Blog do Mario Magalhaes

Na hora do adeus, coragem de Dilma engrandece sua biografia
Comentários 531

Mário Magalhães

carta testamento

A presidente constitucional Dilma Rousseff discursa no Senado na manhã de 29 de agosto de 2016

 

Quase no fim do interrogatório de 13 horas e 54 minutos, pertinho da meia-noite de 29 de agosto de 2016, Zezé Perrella disparou perguntas duras a Dilma Rousseff.

A presidente constitucional poderia ter indagado se o senador tem viajado de helicóptero, mas se limitou a responder com objetividade ao interrogador.

Pouco antes, tinha sido a vez de Flexa Ribeiro.

A interrogada não mencionou a cana que ele amargara por ocasião da Operação Pororoca. Tratou dos assuntos que o tucano abordara.

Diante de velhos companheiros de refregas contra a ditadura, agora transformados em algozes, poderia ter cantarolado “quem te viu, quem te vê…''.

E piscado para Chico Buarque, o compositor daqueles versos, que assistia no Senado à cerimônia do adeus.

Em vez da atitude catártica, que talvez fizesse bem para espanar um pouco da poeira da hipocrisia que assola o país, Dilma se conteve.

Nem por isso deixou de lutar. Peleou até o fim, na sessão em que começou a falar às 9h53, em seu discurso de 45 minutos, e pronunciou a última palavra às 23h47.

Consciente do cadafalso que a aguardava em algumas horas, na noite de hoje ou na madrugada de amanhã, a presidente poderia ter denunciado de longe o golpe de Estado e as cartas marcadas, sem comparecer à arena em que provavelmente a devorarão.

Preferiu encarar seus carrascos.

Tá pensando que é moleza?

Michel Temer, o missivista ressentido que conspirou com gente mais suja que pau de galinheiro para depor uma cidadã honesta, acovardou-se até de vaia no Maracanã. Fez forfait na cerimônia de encerramento da Olimpíada.

O senador Romero Jucá, desenvolto em armações pelo impeachment e pela impunidade, não interpelou Dilma. É ele o autor da frase-síntese “tem que mudar o governo pra poder estancar essa sangria''.

Em vez da pusilanimidade alheia, Dilma ofereceu coragem, aquela que a vida quer da gente, conforme o Guimarães Rosa apreciado por ela.

Seus melhores momentos foram ao defender a soberania do voto popular e a própria inocência. O impeachment está previsto em lei. Mas sem crime de responsabilidade do governante constitui golpe de Estado.

Os argumentos pró-deposição foram sendo respondidos com tamanha clareza que os opositores passaram a versar sobre temas estranhos ao processo _e olha que clareza não é o forte da presidente na iminência de ser deposta. Queriam debate eleitoral. A advogada Janaina Paschoal não elaborou uma só pergunta sobre o que poderia ser crime de responsabilidade. Preocupou-se com crescimento econômico de países latino-americanos.

Os pior de Dilma foi seu silêncio sobre o que não se pode silenciar. Mostrou combatividade ao proclamar a Petrobras e o pré-sal patrimônios nacionais. Calou, contudo, sobre a roubalheira na companhia. É certo que a gatunagem já existia nos anos Fernando Henrique Cardoso. Mas no mínimo se manteve e possivelmente se expandiu na era petista. A rejeição à liquidação do pré-sal e o combate escrupuloso à corrupção não são contraditórios. Combinam-se. Uma ação exige a outra.

A presidente não explicou, quem sabe o porvir explique, por que sacrificou os mais pobres no arrocho dito ajuste que se seguiu à eleição de 2014. Os gráficos que exibiu sobre a degringolada do cenário econômico internacional impressionam. Mas a decisão de cobrar a conta daqueles que a elegeram permanece como mistério.

Nada disso configura crime de responsabilidade. Subsídio não é crédito, como outro dia ensinou o professor Luiz Gonzaga Belluzzo no plenário do Senado. Pedaladas fiscais são pretextos para expulsar quem colheu 54.501.118 votos.

Se governo desastroso, como o segundo mandato de Dilma, justificasse afastamento, os governadores Pezão-Dornelles deveriam ter recebido cartão vermelho muito antes.

