Blog do Mario Magalhaes

Como a vida, o futebol não vale sem esperança e utopia. Visca el Barça!
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Mário Magalhães

Aos 49 minutos e 39 segundos do segundo tempo, Sergi Roberto marca o sexto gol do Barcelona

 

Uma adolescente e um cinquentão falavam outro dia do furor obscurantista que maltrata esta e outras bandas. Evocaram um filme recente que embeveceu os dois. Cantarolaram ''City of stars, are you shining just for me?…''. O coroa sorriu e lhe estendeu as mãos:

''O que salva é isso, afeto e arte''.

A garota emendou de bate-pronto:

''E futebol''.

Que não é metáfora da vida. É vida.

E, como a vida, não vale sem esperança e utopia.

Virar contra o Paris Saint-Germain era a utopia do Barcelona.

Utopias podem nem existir. Mas buscá-las é boa razão de viver.

Vencendo por 3 a 1 até os 41 minutos e 45 segundos do segundo tempo, o Barça precisava de mais três gols.

Utópico, não?

Naquele instante o Neymar anotou o quarto, de falta.

Logo ampliou, de pênalti: 5 a 1.

Com cinco minutos de acréscimo, o jogo terminaria aos 50.

Pois aos 49 minutos e 39 segundos o Sergi Roberto deixou o dele, classificando os blaugranas.

Há muita coisa a conversar sobre as mudanças táticas (outro desenho do time), técnicas (desempenhos individuais muito acima dos exibidos em Paris) e espirituais (da contemplação passiva à determinação guerreira).

Mas a principal lição vai além do futebol. Vai para a vida.

Quando menosprezam isso ou aquilo como utopia, talvez estejam certos. Mas talvez não estejam.

Se alguém previsse que dos 40 aos 50 minutos da etapa derradeira o PSG só trocaria quatro passes certos, só um maluco levaria fé.

E foi o que aconteceu.

Dar a volta por cima depois de ser humilhado com um chocolate de 4 a 0, impossível…

Por quê? Porque jamais uma equipe havia alcançado tal façanha na Champions.

Ainda mais o Barcelona, distante dos seus anos de esplendor (está, de fato, distante).

Em vez de desesperança, o time se conjurou na esperança.

Alimentou a utopia.

Porque, sem utopia, de que vale o futebol, de que vale a vida?

O que seria da vida sem afeto, arte e futebol?

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Tratar ideias de Temer como gafes suaviza preconceito, machismo e atraso
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Mário Magalhães

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Michel Temer: não é gafe, mas convicção – Foto Pedro Ladeira/Folhapress

 

Gafe, ensina o ''Houaiss'', significa ''ato e/ou palavra impensada, indiscreta, desastrada; indiscrição involuntária''.

Quem disse que as declarações de Michel Temer no Dia Internacional da Mulher foram impensadas ou indiscretas?

Indiscrições involuntárias? Fala sério.

Talvez tenham sido desastradas, mas esse é o aspecto menos relevante da pregação presidencial.

O discurso se concentrou no papel da mulher ''na casa'', ''no lar'', na criação dos filhos, no monitoramento dos ''preços em supermercados''. Caberia a elas ''cuidar dos afazeres domésticos''. E por aí afora.

Não é gafe, mas convicção.

Gafe, no duro, é um prefeito comparecer à festa de aniversário de um clube de futebol e rememorar com deleite seus tempos de torcedor organizado do rival supremo da agremiação anfitriã do convescote.

Gafe é lamber um chicabom em reunião dos vigilantes do peso.

Ou levar a mulher para assistir a ''Quatro casamentos e um funeral'' dias depois de o pai dela morrer (esse episódio aconteceu de verdade).

Qualificar as palavras de Temer como gafe é suavizar o preconceito que elas expressam.

É condescender com o machismo.

É transigir com o atraso.

Porque a cabeça do presidente não está no século 20.

Ela é pré-fim do século 19.

Não há gafe, e sim princípios.

Ou não foi Michel Temer quem montou seu ministério original sem uma só mulher?

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Além das flores amarelas: Histórias da Vila Autódromo
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Mário Magalhães

8 de março de 2016: Penha recolhe móveis da sua casa, demolida – Foto Ricardo Moraes/Reuters

 

Heloisa Helena Costa Berto deitou-se de bruços, fechou os punhos, colocou o esquerdo no chão de cimento, encostou o direito em cima do esquerdo e repousou a testa sobre ambos. A coluna maltratada pelo tempo e sustentada por oito parafusos nem ameaçou doer. Se doesse, Heloisa não notaria. Talvez parecesse, e olhe lá, que uma muriçoca a mordera.

Não era Heloisa quem se debruçava em reverência diante do altar. E sim a ialorixá Luizinha de Nanã, condutora do terreiro Yle Axe Ara Orun Yaba Jiyi. É assim que Heloisa é chamada no candomblé. Luizinha jogara os búzios, que pressagiaram sua partida dali. Heloisa chorou por uma semana. Então Luizinha vestiu uma saia com estampas coloridas, ofereceu comida sagrada à divindade Nanã e indagou sobre o destino.

“Daqui eu não saio”, advertiu Nanã, velho orixá feminino afeito às águas calmas e lamacentas. Advertiu com raiva, percebeu Luizinha, que se afligiu e perguntou: “Por que eu vou continuar sofrendo?” Ao ouvir “Eu quero muito mais para você”, sentiu-se humilhada, cobrada por pouco se empenhar para permanecer na casa à beira da lagoa de Jacarepaguá.

Heloisa vivia no número 144 da avenida do Autódromo. Batizara-a Casa de Nanã, um templo do candomblé. A religião singrou o Atlântico com os africanos escravizados, entre eles os ancestrais de Heloisa. O Brasil foi um dos derradeiros países a abolir a escravidão, nos idos de 1888. No século XXI, num curso técnico, xingaram de macaca uma filha de Heloisa.

Luizinha de Nanã começou a ser gestada na adolescência de Heloisa. A garota raspou a cabeça, numa cerimônia de passagem do candomblé. Descobriu que Nanã, vagarosa como ela, era o orixá que a guiaria e por quem zelaria. Ascendeu a mãe de santo, como são mais conhecidas as mulheres, também denominadas ialorixás, que comandam terreiros.

“É casa de pobre, mas é a minha casa”, matutava Heloisa em 2013. Ela havia morado ali nos fundos da casa da mãe, num barraco de madeira, com o marido, duas filhas e dois filhos. Nas noites de temporal, o aguaceiro tudo encharcava. A impressão era reluzirem mais goteiras no telhado que estrelas nas madrugadas de céu diáfano. Saiu, regressou, levantou sua casa de tijolos e estabeleceu o terreiro com nome em iorubá, idioma africano. Semeou árvores e colheu ervas sagradas.

