Blog do Mario Magalhaes

Sobre o sotaque do Wagner Moura em ‘Narcos’
Comentários 8

Mário Magalhães

blog - narcos

 

Com a tarimba de quem morou por dez anos, a adolescência inteirinha, a menos de uma hora e meia da fronteira com o Uruguai, estou assombrado com a última deste nosso país idiossincrático: a pátria agora parece ser a de especialistas em espanhol, sobretudo em sotaque, até na pronúncia de cada rincão da Colômbia. Enfim, damos adeus à solidão da fala portuguesa em meio a terras castelhanas, reconhecemo-nos latino-americanos… _seria isso mesmo?

Junto com a estreia da novela das nove, o talk of the town tem sido a atuação do Wagner Moura na série “Narcos''. Em particular, o seu acento em “habla hispana'', na pele do traficante colombiano Pablo Escobar, nascido (1949) e morto (1993) no departamento de Antioquia.

Antes que atirem o primeiro petardo, mirando o interlocutor, e não as ideias, sou suspeito: conheço o Wagner Moura, considero-o um tremendo ator, um cidadão decente. E, sim, cedi a ele e à produtora O2 os direitos de adaptação cinematográfica de um livro que escrevi. Dito isso, vamos à arte.

Com direção do José Padilha, fotografia do Lula Carvalho e canção de abertura do Rodrigo Amarante, os dez episódios da temporada inaugural de “Narcos'' são estupendos (a rigor, Padilha produz todos e assina a direção dos dois primeiros). Um trabalho de altíssima qualidade estética. Abandonei a segunda rodada de “True Detective'' pelo meio, assistindo em pacote ao resto dos capítulos. “Narcos'' é muito melhor. E, eis a contra-indicação, vicia. Como o Netflix oferece todos os episódios, é difícil parar de ver. Acabei na madrugada de domingo para segunda. Saí para trabalhar esgotado, mas sem arrependimento.

A interpretação do Wagner Moura é acachapante. Um ator menos talentoso se perderia em caras e bocas vivendo o criminoso sem escrúpulos que mandava explodir bombas e matava inocentes aos magotes. Em vez disso, o intérprete de “Narcos'' criou um personagem ensimesmado, melancólico, de uma tristeza de derrotado mesmo quando triunfa. Um desempenho que mundo afora colhe aclamação de público e crítica.

O que mais impressiona no seu espanhol não é o sotaque brasileiro, mas como, em escasso tempo de preparação, alguém sem intimidade com a língua do García Márquez passou a defendê-la com galhardia e eficiência. É claro que em um ano, ou numa vida, ninguém perde integralmente a prosódia do idioma materno. Mas não ouvi nada que afetasse a verossimilhança. O que se vê na tela é Pablo Escobar, ou o magnífico personagem Pablo Escobar do Wagner Moura. A despeito da pronúncia de um não nativo. Como costuma ocorrer, as principais ciladas fonéticas se dão nas palavras iguais ou semelhantes ao português. Nossa tendência, força do hábito, é pronunciá-las como sempre fizemos.

Estranha a bronca com o sotaque do co-protagonista _Escobar divide o proscênio com um agente antidrogas norte-americano_ da série falada em inglês e espanhol. Que eu me lembre, pouca gente encrencou com o carioquês e o baianês em “O homem que copiava'', ótimo filme do Jorge Furtado passado em Porto Alegre. Não era o caso, pois a verdade da história e dos personagens não deriva da pronúncia. Idem com a minissérie “A casa das sete mulheres'', o que não ofuscou as virtudes do belo programa.

Em “Comer, rezar e amar'', o Javier Bardem faz um brasileiro que não fala português como brasileiro. E daí? O Sean Connery manteve o sotaque escocês mesmo na pele de norte-americano. E o espanhol do Rodrigo Santoro-Raúl Castro, em “Che'', difere do dos cubanos.