Na democracia, presidente se elege na urna, e não no tapetão.

A presidente defendeu-se no processo e depôs para a história.

A sessão de ontem, e não apenas o seu discurso, equivale a uma carta testamento.

Querer a mesma dramaticidade da carta de Getulio Vargas em 1954 é desconsiderar que um era cadáver, saíra da vida e entrara na história. Dilma tem muita vida pela frente, embora também já seja história.

É preciso ser muito insensível ou cultivar o ódio para não perceber o contraste entre uma mulher batalhando com altivez, concorde-se ou não com ela, e o novo governo que expurgou as mulheres do Ministério.

Entre a mulher que deu a cara para bater no Senado hostil e o sucessor sem voto que se esconde em meio às brumas da intriga.

Entre a mulher que dá nome aos bois, a começar por Eduardo Cunha, o patrono do impeachment, e quem trama para proteger o deputado correntista.

Beira a desonestidade intelectual fazer o balanço de ontem com base exclusivamente em votos mudados. O jogo já estava jogado. Nem por isso a presidente se acovardou.

Se a vida quer é coragem, a vida não pode reclamar de Dilma Rousseff.

(O blog está no Facebook e no Twitter )


Brasil, 2016: Mais um golpe vagabundíssimo
Comentários 17

Mário Magalhães

O artífice, o muso, a cara e o coração do impeachment – Foto Pedro Ladeira/Folhapress

 

Salvo reviravolta improvável, daqui a algumas dezenas de horas a presidente constitucional Dilma Rousseff será deposta.

Trata-se de um golpe vagabundíssimo, como assinalado no blog em maio, no artigo reproduzido abaixo.

Depois de escrito aquele post, sobrevieram fatos que reforçaram a convicção de embuste contra a democracia.

Uma gravação com figurões do PMDB evidenciou que o impeachment é também trama para assegurar impunidade.

Os pretextos legais são tão frágeis que Michel Temer declarou: “Essa questão do impeachment no Senado não depende da nossa atuação. Depende da avaliação política –não uma avaliação jurídica– que o Senado está fazendo“. Mais claro impossível.

*

Mais um golpe vagabundíssimo

Poucos anos depois da deposição do presidente constitucional João Goulart, em 1964, um dos arautos mais estridentes do movimento avacalhou-o como “golpe vagabundíssimo''. Houvera, de fato, golpe de Estado. Mas antes o arauto o incensara como “Revolução'', em caixa-alta. E como cruzada em defesa da democracia e contra a corrupção.

Proclamaram que seria uma “Revolução'' destinada a assegurar eleições diretas para o Planalto. Logo as aboliram. Denunciados pelos golpistas como larápios, Jango e o ex-presidente Juscelino Kubitschek tiveram a vida devassada, e os esbirros não obtiveram uma só prova de que os investigados tivessem se apropriado de patrimônio público. Os dois acabaram formando ao lado do velho antagonista. Batalhando pela redemocratização, conforme os ex-governantes, ou democratização, como preferia o arauto do 1º de abril. Juntos contra a ditadura parida pela derrubada de Goulart.

Neste instante, começo da tarde de 11 de maio de 2016, o Senado debate o afastamento da presidente constitucional Dilma Rousseff. A guilhotina tem hora marcada, a madrugada vindoura. Sem blindados nas ruas e divisões de infantaria nas estradas. Com uma embalagem menos vulgar que a de 52 anos atrás. Mas mesmo assim um golpe de Estado. Mais um golpe vagabundíssimo.

Dilma sofre processo de impeachment sem que exista prova ou indício de que tenha cometido crime. Ao contrário de numerosos algozes, os senadores e deputados acusados de uma vastidão de artigos do Código Penal. As manobras fiscais de créditos e as ditas pedaladas não constituem subtração de dinheiro do povo. Eram práticas corriqueiras de todos os partidos grandes, aqueles que em maioria se preparam para eliminar a presidente consagrada em 2014 por 54.501.118 votos. Configura injustiça _ou golpe_ aplicar determinados critérios punitivos a gestores de certa coloração, e a de outras, não.