Nos rituais de transe e magia, ao som de cantos e atabaques, o aroma de alfazema e tapete de oxalá deliciava quem encomendava seus trabalhos espirituais. Desejavam um futuro mais luminoso. Em 2 de outubro de 2009, o futuro se descortinou sombrio à Casa de Nanã.

Naquela noite, em Copenhague, o conde belga Jacques Rogge proclamou, com a autoridade de presidente do Comitê Olímpico Internacional: “Tenho a honra de anunciar que os Jogos da 31ª Olimpíada serão na cidade do Rio de Janeiro”. O Rio nocauteara Madri, Chicago e Tóquio. Na praia de Copacabana, multidões exultaram com o triunfo. Trinta quilômetros a oeste, na Vila Autódromo, sobreveio o silêncio.

Ficava lá a casa de Heloisa. Do outro lado de um muro branco, no antigo circuito da Fórmula 1, planejavam instalar o Parque Olímpico. Já houvera motivos e pretextos para tentativas de eliminar o bairro popular de 588 domicílios, nascido como favela décadas antes, e afastar seus 1.252 habitantes. Nunca um gigantesco como os Jogos festejados pela maioria dos brasileiros. Poucos anos mais tarde, na iminência de ser removida, Luizinha recorreu ao vaticínio de Nanã.

O orixá calou sobre o que viria, mas estimulou-a a perseverar, e Heloisa perseverou. Mais que sua, a casa era de Nanã, fincada em solo sagrado. Ela sonhou com uma onda gulosa e sádica afogando a vila inteira. Só não consultou as cartas para adivinhar o porvir porque as abandonara desde que profetizaram a morte de sua mãe. Dirce aparentava a saúde da juventude em que desfilou como manequim. Até a filha entrever a combinação funesta de carta de caixão com carta de cruz. Sete meses depois, a mãe morreu de câncer.

 

* * *

 

Coração de Mãe foi o apelido que os cariocas deram aos caminhões que nos anos 1960 transportavam criminosos perigosos. Sempre cabia mais um, daí a alcunha. Aos 14 anos, Altair Antunes Guimarães não era perigoso, muito menos criminoso, mas o embarcaram num trambolho daqueles. Ele supunha ter deixado o paraíso.

O paraíso será sempre questão de perspectiva. Altair e a família tinham acabado de ser retirados da favela da ilha do Clube dos Caiçaras, na lagoa Rodrigo de Freitas. Quem observasse os cardumes pulando sob a palafita deles, um barraco sustentado por estacas cravadas na água, identificaria moradia precária e inóspita. Não o menino que lá chegou com um ano e se regozijava apanhando com um balaio tainhas para a comilança. Mal despertava, Altair dava com o Cristo Redentor nas retinas. Depois mergulhava no mar de Ipanema e do Leblon, defronte aos prédios com o metro quadrado mais caro do país. O Rio parecia mesmo a Cidade Maravilhosa, título do seu hino. O pai de Altair, cozinheiro, escolhera o lugar para estar perto dos restaurantes onde procuraria emprego.

O Coração de Mãe rumava com Altair para a Cidade de Deus, 25 quilômetros adiante. Como a Vila Kennedy e a Vila Aliança, era um conjunto de habitações populares financiado pelos Estados Unidos. Todos na zona oeste, para onde despachavam moradores expulsos da zona sul. Zona sul das classes média, média-alta e endinheirada. Zona oeste da classe média, média-baixa, dos pobres e dos miseráveis.

Tal geografia social não impediu que o Rio se distinguisse de cidades que confinaram em periferias longínquas os cidadãos com pouco ou nenhum dinheiro no banco. Porque na zona sul os morros entrecortam a planície. Os pioneiros da ocupação das colinas foram ex-escravos desprovidos de casa e terra. Em 1897, retornaram para o Rio soldados que haviam combatido na Guerra de Canudos, em que o Exército exterminou milhares de rebeldes de um povoado baiano. Os militares pobres se acomodaram num morro nas cercanias do porto. Tratavam-no como favela, planta comum em Canudos. Assim surgiu a expressão favela para designar determinado tipo de povoamento urbano. Hoje o morro da Favela é chamado de morro da Providência.

Na década em que Altair se despediu da zona sul, o governo do Rio empenhou-se em erradicar as favelas. Alegou ameaças de desmoronamento e condições sanitárias indigentes. Como na ilha do Clube dos Caiçaras, não sobrou ninguém no morro do Pasmado, em Botafogo, onde a vista da baía de Guanabara deleita. Mandaram todo mundo para a Vila Kennedy, a mais de duas horas de ônibus dos antigos trabalhos. No Pasmado, lançaram um condomínio de apartamentos de classe média.

O governo preferia extinguir as favelas a urbanizá-las e provê-las de serviços públicos. De 1960 a 1975, 140 mil habitantes de favelas foram atingidos por remoções. No show Opinião, em 1964, o sambista Zé Kéti cantou os versos “Podem me prender/ Podem me bater (…)/ Daqui do morro eu não saio, não”. Em 2010, 1,4 milhão de pessoas residiam em favelas no Rio, 22% da população da cidade. Na favela da Rocinha, morada de 69.161 almas, a expectativa de vida é de 67 anos. Na Gávea, bairro vizinho, de 80. No Censo mais recente, 50,7% dos brasileiros se declararam negros (pretos ou pardos, na classificação oficial). No bairro de São Conrado, meros 16,7%. Na favela do Vidigal, ao lado, 58,9%. O morro e o asfalto, como os cariocas se referem à planície, consagraram-se como metáforas da desigualdade.

Quando o Coração de Mãe desligou o motor na Cidade de Deus, Altair virou estatística das remoções. A casa de triagem onde hospedaram a família tornou-se lar permanente. As telhas de amianto a aqueciam como fornalha. O adolescente que interrompera os estudos vendeu picolé e batalhou na construção civil. Casou-se e teve três filhas.

Quem quisesse sossego deveria procurar outro canto, alertou Buscapé, personagem do filme Cidade de Deus: lá, “se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”. O bicho pegou um irmão de Altair, o gari Altamiro, que se desencaminhara no tráfico de drogas. Intrigado por traficantes, Altamiro acabou executado a tiros.

Altair detestava a Cidade de Deus, mas não tinha para onde correr. Ironia da existência, o governo decretou a demolição de sua casa para abrir uma via expressa, a Linha Amarela. Em meados da década de 1990, Altair experimentou sua segunda remoção, no seu aniversário de 40 anos. O dono de uma birosca tinha um terreno de 550 metros quadrados numa certa Vila Autódromo, também na zona oeste. Altair comprou-o pagando metade em dinheiro, metade com um Chevette cansado de guerra.

Ergueu uma palafita à margem do canal, o rio Pavuninha, que contorna a comunidade. Tijolo por tijolo, pôs de pé sua melhor casa. Entregava jornais de dia e varava as noites no ofício de segurança privado. Sua segunda mulher, Vânia, dava duro como empregada doméstica nas redondezas. O casal assumiu como filha uma neta biológica de Vânia. Uma top model inglesa inspirara o nome da criança, Naomi. Dali a muito tempo, ao lembrar a mudança para a Vila Autódromo, Altair diria: “Saí do inferno para um pedaço do céu”.

