Blog do Mario Magalhaes

Nota da Polícia Civil omitindo tiro expõe mistério sobre morte de dançarino
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Mário Magalhães

 

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O secretário de Segurança do Estado do Rio, José Mariano Beltrame, afirmou nesta quarta-feira, sobre a investigação dos incidentes no morro Pavão-Pavãozinho que resultaram em duas mortes:

“Não quero antecipar proteção aos policiais, mas não quero condená-los preliminarmente. Preciso de um indício mínimo que seja para fazer isso [afastamento dos PMs]. No momento são várias teses, muita especulação. Não quero tomar nenhuma atitude antecipada”.

O secretário está certo em não tomar decisões apressadas e levianas, embora a retirada ao menos temporária de alguns policiais militares do trabalho externo possa ser adequada medida preventiva, para não levar ainda mais tensão à favela fincada entre Copacabana e Ipanema. E talvez para evitar pressão sobre eventuais testemunhas.

Se o secretário, com razão, rejeita conclusões açodadas, como explica a nota divulgada na noite de terça-feira sobre a morte do dançarino Douglas Rafael da Silva Pereira, o DG?

A Polícia Civil, subordinada à secretaria comandada por Beltrame, informou aos jornalistas que “as escoriação [sic] de Douglas são compatíveis com a morte ocasionada por queda” (conferir reprodução acima, veiculada em reportagem do UOL).

A apreciação teria sido feita por peritos criminais do Estado.

Bastou o cadáver do artista de 26 anos chegar ao Instituto Médico-Legal para se constatar que ele foi atingido por um tiro e morreu de hemorragia interna.

Por que a Polícia Civil divulgou uma informação contrária aos fatos?

É importante fixar o contexto. No momento em que a nota era veiculada, moradores do Pavão-Pavãozinho se manifestavam contra a Polícia Militar, acusando-a de ter sido responsável pela morte de Douglas.

No protesto, Edilson Silva dos Santos, um homem jovem com perturbações mentais, foi morto a bala. A PM não informou em que circunstâncias Edilson foi atingido. Que eu saiba, também não assumiu que o tiro partiu de policiais.

No horário da nota distribuída anteontem, estavam no ar os telejornais locais do Rio. Não afirmo que a Polícia Civil tenha fraudado de propósito a verdade (não creio nisso, explico abaixo), porém sua versão se prestava, mesmo sem errar por querer, a tentar baixar a voltagem. Como quem diz: Douglas não foi morto a bala, mas por cair do alto de um prédio. Isto é, foi acidente, e não incidente.

O nervosismo do momento é retratado pelo erro de português na nota da assessoria, fruto, é claro, não de ignorância, mas de pressa (já  cometi equívocos piores).

Não sei se Beltrame anunciou investigação sobre os peritos que sugeriram que Douglas morreu de queda.

Penso _inexiste ironia aqui_ que os peritos disseram, em observação preliminar, que o dançarino morreu numa queda, e não de tiro, porque não viram a perfuração. Erraram sem querer. Não foram desonestos.

Nenhum servidor público faria uma afirmação a ser desmoralizada logo depois pelos médicos-legistas.

Por que, na hipótese de inexistência de dolo, os peritos (ou o perito) não viram a marca do tiro?

Por pior que fosse a iluminação, a posição do cadáver e as condições de exame, eles teriam observado a perfuração se houvesse sangue em torno dela. Eles não viram o tiro porque inexistia sangue em torno da perfuração?

Cabe aos peritos responderem, mas a nota da noite de terça-feira parece ter sido esquecida, também pelo jornalismo.

Perguntei há pouco a um tarimbado perito criminal se ele já viu não haver sangramento na perfuração a bala. Nunca, ele respondeu.

E se a pessoa já estivesse morta quando foi baleada, indaguei.

Ele explicou que, se o sangue já estivesse coagulado, não escorreria.

Acrescentei: e não haveria pressão arterial para ocorrer sangramento.

Evidentemente, não sugiro que tenha ocorrido isso, um tiro num cadáver para ocultar outra razão da morte.

Mas é inegável que carece de esclarecimento o motivo que levou a Polícia Civil a divulgar a nota de anteontem.

Havia marcas de sangue ao redor do local onde Douglas foi encontrado, em paredes, por exemplo. Mas não era necessariamente sangue provocado pelo tiro, e sim por escoriações, talvez ocasionadas por queda (estivesse ele vivo ou morto ao cair).

