Blog do Mario Magalhaes

Serraglio ministro: quanto riso, oh, quanta alegria…
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Mário Magalhães

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Em 2016, Temer vê pela TV a Câmara dar ok para impeachment de Dilma – Reprodução ''Folha''

 

''A escolha do novo ministro da Justiça será minha, pessoal, sem conotações partidárias.'' Foi o que escreveu em 15 de fevereiro o missivista Michel Temer em sua conta no Twitter.

Oito dias mais tarde, escolheu Osmar Serraglio, peemedebista de quatro costados.

Temer deve estar às gargalhadas.

O deputado disse que prometeu ao presidente manter ''distância'' da Lava Jato.

A Polícia Federal é a encarregada da operação. É subordinada ao ministro da Justiça. Que será Osmar Serraglio. Se ele ficar longe da Lava Jato, será como o ministro da Saúde se afastar de campanha de vacinação.

Os risos não são só de Temer, mas de Serraglio também (embora ele pouco sorria em público).

O indicado não teria ''conotações partidárias''.

Foi o novo ministro da Justiça quem pontificou: ''Eduardo Cunha exerceu um papel fundamental para aprovarmos o impeachment da presidente. Merece ser anistiado''.

É mais do que uma declaração. É profissão de fé.

Quanto riso, quanta alegria.

E milhões de palhaços Brasil afora.

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Gratidão & memória: Ranieri, Micale, Pimenta, Yunes e Temer
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Mário Magalhães

Em agosto, dirigida por Rogério Micale, a seleção conquistou o ouro olímpico – Vanderlei Almeida/AFP

 

Seis meses depois da conquista da medalha de ouro no futebol olímpico masculino, o técnico Rogério Micale foi para a rua. A CBF demitiu-o do comando da seleção sub-20, em seguida à campanha ruim no Sul-Americano. Não é a primeira vez, longe disso, que uma equipe de garotos vestindo a amarelinha malogra. O título de 2016, no entanto, foi inédito. Grandes treinadores não chegaram lá. Como Zagallo, medalha de bronze em 1996, com um elenco repleto de campeões da Copa de 94 e futuros vice-campeões em 98. A entidade com reputação manjada puniu o treinador pelo tropeço numa competição menor. Não prevaleceu a façanha nos Jogos. Alguém comparou o futebol a uma empresa: se a companhia vai mal, o executivo dança. Não sabem do que falam: reveses menores de um administrador saem na urina, se o balanço geral do desempenho é positivo. A ingratidão sobrepujou a gratidão. Em se tratando de CBF, sem surpresa.

Mais ingrato ainda é o cartão vermelho do Leicester City a Claudio Ranieri. O italiano levara o clube ao título inglês. No mês passado, sagrou-se o melhor treineiro de 2016 no planeta. O sábio que impulsionou o Leicester ao triunfo inimaginável não seria capaz de devolvê-lo às vitórias? Memória curta, no caso de Ranieri e Micale.

A memória também parece fraquejar em relação a José Eduardo Pimenta, candidato a presidente do São Paulo. Ele ocupou o cargo na primeira metade dos anos 1990. O cartola e Telê Santana não se bicavam. Telê se vinculava à direção de futebol. Pimenta era bom companheiro do presidente da federação paulista, Eduardo José Farah. Testemunhei essas intrigas. Do terceiro trimestre de 1992 a dezembro de 1993, fui o repórter setorista da ''Folha'' no clube. Com Pimenta, vieram glórias. Mas quando se tornaram públicos determinados episódios a torcida gritava no Morumbi: ''Pimenta, ladrão, São Paulo campeão!'' É surpreendente que o jornalismo rememore a trajetória de Pimenta à frente do tricolor e se esqueça _com ou sem aspas_ de mencionar como a torcida, certa ou errada, o tratava.

Enquanto no São Paulo há quem prefira a gratidão a Pimenta e sonegue ou relativize aspectos do seu passado, Michel Temer não tem por que se queixar de ingratidão do seu amigo José Yunes. Muitíssimo ligado a Temer, Yunes contou que recebeu de um doleiro sinistro um pacote fornido endereçado a José Padilha. Até agora, vai livrando o presidente do imbróglio. Acontece que um prócer da Odebrecht contou que quem pediu o dinheiro foi Temer. Yunes diz que foi mula de Padilha. E não de Temer? Do ex-vice, Yunes merece mesmo imensa gratidão.