 

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Na Vila Autódromo, sobrava criatividade ao batizar. Um casal devoto do Clube de Regatas do Flamengo teve oito filhos. O nome de todos inicia com a letra F. Os quatro da acupunturista Sandra Maria de Souza são Izis Lua, Jade Sol, Flora Terra e Pérola Luz. Pilotos célebres foram homenageados nas ruas Graham Hill, Denis Hulme, Gilles Villeneuve, Francisco Landi e François Cevert. Não faltou a rua Pit Stop. A Nelson Piquet recebeu o nome do autódromo além-muro. A José Carlos Pace, o de uma das onze curvas da pista, mesmo número de ruas da vila. Velocidade e Vila Autódromo, contudo, jamais combinaram.

Ayrton Senna, nome de uma avenida nos arredores, percorreu o circuito de 5.301 metros em 1 minuto, 25 centésimos e 302 milésimos. O ritmo da Vila Autódromo estava mais para Gabriela, tartaruga que lá viveu e completou 44 anos antes de sumir. Suas ruelas de terra batida a assemelhavam a aldeias rurais. O cheiro da terra molhada era do campo, não da cidade.

Enquanto os motores não roncaram, a partir de 1977, aquilo era silêncio e solidão. Os primeiros pescadores acamparam em barracas cobertas por plástico na virada dos anos 1960 para os 1970. Saíam da lagoa de Jacarepaguá carregados de robalos, corvinas e tilápias. A maré da praia da Barra da Tijuca subia e jorrava água salgada na lagoa, fecundando safras generosas de camarão.

O pescador José Emídio dos Santos devorava banquetes com capivaras, tatus e patos selvagens que caçava ali. Com as corridas, a quietude absoluta terminou. Por sorte, não era todo dia que os canos de descarga barulhavam. A densidade populacional aumentou. Sem ter onde morar, operários da obra do autódromo ficaram. A eles se uniram peões que trabalhavam nos primeiros condomínios de luxo da Barra.

Na infância, o assentamento informal Vila Autódromo configurava uma ocupação irregular típica da desordem urbana do Rio carente de residências _no século vindouro, o déficit habitacional da cidade alcançaria as 220 mil unidades. Era uma favela tradicional, embora plana. O panorama se redesenhou com a construção de casas de alvenaria pelas próprias famílias.

Os imóveis passaram a pagar imposto territorial urbano ao município. A concessionária ligou a energia elétrica. Os domicílios ganharam código postal, TVs de plasma, máquinas de lavar roupa e antenas parabólicas. O gás era de botijão. A companhia de limpeza recolhia o lixo três vezes por semana. Espalharam telefones fixos. Muitos galos e galinhas e alguns cavalos e cabritos coloriam a paisagem. A favela agora era bairro popular, ao qual os moradores se referiam como comunidade. Vista do céu, enchia-se de pontos azuis redondos, as caixas d’água nos telhados. O problema era abastecer as caixas. E o que fazer com os dejetos.

Em 2014, 49% dos domicílios brasileiros tinham acesso à coleta de esgoto. Ao tratamento de esgoto, 40%. E 83% eram abastecidos por água encanada. Ofícios de moradores da Vila Autódromo apelando por saneamento foram empilhados, sem sucesso, em mesas de repartições públicas. A comunidade resolveu à sua maneira. Para não morrer de sede e sujeira, fez captação clandestina de água em tubulação próxima. E colocou fossas sépticas nos quintais, evitando despejar esgoto na lagoa.

Mas o esgoto in natura proveniente de Jacarepaguá, navegando a céu aberto pelo canal, margeava a rua Beira Rio da Vila Autódromo, rumo à lagoa de quatro quilômetros quadrados. O canal imundo tornou-se criadouro de nuvens de mosquitos. Menos mal que não proliferaram doenças transmitidas pelo Aedes aegypti, como dengue e zika. Desaguadouro de rios, a lagoa ficou cada vez mais suja. Houve quem sentisse cheiro de chulé, ovo podre e coisa mais fedorenta. A água que permitia ver os peixes escureceu, e a pescaria rareou. Peixes incautos, que pegaram carona na maré alta, foram asfixiados às toneladas na lagoa agonizante.

Se o saneamento ausente era o pior, a segurança tranquilizava. Com numerosas comunidades do Rio dominadas por bandos de traficantes ou milícias paramilitares, lá o crime não prosperou. Por pragmatismo: espaço pequeno, sem becos para se esconder, não encoraja quem precisa fugir. Não havia as balas perdidas e os estupros que infernizam a cidade. Mas o noticiário policial teve sua manchete. Em 1993, o presidente da associação de moradores foi morto no seu bar com dois tiros no rosto. Não elucidaram o assassinato.

Um coronel, comandante do Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar, morou na vila, maquete dos abismos sociais do Brasil. Sua casa ficava na única via com trecho asfaltado, em frente à lagoa, onde edificações de dois e três andares ostentavam garagens e carros, atracadouros e lanchas. A Vila Autódromo também tinha elite.

No princípio, a vila e suas imediações eram consideradas parte do bairro de Curicica. No código postal, de Jacarepaguá. Até as imobiliárias propagandearem a Barra da Tijuca, na zona oeste, como bairro sofisticado, perfil zona sul. A área em torno da Vila Autódromo passou a ser promovida como Barra. Antes havia o Autódromo de Jacarepaguá. Sobre suas ruínas, no mesmo lugar, o Parque Olímpico fica na Barra.

Em julho de 2016, o preço médio do metro quadrado dos apartamentos na Barra era R$ 9.788,00; em Jacarepaguá, 6.200,00; em Curicica, R$ 5.596,00. O Índice de Desenvolvimento Humano da Barra equivale aos de Noruega e Islândia. O de Jacarepaguá, aos de Suriname e Cazaquistão.

 

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O nome do bairro não importava para Maria da Penha Macena quando ela, o marido e a filha desembarcaram na Vila Autódromo. Tudo o que possuíam coubera numa Kombi. Naquela tarde de 9 de julho de 1994, a seleção brasileira venceu a Holanda, pela Copa do Mundo. O craque Romário, cria da favela carioca do Jacarezinho, abriu o placar. Quem mais comemorou o dia foram Penha, Luiz e Nathalia. Não os 3 a 2 épicos em Dallas, mas o sonho mais próximo de uma vida melhor longe da Rocinha.