A mãe dele insiste que o filho foi torturado até a morte por policiais da Unidade de Polícia Pacificadora.

A PM sustenta que o dançarino do programa “Esquenta” foi atingido durante tiroteio com traficantes e que não é possível saber, por enquanto, de quem partiu o disparo.

Em meio a tantas dúvidas, incluindo o mistério do teor da nota da Polícia Civil, algumas certezas:

1) a PM costuma encarar a população das favelas como inimiga, aliada de criminosos, quando na verdade a esmagadora maioria dos moradores é vítima da bandidagem;

2) a nota da Polícia Civil continha erro grave de informação;

3) seria melhor, como no caso Amarildo, a Divisão de Homicídios assumir plenamente a investigação, e não apenas colaborar com ela.


No Dia Mundial do Livro, uma entrevista sobre a biografia ‘Marighella’
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Mário Magalhães

blog - central da memoria vale

 

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Shakespeare e Cervantes morreram em 23 de abril. Hoje é o Dia Mundial do Livro!

Na quarta edição do programa Central da Memória, a Central 3 coloca no ar o podcast com uma entrevista minha sobre a biografia “Marighella – O guerrilheiro que incendiou o mundo” (Companhia das Letras).

A conversa, que muito me honrou, com João Ferraz, Paulo Jr. e Xico Malta pode ser ouvida clicando aqui.

Os convidados anteriores do Central da Memória foram Antônio Pedro Tota, Eduardo Giannetti da Fonseca e Cláudio Gonçalves Couto.


Alguém ainda consegue acreditar nas versões da Polícia Militar do RJ?
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Mário Magalhães

Barricadas queimam em acesso do Pavão-Pavãozinho, em Copacabana – Foto Lucas Landau/Reuters

 

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Eu seria muito leviano se dissesse ter certeza das circunstâncias em que o dançarino DG, 25 ou 26, morreu ou foi morto (a conjugação verbal muda a história) no morro Pavão-Pavãozinho.

E seria muitíssimo ingênuo se acreditasse, sem provas irrefutáveis, na versão da Polícia Militar do Rio de Janeiro sobre o episódio.

Também ignoro como se deu a morte a bala do cidadão Edilson da Silva Santos, 27, alegadamente durante o protesto de ontem dos moradores da favela contra a morte de DG, cujo nome de registro, que só se conheceu na desgraça, era Douglas Rafael da Silva Pereira.

Estou mais por fora ainda sobre o menino de 12 anos que, de acordo com testemunhas, teria sido ferido. Até o momento em que escrevo, a PM nada fala.

Mas a convicção, em todos os casos, é a mesma: é impossível se fiar, sem desconfiar, nos relatos da PM. Esse sentimento, que se alastra, não é só meu.

Lembram-se do Amarildo? Até a investigação desmascarar as mentiralhadas de agentes da Unidade de Polícia Pacificadora da Rocinha, a PM negava a morte sob tortura e a ocultação do cadáver do pedreiro.

E da Claudia Silva Ferreira, baleada durante operação da PM no morro da Congonha e arrastada até a morte por um veículo da corporação? A inverossimilhança tingiu os depoimentos dos policiais envolvidos.

Sobram exemplos.

A Polícia Civil não tem se saído muito melhor.

Ontem,  soltou nota divulgando que análise do Instituto Médico-Legal mostrara escoriações do dançarino do programa “Esquenta” “compatíveis com morte ocasionada por queda” (leia aqui reportagem do UOL).

Mais tarde, o “Jornal da Globo” revelou que o artista foi morto, conforme declaração de óbito do IML, por “hemorragia interna decorrente de laceração pulmonar decorrente de ferimento transfixante no tórax”.

Em linguagem de gente, isso costuma significar que uma bala entrou e saiu. Antes, a Polícia Civil só descrevera escoriações. Por quê?

No caso Amarildo, a atuação do delegado Orlando Zaccone foi decisiva para impedir manobra dentro da Polícia Civil para livrar os PMs da suspeita de crime. Onde está Zaccone? Caiu em desgraça.

Há uma UPP no Pavão-Pavãozinho, morro fincado entre Copacabana e Ipanema. A mãe de DG afirmou: “[Meu filho] foi torturado pela PM da pacificação até a morte”. Ela contou ter visto marcas de botas no corpo do filho, que teria sido surrado.