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Quando o futebol se confunde com a vida
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Mário Magalhães

Britain Football Soccer - Manchester City v AS Monaco - UEFA Champions League Round of 16 First Leg - Etihad Stadium, Manchester, England - 21/2/17 Manchester City's Leroy Sane celebrates scoring their fifth goal with team mates Action Images via Reuters / Lee Smith Livepic ORG XMIT: UKZUzE

Jogadores do Manchester City comemoram um gol contra o Monaco – Foto Lee Smith/Reuters

 

Não tá morto quem peleia, costumam proclamar os gaudérios.

Assim como quem está vivo pode deixar de estar.

Vida e morte, triunfo e fracasso, isso é a existência. E o futebol.

Os 5 a 3 do Manchester City sobre o Monaco foram uma representação da vida, que por sua vez é o exercício cotidiano de sentimentos e conflitos também comuns ao futebol.

Num só jogo, foram tantas as viradas pessoais que, como numa encenação de teatro, elas se sobrepuseram às reviravoltas no placar que alternou vantagem para uma ou outra equipe.

Caballero, o goleiro da casa, errou um passe na saída de bola, oferecendo o primeiro gol aos visitantes de futebol envolvente e venenoso.

Mas depois o arqueiro de fina estampa defendeu o pênalti cobrado pelo atacante Falcao.

O Falcao que perdeu o pênalti e contribuiu para um contra-ataque fatal do City anotou dois gols. Um deles deslumbrante, encobrindo Caballero.

Falcao foi herói ou vilão? Os dois.

O zagueiro Stones, do time de Guardiola, ia sendo vilão. Falhou, ao menos em posicionamento, no mínimo em três gols.

Quando vigorava a igualdade em 3 a 3, Stones desempatou. O herói improvável, num gol catártico que fez tremer o Etihad Stadium.

A mesma volta por cima deu Agüero, atacante que irritava por desperdiçar oportunidades de gol e jogadas promissoras. Cara a cara com o goleiro Subasic, preferiu cavar um pênalti, em vez de concluir. Tendo ou não sido pênalti, que o apitador não assinalou, jogou fora a chance.

Mais à frente, Agüero marcou duas vezes.

O final não foi feliz para todos, é evidente. Subasic, que brilhava, engoliu um frango num chutinho meia-boca de Agüero.

É sedutora a ideologia ofensiva de Pep Guardiola e Leonardo Jardim.

Mas diante da saga de cada jogador, do épico em pouco mais de 90 minutos, táticas e estratégias permanecem no fundo do palco.

O proscênio é dos boleiros, da vida e da luta que cada um vive em campo.

Dizem que o futebol é simulacro da vida.

Cada vez mais eu acho que a vida é simulacro do futebol.

Jogos como o de ontem, pela Champions, não embelezam apenas o futebol.

Embelezam a vida.

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Numa piscadela, a tragédia da nação (por Dida Sampaio)
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Mário Magalhães

Sabatina do Senado: piscadela de Alexandre de Moraes – Foto Dida Sampaio/Estadão/Reprodução

 

Em tempos dos ''fatos alternativos'' da turma de Donald Trump, é capaz de uma ventania no Senado ter levado um cisco ao olho de Alexandre de Moraes.

Talvez ele não estivesse piscando para o senador Edison Lobão, investigado na Lava Jato, e sim para um velho amigo com quem não se encontrava havia umas três décadas. Estamos ou não na era da ''pós-verdade''?

Na sabatina do Senado, o virtual próximo ministro do Supremo Tribunal Federal disse que será imparcial, e isso virou notícia. Como se na história da magistratura brasileira algum juiz tivesse prometido ser parcial.

De piscadela em piscadela, o Brasil deu em tragédia.

A fotografia que entra para a história é de autoria de Dida Sampaio.