Aos 29 anos, Penha tinha muito o que contar. Nascera na Paraíba, sem pai para acudi-la. Ouviu falar que ele seria maquinista de trem e teria 22 rebentos. A mãe foi tentar a sorte no Rio, deixando a filha com a avó. “Quem é essa mulher?”, perguntou a menina aos seis anos, ao chegar à Rocinha e reencontrar a desconhecida que a trouxera ao mundo. Um ano depois, trabalhava como gente grande, lavando copos e cortando temperos num bar. Aos 11, tomava conta de uma criança em Botafogo, “uma criança cuidando de outra”, na lembrança de Penha. Foi empregada doméstica, arrumadeira, faxineira e passadeira em apartamentos da zona sul. Na favela, montou uma barraca em que vendia angu à baiana até as duas da madrugada.

Desde os 14 anos seu coração batia por Luiz Cláudio da Silva, que tinha 17 ao se enamorarem. Crescido na Rocinha, ele também descendia de paraibanos e não conhecera o pai. Casou-se com Penha, com ela comprou um barraco, derrubaram-no e construíram uma casa. Veio Nathalia, para quem os pais queriam um lugar sem a azáfama da favela turbulenta. Em anúncio de jornal, acharam um casebre na Vila Autódromo e nele investiram tudo o que tinham, sobretudo esperança.

Fizeram sozinhos a casa nova, de dois andares, mais três quitinetes, garagem e cinco banheiros ao todo. Não a concluíram porque, Luiz aprendeu na prática, “obra em casa de pobre nunca acaba”. No térreo, tiveram um bazar que vendia de caderno escolar a saco de cimento. Em 2005, a vila somava 52 pontos de comércio, incluindo padaria e salão de beleza. O ex-gari Luiz cursou faculdade de educação física e passou a dar aula de musculação em condomínios.

No quintal, plantaram duas mangueiras, duas goiabeiras, abacateiro e um pé de acerola. Bananeiras eram catorze, dez de banana-prata e quatro de banana-d’água. “Consegui, na Vila Autódromo, me estabilizar, criar raízes”, recapitularia Penha. Raízes profundas como as de suas árvores. Como nem tudo dá certo, um coqueiro morreu. Na vila, Penha amargou decepções “na parte amorosa”. Adubou seu amor, e ela e Luiz estão juntos até hoje.

Na chegada, tomaram um susto, não com os jacarés que nadavam na lagoa. Numa enchente do passado, com água a um metro de altura na rua, um morador abrira a porta e topara com um deles flanando. Não à toa o bairro se chama Jacarepaguá, nome que no idioma indígena tupi designa um sítio de jacarés. O espanto foi tomar conhecimento de que a Prefeitura do Rio se mobilizava para expulsar a comunidade.

A prefeitura e os empresários. Em 1986, o diário O Globo informara: “A Associação Comercial e Industrial de Jacarepaguá está apreensiva com a possibilidade de esta situação prejudicar a imagem do Rio como cidade turística”. No ano seguinte, o Jornal do Brasil publicou: “Favela pode ser retirada do autódromo”. A prefeitura foi à Justiça em 1993, com uma ação civil pública de proteção ambiental. Acusou a vila, além de proximidade excessiva com a lagoa e o canal, de provocar danos paisagístico e estético.

Para a comunidade da Vila Autódromo, os jacarés eram o menor perigo.

 

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Barra World Shopping & Park, Barra Square, Downtown, Barra Point, Barra Garden, Barra Shopping. Uma colossal réplica da Estátua da Liberdade dá as boas-vindas no New York City Center. Na Barra da Tijuca, os centros comerciais execram a língua portuguesa. E clube é club, edifício residencial é residence. Largas avenidas mimetizam as de Miami. Na contramão da vida comunitária carioca, as calçadas são escassas. Nenhum bairro cultiva com tanto fervor o isolamento em condomínios fechados.

Os novos-ricos se concentram lá. Os ditos “emergentes” atribuem à inveja as zombarias sobre seu estilo de vida exuberante como as cores do pintor Romero Britto. A cidade se expandiu naquele sentido a partir dos anos 1970. Em 2011, em cada dez lançamentos imobiliários, a Barra contribuiu com nove. O bairro se dera conta, em 1993, que em dez anos suas favelas tinham pulado de 23 para 66. Elas embaçavam a imagem de sucesso que a Barra tinha de si.

Naquele 1993, um estudante de direito de 23 anos decidiu terminar com as ocupações. Eduardo Paes assumira como subprefeito, espécie de administrador, da Barra da Tijuca e Jacarepaguá. Bem sucedido na favela Via Parque, também logrou êxito na favela Vila Marapendi, onde uma mulher o esbofeteou. Não cansava, como uma criança hiperativa. Tratores, guardas municipais e funcionários da Defesa Civil acorreram à Vila Autódromo para confiscar material de construção, mas uma barricada os conteve. Paes pretextou que a vila cederia lugar a um parque ecológico.

Ele cultuava Pereira Passos, que na alvorada do século XX demolira cortiços, desalojando os moradores, para abrir belos bulevares inspirados nos de Paris. O antigo prefeito importara pardais, com o intuito de dar ares e chiados europeus à velha colônia tropical. Em 2008, Eduardo Paes se elegeu prefeito do Rio.

A Vila Autódromo não dormia mais ao relento da ilegalidade. Em 1998, o governo estadual do Rio de Janeiro concedera títulos de “direito real de uso” aos moradores. Eles não se tornavam proprietários daquelas terras do Estado, mas teriam sua posse por 99 anos. A Câmara Municipal, em 2005, declarou a vila “área de especial interesse social”. Sem se intimidar, a prefeitura tentou fulminá-la antes dos Jogos Pan-Americanos de 2007. De novo, malogrou.

Surgiu então a candidatura Rio-2016. Os primeiros projetos, em desenhos e miniaturas, mantinham a vila ao lado do Parque Olímpico, que ocuparia o espaço do autódromo. Mas, em Copenhague, Paes anunciou o “fim da favela”, pois lá funcionaria o centro de mídia dos Jogos. Três empreiteiras construiriam as arenas do parque, como a de basquete, em meio à vastidão de 1,18 milhão de metros quadrados de terras, maior que o bairro do Leme. Depois, ficariam com 800 mil metros quadrados para lançar seus condomínios requintados.

A três quilômetros da Vila Autódromo, a Vila dos Atletas, abrigo das delegações esportivas, tem 31 torres e 3.604 apartamentos que serão vendidos à classe média. A despeito do acabamento pouco caprichado, é o contrário da vila olímpica de Londres, destinada a famílias de baixa renda depois de 2012. A BBC Brasil entrevistou Carlos Carvalho, proprietário de uma empreiteira que construiu o Parque Olímpico e a Vila dos Atletas. O condomínio da Vila dos Atletas se chamará Ilha Pura. É “moradia nobre, e não para os pobres”, disse Carvalho. “Para botar tubulação, água e luz, há um custo alto, e quem mora paga. Como você vai botar pobre ali?” Sobre a Vila Autódromo: “Você não pode ficar morando num apartamento e convivendo com índio ao lado. Nós não temos nada contra o índio, mas tem certas coisas que não dá. Você está fedendo. O que eu vou fazer? Vou ficar perto de você?”

