Blog do Mario Magalhaes

Ódio contra greve retrata atraso do Brasil
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Mário Magalhães

Policiais avançam contra manifestantes em SP – Taba Benedicto/Agência O Dia/Estadão Conteúdo

 

Se eu fosse antropólogo, estudaria um fenômeno curioso e obscuro: por que muitos brasileiros que viajam ao exterior são tolerantes com conflitos sociais no estrangeiro e intolerantes aqui?

Mais pontualmente, por que encaram ou aparentam encarar as greves de lá como episódios do cotidiano democrático e as do Brasil como aberração extremista?

É frustrante ir ao Louvre e dar com a cara na porta, em mais uma paralisação dos funcionários do museu parisiense. Mas ninguém, ou quase, corre às redes (antis)sociais para insultar os trabalhadores franceses. Não os achincalham como vagabundos.

Ao contrário do que se observa nas nossas bandas neste 28 de abril de xingamentos cabeludos.

Não faltam motivos para irritação em viagem. Suponhamos que uma família se hospede em San Sebastián e planeje o passeio de um ou dois dias em Biarritz. Vai de trem. Entre as duas cidades bascas finca-se a fronteira Espanha-França. Naquela manhã, os ferroviários franceses acabam de começar uma greve. Como gostam de fazer greve os ferroviários franceses! Passeio interrompido, no meio do caminho. Mas não se assiste a surto de ódio.

Já, por aqui, multiplicam-se os discursos demonizando a greve geral e os protestos de hoje.

Lá longe, sobretudo na Europa, costumamos aceitar as greves como lances do jogo. Mesmo quando nos contrariam ou atrapalham em incursões a trabalho ou turismo.

É assim também que os cidadãos locais se comportam. Muitos podem não simpatizar com greves e grevistas, porém não têm acessos de cólera. As sociedades aprenderam a conviver com greves, inclusive gerais.

A ojeriza à greve no Brasil, como se ela constituísse anomalia, retrata o nosso atraso cultural e político.

É como se o direito constitucional à greve fosse abuso.

Quando abuso é impedir greves legítimas e legais.

Chilique por causa de greve é atitude autoritária.

E, às vezes, ridícula.

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Greve geral: para brasileiro ver
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Mário Magalhães

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Um dos maiores cineastas em atividade, Ken Loach dirigiu o filme que conquistou a Palma de Ouro no Festival de Cannes de 2016.

''Eu, Daniel Blake'' é classificado como drama nas resenhas de cinema. Tragédia, no conceito clássico do teatro, faria mais sentido.

O filme conta a história de um carpinteiro britânico que sofreu um infarto, teve de se afastar do trabalho e pena para superar os constrangimentos legais que dificultam a concessão de benefício público para quem está incapacitado para o serviço ou procura e não encontra emprego.

O Estado lhe nega auxílio por motivo de saúde, embora parecer médico ateste que a cardiopatia não permite trabalhar.

É um confronto assimétrico, entre o poder público e o cidadão só.

Em contraste com a covardia que sofre, Daniel não permite que o ressentimento o impeça de ajudar quem precisa ainda mais do que ele.

O final? Final feliz é ilusão de telenovela.

Como cantou o poeta sobralense, a vida ao vivo é muito pior.

Infortúnios como o do personagem interpretado por Dave Johns são muito mais comuns num país desigual e egoísta como o Brasil.

''Eu, Daniel Blake'' canta a bola do que pode se tornar a vida de quem vai perdendo direitos sociais ou sendo impedido de se socorrer deles.

Um filme para este 28 de abril de 2017.

(P.S.: pelo menos até ontem, ''Eu, Daniel Blake'' podia ser visto no Now, por R$ 11,90).

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Caça às bruxas faria mal ao Flamengo. É preciso mudar, mas sem desespero
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Mário Magalhães

Guerrero lamenta chance desperdiçada contra o Atlético-PR – Foto Cleber Yamaguchi/AGIF

 

Raros ambientes são tão passionais quanto o do futebol.

Vilão para muitíssimos torcedores do Atlético-PR ao falhar no jogo do Maracanã, Thiago Heleno fez ontem uma partidaça em Curitiba, onde o aclamaram como herói.

Nas redes sociais tantas vezes antissociais, o técnico palmeirense Eduardo Baptista era avacalhado, enquanto seu time perdia para o Peñarol. Com a virada, o achincalhe murchou.

Não seria diferente com o clube de maior torcida do país.