Como estava o russo do Omar Sharif em “Doutor Jivago''? Não estava. O filme é em inglês, e o do grande ator tem sotaque egípcio.

E o alemão do Tom Cruise em “Operação Valquíria''? Não sei, pois seu coronel Von Stauffenberg se comunica em inglês gringuíssimo.

O que isso tudo quer dizer? Que sotaque não determina o êxito da interpretação, e sim o conjunto da construção do personagem. E aí o Wagner Moura arrebenta, em mais uma tabelinha com o José Padilha.

De qualquer modo, não acho que seja ilegítimo ou besteira se incomodar com seu sotaque, também no Brasil e ainda mais na Colômbia. Cada cabeça uma sentença.

Enquanto a controvérsia rola no país em que boa parte do público prefere filmes dublados, o Wagner Moura vai se consagrando, inclusive nos Estados Unidos. Vem aí uma promissora carreira internacional.

( O blog está no Facebook e no Twitter )


Renê, do Sport, anotou o golaço do fim de semana. O golaço da dignidade
Comentários 15

Mário Magalhães

O lateral Renê (de frente), do Sport. no 2 a 2 de maio com o Flamengo - Foto Buda Mendes/Getty Images

O lateral Renê (de frente), do Sport, no 2 a 2 de maio com o Fla – Foto Buda Mendes/Getty Images

 

Depois do almoço, no sábado, Bayern de Munique 3 a 0 no Bayer Leverkusen. Com novo experimento do Guardiola. No Barcelona, ele chegou a jogar sem nenhum defensor de ofício entre os quatro da linha de defesa. Anteontem, montou a equipe bávara com um trio fazendo as vezes de zaga, mas sem nenhum zagueiro-zagueiro ou mesmo zagueiro mais estiloso. No centro, atrás, o volante Xabi Alonso, com o lateral ou volante Lahm pela direita e o lateral Alaba pela esquerda. Perde-se em punch defensivo, mas ganha-se a saída de bola com altíssimo nível técnico. Deu certo. Impossível ter sono com um onze do treinador catalão.

Em seguida, na tarde do sábado, o encanto diminuiu, embora fosse o Barça em campo, 1 a 0 no Malaga. O problema é que o time do Messi, em princípio de temporada, ainda busca embalar. O Neymar, recuperado de caxumba, está fora de forma. O Barcelona finalizou mais de 20 vezes e fez menos faltas do que os dedos da mão.

No domingo, o Flamengo venceu o Sport por 1 a 0, no terceiro jogo do Oswaldo. O treinador soma duas vitórias no Brasileiro e um empate (com eliminação) na Copa do Brasil. Tudo bem que contar com um jogador a mais desde o primeiro tempo, consequência de expulsão justa do Samuel Xavier, ajudou. Mas desde o início parecia haver mais solidariedade, com um buscando o outro, em vez de tentar resolver sozinho. E mais ousadia, sem a obsessão roda presa dos três volantes que prevaleceu neste ano. O Leão, que jogara muito mais que o Flamengo no Rio, desacelerou, fase ruim, em Pernambuco.

O episódio mais notável da partida não foi o gol do Everton ou o vermelho para o Samuel. Mas a decisão do lateral-esquerdo Renê de recusar o apelo da torcida, de muitos companheiros e do técnico Eduardo Baptista (este não deve ter sido visto) para não parar o jogo quando o Everton estava caído. Contra a massa, Renê tocou pela lateral.

Dois toques, antes de concluir.

Um. No 2 a 2 do Maracanã, em maio, o Flamengo só chegou aos 2 a 2 nos acréscimos da segunda etapa. Diego Souza havia ido para o gol, substituindo Magrão, contundido. Na jogada do empate, o rubro-negro carioca não devolveu a bola para o rubro-negro pernambucano, depois que ela havia sido chutada para fora, quando o Élber estava no chão. Os donos da casa apontaram cera, interpretação igual à do árbitro. O Sport julgou que o Flamengo ferira o fair play, ao ficar com a pelota. Seus jogadores saíram legitimamente bronqueados.