De 2008 a junho de 2016, o preço dos imóveis no Rio, que já era o mais alto do país, subiu 253%, mais que os 226% de São Paulo. No mesmo período, a inflação foi de 65%, e a bolsa de valores caiu 13%.

Eduardo Paes condenou Carvalho: “Ele tem horror a pobre”. O destino dos índios, porém, parecia selado. O prefeito informou que o Parque Olímpico exigia outra pista de acesso. E era urgente ampliar as avenidas Abelardo Bueno e Salvador Allende. No cruzamento das duas crescera a Vila Autódromo, cujas casas estavam no meio do caminho das futuras obras. A comunidade ocupava 86 mil metros quadrados. Paes disse ao Globo que “a prefeitura quer ter o direito de, no caso de necessidade, desapropriar ali para implantar uma via, como faz em tantas áreas da cidade, dentro da lei, respeitando os direitos das pessoas sem nenhum tipo de terrorismo”.

Em breve, sangue humano regaria o solo da Vila Autódromo.

 

* * *

 

Na tarde de 3 de junho de 2015, Maria da Penha formava de braços dados com vizinhos um cordão para barrar a demolição de uma casa. Reivindicavam uma semana para os moradores se mudarem. O Grupamento de Operações Especiais da Guarda Municipal lá estava para cumprir a ordem judicial de imissão de posse obtida pela prefeitura. Contrário à remoção, o padre católico Fábio Guimarães, pároco da capela de São José Operário, da Vila Autódromo, sugeriu: “Dá só a mão, não o braço”. O padre mostrou aos guardas: “Ninguém está em postura de hostilidade”.

Pouco depois os guardas lançaram spray de pimenta, sacaram pistolas de choque, dispararam balas de borracha e golpearam com cassetetes. Do alto de seu 1,51 metro de altura e 41 quilos de peso, Penha segurou o septuagenário conhecido como seu Brasil, com receio de que ele caísse e fosse pisoteado. Não reparou um cassetete se aproximando do seu rosto, entre o nariz e o olho esquerdo. “Mãe!, mãe!”, Nathalia gritou.

O sangue jorrou, os olhos de Penha marejaram, e ela se sentiu um marginal. Seu nariz fora quebrado, um hematoma inchou sob o olho ferido, e a camisa branca ensanguentada ficou mais escura do que o muro de tijolos aparentes em que ela se encostou. Seu Brasil levou uma cacetada na fronte direita, e mais sangue correu. Outra decisão da Justiça, pedida pela Defensoria Pública, suspendeu a desocupação.

A tensão vinha de longe. Desde 2011 as pessoas voltavam para casa e se surpreendiam com a pintura “SMH”, de Secretaria Municipal de Habitação, seguida de números. Eram notificações da SMH, escritas com spray preto nas paredes, registrando o número do processo de desapropriação. Com os moradores protegidos pelo título de uso até 2097, o governo propôs trocar as residências por um apartamento ou reparação em dinheiro, ainda que alardeasse que quem não estivesse nas faixas marginais da lagoa e do canal poderia ficar.

Os apartamentos seriam construídos a 2,7 quilômetros dali, em Curicica, no conjunto popular Parque Carioca. Os de dois quartos mediam 44 metros quadrados e, na estimativa de Eduardo Paes, valeriam R$ 286 mil. Os de três, 61 metros quadrados, e R$ 400 mil. No condomínio haveria piscina, parquinho, quadra esportiva, saneamento.

A associação de moradores da Vila Autódromo, presidida por Altair, elaborou um projeto de urbanização com consultoria da UFRJ e da UFF. Casas muito precárias ou às margens do canal e da lagoa seriam eliminadas, e seus habitantes reassentados em imóveis disponíveis e novos prédios de quatro andares na vila. Ela teria 23 mil metros quadrados, uma creche, e a reforma custaria R$ 13,5 milhões. O Plano Popular não empolgou a prefeitura, mas venceu o concurso urbanístico Urban Age Award, patrocinado pelo Deutsche Bank.

O governo propôs R$ 120 mil pela casa do metalúrgico Antônio Pedro Martins, quantia insuficiente para comprar outra. Com medo de não ter onde morar, ele aceitou o Parque Carioca. A faxineira Luciana Souza da Silva, mãe de doze filhos, passou a habitar com a prole e o marido um só apartamento. Assim que uma família partia, sua casa era destruída por escavadeiras, mas não recolhiam os escombros.

O vento soprava a poeira, que desencadeava coceiras e crises alérgicas. Crianças andavam em meio a vergalhões e ratos no cenário de pós-bombardeio. Correios e telefones foram cortados. Faltavam luz e água. Se uma família do segundo andar saía, suas paredes eram derrubadas a marretadas, embora a do primeiro piso permanecesse. Em residências vizinhas, as picaretas que demoliam uma causavam rachaduras na outra. Desolados, muitos desistiram. E deixaram para trás seus bichos famélicos. Cachorros matavam gatos, e gatos invadiam casas em busca de comida.

“Nem todos têm preço”, picharam num muro. A artesã Jane Nascimento empertigava-se diante de máquinas e caminhões, impedindo-os de avançar, como um chinês frente a um tanque na Praça da Paz Celestial. Num churrasco de aniversário, guardas municipais proibiram que desfraldassem a bandeira do Brasil. Alegaram que a vila era um canteiro de obras. Em resposta, os moradores fincaram uma bandeira nacional no alto de cada casa. Sem querer, hastearam uma de cabeça para baixo, retratando o estado das coisas. Em visitas à vila, onde participou de atos culturais, o DJ Lencinho se imaginava na aldeia de Asterix resistindo aos romanos.

Famílias se dilaceraram. Uns queriam ir, outros não. Penha era difamada como louca. Um tio aconselhou-a: “Sai disso aí, o prefeito é muito forte”. Um pedreiro chegou do trabalho e se deparou com metade da casa, que pertencia à ex-mulher, em ruínas. Ela a negociara.

Uma só licença ambiental da prefeitura permitiu abater 324 árvores, e os passarinhos emigraram. Com as casas indo abaixo, a vila devastada pareceu um tabuleiro com poucas peças. As 58 que sobreviviam em março de 2015 levaram xeque-mate por meio de um decreto municipal que as classificou como de utilidade pública e as desapropriou. Altair não quis ver o fim da sua, na terceira remoção da vida. Heloisa Helena pediu para preservarem um dendezeiro e um akoko, árvores sagradas da Casa de Nanã, e escutou que aquilo era lixo.

“Apesar de derrubarem hoje a minha casa, eu não estou sendo derrubada”, disse Penha em 8 de março de 2016, Dia Internacional da Mulher. Ela, Luiz e Nathalia foram viver na capela. A oferta que eles recusaram, R$ 2,35 milhão, beirava à época US$ 1 milhão, fortuna com que nunca haviam sonhado. “Construí minha casa para morar, não para negociar”, Penha deu de ombros.