Dilma Rousseff não está sendo deposta em virtude do seu desastroso segundo mandato. Ao trocar suas promessas de palanque pela plataforma do candidato derrotado, ela impôs à sua base social os maiores sacrifícios da crise. Agravou-a, castigando os brasileiros mais pobres. Um dia a história talvez esclareça por que a presidente fez o que fez.

Seria indigno, contudo, culpar Dilma pelo golpe. As responsabilidades são dos autores. Na raiz do impeachment se identifica a rejeição, cultivada por castas sociais poderosas, à soberania do voto popular. Quatro dias após a reeleição, o PSDB já questionava a legitimidade da candidata que triunfara. Diante da inércia e da hesitação do governo, grupelhos de fanáticos de extrema-direita se vitaminaram, deflagrando uma coalização semelhante à que fulminou Jango.

Os grandes proprietários de terras, o empresariado mais graúdo, os meios de comunicação hegemônicos, o Congresso conservador e a classe média mais radicalizada reeditam o papel desempenhado há meio século. As Forças Armadas, cujas ações ainda carecem de clareza, e a Igreja são exceções. A Casa Branca, rápida no gatilho para pitacar até sobre corrida de calhambeques mundo afora, cala sobre a farsa antidemocrática no Brasil.

A recusa às urnas não é mera idiossincrasia desvinculada de outros propósitos. Coube a um jornalista bem-humorado boa explicação. Falando pela boca da dona História, Luis Fernando Verissimo escreveu: “[…] A ilusão que qualquer governo com pretensões sociais poderia conviver, em qualquer lugar do mundo, com os donos do dinheiro e uma plutocracia conservadora, sem que cedo ou tarde houvesse um conflito, e uma tentativa de aniquilamento da discrepância. Um governo para os pobres, mais do que um incômodo político para o conservadorismo dominante, era um mau exemplo, uma ameaça inadmissível para a fortaleza do poder real. Era preciso acabar com a ameaça e jogar sal em cima. Era isso que estava acontecendo [em 2016]”.

Não é no piscar de olhos histórico de pouco mais de um século desde a Abolição que são suprimidas relações de poder obscenas numa das derradeiras nações a extinguir a escravidão formal. O Brasil permanece como um dos países mais desiguais. A terra onde uma patroa de classe média tinha e quem sabe ainda tenha chiliques ao se deparar com a empregada doméstica trajando roupa igual à sua.

Na queda de Dilma, há uma pegadinha marota nos balanços da economia e de indicadores sociais, abrangendo apenas três anos e pouco. O governo agoniza, mas o cartão vermelho é sobretudo para os 13 anos e quatro meses de representantes do PT na Presidência. Perdas e danos devem ser contabilizados desde 2003.

Nesse período, ninguém insinuou revolução ou ameaça aos interesses mais caros dos mandachuvas atávicos. Mas o que se passou não foi indiferente à população que desde o desembarque de Cabral levou a pior. Nos 13 anos petistas, a renda dos mais pobres teve 129% de aumento real, descontada a inflação. A dos mais ricos, 32%.

De 2001 a 2009, a taxa de pobreza no país despencou de 35,2% para 21,4%. A da extrema pobreza, para menos da metade, de 15,3% para 7,3%. O programa Bolsa Família contribuiu para isso, bem como o incremento real do salário mínimo em 53%, nos oito anos de Lula (2003-2010). Em 2013, 13,8 milhões de famílias eram atendidas pelo Bolsa Família, aproximadamente 27% da população ou ao menos 50 milhões de viventes. Poucas iniciativas dos anos Lula-Dilma foram tão demonizadas quanto o Bolsa Família. O programa tem notórias limitações, mas comer um prato de comida não é capricho para os ao menos 30 milhões de seres humanos que deixaram a miséria absoluta, a da fome.

Nesses 13 anos, as universidades receberam mais estudantes que antes. E mais negros. Avião deixou de ser transporte só de bacana. Empregadas domésticas conquistaram carteira assinada. O desemprego hoje, a despeito do aumento recente, é menor do que em tempos de Fernando Henrique Cardoso. A mortalidade infantil diminuiu. O salário mínimo recuperou-se também com Dilma.