Dois. Sou Flamengo, o que não significa que seja um fanático capaz de aceitar estupidez em nome do paixão. Acho que ganhar roubado não é mais gostoso, portanto discordo de um ex-goleiro nosso que pronunciou tal cretinice. Mas sou rubro-negro _do Rio_, tenho coração e opinião, não sou filho de chocadeira. O que eu quero dizer é que pensaria a mesma coisa se tivesse ocorrido o contrário, com as camisas trocadas. Se alguém desconfiar que é papo furado, faz parte.

Aos finalmentes. Renê deu uma lição de dignidade. Foi maior que o Flamengo do Maracanã e que o Sport da torcida e parcela do time. Ensinou, para muito além do futebol, que é possível não se curvar ao ímpeto de manada, que dá para pensar por conta própria. Everton estava mesmo sofrendo, levou um pisão daqueles de machucar de verdade. Corria o segundo tempo, e o Sport honrava suas melhores tradições, sem se entregar. Ao ver que um colega de profissão, adversário no gramado, se contorcia de dor, o Renê chutou para a lateral. Não é que tenha sido vaiado, apenas. Foi xingado e hostilizado pela torcida do seu clube.

O Renê reconheceu o direito de o torcedor  apupar, mas afirmou que em campo a decisão é dele. “Se eu não tivesse feito [parado o jogo para o atendimento médico], eu sairia com a consciência pesada.''

O mais generoso no gesto do Renê foi rejeitar a vingança. No clima do jogo, foi de uma coragem incomum. (E ainda por cima o cara salvou dois gols.)

Talvez o Brasil fosse melhor se, em vez de se preocupar com vaias e xingamentos, cada um se mantivesse escrupulosamente fiel à sua consciência.

Parabéns, Renê!

( O blog está no Facebook e no Twitter )


Falta d’água no Rio do século… 19. Marc Ferrez fotografou obras
Comentários 2

Mário Magalhães

Neste século 21, não há dia sem notícia de falta d'água no Grande Rio, quase sempre castigando os mais pobres. Com ameaça de faltar ainda mais, por causa dos reservatórios com sede. No século 20, a marchinha fez a crônica do “Rio de Janeiro, cidade que me seduz, de dia falta água, de noite falta luz''. O problema vem de antes. De passagem pelo Arquivo Público do Estado do RJ, dei com a exposição de algumas fotos do carioca Marc Ferrez. A que está abaixo (de 1889, informa a Brasiliana Fotográfica) retrata obra de canalização do rio São Pedro, no tempo em que _conta texto na imagem seguinte_, “no século 19, o Rio de Janeiro sofria com a falta de água''. Naquela época, São Pedro ajudava. Hoje, colocam a culpa nele.

( O blog está no Facebook e no Twitter )

"Obras provisórias para canalização do rio São Pedro" - Foto Marc Ferrez/Aperj

“Obras provisórias para canalização do rio São Pedro'' – Foto Marc Ferrez/Aperj

Texto do Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro contextualiza foto acima

Texto do Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro contextualiza foto acima


‘Eu não anistiei ninguém’, cantou Renato Russo
Comentários Comente

Mário Magalhães

 

No dia em que a Lei da Anistia completa 36 anos e num tempo em que a impunidade dos agentes da ditadura ainda incentiva a reedição da barbárie, o blog lembra “La Maison Dieu'', música do disco “Uma Outra Estação'', da Legião Urbana.