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Sabatina de Alexandre de Moraes: nota de Humberto Costa e resposta do blog
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Mário Magalhães

Documento do Senado mostra que Humberto Costa resolveu deixar a CCJ seis dias antes da sabatina

 

A assessoria de comunicação do senador Humberto Costa (PT-PE) enviou a seguinte nota ao blog:

''Com referência à nota (https://blogdomariomagalhaes.blogosfera.uol.com.br/2017/02/21/as-ultimas-do-pt/), queremos registrar que um senador não é diretamente suplente de outro, mas do partido ou do bloco de que faz parte.

Independentemente disso, esclarecemos que o senador Humberto Costa (PT-PE) NÃO INTEGRA a CCJ do Senado, seja como titular, seja como suplente.

Abaixo, você pode conferir a composição da comissão no site do próprio Senado.

https://legis.senado.leg.br/comissoes/composicao_comissao?codcol=34

Qualquer dúvida, estamos à disposição.

Atenciosamente,

Assessoria de Comunicação do Senador Humberto Costa''

*

A nota a que a assessoria se refere é ''As últimas do PT''.

A referência explícita a Humberto Costa se baseia em informação do ''Painel'', reproduzida acima da nota.

Diz o blog: ''[…] O senador petista Jorge Viana, integrante da CCJ, não está presente. Viajou. Poderia ser substituído pelo suplente Humberto Costa, seu correligionário. Costa também foi para o exterior''.

Nem Viana nem Costa participam da sabatina de Alexandre de Moraes, criticado com veemência pelo PT, na Comissão de Constituição e Justiça do Senado.

Está correta a informação de que Viana ''poderia ser substituído pelo suplente Humberto Costa, seu correligionário''.

Porque Costa era suplente até seis dias atrás, e deixou esta condição por vontade própria, às vésperas da sabatina com o escolhido por Michel Temer para integrar o Supremo Tribunal Federal.

No dia 8, Humberto Costa havia sido designado membro suplente da CCJ, como informa documento oficial do Senado reproduzido acima (para ler na íntegra, clique aqui).

A CCJ foi instalada em 9 de fevereiro, com Humberto Costa na qualidade de suplente, indicado pelo Bloco Parlamentar da Resistência Democrática.

No dia 14, foi marcada para hoje (21) a sabatina com Alexandre de Moraes.

Um dia depois, nem um a mais, 15 de fevereiro, ''o senador Humberto Costa deixa de compor a comissão'', também conforme o documento do Senado.

Em suma, ele poderia sabatinar Moraes se não tivesse renunciado à CCJ há menos de uma semana. Era suplente e segue sendo correligionário de Jorge Viana.

O blog indagou à assessoria do senador o motivo da saída.

*

Eis a resposta:

''O senador pediu sua saída da Comissão por duas razões:

– Tinha a missão oficial a Israel já programada desde 2016 com o governo e o parlamento daquele país. Em razão disso, abriu mão da vaga de suplente para que outro senador o substituísse no posto que ocupava;

– Pretende assumir vaga como titular, além da CRE e da CAE, da Comissão de Fiscalização e Controle, motivo pelo qual tinha de abrir mão em favor de outro senador de um dos postos que ocupava''.

*

Comentário do blog:

Se Humberto Costa tinha planos de assumir vaga em outras comissões do Senado, por que aceitou integrar a CCJ?

O senador disse em 7 de fevereiro: ''Mais grave ainda é o fato de que no STF ele [Moraes] vai ajudar a decidir o futuro dos acusados pela operação Lava Jato. Muitos desses terão sido seus colegas de governo, e muitos deles mergulhados nas acusações. Alexandre de Moraes passará por uma sabatina neste Congresso. [A indicação dele] Se confirmada, deporá contra o Senado e deporá contra o Supremo Tribunal Federal''.

Se a indicação de Alexandre de Moraes é tão grave, por que Humberto Costa, líder da oposição no Senado, não permaneceu no país? Sem menosprezar sua agenda de viagem, o que há mais importante no exterior?

Constatação relevante: está correta a informação de que, se o senador quisesse, estaria participando da sabatina como integrante da CCJ.

Preferiu abandoná-la e viajar.

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O ministro que se confundiu com um prêmio, por Alexandra Lucas Coelho
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Mário Magalhães

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Roberto Freire, ministro da Cultura – Foto Sérgio Lima/Folhapress

 

Além de esplêndida escriba, a jornalista portuguesa Alexandra Lucas Coelho pensa bem que só.