Nada foi benesse, e sim vitória de quem foi à luta. Mas tudo sobreveio de 2003 a 2016, o que é fato, e não opinião.

Eis o que a dona História, de Verissimo, quis dizer: até dividir um pouquinho da riqueza é inaceitável para os donos do dinheiro.

Tomara que no porvir os historiadores não minimizem um capítulo decisivo da deposição de Dilma: o golpe não ocorreria se o PT tivesse aceitado livrar Eduardo Cunha do voto pró-cassação por quebra de decoro parlamentar. Para retaliar, Cunha instaurou a ação do impeachment, acelerou-a, tramou e presidiu a sessão da Câmara em 17 de abril, encaminhando a degola.

Dilma paga por um gesto de decência do PT, e não por uma das numerosas ações indecentes da trajetória do partido. Se Aécio Neves tivesse se submetido à manifestação soberana dos cidadãos em 2014, talvez o impeachment não prosperasse. Sem Eduardo Cunha, com certeza a conspiração não teria vingado.

O PMDB participou das administrações do PSDB e do PT. Agora deve alcançar o poder, sem intermediários. O Brasil cai na mão do que existe de mais atrasado, e não apenas em matéria de zelo pela coisa pública. É medieval a agenda sobre comportamento e direitos civis de muitos figurões do impeachment e do iminente governo Michel Temer. Quem assume é a agremiação de Eduardo Cunha.

Collor foi apeado em 1992 depois de comprovadamente ter cometido crime. Com Dilma, isso não ocorreu. A deposição de 2016 pertence à família da de 1964.

A saída à força da presidente é menos uma derrota pessoal e muito mais uma tragédia para o Brasil e a democracia tão golpeada.

P.S.: o autor da expressão “golpe vagabundíssimo'' é Carlos Lacerda, governador da Guanabara em 1964. Lacerda (1914-1977) foi protagonista de golpes bem-sucedidos ou malogrados. Mas enfrentou duas ditaduras e muitas vezes lutou pela democracia e contra o golpismo. Militou no comunismo, tornou-se anticomunista. “Não era um homem, mas uma convulsão da natureza'', disse Barbosa Lima Sobrinho. É legítimo supor que hoje Lacerda estaria deste ou daquele lado. Não me arrisco a chutar. Ele é o protagonista do meu próximo livro, a sair pela Companhia das Letras no ano que vem. Sem deixar de contar as décadas anteriores, concentro-me no período 1964-1977. Ao iniciar a empreitada do livro, sabia que seus personagens e temas permanecem apaixonantes. Mas não imaginava que seriam tão atuais.

(O blog está no Facebook e no Twitter )


A eleição do Rio e o trauma de Churchill
Comentários 10

Mário Magalhães

Resultado de imagem para uol eduardo paes e pedro paulo

Pedro Paulo e Eduardo Paes – Foto reprodução piauí/Folha

 

Saiu a primeira pesquisa Ibope no período oficial de campanha eleitoral para prefeito do Rio.

Eis os resultados, com margem de erro de três pontos para cima e para baixo:

Marcello Crivella (PRB): 27%

Marcelo Freixo (PSOL): 12%

Flávio Bolsonaro (PSC): 11%

Jandira Feghali (PC do B) e Pedro Paulo (PMDB): 6% cada um

Índio da Costa (PSD): 5%

Carlos Roberto Osório (PSDB): 4%

Alessandro Molon (Rede): 2%

Carmen Migueles (Novo): 1%

Cyro Garcia (PSTU): 1%

Quem entende de eleição na cidade aposta que haverá segundo turno, e que dificilmente o senador Crivella ficará fora dele.

A disputa para ir ao mata-mata decisivo deve se concentrar em Freixo, Pedro Paulo e Osório.

Pedro Paulo terá muito mais tempo de propaganda na TV do que os adversários.

É o candidato do prefeito Eduardo Paes.

Ao Ibope, 20% dos entrevistados declararam votar branco ou nulo, e 5% dizem não saber quem sufragar.

Os principais concorrentes de Crivella supõem que a rejeição do ex-ministro o derrotará na reta final. Ela decorre do vínculo com a Igreja Universal do Reino de Deus.