Alguns versos:

Eu sou a lembrança do terror
De uma revolução de merda
De generais e de um exército de merda
Não, nunca poderemos esquecer
Nem devemos perdoar
Eu não anistiei ninguém

Eis a íntegra da composição de Renato Russo, gênio da raça, Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá (para ouvir, basta clicar na imagem lá do alto):

Se dez batalhões viessem à minha rua
E 20 mil soldados batessem à minha porta à sua procura
Eu não diria nada
Porque lhe dei minha palavra
Teu corpo branco já pegando pelo
Me lembra o tempo em que você era pequeno
Não pretendo me aproveitar
De qualquer forma quem volta
Sozinho pra casa sou eu
Sexo compra dinheiro e companhia
Mas nunca amor e amizade, eu acho
E depois de um dia difícil
Pensei ter visto você
Entrar pela minha janela e dizer:
“Eu sou a tua morte''
Vim conversar contigo
Vim te pedir abrigo
Preciso do teu calor
Eu sou
Eu sou
Eu sou a pátria que lhe esqueceu
O carrasco que lhe torturou
O general que lhe arrancou os olhos
O sangue inocente
De todos os desaparecidos
Os choque elétrico e os gritos
– Parem por favor, isso dói
Eu sou
Eu sou
Eu sou a tua morte
E vim lhe visitar como amigo
Devemos flertar com o perigo
Seguir nossos instintos primitivos
Quem sabe não serão estes
Nossos últimos momentos divertidos?
Eu sou a lembrança do terror
De uma revolução de merda
De generais e de um exército de merda
Não, nunca poderemos esquecer
Nem devemos perdoar
Eu não anistiei ninguém
Abra os olhos e o coração
Estejamos alertas
Porque o terror continua
Só mudou de cheiro
E de uniforme
Eu sou a tua morte
E lhe quero bem
Esqueça o mundo, vim lhe explicar o que virá
Porque eu sou
Eu sou
Eu sou

( O blog está no Facebook e no Twitter )


Lei da Anistia: impunidade de agentes da ditadura estimula chacinas de hoje
Comentários 29

Mário Magalhães

Campanha da anistia não defendeu anistiar torturadores – Foto Jorge Araújo/Folhapress

 

A fotografia acima recebeu o Prêmio Esso em 1979. Ela documenta manifestação em São Paulo da campanha da anistia. Seu autor é Jorge Araújo, um dos mais brilhantes repórteres fotográficos brasileiros de todos os tempos, com quem tive a sorte, gracias a la vida, de tabelar por anos a fio. O Jorge é tão bom que continua no auge. O cara não tem, ao contrário de tantos craques, fase ruim.

Ninguém naquele protesto (a não ser os espiões infiltrados) advogava anistia para os agentes da ditadura que perseguiam, torturavam, matavam e sumiam com corpos de cidadãos, quase tudo à margem até da lei imposta pela ditadura parida em 1964. A anistia era para os milhares de brasileiros que haviam sido julgados, presos, cassados & caçados, estuprados, banidos, expulsos, seviciados, humilhados, violentados, punidos das mais diversas formas. A campanha democrática exigia “anistia ampla, geral e irrestrita''.

Hoje a Lei da Anistia faz 36 anos. Em 28 de agosto de 1979, o “Diário Oficial da União'' publicou-a, assinada pelo general-de-exército João Baptista Figueiredo, presidente da República sem nem um voto popular, e ministros da ditadura. Não foi nem ampla, nem geral, nem irrestrita, mas permitiu aos oposicionistas deixarem as cadeias (alguns tiveram de esperar meses), à maioria dos exilados regressar, a (poucos) trabalhadores reassumirem seus trabalhos.

A ditadura convencionou que os funcionários públicos que haviam violado os direitos humanos também estariam protegidos pela Lei da Anistia. Estariam abrigados na expressão “crimes conexos''. Papo furado: não há uma só palavra na norma que se pronuncie, para ficar num exemplo, sobre tortura. Logo, torturador não foi anistiado. Tortura, estabelece a legislação internacional, é crime imprescritível.