Depois da derrota da noite passada para o Furacão por 2 a 1, os rubro-negros cariocas ensaiam uma caça às bruxas, ou aos culpados pelo revés na Arena da Baixada.

Eis do que o Flamengo não precisa no momento: tribunais, ainda que simbólicos, e desespero.

Se acabasse hoje a primeira fase da Libertadores, a equipe estaria classificada.

É possível ou provável que na semana que vem, com uma rodada de antecedência, assegure a vaga nas oitavas-de-final.

Mais uma vez, como no Chile contra a Universidad Catolica, o malogro não decorreu de má atuação. O Flamengo poderia ter vencido.

Quando um dos melhores jogadores em campo é o goleiro adversário, Weverton, é impossível dizer que se jogou mal.

Novamente, chances foram criadas e desperdiçadas. ''Quem não faz leva'' é um clichê do futebol. Mas quem disse que todos os clichês são tolices?

Os visitantes se ressentiram da ausência do seu grande armador, Diego, convalescente de cirurgia em joelho.

Um substituto no ofício de criar, Everton, também estava de molho.

Rômulo jogou, compondo um trio de volantes. Revigorou a marcação, enfraqueceu o ataque.

Uma opção? Matheus Sávio, que entrou no segundo tempo.

O gol (não) feito que Gabriel perdeu não constitui novidade. Atacante batalhador, ele não supera uma deficiência grave: chuta, finaliza mal.

Berrío seria alternativa, porém está suspenso. Até agora, o carismático colombiano mostrou menos do que se esperava.

Muralha falhou, é verdade, no primeiro gol dos donos da casa.

É do jogo. O goleiro tem crédito. Deveria aprimorar saídas do gol e desenvolver a técnica para defender pênaltis.

Rafael Vaz, também no gol inaugural, foi superado no alto por Thiago Heleno. Lance normal. Ganha-se uma bola, outra não.

A julgar pela campanha recente, Donatti, tem de ser titular. Com dores musculares, fez forfait ontem. Rafael Vaz não merece, contudo, ser criticado pelo gol.

Não é hora de inventariar culpas e culpados. É cedo para juízo rigoroso sobre o trabalho de Zé Ricardo.

Mas o time precisa mudar, para multiplicar e aproveitar as oportunidades no ataque. Sem histeria.

Para o confronto com a Catolica, quarta-feira no Maracanã, três volantes seriam excesso de prudência.

Dois centroavantes, como na reta final de ontem, podem incomodar mais o antagonista do que um atacante ciscador.

Noutras palavras, talvez seja melhor Damião ou Vizeu fazer dupla com Guerrero. Gabriel sairia.

Se, enfim, o Ederson estiver recuperado, a qualidade na armação aumentará.

Ah, no domingo tem Fla-Flu. É importante, mas muito menos que a Libertadores.

Para não dizerem que não falei do Atlético-PR: o time é competitivo, cultiva a bola no pé, é bem armado pelo Paulo Autuori, mas não abandona a tendência de recuar demais quando está à frente no placar. Na estreia, contra a Catolica, pagou caro. Ontem, quase.

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Greve geral será a favor de direitos e contra Temer, não em defesa de Lula
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Mário Magalhães

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Protesto no Rio, em março, contra as ditas reformas de Michel Temer – Foto Hanrrikson Andrade/UOL

 

Crescem as adesões à greve geral de depois de amanhã. É impossível prever sua exata dimensão, mas é certo que será a maior demonstração de repulsa às ditas reformas trabalhista e previdenciária.

Eis os termos em que o conjunto das centrais sindicais convocou a paralisação: ''[…] Como alerta ao governo de que a sociedade e a classe trabalhadora não aceitarão as propostas de reformas da Previdência, Trabalhista e o projeto de Terceirização aprovado pela Câmara que o governo Temer quer impor ao País. Em nossa opinião, trata-se do desmonte da Previdência Pública e da retirada dos direitos trabalhistas garantidos pela CLT''.

O ramerrão governista propagandeando a ''modernização'' das relações no trabalho é balela. O que existe é o empenho da administração Michel Temer e do empresariado mais graúdo em retirar direitos conquistados pelos assalariados desde a primeira metade do século XX. Chamam essa garfada pelo eufemismo de flexibilização.