O município desembolsou mais de R$ 200 milhões em indenizações. Os imóveis à beira da lagoa renderam até R$ 2,99 milhões a unidade. Se num terreno havia uma casa e uma quitinete, a conta considerava duas famílias e duas residências. Por esse critério, 824 famílias compunham a comunidade. Quem resistiu mais tempo arrancou indenizações maiores, e novas intrigas e desconfianças se precipitaram entre os moradores.

Em março de 2014, quando o Parque Carioca foi inaugurado, egressos da vila exclamavam “só não vem para cá quem não é bom da cabeça!”. Em 2016, a piscina já não funcionava, e o parquinho estava com os brinquedos quebrados e enferrujados. O primeiro andar de um edifício de cinco havia sido inundado. Jornais noticiavam a ação de milicianos e traficantes. Apartamentos de dois quartos eram oferecidos por R$ 110 mil, e de três, por R$ 250 mil. O centro de mídia não foi erguido na Vila Autódromo, que não virou parque ecológico.

Com a indenização recebida, Heloisa Helena comprou uma casa em Guaratiba, na zona oeste, onde reviverá a Casa de Nanã. Altair se prepara, pela primeira vez, para morar em apartamento. No dia em que a casa de Penha foi derrubada de manhã, o prefeito anunciou à tarde que aceitaria a permanência de algumas famílias, as últimas a terem as residências demolidas entre as que repeliram acordos.

Vinte casas foram construídas na rua Nelson Piquet, a única que restou, e que foi rebatizada por Eduardo Paes como rua Vila Autódromo. Cada uma com 56 metros quadrados de área, em lote de 180 metros quadrados e o direito a acrescentar um segundo andar. Duas escolas, uma quadra esportiva e uma praça ficarão ao lado, se a prefeitura cumprir a promessa.

“A Vila Autódromo é um marco da resistência às remoções”, discursou numa solenidade Sandra Maria, a mãe de Lua, Sol, Terra e Luz. Sandra conseguiu ficar, e vai morar numa das casas novas. Penha e sua família, também. Entregaram-lhes as chaves no dia redentor de 29 de julho de 2016, a uma semana da cerimônia de abertura dos Jogos. Para Penha, mesmo que da comunidade tenha sobrado somente uma rua, ali “será sempre Vila Autódromo”. Ao receber uma comenda, ela fez um balanço de mais de duas décadas de lutas e esperanças: “Descobri como tem gente boa nessa terra chamada Brasil”.

Quem passa pela nova rua Vila Autódromo no sentido oeste, dobra à esquerda e caminha um pouco mais, encontra flores amarelas num mato à direita. Aproximando-se, vê que atrás delas cresce uma imensa abóbora.

A terra continua fértil.

 

*  * *

 

Nota 1: esta reportagem foi escrita no âmbito de um projeto sobre cidades realizado pela Secretaria de Cultura de Quito, com o apoio da Fundación Gabriel García Márquez para el Nuevo Periodismo Iberoamericano (FNPI) e do CAF – Banco de Desenvolvimento da América Latina.

Nota 2: até março de 2017, a Prefeitura do Rio de Janeiro não havia cumprido o compromisso de urbanizar o entorno da rua Vila Autódromo. Não construíra as prometidas escolas, quadra esportiva, praça e outras instalações.

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A obsessão de Guardiola
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Mário Magalhães

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Guardiola festeja a vitória dominical com Sterling, Fernandinho e Clichy – Foto reprodução

 

Há um hábito tão consagrado no futebol que virou lei não escrita: roupa suja entre técnico e jogadores se lava no vestiário.

Pep Guardiola dá de ombros à regra, ou sua ansiedade impede que ele espere para conversar mais tarde.

No ano passado, depois de um empate do Bayern de Munique com o Borussia Dortmund, o técnico dera ainda em campo uma bronca no jovem defensor Kimmich. O catalão parecia surtado.

Houve quem dissesse à época ''quero ver fazer com puta velha''.

Pois ontem, em seguida à vitória por 2 a 0 do seu Manchester City contra o Sunderland, Guardiola fez a mesma coisa com veteranos.

Não com o mesmo ímpeto, porém  os abordou em público.

Entrou no gramado e cumprimentou jogadores como Fernandinho e Sterling.

Com Sergio Agüero, que anotara um gol, foi diferente. Como se não pudesse aguardar para falar, o treinador alugou-o com observações táticas.

Ao topar com outro argentino, o goleiro Caballero, fez a mesma coisa. Quem viu teve a impressão de que Guardiola criticava alguma jogada.

Guardiola é um técnico brilhante.

Montou no Barcelona o time mais espetacular que eu vi jogar.

Mas seu comportamento é excessivamente obsessivo.

Essa busca pela perfeição utópica contribui para os seus êxitos.

E explica por que, depois de alguns anos, os jogadores dos clubes em que trabalha costumam festejar sua partida.

Na entrevista pós-jogo, Guardiola deu a entender que lhe incomodara o relaxamento do time na reta final.

Fora de casa, o City teve 71% de posse de bola, finalizou 14 vezes (7 no gol) a 11 (3) e somou 4 escanteios (a 6).

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A lição do Fla-Flu e o que o Flamengo fará com ela na Libertadores
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Mário Magalhães

No tempo normal, o Fla-Flu foi 3 a 3; nos pênaltis, deu tricolor – Foto Gilvan de Souza/Flamengo

 

O Flamengo tem mais time que o Fluminense.

Porque tem melhores elenco e conjunto.

Ontem, também porque o tricolor carecia do Scarpa, que faria falta em qualquer clube brasileiro.

Mas deu a equipe do Abel na final da Taça Guanabara.

Não no tempo regulamentar, 3 a 3.

Os 4 a 2 nos pênaltis decidiram.

É bom que o rubro-negro entenda direitinho o que aconteceu no estádio Nilton Santos, para não reeditar o erro depois de amanhã, contra o San Lorenzo, na estreia pela Libertadores.

A derrota na final teve origem no fato que o Conselheiro Acácio proclamaria com ares de sabichão: do outro lado havia um adversário, 11 jogadores e ambição de vencer.

A constatação, embora evidente, pareceu despercebida pelo Flamengo no primeiro tempo. Só não viu quem não quis o menosprezo ao velho antagonista.

O primeiro gol, do Wellington Silva, foi um contra-ataque perfeito, porém facilitado. Quando o time do Zé Ricardo avançou para uma cobrança de falta pela esquerda, não se precaveu com atenção atrás. O Diego chutou na barreira, e o Trauco fez o que não podia, tentar um passe rasteiro onde o campo estava tomado de defensores _eles recuperaram a bola, e o Wellington arrancou em disparada à frente.

