Blog do Mario Magalhaes

10 ruídos e derrapadas da campanha de Freixo na TV
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Mário Magalhães

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Marcelo Freixo, candidato do PSOL a prefeito do Rio – Foto Mauro Pimentel/Folhapress

 

Alguns pitacos, antes de falar exclusivamente de TV:

* O desafio de Marcelo Freixo (PSOL) já era monumental na campanha de segundo turno contra Marcelo Crivella (PRB). O senador obteve mais votos na rodada inicial da eleição para prefeito do Rio. Mais importante, concentra o apoio do poder na cidade: de donos de empresas de ônibus a concessionários de serviços públicos; de grandes empresários, incluindo os gigantes do comércio; de milicianos a policiais; da esmagadora maioria das denominações evangélicas aos políticos de direita e centro-direita mais influentes; do grosso do PMDB, sem excluir Michel Temer, a quase todo o PSD.

* Freixo ganhou a batalha das ruas. Apoiadores seus desfilam orgulhosamente com adesivos do candidato e enchem seus comícios. Mesmo nos bairros mais pobres, onde Crivella ostenta larga vantagem na intenção de votos, vê-se mais gente com propaganda do seu adversário. A campanha de Freixo é um marco de mobilização militante. Mesmo se for derrotado, é provável que o deputado saia politicamente maior do que no começo da campanha.

* Os novos anúncios do PSOL na TV, com vídeo de Crivella nos tempos de bispo falando de arrecadação de contribuição de fiéis, podem fazer algum estrago no favorito, mas não mudam necessariamente o voto para Freixo.

* Eventual derrota de Freixo não implica manifestação dos eleitores contra a ''esquerda'' ou mesmo os governos petistas. Quem integrou a base de Lula e Dilma, e atuou como ministro desta, foi Crivella, não Freixo, que permaneceu na oposição. Por enquanto, o voto parece mais pragmático, para gestor.

* A operação da campanha de Freixo na internet merece ser estudada como caso de sucesso. Sem as redes, ele não teria passado para o segundo turno.

* No primeiro turno, Freixo travou uma guerra assimétrica. Com 11 segundos no horário eleitoral e menos dinheiro, ele representava a guerrilha contra exércitos convencionais. O mata-mata decisivo, contudo, é guerra de divisões contra divisões. Pelo que se vê na TV, o PSOL estava pronto para o combate desigual, mas não para o que lhe confere mais igualdade de condições. O que mais expressa isso são os fraquíssimos programas veiculados na TV, como estes exemplos de ruídos e derrapadas tentam demonstrar:

1) Na quinta-feira, o programa de Freixo anunciou que nos dias seguintes traria informações relevantes sobre o vínculo de Crivella com Anthony Garotinho. Na sexta, não trouxe. Mas reexibiu a mesma promessa. No sábado, não trouxe, de novo, e prometeu a mesma coisa. Frustrou os cariocas que esperavam novidades.

2) Na sexta e no sábado, na abertura do programa de 10 minutos, Freixo ofereceu-o aos professores, cujo dia foi celebrado anteontem. Seria natural os espectadores/eleitores imaginarem que o programa trataria essencialmente de educação. Qual nada. Ocupou-se mais de cenas de comício e do (relevante) tema da saúde. Foi um avanço em relação ao Dia das Crianças, esquecido pela campanha na TV. Mas desperdiçou o gancho, o Dia do Professor, para focar no ensino.

3) As iniciativas anunciadas para uma administração Freixo são enumeradas burocraticamente, sem embalagem, no que embalagem pode ter de útil em marketing eleitoral. Crivella proclama seus programas batizados como ''Cimento Social'' e ''Zona Franca Social''. Os nomes transmitem e sintetizam melhor o recado do candidato. As pessoas os percebem mais facilmente.

4) Freixo produziu um programa de governo maior e mais detalhado, com muito mais sugestões, do que Crivella. Mas na TV apresenta generalidades, como ''vai contratar mais médicos''. O abc do marketing político é: a) apontar o problema; b) mostrar alguém contando como sofre com tal problema; c) o candidato dizer o que fará para resolvê-lo ou amenizá-lo. Ao alardear generalidades, por mais nobres que sejam as intenções, a propaganda não comove os eleitores. Poucos momentos são tão burocráticos quanto a promessa de baixar a passagem dos ônibus. Sem detalhes. Até em debates Freixo citou quanto um tribunal de contas considera razoável para as tarifas _menos do que hoje. Seria simples sua equipe embarcar num ônibus na zona oeste, contar o tempo consumido até o Centro, o dinheiro desembolsado pelos passageiros, o candidato repetir no horário eleitoral o que fala em debates sobre as empresas de ônibus e explicitar sua proposta de valor para as passagens. Mas o programa se contenta com a promessa genérica de redução do preço.