Sua consequência será o agravamento da desigualdade, mal supremo do Brasil. O país é um dos dez mais desiguais do planeta, conforme diagnóstico recém-divulgado pelas Nações Unidas. As mudanças conspiram para quem tem mais ter ainda mais e quem tem menos ter ainda menos. É contra tal retrocesso social que os sindicatos conclamam à greve.

É evidente que ela terá impacto político, inclusive nos arranjos eleitorais rumo a 2018. Quanto mais gente protestar contra Temer e sua política, melhor para postulantes como Luiz Inácio Lula da Silva e Ciro Gomes. E pior para aspirantes como João Doria, Geraldo Alckmin e Aécio Neves, sócios do governo no empreendimento ''reformista''.

O que não significa que a motivação da esmagadora maioria dos grevistas e manifestantes na sexta-feira será endossar esse ou aquele candidato. Muitos têm os seus preferidos e preteridos, porém a greve se organiza com outra plataforma. Reunirá de defensores do mandato constitucional de Dilma Rousseff a quem se associou à deposição da presidente. Dos sindicalistas mais pelegos aos mais combativos (a classificação varia de acordo com a cabeça de cada um).

Nos últimos dias ouviu-se de alguns poucos partidários e opositores de Lula observação semelhante: a greve geral será de apoio ao ex-presidente. Uns pretendem fortalecer o petista com a vitamina dos milhões de braços cruzados. Outros querem esvaziar o movimento, vinculando-o ao antigo governante de alta rejeição (embora lidere com folga todas as pesquisas de intenção de voto para o Planalto). Certos correligionários de Lula cogitaram desmobilizar os militantes que viajarão a Curitiba no dia do interrogatório dele na Justiça Federal (ficou para 10 de maio). Alegaram que a greve geral equivaleria a uma exibição de força do pré-candidato.

Não procede. Participará da greve geral quem considera que Lula é perseguido por Moro; que Moro faz justiça escrupulosamente; que Moro às vezes age como magistrado e às vezes como parte; que Lula abusou de promiscuidade nas relações com empreiteiros, mas não cometeu crimes; que ele é tão criminoso quanto promíscuo; que, à Glória, não se sente em condições de opinar; ou qualquer opção não formulada.

Lula e a operação Lava Jato não são objeto da convocação das centrais sindicais. O que não impede, em ambiente democrático, que grevistas e manifestantes exibam faixas e berrem palavras de ordem contra uns e a favor de outros.

Mas a greve será contra Michel Temer e sua ofensiva contra os direitos dos trabalhadores.

É o presidente quem mais tem a perder depois de amanhã.

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Há 80 anos, ataque aéreo nazista levava horror e morte a Guernica
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Mário Magalhães

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Na tarde de hoje completa 80 anos o bombardeio da aviação nazifascista a Guernica.

Naquela localidade basca viviam ao menos 5.000 pessoas.

A conta dos mortos rompeu a casa da centena.

Bombardeiros e caças da Alemanha de Hitler e da Itália de Mussolini foram empregados no massacre.

O ataque pretendia sufocar a resistência no País Basco aos golpistas, liderados por Francisco Franco, que haviam se sublevado contra o governo constitucional republicano.

A dor e o horror foram eternizados num painel de Pablo Picasso, reproduzido acima, pintado em óleo sobre tela em meados de 1937.

O apoio militar do nazifascismo foi decisivo para o triunfo do franquismo na Guerra Civil Espanhola (1936-1939).

O 26 de abril de 1937 em Guernica é para sempre.

Ecoa na covardia em curso na Síria destroçada pelo genocídio e onde é difícil identificar o mocinho.

Inspira mentirosos históricos, protegidos por eufemismos como ''pós-verdade'' _o franquismo fraudou fatos e inventou cascatas, buscando se dissociar do ato infame.

E, para quem não congelou o coração, estimula os gritos por ''nunca mais''.

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Palavras malditas (25): estado estável
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Mário Magalhães

Máquina de escrever de meados dos anos 1960 – Reprodução “The New York Times''

 

Talvez para um médico faça sentido _faz?_ o aviso de que um paciente se mantém em ''estado estável'', mesmo sem saber qual era o quadro clínico do doente.

Para quem mal conhece ou ignora a diferença entre mercuriocromo e mertiolate, ''estado estável'', como diagnóstico solitário, pouco quer dizer.

É tão cifrado quanto os hieroglifos de alguns doutores ao preencher a receita.

Ainda assim, o jornalismo não se constrange ao trombetear que o estado de alguém é estável, sem esclarecer se é grave ou não. Reproduz a informação que recebeu do pronto-socorro ou do hospital.