A ditadura considerou que havia se auto-anistiado. Essa interpretação recebeu respaldo anos atrás do Supremo Tribunal Federal, que pode mudar, se provocado, tal decisão. O que a ditadura fez e se mantém foi consagrar a impunidade de criminosos que, com salários pagos pelos contribuintes, cometeram crimes de lesa-humanidade como a tortura.

Ao contrário do que se supõe, a exigência de punição para torturadores e outros bandidos a serviço do Estado não diz respeito a arqueólogos. A impunidade imposta no passado estimula a reedição da barbárie.

Policiais militares que torturavam (torturam?) moradores da Rocinha na dita Unidade de Polícia Pacificadora contavam com a impunidade para praticar tal crime. Num dia de 2013, torturaram o pedreiro Amarildo, mataram-no e desapareceram com seu cadáver. É provável que agora haja castigo. Mas os PMs faziam o que faziam supondo que, mire-se a tradição, ficariam impunes.

Idem com chacinas como a que resultou na morte de ao menos 19 pessoas neste mês em São Paulo. Se a cultura do não-vai-dar-em-nada inexistisse ou fosse menos arraigada, dificilmente policiais e comparsas perpetrariam um massacre como esse.

Na Alemanha, no Camboja, na Sérvia, na Argentina, em muitas nações os violadores dos direitos humanos no século XX ainda são punidos, mesmo por crimes que parecem distantes.

É pegadinha da história: só parecem distantes, porque, quando se eterniza a impunidade, vitamina-se hoje o impulso bárbaro que seria mais contido em caso de punição exemplar para servidores públicos criminosos.

Quanto mais impunidade _vale para tortura, corrupção e outros crimes_, maior a chance de repetição.

No 36º aniversário da Lei da Anistia, está na hora de, mesmo atrasado, o Brasil cansar de ser o país dos impunes e julgar os agentes da ditadura.

Não deixa de ser um acerto de contas civilizatório com o passado.

Mas é muito mais um projeto de futuro de democracia, tolerância e dignidade.

Lugar de torturador, de ontem e de hoje, é na cadeia.

( O blog está no Facebook e no Twitter )


Em mais um ano sem título, o Flamengo colhe o que plantou
Comentários 26

Mário Magalhães

A bola vai chegar para Rafael Silva marcar de cabeça

A bola vai chegar para a cabeçada do vascaíno Rafael Silva: 1 a 1

 

Pelas seis da manhã, o filho de oito anos se levantou, vestido com a camisa do Flamengo com que dormira, e perguntou sem dar nem bom dia, antes da notícia ruim:

“Quanto foi o jogo?''

Horas antes, sacramentada a eliminação rubro-negra na Copa do Brasil, o irmão vascaíno torpedeara: “Freguês''.

No começo da partida, depois do gol contra de Madson, Flamengo 1 a 0, o irmão gremista mandara outra mensagem: “Que confusão, hein!''.

Confusão no gol controverso e em seguida mais confusão ainda no time que vencia. Em meia hora, o Flamengo perdeu seu maior trunfo ofensivo, Guerrero, e a aposta, Ederson, para a bola chegar camarada ao ataque. Ambos contundidos. O futebol ficou confuso e indigente, com aqueles chutões para a frente que têm chance de resultar em gol igual à do nosso bilhete de rifa ser premiado.

Com Oswaldo de Oliveira, o Flamengo venceu domingo o São Paulo no Campeonato Brasileiro e empatou ontem em 1 a 1 com o Vasco. Ainda sob o comando de Cristóvão Borges, perdera para a equipe cruzmaltina o primeiro confronto do mata-mata. Fica, renovando a rotina, pelo caminho. Com mais um gol sofrido em bola aérea, repetiu o feito-defeito das seis partidas anteriores.

O Flamengo foi sobrepujado pelo lanterninha do Brasileiro. Sem Brasileiro e Copa do Brasil, acumula mais um ano sem título nacional. Em 2015, também sem o Estadual. Só os otimistas desbragados acham que dá para alcançar uma vaga na Libertadores, assim como há de ser pessimista tarja-preta para temer o rebaixamento.