É de autoria dela o comentário mais inspirado que eu li sobre o surto de truculência do representante do Estado brasileiro, Roberto Freire, contra o artista e cidadão Raduan Nassar.

Alexandra deu o toque: ''Claro que o ministro sumirá da história e a obra do premiado fica, enquanto houver alguma forma de livro no planeta. Para os livros de Raduan Nassar é indiferente o que passou na sexta. Mas a nós, contemporâneos, importa, sim, que um membro do poder político abuse do cargo, confundindo, distorcendo e agredindo um criador como Raduan, protagonista único da cerimónia, que lhe devia merecer, no mínimo, silêncio. Não cabe ao ministro aprovar ou reprovar o discurso do premiado, não lhe cabe responder. Tal como não é preciso alguém estar de acordo com Raduan politicamente para entender como foi absurdo o que se passou. O prémio não é deste governo, é patrocinado por dois Estados, e atribuído por um júri. A sua aceitação nunca deverá implicar um discurso bem-agradecido. Um ministro da Cultura que veja os criadores como estando ao serviço não entendeu nada''.

Para ler a íntegra do artigo, publicado no jornal ''Público'', basta clicar aqui.

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As últimas do PT
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Mário Magalhães

''Painel'', na ''Folha'', 21.02.2017

 

O PT tem vociferado contra a indicação de Alexandre de Moraes para o Supremo Tribunal Federal.

Deixando o mérito da opinião para lá, era de se esperar que o partido se preocupasse com a sabatina de Moraes, recém-iniciada, na Comissão de Constituição e Justiça do Senado.

Mas o senador petista Jorge Viana, integrante da CCJ, não está presente. Viajou.

Poderia ser substituído pelo suplente Humberto Costa, seu correligionário. Costa também foi para o exterior.

No Rio, depois de o PT trombetear oposição à privatização da Cedae, um dos seus cinco deputados estaduais, André Ceciliano, votou a favor dela.

E o PT ainda pensa que o inferno são só os outros.

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Crivella chia, enquanto 75% dos deputados do PRB votam pela venda da Cedae
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Mário Magalhães

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Crivella é do PRB, que votou em maioria pró-venda da Cedae – Foto Custodio Coimbra/Ag. O Globo

 

Há cheiro de discurso para a galera na bronca do prefeito do Rio com a privatização da Cedae, aprovada ontem pela Assembleia Legislativa.

Marcelo Crivella afirma que, se a prefeitura não for ''ouvida'', pode não conceder licença para a empresa de águas e esgotos operar no município.

Mais: especula criar uma empresa municipal para assumir esses serviços.

Na sexta-feira, o prefeito havia dito num almoço: ''O governador Pezão, espremido pela situação do Estado, tem que aceitar uma imposição do governo federal, o que não diz respeito aos nossos interesses. Por quê? Nós não sabemos se essas ações serão vendidas para uma empresa francesa, americana ou inglesa, que virá aqui para explorar bens que, para nós, são fundamentais. Quanto isso vai custar? Será que teremos 100% dos nossos lares atendidos com boa água e esgotos coletados e tratados? Porque isso para nós é fundamental. A Cedae não é uma empresa deficitária, está tendo lucro. O Rio de Janeiro paga um pouco mais pelos serviços. Poderíamos pagar menos se tivéssemos uma concessão''.

Com toda essa combatividade e preocupação com o patrimônio público, Crivella espera marcar pontos com os cariocas contrários à liquidação da Cedae _eles não são poucos.

Só que precisa explicar por que três dos quatro deputados estaduais do seu partido, o PRB, votaram pela venda da Cedae.

São eles: Tia Ju, Benedito Alves e Carlos Macedo. O deputado Wagner Montes votou contra.

Crivella não é peixe pequeno no PRB do Estado.

É seu principal nome.

Fala uma coisa, e seus correligionários fazem outra.

Estranho, não?

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A suruba de Jucá e a síndrome dos Mamonas
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Mário Magalhães

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Romero Jucá, líder do governo Temer no Congresso – Foto Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

 

O senador Romero Jucá, líder do governo Michel Temer no Congresso, está furioso.