O gol do Lucas, 3 a 2 para o Flu ainda antes do intervalo, consagrou outro contra-ataque. Esse foi defensivamente mais bisonho, pois nem os dois zagueiros do Fla estavam perto do lateral que marcou. Não à toa o Pará deu uma tremenda bronca.

A rapidez assombrosa do ataque tricolor não foi acaso, mas caso pensado. O Abel estudou o rival, planejou, treinou e se deu bem.

A sorte do Flamengo foi que o Guerrero esteve em grande tarde. Participou de dois gols e marcou um. Só não foi perfeito porque fez um pênalti.

Atrás do placar, o Flamengo regressou estranho no segundo tempo. Até a parada técnica, pelos 20 minutos, não criara perigo.

Alcançou o empate na falta cobrada pelo Guerrero. Poderia ter anotado o quarto se o Berrío, fominha, tivesse passado uma bola para o Réver.

A maior preocupação que fica do domingo é o despreparo para contra-ataques. Na origem do problema esteve a atitude presunçosa. Diante de um time do Abel, o risco é sempre alto (o Fluminense mereceu o título).

A segunda é a incapacidade de impor ritmo forte quando necessário (o abafa no finzinho não apaga o que aconteceu antes, no segundo tempo).

Uma terceira, menor, é com o Muralha. Ele cometeu um equívoco primário ao defender com as mãos bola atrasada por companheiro. Noutro lance, saiu mal do gol. E nas cinco cobranças do Fluminense (uma durante a partida, quatro na série derradeira) aparentou mau preparo. Será que conhecia o histórico dos tricolores, como eles costumam bater? Os adversários não pareceram intimidados com o Muralha no gol, ao contrário do que ocorreu com o Rafael Vaz _preocupado com uma defesa que o Júlio César fizera, o zagueiro buscou o limite do canto direito, exagerou e chutou fora.

O Flamengo tem tudo para chegar forte à Libertadores.

Se não menosprezar adversário, as chances aumentarão.

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Em 2017, passado guerrilheiro de Aloysio parece incomodar mais do que nunca
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Mário Magalhães

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Aloysio Nunes Ferreira Filho, novo ministro das Relações Exteriores – Foto Alan Marques/Folhapress

 

Nunca o passado guerrilheiro de Aloysio Nunes Ferreira Filho (PSDB-SP) pareceu incomodar tantas viúvas da ditadura como em 2017, quando o senador é escolhido por Michel Temer para dirigir o Ministério das Relações Exteriores.

A grita não foi assim na década de 1990, quando por quatro anos Aloysio foi o vice de Luiz Antônio Fleury no governo estadual de São Paulo.

Nem no princípio do século 21, ao ser ministro da Justiça nos estertores da administração Fernando Henrique Cardoso.

E olha que antes as cicatrizes dos tempos da ditadura estavam mais inflamadas do que hoje.

O que mudou, ao menos na aparência, foi o ambiente político.

Agora, uma turba rejuvenescida de extrema direita se inspira em veteranos nazistoides da ditadura (1964-1985) e se une a eles para patrulhar, atacar e destruir tudo que lhes pareça diferente.

Até mesmo um prócer do PSDB, vice de Aécio Neves na chapa presidencial derrotada em 2014.

E apoiador e participante da deposição de Dilma Rousseff.

É evidente que anos atrás inexistiam as redes que hoje ampliam a disseminação de opiniões, das mais sábias às, como dizia o Paulo Francis, da massa boçal (o que é sabedoria e o que é boçalidade depende da cachola de cada um).

A considerar o que muitos proclamam desde ontem no Twitter e no Facebook, o Itamaraty será tomado por um comunista, guerrilheiro e terrorista alucinado _ele mesmo, Aloysio Nunes Ferreira Filho.

Já a oposição de esquerda ao governo Temer fustiga Aloysio pela trajetória política. Da luta armada ao quercismo e ao tucanato.

Numa barricada, não perdoam a antiga militância de esquerda do novo ministro.

Noutra, o que julgam mudança de lado dele, aderindo à direita ou ao centro.

Opinião é opinião. Mas no fogo cruzado da nomeação erros factuais têm sido publicados sobre o senador.

Não é verdade que ele tenha começado a vida política na guerrilha.

Antes, o jovem Aloysio pertenceu ao PCB (Partido Comunista Brasileiro), agremiação contrária à luta armada como meio de enfrentar o regime instaurado pelas armas.

Como comunista, Aloysio foi militante estudantil na Faculdade de Direito da USP. No Largo São Francisco, presidiu o Centro Acadêmico XI de Agosto.

Ainda na faculdade, rompeu com o PCB e se integrou à Ação Libertadora Nacional. Comandada pelo ex-deputado Carlos Marighella e o jornalista Joaquim Câmara Ferreira, a ALN foi a maior organização guerrilheira de combate à ditadura. Marighella foi fuzilado em 1969. No ano seguinte, torturaram Câmara até a morte.

Por motivos diversos _inclusive ignorância_, Aloysio costuma ser tratado exclusivamente como ''motorista do Marighella''.

Ele foi muito mais do que isso: foi um revolucionário que participou de numerosas ações armadas. Seu nome de guerra mais usado era ''Mateus''.

Em 1968, Aloysio esteve no assalto da ALN ao trem pagador Santos-Jundiaí. Também no roubo de um carro-pagador da Massey Ferguson.

Reconstituí esses episódios em pormenores na biografia ''Marighella: O guerrilheiro que incendiou o mundo'' (Companhia das Letras). Aloysio aparece em sete páginas do livro.

Morando em Paris, Aloysio se tornou em 1969 o principal quadro da logística da ALN na Europa, onde regressou ao PCB.

Após a anistia, ficou muito tempo no PMDB, mais tarde trocado pelo PSDB.

Em entrevistas, o senador declarou que a guerrilha foi um erro. Mas nunca se disse um ''arrependido''.

Nos anos 2000, esteve presente em homenagem a Marighella na alameda paulistana onde o guerrilheiro fora assassinado por dezenas de agentes da ditadura.

Em 2014, um levantamento do destino dos ex-militantes da ALN concluiu que eles se dispersavam por ao menos oito partidos: PT (a maioria expressiva), PSDB, PDT, PSB, PV, PSOL, PPS e PTB.

Espalhou-se nas redes sociais, nos últimos anos, a versão de que Aloysio teria ''entregue'' Marighella aos esbirros da ditadura.

Isso não passa de fantasia sem lastro nos fatos.

Testemunhas às pencas e provas irrefutáveis comprovam que Aloysio estava na Europa fazia meses quando mataram o guerrilheiro tido oficialmente pela ditadura como o ''inimigo público número 1''.

O ministro do governo Michel Temer combina com o jovem destemido que encarou a ditadura de arma na mão?

Com resposta positiva ou negativa, o passado de Aloysio não se apaga.

Tudo é história.