A nova temporada de reveses é consequência da gestão do clube. A diretoria parece ter transformado o equilíbrio das contas, relevante e urgente, em fim em si mesmo. Como se o futebol fosse coadjuvante.

Não é problema exclusivo de orçamento. Muitas agremiações, com menos dinheiro que o Flamengo, montaram times mais competitivos. A cartolagem rubro-negra, tabelando com seus executivos e treinadores, sobretudo Vanderlei Luxemburgo, contratou um elenco com fragilidades notórias. É incrível que antes do Brasileiro tivesse expectativa de disputar a cabeça. Colhe o que plantou.

Guerrero e Ederson foram buscados durante o Brasileiro, às pressas, para evitar fiasco maior. Quando eles deixaram o campo, a ambição de jogar com a pelota no chão virou frustração. Permitir ao Vasco controlar a bola não é para qualquer um, há que se superar em jogo ruim. E velocidade, sem qualidade nos passes, não basta.

O Vasco teve méritos para vencer. O que não impede o registro factual: dos três gols do mata-mata, apenas um foi sem dúvida decorrente de jogada ilegal, o tento vascaíno no 1 a 0.

Outro pitaco pontual: Emerson disse no intervalo que o juiz é “um merda''. Certamente será punido pela justiça desportiva. Reitero: castigar manifestação de opinião é medida inconstitucional, fere direito democrático garantido pela Carta de 1988. Não é porque o Sheik está no Flamengo. Nos tempos dele no Botafogo, eu já pensava a mesma coisa. Os árbitros também querem os seus caraminguás pelas transmissões, como “artistas do espetáculo''. Então, que possam ser criticados, como um ator canastrão ou um cineasta… de merda. Quem se sentir ofendido que recorra à Justiça comum. Chega de sufocar a liberdade de expressão. Para não dizerem que fiquei em cima do muro, concordo com o conteúdo da avaliação do Sheik, que levou uma botinada, a falta foi marcada a favor do agressor, e o atacante de pavio curto ainda recebeu amarelo. Como definir tal juiz?

Para um 2016 mais generoso, há que superar a inépcia da atual cartolagem do Flamengo, agora dividida em duas chapas para a eleição vindoura. O caminho é profissionalizar mais a administração. Mas com a diretoria recrutando executivos eficientes e vitoriosos. Caso contrário, vamos continuar dando más notícias às crianças rubro-negras.

( O blog está no Facebook e no Twitter )


Desviando
Comentários 1

Mário Magalhães

Esquina de Nossa Senhora de Copacabana com Bolívar, aqui no Rio

Esquina de Nossa Senhora de Copacabana com Bolívar, aqui no Rio


Persiste, firme e sem pudor, o Brasil do ‘sabe com quem você está falando?’
Comentários 229

Mário Magalhães

Como contar uma história

Como contar uma história

 

Com dezenas de multas de trânsito no currículo, 14 delas por embriaguez ao volante, o empresário Ivo Nascimento de Campos Pitanguy atropelou e matou na quinta-feira o operário José Fernando Ferreira da Silva. Testemunhas asseguram que Pitanguy estava bêbado. Ele passou alguns dias em cana, mas não demorou para sair. A Justiça mandou soltá-lo, com base na apreciação do Ministério Público, que divergiu da Polícia Civil no fundamental. A polícia indiciou o atropelador por homicídio doloso _ao dirigir alcoolizado, assumiu o risco de matar. Mas a denúncia da Promotoria classificou o homicídio como culposo, aquele sem intenção. Em suma, adeus, cadeia pública.