O peemedebista se opõe à possibilidade de o Supremo Tribunal Federal interpretar a lei restringindo o alcance do foro privilegiado a políticos.

O Caju da planilha da Odebrecht ameaça retaliar, restringindo o foro privilegiado também a magistrados e integrantes do Ministério Público.

O senador é o autor da Lei Jucá, aquela que determina ''estancar essa sangria'', ou poupar os investigados pela Lava Jato.

Alguém ainda se surpreende com as armações de Jucá e sua turma pró-impunidade?

O senador bravateou, em declaração ao ''Broadcast Político'': ''Se acabar o foro, é para todo mundo. Suruba é suruba. Aí é todo mundo na suruba, não uma suruba selecionada''.

Demagogia. A suruba de Jucá é aquela cantada no ''Vira-Vira'' dos Mamonas Assassinas: ''Neste raio de suruba, já me passaram a mão na bunda, e eu ainda não comi ninguém''.

O pessoal da impunidade não se cansa de passar a mão na bunda dos brasileiros.

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Palavras malditas (24): marca gol
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Mário Magalhães

Máquina de escrever de meados dos anos 1960 – Reprodução “The New York Times''

 

A fratura de um ossinho do pé direito do Gabriel Jesus e a seca do Neymar têm impedido a goleada de cacófatos noticiando que o craque do Manchester City ou o do Barcelona “marca gol”. Basta ler alto as duas palavras para reparar, se ainda não reparou, na nova palavra criada com os sons da última sílaba de “marca” e da primeira e única de “gol”.

Como ensina o Houaiss, cacófato é o “som feio, desagradável, impróprio ou com sentido equívoco, produzido pela união dos sons de duas ou mais palavras vizinhas”. E “palavra ou expressão obscena, ridícula ou fora de contexto, formada pela sílaba final de uma palavra e pela inicial da seguinte”.

Mais ou menos manjados, esses encontros indesejáveis sempre estão à espreita. “Marca gol” é vexame costumeiro, como “boca dela”. Outro dia escrevi que alguém “havia dado”, e o tropeço vulgar não escapou ao olhar atento do jornalista e escritor Ronaldo Bressane.

Há cacófato proposital, que busca a graça. Feito o de um sucesso dos Originais do Samba, com os versos “Estou apaixonado, apaixonado estou/ Pela dona do primeiro andar/ Pela dona do primeiro andar”. O mote é a peladona.

Há casos em que, flagrados no vacilo, escribas alegam que tiveram a intenção de cometer o que habitualmente é interpretado como crime contra a língua portuguesa. Socorrem-se de um soneto do Camões, que a seu modo autorizaria os cacófatos: “Alma minha gentil, que te partiste…”.

Se a “maminha” da lavra do Camões é controversa, há construções carentes de defensores, como “por cada”. E outras que incomodam poucos e talvez sejam absolvidas pelos gramáticos. “Por razão” me parece mau gosto, por motivo óbvio. “Nunca quis” evoca fruta, uma das minhas prediletas.

No jornalismo, era mais fácil evitar cacófatos quando a edição era necessariamente processo coletivo, com o texto lido por mais de um profissional antes de ser publicado. Hoje é comum o autor colocar no ar, sem nenhum crivo alheio, o que escreveu. Revisores, ainda bem, sobrevivem em editoras de livros. Nas redações, são espécie em extinção ou extinta, ao lado dos laboratoristas fotográficos.

Além dos “marca gol” da vida, existe outra bobeada que aflige quem vive de escrever: a falta ou excesso de letra que muda, e põe mudar, o sentido da palavra. Tal engano, outrora, era erro de composição. Agora, é de digitação.

Muito tempo atrás, a Folha publicou um “Erramos” antológico informando que o sobrenome do maestro Eleazar de Carvalho se escrevia assim. Na edição corrigida, sumira o vê. Pior foi quando, anos mais tarde, a mancada se repetiu. Só que o personagem era uma empresária. Eu era então o ombudsman do jornal, e não esqueço a observação de uma leitora: acho que vocês quiseram mandar um recado malicioso…

Perigo maior é a rua Bulhões Carvalho, na meiuca entre Copacabana e Ipanema. Maior porque são dois. Não à toa a rua é conhecida como quase-quase.

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