Acontece que ''estado estável'' pode significar que um jogador quebrou o dedo mindinho do pé, e a fratura continua igual.

Ou que um acidentado permanece em estado gravíssimo, sem melhorar ou piorar.

Na selvageria em curso no Rio, todo dia relatam que pessoas baleadas seguem em ''estado estável''.

Mas calam sobre situação não grave, grave ou muito grave.

Nenhum aflito pergunta antes ''está estável?'', e sim ''é grave?''.

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Por que Marine Le Pen é de extrema direita e Jair Bolsonaro não é?
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Mário Magalhães

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Marine Le Pen, candidata de extrema direita à Presidência da França – Jean-Philippe Ksiazek/ AFP

 

Há mistérios insondáveis, ou quase, no jornalismo brasileiro.

A candidata da Frente Nacional à Presidência da França, Marine Le Pen, costuma ser apresentada pelo noticiário como representante da extrema direita.

A classificação é correta.

Mas o deputado Jair Bolsonaro raramente é descrito como prócer da extrema direita nacional, embora suas ideias e ações mantenham parentesco com as do partido da eurodeputada.

A senhora Le Pen tem crises de urticária ao ouvir falar em imigrantes.

Bolsonaro afirmou que os refugiados que desembarcam no Brasil são ''a escória do mundo''.

A Frente Nacional constitui o microfone mais potente do ódio em seu país.

Bolsonaro disse que Fernando Henrique Cardoso ''deveria ser fuzilado''. E que Dilma Rousseff deveria deixar a Presidência ''infartada, com câncer ou de qualquer maneira''.

Marine Le Pen assumiu o comando da sua agremiação como herança do pai, de quem se afastou. Jean-Marie Le Pen saudou o ebola como vírus capaz de conter a superpopulação.

Bolsonaro proclamou que, no poder, começaria ''matando 30 mil''. Jactou-se: ''Eu sou favorável à tortura''.

Jean-Marie Le Pen sentenciou, entre numerosas manifestações de racismo: na Segunda Guerra, as câmaras de gás não passaram de ''detalhe da história''.

Bolsonaro contou que visitou uma comunidade de quilombolas. Lá, ''o afrodescendente mais leve pesava sete arrobas''; ''nem para procriador ele serve mais''.

O que o deputado brasileiro precisa fazer e dizer para ser qualificado, como Marine Le Pen, como de extrema direita?

Em tempo: é verdade que filha e pai se distanciaram na França, o que não impediu Jean-Marie de emprestar 6 milhões de euros para a campanha de Marine.

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Título se ganha em campo, não no tapetão: Flamengo campeão de 1987!
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Mário Magalhães

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Festa do Flamengo após vitória sobre o Inter na final de 1987 – Foto Guilherme Pinto/Agência O Globo

 

Do ponto de vista esportivo, eis o que significa a decisão da Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal de não reconhecer o título brasileiro do Flamengo em 1987: nada.

Futebol se ganha e se perde em campo.

E não no tapetão e nas tramoias da cartolagem.

Mesmo no tapetão pavoneado.

No dia 13 de dezembro de 1987, o Flamengo foi a campo no Maracanã com Zé Carlos, Jorginho, Leandro, Edinho e Leonardo; Andrade, Ailton e Zico; Renato Gaúcho, Bebeto e Zinho.

Treinado por Carlinhos, um timaço capaz de encarar o Real Madrid e o Bayern de Munique de 2017.

Venceu o Inter por 1 a 0, gol do Bebeto.

E que Inter: do Taffarel no gol ao Enio Andrade no banco.

Naquela final da Copa União, os anfitriões ficaram com a bola durante 27 minutos e 53 segundos.

Os visitantes, por 25 minutos e 32 segundos.

''Flamengo é tetracampeão'', estampou na primeira página a ''Folha de S. Paulo'', sobre um foto do Zico dando a volta olímpica.

Treze de dezembro é um dia caro à história do clube: seis anos antes, na mesma data, tinha conquistado o Mundial contra o Liverpool.

Não tenho nada contra reconhecer o bravo Sport Club do Recife, vindo do chamado módulo amarelo de 1987, como também campeão daquele ano.

Combina: 1987, o ano rubro-negro.

O desatino é retirar do Flamengo, hoje hexacampeão, o triunfo obtido no gramado sagrado do velho Maracanã.

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