O levantamento começou na véspera da cerimônia de encerramento da Olimpíada e terminou um dia depois.

Os círculos próximos ao prefeito e seu candidato consideram que o sucesso dos Jogos (leia análise do blog clicando aqui) impulsionará a campanha de Pedro Paulo.

O correligionário de Michel Temer, Sérgio Cabral e Eduardo Cunha padece sobretudo do desgaste da denúncia de agressão à ex-mulher. O inquérito do caso foi arquivado pelo STF.

A candidatura agonizante de Pedro Paulo só não morreu porque Paes insistiu em mantê-la.

É possível que o capital político proporcionado pela Olimpíada ajude o peemedebista.

Mas não é certo.

O exemplo clássico de governante bafejado por êxito, e que êxito, porém batido nas urnas é o de Winston Churchill.

Ao lado de Ióssif Stálin e Franklin Roosevelt, o então primeiro-ministro britânico posou em fevereiro de 1945 como um dos grandes vencedores iminentes da guerra contra o nazifascismo.

Em julho daquele ano, os cidadãos o defenestraram do governo, votando nos trabalhistas.

O trauma de Churchill é parente do que ameaça Eduardo Paes e Pedro Paulo.

Se a maioria dos cariocas julgar que a Olimpíada valeu a pena, mas que é preciso mudar o governo, o PMDB perderá.

(O blog está no Facebook e no Twitter )


É preciso abrir a caixa-preta da Olimpíada
Comentários 8

Mário Magalhães

A cerimônia do adeus – Foto Fabrizio Bensch/Reuters

 

As pitonisas que profetizaram vexame erraram.

Os agourentos se deram mal.

Desde a abertura, o complexo de vira-lata malogrou.

A Olimpíada do Rio esteve longe de ser perfeita, mas foi um sucesso.

Apesar dos pesares. Pergunte a quem a viveu de perto.

Em matéria de organização, houve tropeços.

Eles não comprometeram os Jogos.

Poucas celebrações esportivas pelo mundo foram tão animadas e envolveram tanta gente como a daqui.

Não falo de jogos e provas, com ingressos a preços mais salgados que churrasco feito por neófito.

E sim de passeios como os de milhões de cariocas e visitantes pelo Boulevard Olímpico.

No fim, prevaleceu a lei de Lota: “Aqui no Brasil as coisas são meio empíricas. Mas no final tudo dá certo”.

Por isso, porque deu certo, há escribas passando recibo de seus palpites apocalípticos e desinformados.

Essas anotações sobre a Rio-2016 não minimizam ou relativizam a necessidade de acesso à caixa-preta dos Jogos.

Até agora, a Prefeitura do Rio mantém inacessíveis informações que permitiriam conhecer melhor o custo da Olimpíada.

O governo municipal poderia começar respondendo: em que rubrica estão, no balanço do evento, os gastos de ao menos R$ 200 milhões em indenizações para remover moradores da Vila Autódromo, pequena comunidade grudada ao Parque Olímpico? Esse dinheiro, até onde se sabe, saiu dos cofres do Município.

Será preciso esperar a conclusão da Lava Jato _ou de outras  operações semelhantes_ para conferir se o modus operandi da alegada propina na reconstrução do Maracanã se restringiu à administração estadual. Executivos da Odebrecht e da Andrade Gutierrez afirmaram ter pago ao então governador Sérgio Cabral 5% do orçamento oficial da obra no estádio, R$ 1,2 bilhão. Essas duas construtoras também integraram o consórcio que ergueu o Parque Olímpico. Tomara que ali não tenha ocorrido corrupção.

Para uma análise mais profunda das consequências dos Jogos para a cidade, é indispensável o escrutínio de receitas e despesas da prefeitura.

E de sua relação financeira com o Comitê Rio 2016.

(O blog está no Facebook e no Twitter )


A profissão de fé de Geneton Moraes Neto
Comentários 1

Mário Magalhães

blog - geneton

Dedicatórias do livro “Dossiê Brasil'', de Geneton Moraes Neto

 

Foi-se, aos 60 anos, o jornalista Geneton Moraes Neto.