E o jornalismo ainda se refere a “favela pacificada”. Santa hipocrisia!

Alguém ainda consegue acreditar nas versões da PM?

Parece aquela história do garotinho que, brincando, grita por socorro quando mergulha no mar. Quando o afogamento é para valer, ninguém o leva sério. Mesmo quando a PM é sincera, muitas pessoas mantêm o ceticismo.

A violência dos policiais militares contra os moradores é um dos principais motivos das dificuldades do programa de UPPs. Os PMs encaram o povo da favela como inimigo, aliado de traficantes e bandidos em geral. Por isso atiram e matam inocentes.

No Rio e no Brasil, a polícia odeia pobre.

A redução, descartando o lero-lero promocional, do programa a operações de guerra, sem contrapartida robusta de apoio social, também faz as UPPs patinarem.

Por interesse político, as UPPs foram ampliadas sem que houvesse recursos humanos para isso. PMs, mais de 1.600, existem para expulsar pobre de ocupação de prédio e terreno abandonados, mas não para protegê-los dos criminosos que infernizam a vida dos trabalhadores, sobretudo os que vivem em favelas.

A lei mandou “desocupar”? A lei também ordena garantir a segurança dos cidadãos. O governo estadual tem suas prioridades.

Poucos cariocas ligaram para a matança de ao menos dez jovens no complexo da Maré em junho do ano passado.

Os policiais se complicam ao reproduzir na zona sul o que fazem no subúrbio, na zona oeste e na Baixada. A Rocinha fica grudada a São Conrado. O Pavão-Pavãozinho, a dois bairros de classe-média para cima, a considerar o pessoal do asfalto.

Há muitas dúvidas e suspeitas sobre o que ocorreu ontem.

A certeza é que a palavra da Polícia Militar, por sua própria culpa, tem carecido de credibilidade.

Que São Jorge, cujo dia se comemora hoje com feriado aqui no Rio, nos proteja.


Eu soube em 2007 que a memória de Gabo definhava; soneguei o furo e calei
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Mário Magalhães

Gabriel García Márquez, março de 2014, no dia dos 87 anos – Foto EFE/Mario Guzmán

 

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Uma colombiana me disse, com palavras que chacoalhavam a alma, mas sem perder o acento sereno semelhante ao de quem avisa que vai à padaria em busca da fornada quentinha:

“Gabo está con Alzheimer”.

Surpreso, reagi com a atitude atávica de repórter. Isto é, perguntei:

“Como sabes?”.

Éramos três ali, conversando em castelhano numa casa colada à Harvard University, na cidadezinha norte-americana de Cambridge. A outra conterrânea de Gabriel García Márquez confidenciou como ela e a colega haviam descoberto que a memória do escritor definhava.

Corria maio de 2007, e participávamos da conferência anual da ONO, as iniciais em inglês da Organização dos Ombudsmans de Notícias. Pode-se pronunciar a agourenta sigla como “ou-nou!”, o que em português se entende como “ai-não!”.

Somente dali a cinco anos e dois meses um irmão de García Márquez revelaria que o gigante da literatura padecia de demência senil.

Foi o tempo que eu tive para publicar um furo de impacto mundial, sobre as brumas do esquecimento que encobriam a matéria-prima, as lembranças, do garoto de Aracataca.

Pois eu nunca noticiei o segredo. Em gesto que não lustra o currículo de repórter algum, decidi calar, em vez de contar.

O que teria pensado sobre o meu silêncio um apaixonado pelo jornalismo como Gabriel García Márquez?

Sommelier de ocasião

Daquelas jornadas na Nieman Foundation for Journalism at Harvard eu me recordo dos prognósticos clarividentes de que em breve o jornalismo gravitaria na internet e da ansiedade de algumas conferencistas com o mata-mata do programa “American Idol”. Elas divergiam sobre o talento dos cantores neófitos e repartiam sua torcida entre os concorrentes.

O título do encontro alardeava uma transição no jornalismo, mas o editor do “Guardian” argumentou que o mais apropriado seria revolução. Logo um ator propositalmente parecido com ele, cabelos desalinhados como desenhos de moléculas de DNA, apareceria na redação do jornal londrino, numa cena de filme de Jason Bourne, o matador desmemoriado. Na sequência seguinte, um sniper a soldo da CIA fuzila um repórter.