Um taxista contou que em seguida ao acidente (crime?), em vez de socorrer o atropelado, o motorista tentou ligar seu carro (para fugir?). Só se aproximou do operário agonizante quando bombeiros e PMs chegaram. Quando o taxista lhe pediu para desligar o motor, Pitanguy reagiu assim, informou o repórter Sérgio Ramalho: “Tu sabe quem eu sou?'' Insistiu: “Tu sabe quem eu sou?''

Antes mesmo de ler Roberto DaMatta eu já sabia, pelo meu pai, aluno dele, das considerações do antropólogo sobre o Brasil do “sabe com quem está falando?'' como retrato da distinção entre brasileiros e brasileiros. O episódio na Gávea escancara a manutenção da diferença, ainda que o país de hoje seja um pouco menos desigual (o presidente da maior empreiteira nacional está em cana) que o dos tempos em que DaMatta teve a grande sacada.

Pitanguy estava com a carteira de motorista em dia, mesmo com 14 flagrantes de falta gravíssima. Talvez tivesse mesmo seus motivos para indagar “tu sabe quem eu sou?'' Ninguém sabia quem era o operário morto. Justiça igual para todos, reafirma o cotidiano, não passa de balela.

(O blog reproduz no alto a abertura da reportagem de Caio Barretto Briso e Gustavo Goulart publicada sábado em “O Globo''. Mesmo na correria, é possível contar bem uma história.)

( O blog está no Facebook e no Twitter )


Há 54 anos, Jânio renunciou, abriu crise e golpistas tentaram virar a mesa
Comentários 34

Mário Magalhães

Jânio Quadros, em foto clássica de Erno Schneider - Reprodução internet

Jânio Quadros, em foto clássica de Erno Schneider – Reprodução internet

 

Há 54 anos, como hoje, era Dia do Soldado. O 25 de agosto de 1961 entrou para a história por outro motivo, a renúncia do presidente Jânio Quadros (1917-1992). Eleito no ano anterior como o homem que varreria a corrupção, era um embuste. Estava no governo desde janeiro quando pediu o boné. Ao contrário do que narra a verve saborosa, não renunciou por conta dos efeitos do seu amigo fiel, o álcool. A interpretação mais verossímil é que Jânio saiu sonhando em voltar nos braços do povo, com mais poderes para sufocar um Congresso subjugado. Deu errado, e o Brasil entrou em crise.

Isso mesmo, a renúncia abriu uma baita crise.

Os comandante militares logo buscaram o golpe de Estado que havia sido abortado em 1954, com o suicídio do presidente Getulio Vargas, e em 1955, com a ação do general Henrique Teixeira Lott. O oficial legalista botou os tanques na rua para que o resultado da eleição recém-realizada fosse respeitado (foi assim que Juscelino Kubitschek assumiu democraticamente a Presidência).

Os golpistas tentaram impedir a liturgia constitucional, com a posse do vice, João Goulart. Fracassaram, mas influenciaram um conchavo “parlamentarista'' que reduziu as atribuições de Jango. No comecinho de 1963, os cidadãos decidiram em plebiscito restabelecer o presidencialismo, com poderes plenos para Goulart. Até que, em 1964, o golpe enfim vingou, instaurando a ditadura que se arrastou por 21 anos.

Na crise de 1961, deflagrada com a renúncia do aventureiro Jânio Quadros, o marechal Lott foi preso por se pronunciar a favor da legalidade.

Naqueles dias, no bairro do Catete, agentes do Dops carioca colocaram abaixo a porta do apartamento onde vivia a militante comunista Clara Charf. Entraram de armas na mão e se retiraram, ao não encontrar o homem que caçavam, o ex-deputado Carlos Marighella. Clara gritou, temendo que, se não denunciasse a invasão, pudessem matá-la. Uma vizinha apareceu quando os tiras haviam partido e cometeu o humor involuntário:

“A senhora tem que chamar a polícia!''

Clara esclareceu:

“Mas foi a polícia que acabou de fazer isso!''

( O blog está no Facebook e no Twitter )