Geneton era caçador, colecionador e contador de histórias.

Em suma, repórter.

Em 1997, ele lançou pela Objetiva o livro “Dossiê Brasil: As histórias por trás da História recente do país''.

A dedicatória, dupla, foi original.

No padrão tradicional, o autor ofereceu a obra a feras do “Pasquim'' que despertaram sua paixão pelo jornalismo.

Em formato inovador, espinafrou “os burocratas de redação que passam a vida destroçando textos ou, simplesmente, jogando no lixo as notícias apuradas pelos repórteres''.

Assim, Geneton renovou sua profissão de fé na reportagem, o gênero jornalístico mais nobre.

A epígrafe do livro, da pena de Belchior, era, ainda é, de arrepiar: “Eu sei de tudo na ferida viva do meu coração''.

Valeu, Geneton!

(O blog está no Facebook e no Twitter )


Pugilista dos EUA perde final, tem crise de choro e comove pavilhão do boxe
Comentários Comente

Mário Magalhães

blog - stevenson 1

blog - stevenson 2

blog - stevenson 3

 

As fotos borradas e fora de foco não dão conta do drama na penúltima sessão do boxe na Olimpíada do Rio.

O norte-americano Shakur Stevenson teve no sábado uma crise de choro depois de perder por pontos a final do peso galo, até 56 quilos.

Ficou com a medalha de prata. A de ouro, com o cubano Robeisy Ramírez.

O norte-americano de 19 anos acumulava títulos mundiais em categorias de jovens e uma invencibilidade internacional de 23 combates.

A imensa maioria da torcida apoiou Ramírez, 22.

Em Londres-2012, o lutador de Cuba conquistara o título olímpico no peso mosca.

Os dois fizeram três rounds espetaculares.

O resultado, em decisão dividida, pareceu justo.

O desapontamento de Stevenson comoveu o pavilhão do boxe.

O pugilista acabou ovacionado pelo público.

Mais tarde, o garoto disse que pretende abandonar as disputas olímpicas e se restringir ao boxe profissional.

Pior para os Jogos Olímpicos.

(O blog está no Facebook e no Twitter )


Num sábado eterno, seleção conquista ouro e semeia futuro no Maracanã
Comentários 16

Mário Magalhães

REUTERS/Murad Sezer

Neymar, à moda de Bolt – Foto Murad Sezer/Reuters

 

Tinha que ser num sábado.

Por quê?

Porque hoje é sábado, e o Vinicius sabia que aos sábados “há um renovar-se de esperanças''.

O mascote dos Jogos do Rio é xará do poetinha.

Tinha que ser no Maracanã.

Porque o Maracanã foi, em 1950, o palco da tragédia suprema do futebol brasileiro _o 7 a 1 do Mineirão constituiu o maior vexame.

Maracanã em cujas cercanias cresceu Renato Augusto, o maestro da seleção campeã.

O primeiro título olímpico não suaviza fiascos recentes em Copa do Mundo e Copa América.

Mas a conquista inédita não é uma façanha menor na história.

Tremendos jogadores não chegaram lá. Em 1996, assisti nos Estados Unidos a uma geração fabulosa se frustrar com o bronze.

Craques como Aldair, Roberto Carlos, Rivaldo, Bebeto, Ronaldo Fenômeno, Juninho Paulista.

O técnico era o grande, imortal Zagallo, que outro dia carregou a tocha.

Tinha que ser sofrido.

Porque o nosso futebol não anda lá essas coisas.

A equipe do técnico Rogério Micale esteve longe de ser espetacular na decisão.

Mas sobrou valentia, como a da guerreira Marta, que testemunhou o épico no estádio.

No empate em 1 a 1 com a Alemanha, o time levou o primeiro gol na competição.

E duas bolas no travessão.

Abriu o placar com Neymar, em falta sofrida por ele.

Diante de Usain Bolt, o camisa 10 comemorou imitando a pose do raio.

Meyer empatou.

Esse não era um timaço alemão.

E daí?

Estava escrito, desde antes de o futebol desembarcar nessas terras, que seria assim.

Weverton defendeu a quinta cobrança alemã nos pênaltis.