Até hoje, quando o papo com os convidados empaca, as crianças aqui de casa me instam a narrar mais uma vez o episódio estrelado por um dos 45 representantes dos leitores, oriundos de 13 países, que viajaram a Harvard. Mesmo quando não arranca risadas, por deficiência do imitador, a reconstituição desinibe o convescote.

Numa noite de maio de 2007, éramos cinco os comensais em um restaurante moderninho no porto de Boston, perto de Cambridge: as duas colombianas, eu, outro ombudsman e sua mulher.

A garçonete sugeriu uma degustação de três vinhos, todos californianos, meio copo de cada um. Não demorou e o gajo jornalista anunciou, com pompa, que compartilharia uma lição recém-aprendida num curso ministrado por enólogo.

Afetando habilidade de malabarista, ele segurou o copo de vinho, ergueu-o no ar pela haste, girou o líquido, esculpiu um redemoinho e ensinou:

“Não é assim que se faz”.

Pousou o copo na mesa, revolveu-o mais rápido, procurando o ar libertador de aromas sequestrados, e tragou um gole do tinto encorpado:

“É assim”.

Eis a epifania que o fanfarrão pronunciou feito um Newton a pontificar sobre a gravidade ou um mágico a segredar o truque: com o copo apoiado à mesa, e não balançado no ar, há menos risco de o vinho respingar.

Nosso sommelier de ocasião não brincava, falava sério.

Se a comida estava boa? Não lembro.

Tentação de noticiar

Também não sei se foi antes da inusitada aula de prova de vinho ou depois que, em um intervalo da conferência, ouvi a novidade:

“Gabo está con Alzheimer”.

As jornalistas trabalhavam em emissoras de televisão da Colômbia. Havia pouco elas tinham testemunhado que a memória de García Márquez se enevoava como uma antiga imagem embaçada da pré-história da TV.

Velhas amigas de Gabo, assustaram-se numa recepção em que ele não as reconheceu. Não é que o octogenário tenha esquecido como elas se chamavam, o que não é incomum _Ruy Castro apela aos seus leitores para carregarem um papelzinho com o nome dentro dos livros, nas filas de autógrafos, pois é possível que lhe falte até o nome de íntimos.

García Márquez não as identificou, como se o apresentassem a dois recém-nascidos, e elas supuseram que os indícios de demência equivaliam à doença do alemão (no futuro, não haveria diagnóstico de Alzheimer, e sim de demência senil).

O Prêmio Nobel de Literatura lançara em 2004 seu romance “Memória de minhas putas tristes”, com raros rasgos de inspiração, mas ainda um autêntico García Márquez. Seria o livro derradeiro.

O primeiro volume da trilogia autobiográfica “Viver para contar” saíra dois anos antes, e eu lembro que o autor recapitulou sua estreia nos prazeres da carne. Aguardei a continuação que acabaria por não chegar.

Em 2007, eu exercia a função de ouvidor de jornal, e nessa condição compareci à conferência nos Estados Unidos. Dedicado à critica de mídia e a intermediar a relação entre leitores e redação, não escrevia reportagens.

Ciente do tesouro que guardava, conservei-o com cuidado e voltei a pensar nele em abril do ano seguinte, quando meu mandato de ombudsman (ou editor público, como prefere o “New York Times”) expirou e eu reassumi o posto de repórter.

As fontes eram confiáveis. Eu conhecia chapas de Gabo no cinema e na literatura, bastaria consultá-los e confirmar. No começo da década, em dobradinha com Sérgio Rangel, eu produzira um estrondo jornalístico com a investigação exclusiva sobre como Pelé e sócios faturaram centenas de milhares de dólares em nome da seção argentina do Unicef.

O evento beneficente não saiu do papel, e a empresa Pelé Sports & Marketing Inc. embolsou o dinheiro. Deparávamo-nos com os ecos de nossos furos até em portais noticiosos da Ásia e do Leste Europeu cujos idiomas e alfabetos nos pareciam hieroglifos.

Com a doença de Gabo, o barulho seria ainda maior. Legitimidade jornalística não faltava, dada a evidente relevância pública das informações sobre o escriba soberbo e best-seller consagrado.

Emplacar o furo de reportagem foi uma tentação, mas titubeei.

Argentino sedutor

Agora que García Márquez partiu, pululam aspirantes a Forrest Gump contando que privaram com ele. Ainda aparecerá um paspalhão envaidecido por ter soltado um pum no elevador onde cruzou com o falecido.

