ocorre ou vier a ocorrer, é ou será daninho para o jornalismo e a democracia.

Como se sabe, a rede do empresário Mark Zuckerberg impõe limites à livre manifestação e, em consequência, ao jornalismo.

Outro dia, censurou uma foto de índia com seios à mostra postada pelo Ministério da Cultura. Ameaçado de processo, o Facebook recuou.

Até reprodução de quadro artístico já foi vetada pelo Facebook, em nome dos bons costumes, embora sem usar tais palavras e muitas vezes sem justificar o confisco informativo.

A pluralidade dos meios de comunicação faz bem à cidadania.

Se todo mundo, de portais a emissoras de TV, de blogs a jornais e revistas, tiver que obedecer a um manual de redação do Facebook, haverá enorme perda democrática.

A diversidade de ideias e conceitos será sufocada pela voracidade do pensamento que se pretende único.

O Brasil conhece a tragédia da concentração excessiva da comunicação, mal inexistente ou menos grave nas grandes democracias, dos Estados Unidos à Europa.

Observe-se a imagem lá no alto.

É de uma sequência do filme “Dona Flor e seus dois maridos''. Obra-prima dos anos 1970, mostra Sônia Braga, a Dona Flor, e José Wilker, o marido-amante Vadinho, mandando ver.

Trata-se de arte. Copiei-a do site do festival de cinema de Cannes, o de maior prestígio do planeta.

Este blog mantém uma página no Facebook. Lá são veiculadas chamadas com título e link, acompanhados de fotografia.

O critério jornalístico é prerrogativa do blogueiro. Considero Flor e Vadinho namorando uma sequência esteticamente mais interessante e de maior valor histórico do que a protagonista dando aulas de culinária.

Hoje, o Facebook pode apagar a foto.

Incrivelmente, violando a legislação brasileira que garante a livre difusão de arte, pensamento e ideias. E não autoriza a censura.

O “New York Times'' aceitará se submeter ao Facebook? Se um editor considerar, por motivos estritamente jornalísticos, que uma reportagem sobre o filme “O império dos sentidos'' deva mostrar um personagem despido, não poderá efetivar essa decisão?

No Brasil, a imprensa documentou _foto do grande Marcelo Carnaval_ uma moça sem calcinha na Sapucaí, ao lado do presidente da República. Certo ou errado, cada publicação obedeceu aos seus valores.

As práticas jornalísticas mudarão obrigatoriamente, devido à joint-venture com o Facebook?

Por enquanto, há mais perguntas do que respostas.

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Corinthians, Inter, Tévez, Ganso, patinhos feios e boazudas do colégio
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Mário Magalhães

O Valdívia fake está jogando muito mais que o de fábrica – Foto Alexandre Lops/Internacional

 

Alguns pitacos depois de assistir a Real Madrid 1 x 1 Juventus, Cruzeiro 1 a 0 no São Paulo e triunfo nos pênaltis, Inter 3 x 1 Galo, dar algumas bisolhadas em Corinthians 0 x 1 Guaraní e da frustração de ter perdido as 22 cobranças de penais que valeram a sobrevivência do Coritiba e a eliminação do Fortaleza. Tudo isso na quarta-feira, pela Champions, Libertadores e Copa do Brasil.

Atropelado pela brava equipe paraguaia, o Corinthians lembrou aquelas garotas da escola e da faculdade que eram muito bonitas, boazudas de arrancar suspiros e devoções, donas de consciência sei-que-sou-boa. Vale também para garotos e qualquer ser que faça crescer o olho.

O tempo não foi camarada com muitas daquelas gurias, que sem o viço da mocidade perderam o encanto. Idem com o time do Tite, que era de fechar o trânsito no começo do ano, até degringolar e ser eliminado com requintes de humilhação.

Já o Internacional do princípio da temporada, a despeito do elenco de responsa, não chamava muito a atenção. Irregular, parecia pouco competitivo e confiável. Mudou como os patinhos feios do colégio que desabrocham com os verões e a maturidade. Sabe aquela amiga da irmã cujo nome a gente nem queria saber e que mais tarde virou musa? Eis o Inter, que melhorou demais. Ontem à noite, ofereceu os dois golaços do dia. Um do Valdívia fake, outro do D'Alessandro.

Na Champions, mesmo sem brilhar, Carlos Tévez mais uma vez comoveu pela disposição de luta. Estará na final, com a Juventus, contra o Barça.

Ao São Paulo, em Minas, faltou ambição ofensiva, apetite. E Ganso, o craque de coração polar, novamente não deu impressão de honrar a paixão da torcida.

Tévez vai na bola como um famélico no prato de comida.

Ganso aparenta ser anoréxico.

Tévez é sangue latino.

Ganso, sangue de barata.