E Neymar converteu.

Neymar não é problema, e sim solução.

O escrete olímpico semeia o futuro da seleção principal.

Que o digam Neymar, Marquinhos, Gabriel Jesus, Gabigol, Renato Augusto, Luan e outros.

Tinha que ser no sábado.

Tinha que ser no Maracanã.

Tinha que ser em 2016, o ano do recomeço.

As lágrimas de Neymar, Micale e dos brasileiros regam a semente de um porvir de sucesso.

A medalha de ouro não elimina o 7 a 1.

Mas anuncia um tempo de 7 a 1 nunca mais.

O Maracanã avisou ao mundo: o campeão voltou.

(O blog está no Facebook e no Twitter )


Seleção feminina, que encantou nos Jogos, termina como a masculina começou
Comentários 53

Mário Magalhães

Paulo Whitaker/Reuters

Gol do Canadá no 1º tempo – Foto Paulo Whitaker/Reuters

 

Nas duas primeiras partidas da Olimpíada, a seleção feminina de futebol emplacou 3 a 0 na China e 5 a 1 na Suécia.

Não anotou nenhum gol contra a África do Sul, a Austrália e a Suécia.

Hoje fez um no Canadá, no belo estádio do Corinthians, mas perdeu por 2 a 1 na disputa do bronze.

Nossas bravas jogadoras partem dos Jogos sem medalhas.

É possível dizer que nos três jogos anteriores o time encontrou antagonistas fechadinhos, impressionados com os oito gols.

As canadenses, ao contrário, ousaram e se deram bem.

Marcaram um com Rose, em contra-ataque, e outro com Sinclair, aproveitando erro na saída de bola.

O Carrossel Tropical de movimentação intensa do começo da competição emperrou.

Transformou-se numa equipe estática e previsível, apesar do admirável espírito de luta.

Em contraste com a seleção masculina, a feminina foi piorando.

O fim do sonho pelo ouro, nos pênaltis da semifinal com as suecas, abateu-a. As cabeças foram para o espaço.

O Canadá acertou duas bolas na trave. Deu um banho no primeiro tempo. O Brasil cresceu após o intervalo.

A seleção de Marta, Formiga e companhia lutou até o fim. Beatriz diminuiu, mas não deu para virar.

Nenhum time, incluindo os de mulheres e os de homens, aliou tanto eficiência e arte quanto a seleção feminina nos dois primeiros jogos.

Só isso já vale a gratidão de quem ama o futebol.

Gracias!

(O blog está no Facebook e no Twitter )


Desfecho do #Lochtegate é nova goleada sofrida pelo complexo de vira-lata
Comentários 80

Mário Magalhães

Um tremendo cara de pau – Foto Daniel Ochoa De Olza/AP

 

Como já assinalado, a cerimônia de abertura da Olimpíada do Rio representou uma derrota histórica para o complexo de vira-lata.

O mal diagnosticado por Nelson Rodrigues sofreu novo revés, com o desfecho do caso Ryan Lochte.

Ao contrário do que o nadador norte-americano e três colegas contaram, eles não foram assaltados.

Inventaram o assalto.

O Lochtegate deixa lições.

Mais uma vez, certo jornalismo deu a versões alheias o estatuto de fato.

Endossou o relato de Lochte antes de checá-lo.

Outro mico ou erro é o de quem, alegando a cascata dos nadadores, nega a extrema violência no Rio.

O drama não é a Olimpíada, mas o cotidiano.

O vira-latismo se manifestou naqueles que chancelaram, a fim de avacalhar o Rio e o Brasil, a lorota de Lochte.

“Vergonha sem fim'', escreveu um no Twitter, referindo-se aos Jogos.

“Ai que vergonha'', emendou uma tuiteira.

“Vergonha olímpica Brasil'', dardejou outro.

A vergonha é o sentimento de inferioridade.

É a convicção de que o Brasil nasceu para não dar certo.

Ao Rio, com suas injustiças e desigualdades, não faltam problemas.

Mas usar falso assalto para detonar a cidade já é demais.

Até agora, é um vexame o desempenho olímpico do complexo de vira-lata.

(O blog está no Facebook e no Twitter )