Salvo traição da memória, dessas que volta e meia me atropelam, jamais estive com Gabo. O despropósito do tratamento pelo apelido decorre do abuso de leitor devotado e da admiração reverente de companheiro de jornalismo.

Não, a memória não apagaria um encontro assim. Não estive com García Márquez nem em sonho nem no elevador. No entanto, é mais ajuizado obedecer à matreirice do pinguço que não se compromete: não é que não tenha acontecido; eu não me lembro de que tenha ocorrido.

Além do deleite de suas histórias, devo a García Márquez a chance de aprendizado numa luminosa oficina de jornalismo narrativo. Por cinco dias, conduziu-a o jornalista e escritor Tomás Eloy Martínez (1934-2010), na Fundación Nuevo Periodismo Iberoamericano.

A fundação foi criada por García Márquez em Cartagena de Indias, município da Colômbia caribenha cuja antiga “cidade amuralhada” é um lugar inesquecível. E onde o jovem Gabo, pouco mais que um foca, gastara sola de sapato coletando notícias para o diário “El Universal”.

No sobrado erguido no século XVIII ou XVII, eu e onze colegas latino-americanos nos embevecemos com a sabedoria de Tomás Eloy. Submeti-lhe uma reportagem que viria a integrar meu livro “Viagem ao país do futebol”, parceria com o repórter-fotográfico Antônio Gaudério.

O argentino cobriu-me de boa vontade, elogiou a prosa do único aluno de língua materna portuguesa, porém advertiu: isto não é jornalismo narrativo. Por esse crivo, nenhum dos seus aplicados aprendizes passou.

Frustrei-me _besteira; qual a diferença?_ com sua resposta à minha curiosidade sobre o que era real em sua obra-prima “Santa Evita”, espécie de romance histórico.

“Nada”, esclareceu o autor, estampando seu sorriso sedutor.

Para jogar charme sobre duas jornalistas de Buenos Aires, Tomás Eloy me desafiou para um duelo cultural entre nossas nações. Não refuguei, ele lançou Maradona, eu contra-ataquei com Pelé (temi que o Zico não colasse), meu antagonista hesitou, mas cedeu.

No quesito literatura, diante de Cortázar, Borges e companhia, assimilei a sova. Quando o autor de “La novela de Perón” falou em doce de leite, apelei, e ele e as compatriotas perderam a esportiva ao escutarem o que tomaram como infâmia:

“Os uruguaios são os melhores”.

Com o trio ofendido com minha alegada predileção por um “dulce de leche” fabricado no país de Obdulio, Ghiggia e Galeano, a contenda terminou ali. Sem vencedor, mas com as colegas ainda mais encantadas com o encantador Tomás Eloy.

Sem cansar, nosso “maestro” evocou macetes da escrita de seu amigo Gabo. Uma das dicas enfatiza o valor transcendental da abertura da narrativa como isca para capturar a atenção do leitor.

Mal nosso professor mencionou o romance “Cem anos de solidão”, os colombianos presentes recitaram de memória as palavras iniciais, num coro improvisado e arrepiante:

“Muchos años después, frente al pelotón de fusilamiento, el coronel Aureliano Buendía había de recordar aquella tarde remota en que su padre lo llevó a conocer el hielo. Macondo era entonces…”.

O ar-condicionado do casarão barrava bravamente o mormaço sufocante da rua, como os muros de Cartagena haviam contido os invasores marítimos de outrora. O Brasil se engolfava, naquela quadra de 1998, na campanha do segundo turno da eleição para governadores. Ainda bem que eu estava longe.

Não sei com certeza como a semana na escola fundada e animada por García Márquez me influenciou. Cinco anos mais tarde, pedi as contas no jornal para mergulhar em um livro de não ficção.

Obsessivo, escrevi e reescrevi a abertura. A frase inicial acabou impressa assim: “Carlos Marighella viu a zeladora do prédio onde morava caminhando em sua direção e pensou que, outra vez, conseguira ludibriar a polícia”.

“Mais uma vez” seria mais eloquente do que “outra vez”, mas havia um “mais” na sentença seguinte, e em português os preceitos de elegância recomendam restringir a repetição de palavras. Será que acertei?

Só uma eternidade depois de ter redigido o início do livro é que me dei conta de que digitei um lide, o princípio da notícia em sua estrutura clássica.