Inter e Cruzeiro são os brasileiros que seguem na Libertadores.

O Inter hoje tem pinta de favorito, mas é bom se cuidar. Caso contrário, vai acabar como o Corinthians e algumas boazudas de antigamente.

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Devoção por Guardiola é questão ideológica
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Mário Magalhães

Guardiola declarou que méritos são de jogadores. Bayern x Barça se enfrentam na Alemanha, na terça

Para Pep, futebol é prazer, tormento e epifania – Foto Reuters/Michaela Rehle

 

Ideologia da bola, bem entendido.

A que une no futebol Johan Cruijff, o mestre, e seu discípulo e ex-jogador Pep Guardiola.

E não a que separa na política o catalão de berço Guardiola, favorável à independência de sua terra, e o catalão de coração Cruijff, contrário.

O encanto de Guardiola como técnico consiste mais na profissão de fé no jogo ofensivo do que na capacidade notável de identificar potenciais e oportunidades _foi ele quem descobriu a posição, no meio do ataque, ciscando para cá e para lá, em que Lionel Messi mais rendeu.

Estando por cima ou por baixo, Pep eterniza uma cantilena sincera, a de que monta suas equipes para buscarem o gol.

Com equilíbrio, azeitando táticas para defender e fustigar, mas com o plano estratégico de gerar chances que resultem em mudança de placar.

O Barcelona que ele idealizou, um dos times mais espetaculares de todas as épocas, só tinha um volante-volante, Busquets.

O treinador-ideólogo chegou a escalar dez jogadores de linha sem que nenhum deles fosse originalmente zagueiro ou lateral.

Ele já disse que sua ambição é que o público se deleite ao assistir a seus times como tem prazer ao ver uma ópera.

Atormenta-se tanto que parece ter uma década mais que os seus 44 anos.

Sua obsessão é obstáculo à permanência longeva nos clubes, pois os elencos se desgastam com a pressão: virtuosa nos primeiros anos, ela tensiona demais os ambientes a partir de certo tempo. Foi assim no Barça, parece ser no Bayern.

A despeito das faíscas, os atletas o respeitam.

Primeiro, porque com Guardiola os desempenhos tangenciam o paroxismo.

Segundo, porque o ex-meia proclama o caráter sagrado do vestiário dos atletas _ele nem passa pela área reservada aos boleiros.

Terceiro, porque é fiel, e não traíra. Um dos motivos que o levaram a se despedir do seu clube querido foi a convicção de que, para um novo ciclo de triunfos, seria aconselhável afastar veteranos a quem ele era muito grato _Puyol e Xavi, sobretudo. Recusou-se a fazer o que era necessário.

Não é íntimo de jogador, mas celebra a condição deles de autênticos protagonistas (há treineiros mequetrefes que fantasiam serem os donos de vitórias conquistadas por quem calça chuteira).

O que não o impede de vibrar com descobertas e epifanias, como a posição de Messi, ou a execução perfeita, consequência de treinamento insano, da saída de bola com passe do goleiro, e não chutão _Valdés tinha a opção ao menos de dois zagueiros bem abertos, do volante e de um meia, para escolher a saída mais segura.

Josep Guardiola não entra para especular no erro do adversário. Tenta não conceder-lhe a bola. Não por fetiche, mas por considerar que enquanto ela está sob o domínio dos seus eles podem chegar ao gol oponente. Ao menos, impedem golpes dos adversários.

Pep não inventou nada disso, mas aperfeiçoou o que pioneiros tinham ensaiado com sucessos e insucessos.

Quando o Barça humilhou o Santos no Mundial, não pela goleada, mas pela postura, Guardiola disse que moldara o time no estilo que seu pai descrevia como o dos brasileiros de outrora.

Pois a fixação na posse de bola vem tanto do holandês Cruijff quanto dos brasileiros Telê Santana, Cláudio Coutinho e Carlos Alberto Parreira.

Condutor do Flamengo do Zico no ápice, Coutinho pregava que um escrete de futebol deve manter a pelota consigo como faz um quinteto de basquete.

Como testemunhei um sem-número de vezes, Telê, encolerizado, interrompia os treinos do São Paulo quando alguém errava um passe fácil.

No dia em que Guardiola lançou dez não-defensores em campo, lembrei-me do antigo vaticínio de Zagallo, que sabe muito de futebol: no futuro, o sistema dominante será o 1-10.

O Bayern de Munique pode vencer nesta terça-feira ou levar outro chocolate do Barcelona (torço pelos blaugranas).

Não mudará minha devoção por Guardiola.

Ela é ideológica.

Pelo mesmo motivo, um retranqueiro dependente de contra-ataques pode ganhar dez Champions ou Copas do Mundo, mas não terá minha reverência.

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