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Feliz Natal: há 64 anos nascia Zico, o Salvador, maior craque da história
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Mário Magalhães

Trecho de "Crecer a golpes", livro organizado por Diego Fonseca (C. A. Press, Penguin Group-USA)

Trecho de 'Crecer a golpes', livro organizado por Diego Fonseca (C.A.Press, Penguin Group-USA)

 

Parabéns pra você, Zico, e parabéns pra nós que tivemos a imensa sorte de ser contemporâneos do maior jogador de futebol de todos os tempos _ninguém duvida, né?

O trecho recortado lá no alto faz parte da crônica ''Juego de la memoria'', que eu escrevi para o livro ''Crecer a golpes: Crónicas y ensayos de América Latina a cuarenta años de Allende y Pinochet'', organizado pelo jornalista e escritor argentino Diego Fonseca.

Editado em 2013 pela C. A. Press, braço do Penguin Group nos Estados Unidos, o volume reúne 13 autores, além do organizador.

Tive a honra de estar ao lado de escribas que eu muito admiro, como Francisco Goldman, Leonardo Padura, Jon Lee Anderson, Boris Muñoz, Sergio Ramírez, Carlos Dada e Martín Caparrós.

O desafio, nos 40 anos do golpe de Estado que derrubou Salvador Allende no Chile, era fazer um balanço das quatro décadas mais recentes de países latino-americanos, além de Estados Unidos e Espanha.

Ao contar o Brasil em 17 páginas, pontuei nossa história com a trajetória do Zico e a reverência de um menino, depois adolescente e mais tarde adulto de cabelos brancos por ele _eu mesmo.

Hoje o Salvador faz 64 anos.

Talvez não fosse o caso de celebrar, pois a eternidade não se conta em anos.

E o Zico é eterno.

Em todo caso, tim-tim.

(Este post foi publicado originalmente há dois anos; atualizei a idade do Zico: parabéns pelos 64 anos!)

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Se é contra demagogia, Crivella deveria ter dito que faltaria ao Carnaval
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Mário Magalhães

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Crivella trata o Carnaval como questão de gosto pessoal – Foto Marcos Oliveira/Agência Senado

 

Há uma confusão na controvérsia sobre a ausência de Marcelo Crivella no Carnaval carioca.

Ontem de manhã, o prefeito disse: ''Cada um no Rio de Janeiro não deve ser obrigado a fazer nada''.

Do ponto de vista de gosto pessoal, está correto o bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus.

Acontece que desde janeiro ele governa a cidade que tem no Carnaval e no samba patrimônios culturais e históricos. E que ameniza suas mazelas sociais com o impacto econômico da folia, turbinado pela visita de 1,1 milhão de turistas nesse período.

O cidadão Crivella tem todo o direito de fugir do Carnaval. E o prefeito do Rio?

Ainda que tenha, Crivella deveria ter alertado os cidadãos, na campanha eleitoral, que faltaria ao Carnaval. Seria sincero e transparente. Não foi.

Também ontem, mais tarde, o prefeito divulgou um vídeo (assista-o clicando aqui) em que se pronuncia assim sobre sua possível presença no Carnaval: ''No meu caso, seria uma demagogia''; ''A demagogia é a máscara da democracia''.

Crivella, mais uma vez, não explica por que fez forfait.

Por que seria demagogia? Devido à religião? Por que Crivella não diz?

Será que nenhum repórter lhe perguntará se concorda com mensagem da Universal trombeteando que no Carnaval ''os espíritos malignos se fortalecem''?

Crivella dá a entender que seria demagogia alguém com a sua crença brincar como súdito do Rei Momo.

Mas ninguém lhe cobrou que se transformasse em folião.

Mesmo admitindo que em virtude de suas convicções religiosas ele sumisse do Carnaval, permaneceria a constatação de que demagogia foi outra coisa.

Foi Crivella ter afirmado na campanha de 2016 que governaria para todos os cidadãos: ''Eu não vou ser o pastor da Igreja''.

Enquanto o Rio for Rio e o Carnaval for Carnaval, o prefeito precisará sim esclarecer a ausência na festa.

Ninguém, como disse o prefeito, ''deve ser obrigado a fazer nada''.

Alguém o obrigou a se candidatar?

No Rio, o Carnaval faz parte da vida de prefeito.

Crivella não sabia?

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Por que Crivella esconde que religião motivou sua ausência no Carnaval?
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Mário Magalhães

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O prefeito Marcelo Crivella, no discurso de posse – Reprodução/GloboNews

 

O prefeito Marcelo Crivella não apareceu para entregar a chave da cidade ao Rei Momo.

Nem na Sapucaí, nas duas jornadas de desfile do Grupo Especial.

Uma das desculpas foi uma gripe de sua mulher. Boa notícia: Sylvia Jane se recuperou, porque durante o Carnaval os dois foram a um torneio de tênis.

No sábado, Crivella postou um vídeo em que vistoriava obra. Alegou: ''A gente não sabe sambar, mas sabe trabalhar''.

O prefeito visitou no hospital pessoas que se feriram num acidente com carro alegórico da Paraíso do Tuiuti, mas permaneceu longe do Sambódromo.

Do Rio e do Brasil, o Carnaval é sobretudo patrimônio cultural.

É também evento de enorme benefício econômico e social para a cidade.

A ausência do prefeito é inexplicável.

A não ser que a sua fé colida com as obrigações de governante.

Crivella é bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus.

A Iurd diz que no Carnaval ''os espíritos malignos se fortalecem''.

Que os acidentes de trânsito nessa época são causados ''na maioria das vezes por espíritos malignos''.

A razão, prega um vídeo da igreja, seriam as oferendas da umbanda e do candomblé.

Marcelo Crivella disse há pouco: ''Nós estamos tratando de um assunto que já está superado. Eu acho que nós temos, cada um, que respeitar as pessoas. Cada um no Rio de Janeiro não deve ser obrigado a fazer nada. Eu acho que tem uma agenda do prefeito que deve ser cumprida e que, não necessariamente, é a agenda da imprensa. E é isso que nós temos que fazer''.

Por que o prefeito cala sobre religião?

Fé é questão pessoal.

Mas constitui tema público quando interfere na vida dos cidadãos.

Crivella deveria ser mais transparente.

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Escândalo não é furico na TV, mas a Wikipédia dar 60 anos ao Nelson Rubens
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Mário Magalhães

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Nelson Rubens, em fevereiro de 2016 – Reprodução ''Folha''

 

Quando o amigo Serginho mandou o vídeo da mulher pintada de verde mostrando o furico na RedeTV!, bateu a curiosidade: quantos anos tem o Nelson Rubens?

Era sábado, e a Wikipédia informava: 60.

Ou seja, fantasia de Carnaval.

Hoje eu olhei de novo e vi que mudaram: 79 anos, aniversário de 80 em agosto.

Moral da história: o Nelson Rubens não só aumenta, como também diminui, pelo menos a idade _ou alguém diminui para ele.

E daí?

E daí que a existência não se resume à metafísica.

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