Este era outro mantra de Gabo: ao contar uma história, tanto faz se ela é imaginada ou não ficção; a carpintaria narrativa é a mesma.

Mais um: quase sempre o advérbio de modo é excessivo (e não “claramente” excessivo). Cortá-lo, assim compreendi, é como amputar um terceiro braço.

Já com o belíssimo adjetivo “diáfano” García Márquez era _algum senão?_ useiro e vezeiro. Nunca houve, e aí transparece o gene caribenho, tantas águas diáfanas na literatura universal.

Espelho, o problema

Antes da conclusão da biografia, em 2012, eu passaria nova temporada no jornal, do segundo semestre de 2006 a 20 de janeiro de 2010, Dia de São Sebastião, feriado no Rio.

Em 2008, eu matutava sobre o que fazer com a doença de García Márquez.

Constitui falácia a ideia de que tudo o que um jornalista apura deva ser publicado. Noutros tempos, sopraram-me que um veterano desportista, pagando do próprio bolso, decolava nas excursões ao exterior acompanhado da regra três _era verdade. Atletas mais jovens despendiam os horários de folga praticando sem discrição o esporte do adultério. A mulher de um ministro havia sido amante de um candidato a presidente.

Não veiculei sequer uma linha sobre as bolinagens extraconjugais porque, embora houvesse inegável interesse do público, sedento de fuxicos a respeito da vida alheia, inexistia interesse público. Trocando em miúdos, as escapadelas de craques e pernas-de-pau configuravam assunto da esfera privada, sem consequências à coletividade. Sua divulgação era ilegítima.

Seria diferente se um jogador da seleção ou um senador fosse preso por pedofilia ou flagrado cometendo esse crime pelo qual todos os cidadãos são ou deveriam ser passíveis de punição. Nessa hipótese, a notícia se revestiria de interesse público.

Eu abrira mão, em 2004, de um furo de envergadura histórica. Vasculhando papéis empoeirados, aventura temerária para um alérgico crônico feito eu, dei com um laudo de necropsia e uma foto de cadáver, embaralhados no acervo do Arquivo Público do Estado de São Paulo.

Os amarelados documentos da polícia política do passado descreviam em pormenores as fraturas resultantes da sessão de tortura que matou o operário Virgílio Gomes da Silva e exibiam seu crânio deformado, com um lado afundado, mais baixo do que o outro.

Eu colhera provas irrefutáveis de que o guerrilheiro Virgílio, nome de guerra “Jonas”, tinha sido detido, torturado, assassinado e sumido.

Líder do sequestro do embaixador dos EUA, comandante militar da maior organização armada de combate à ditadura e primeiro “desaparecido político” do regime parido em 1964, Virgílio havia sido trucidado na sede da Operação Bandeirante, em setembro de 1969. Houvera testemunhas, mas os agentes do Estado negavam que o militante estivesse sob sua custódia. Minha descoberta era o xeque-mate.

A garimpagem bem-sucedida no arquivo do Dops, além de contribuir para elucidar um célebre episódio de violação dos direitos humanos, fomentaria a promoção da biografia que eu preparava e da qual “Jonas” figurava como personagem destacado.

O problema foi o espelho. Sim, aquele onde nos miramos de manhã e, depois que as partículas de vapor escorrem, em seguida aos banhos. Eu ignorava quantos anos o ponto final do livro demoraria, mas tinha noção de que faltavam alguns (seriam mais oito).

E se, nesse meio tempo, a viúva de Virgílio viesse a falecer? Dona Ilda e os quatro filhos nunca desistiram de buscar o corpo do guerrilheiro, na esperança de lhe oferecer um enterro digno. Eu dispunha de informações que poderiam ser úteis à batalha da família.

Não precisei me olhar de novo no espelho, pois já sabia o que a cabeça e o coração mandavam. Entreguei a papelada aos Silva, eles convocaram uma entrevista para lhe dar publicidade e perseveraram na procura pelos restos mortais de Virgílio, ainda hoje não encontrados.

Junto com a oficina de jornalismo narrativo, a fundação de García Márquez me proporcionara outra, todos os dias ao entardecer, sobre ética.

Não seria antiético adiar para meu livro a denúncia sobre as circunstâncias da morte de Virgílio Gomes da Silva. Mas eu seria injusto com dona Ilda, ao menos assim me sentiria. Não me perdoaria se lhe ocultasse pistas valiosas para o seu sonho de se despedir do homem de sua vida.

A coisa certa?

Contar ao planeta que a memória de García Márquez fraquejava também não feriria a ética. Ele era figura pública e com atividade pública. Até a desinteligência de ordem passional com o escritor Mario Vargas Llosa havia ocupado as primeiras páginas, com direito a fotografia do colombiano, ares marotos, mostrando um olho roxo (será que Gabo só se insinuou à mulher do peruano tão genial quanto ele ou logrou êxito ao cortejá-la?).

Para mim, contudo, o caso do narrador que vivia de sua memória e a perdia, assim como eu não consigo me lembrar de uma só piada, não se assemelhava ao boxeur cuja força se esvai ou ao ator pornô nocauteado antes da hora agá.

Por mais consistência que eu tente conferir à minha retórica, o motivo determinante foi a minha irrevogável gratidão a Gabriel García Márquez, sobretudo pela saga dos solitários Buendía.

Contrapus à legitimidade jornalística meus sentimentos e idiossincrasias, o que não enobrece a trajetória de um repórter.

Para os repórteres que merecem a designação, o furo tangencia o fetiche, a razão de levantar todos os dias e ir à luta. Por desconfiar de que Gabo queria preservar na intimidade o segredo sobre a memória esfumada, eu recusei o furo, sonegando-o ao jornal e aos leitores.

Em 2012, quando Jaime, o irmão de Gabo, desvendou a demência senil desenvolvida “havia anos”, o principal colaborador do escritor na Fundación Nuevo Periodismo Iberoamericano contestou a informação.

Como eu sabia que o depoimento do irmão tinha lastro nos fatos, interpretei a declaração do outro Jaime, o jornalista Jaime Abello Banfi, diretor da fundação, como generosa fidelidade ao desejo do amigo García Márquez de omitir a doença (não tenho como assegurar se foi isso mesmo).

Essa seria a vontade de Gabo. Quando li o tuíte de Jaime Abello, achei que eu tinha feito a coisa certa.

Não certa para o jornalismo, mas para a minha consciência.

Talvez um dia, entre uma história vivida e outra reminiscência contada, eu venha a me arrepender.


Biografias, censura prévia, futebol e ditadura: entrevista ao Portal EBC
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Mário Magalhães

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No domingo, tive a honra de participar de um debate sobre futebol e ditaduras, ao lado de Eduardo Galeano, Lúcio de Castro e Rodrigo Merheb.

Mais testemunhei, pois os caras são craques, do que participei. Foi na II Bienal Brasil do Livro e da Leitura, em Brasília.

Mais tarde, dei uma breve entrevista ao Portal EBC. Para assisti-la, basta clicar na imagem acima.


Ao ressuscitar ‘campeão moral’, cartolas insultam inteligência de vascaínos
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Mário Magalhães

Imagem que a diretoria pede que torcedores exibam nas redes sociais

 

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A quem interessar possa, evitando aporrinhações paranoicas e baixarias ressentidas: tenho pai, dois irmãos, uma irmã e até a sogra vascaínos (o último irmão é gremista).

Sou Flamengo.

Se fosse Vasco, estaria bronqueado não somente com a garfada do domingo, mas com a diretoria do clube, que encena protestos nos quais só acreditam os que se deixam ludibriar.

A cartolagem falou em buscar na Justiça a anulação da decisão contra o Flamengo devido ao gol em impedimento que deu o título ao adversário.

Como sabe qualquer recém-nascido, não se anula partida por equívoco como o do Maracanã. O impedimento não foi notado pelo árbitro Marcelo de Lima Henrique e seus auxiliares, mas também pelo time cruzmaltino, que só chiou depois de saber o que mostravam as imagens da TV.

Outro factoide é a tal ação que tentaria ressarcir os cofres do clube pelo dinheiro perdido com a derrota no Campeonato Estadual.

Roberto Dinamite e seus pares sabem muito bem que isso não ocorrerá, porque a lei não permite esse tipo de indenização.

O mais constrangedor é chamar seus jogadores de “verdadeiros campeões” (leia aqui).

Os verdadeiros campeões são rubro-negros.

Caso contrário, estaria na hora de mudar  o resultado de Copas do Mundo.

O pênalti contra o Brasil, no Mundial do Chile-62, evitado pela malandragem de Nilton Santos, que caminhou para fora da área, significaria a cassação do nosso bi?

“Campeão moral” foi a cascata inventada pelo grande técnico Cláudio Coutinho, ao cair na Copa da Argentina-78.

O Brasil foi passado para trás, mas aceitara o regulamento maroto em que os anfitriões jogariam depois de nós, sabendo do placar necessário, contra o Peru, para nos eliminar. A seleção foi pusilânime, ao aceitar o empate contra os argentinos.

Campeão moral? Enrolação do capitão (do Exército) Coutinho que só os Pachecos mais ingênuos engoliram.

Roberto Dinamite e sua turma levaram o Vasco para a segunda divisão do Brasileiro.

Pior ainda, não romperam com as jogadas de Eurico Miranda, mas as renovaram, agora com novos beneficiários.

Toda a encenação em curso pretende que os vascaínos esqueçam o estado deprimente do clube.

O Vasco foi garfado, sim, no domingo.

O que não dá aos seus cartolas o direito de insultar a inteligência dos torcedores, embalando-os com ilusões nas quais só acredita quem quer.

Como disse Dé, ex-atacante do clube, conforme a coluna de hoje do Ancelmo Gois: “O Vasco é maior do que tudo isso. Eu mesmo, quando jogava no Vasco, fui muitas vezes beneficiado por erro de juiz. Isso acontece. Fica parecendo que o juiz só erra contra o Vasco”.

Foi o Dé quem disse, não eu, que apenas concordo com ele.


Argentina é a primeira seleção completa no álbum. Será um sinal?
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Mário Magalhães

blog - album argentina

 

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A moleca de 13 anos chega da escola com 18 novas figurinhas, recém-trocadas.

Faltava um jogador, Marcos Rojo, para completar a seleção argentina.

Não falta mais. “Será um sinal?”, pensa alto a minha filha.

Para o guri de 7 anos, o cromo não “é” Marcos Rojo, e sim o “419″.

Numa das barbaridades do álbum da Copa 2014, não se sabe quem é o jogador que falta, pois seu nome não é impresso nas páginas.

Buscamos números, não jogadores. Só ficamos sabendo de quem se trata ao conseguir, como no caso, o 419.


‘Se querem apitar pela TV, mudem regra do jogo’, diz árbitro de Fla x Vasco
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Mário Magalhães

Flamengo, 33 vezes campeão do Rio – Foto Julio Cesar Guimaraes/UOL

 

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Marcelo de Lima Henrique, o árbitro que validou o gol em impedimento que deu o título do Rio ao Flamengo, disse ao repórter Alysson Cardinali, de “O Dia”:

“Me sinto tranquilo. Triste, mas tranquilo. Era uma final de campeonato, com duas grandes equipes, uma partida equilibrada, cheia de rivalidade, um Flamengo x Vasco. A repercussão, para o bem ou para o mal, foi compatível com o peso do clássico. Eu trabalho todos os dias para fazer o melhor. Dei o meu melhor no Maracanã. Agora, hoje, existe o jogo do campo e o jogo da TV. Se querem apitar pela TV, que mudem as regras do jogo”.

O árbitro não viu que Márcio Araújo estava impedido, no gol decisivo no finalzinho do clássico contra o Vasco.

Não foi só ele: o time vascaíno não protestou, ao menos em peso, na hora, mas só depois de saber que as imagens em movimento expuseram a irregularidade.

Marcelo, reconhece, com razão (a entrevista pode ser lida na íntegra clicando aqui):

“A arbitragem perdeu para a tecnologia. O que vamos fazer para melhorar? A entrada da tecnologia. Uns vão acertar, outros errar. É assim mesmo, é uma coisa secular. Os olhos humanos nunca vão competir com a tecnologia. Os lances do campo só foram discutidos com replay. Se não fosse a tecnologia, nem estaríamos discutindo sobre isso agora”.

Garfado na Taça Guanabara, garfado na decisão do Estadual. Pobre Vasco.


São Paulo: nesta quarta-feira, Flávio Tavares lança ’1964: O Golpe’
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Mário Magalhães

 

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O jornalista Flávio Tavares lança nesta quarta-feira, em São Paulo, o livro “1964: O Golpe” (L&PM Editores).

A obra reconstitui a participação do governo dos Estados Unidos na deposição do presidente João Goulart.

O lançamento de amanhã será na Livraria Cultura do Conjunto Nacional.

Às 19h, o autor debate com o dramaturgo e escritor Walcyr Carrasco.

Em seguida, rola sessão de autógrafos.