5) Desde o fim do primeiro turno Freixo sofre com boatos disseminados contra ele. Na internet, responde um a um, com eficiência. Na TV, só pede para os cariocas não acreditarem nos ataques. Se estes o prejudicam fortemente, como parece, por que não esclarecê-los na televisão? Há sempre risco de ajudar a espalhar baixarias que antes haviam atingido audiência mais restrita. Em situações graves, porém, há oportunidade de dar sua versão, vender suas ideias e restabelecer os fatos. Em vez disso, o programa passa indefinidamente o clip com o jingle da campanha. A essa altura, não ganha um só voto, se é que clip e jingle ganham voto em alguma circunstância.

6) Freixo fala para seus apoiadores, prega para convertidos, parece ignorar quem não conhece história e pouco acompanha o noticiário. Fustiga Crivella pelo endosso à PEC 241. Porém não informa quais são, para os mais pobres, as consequências da mudança na Constituição. No salário mínimo, na saúde, na educação. Com dados, número por número e, mais relevante, com a história real de pessoas que serão atingidas pela medida ou teriam sido atingidas se ela tivesse entrado em vigor anos atrás. Não informa, não emociona, não convence. Logo, não conquista voto.

7) Foram breves as menções à PEC 241. Freixo tem desprezado ''temas nacionais'' no programa de TV _não nos palanques. É um erro. O Rio é o Rio. Tratar dos assuntos do Brasil não soa estranho aqui, é tradição. Crivella já apelou para se falar só da cidade. Na televisão, Freixo tem atendido ao pedido, desperdiçando oportunidade para se diferenciar.

8) O horário eleitoral mostrou Freixo discursando em palanque contra a homofobia e a intolerância religiosa. Quem entende a mensagem plenamente? Seus seguidores mais politizados. O programa de TV não explica, aprofunda, emprega códigos mais simples para transmitir mensagem para públicos maiores e menos escolarizados. Por que Freixo não mostrou ideias manifestadas historicamente por Crivella sobre homossexualidade e determinadas religiões? Só agora iniciou, nos anúncios de 30 segundos, a expor cenas que certamente seu adversário preferiria ver esquecidas. Por que demorou tanto?

9) A breve biografia de Freixo apresentada na TV _se ele é bem menos conhecido que Crivella, sua trajetória deveria ter espaço maior_ conta que na Assembleia Legislativa ele presidiu a CPI das Milícias. Estranhamente, o programa calou sobre as ações das milícias na campanha do primeiro turno. Na sexta-feira, soube-se que uma filha e sobrinha de milicianos anunciou o voto da família em Crivella. Supõe-se que Freixo aproveitará a ajuda involuntária para abordar o assunto com mais intensidade.

10) Crivella tem usado na TV o tradicional o que é verdade, o que é mentira. Costuma funcionar, atrai a atenção, dribla o hermetismo. Freixo, não, embora o recurso tenha êxito em sua página no Facebook.

* Em suma, nada garante que com um bom programa na TV Freixo estaria à frente de Crivella nas pesquisas que dão ao senador dois votos para cada um do deputado. Mas certamente estaria mais bem situado se não desperdiçasse o latifúndio de tempo à sua disposição. Televisão não decide sozinha eleição, mas pode ajudar muito. Ou prejudicar. O jogo da eleição no Rio ainda está sendo jogado.

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Crivella, 1999: homossexualidade é ‘conduta maligna’; em 2014: é ‘pecado’
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Mário Magalhães

UOL e SBT sabatinam Crivella (PRB); veja a íntegra

 

Danado que é, o repórter Fernando Molica exumou um antigo livro de Marcelo Crivella, candidato do PRB a prefeito do Rio.

''Evangelizando a África'' saiu pela primeira vez em inglês, em 1999. Molica descreve algumas convicções do bispo (hoje licenciado) da Igreja Universal do Reino de Deus impressas no livro: ''O candidato a prefeito que hoje se apresenta como tolerante e ecumênico fez pesadas críticas a praticamente todas as religiões, apresentadas como 'diabólicas', e classificou a homossexualidade de 'conduta maligna' e de 'terrível mal'. Na publicação, afirma que a Igreja Católica e outras religiões que se denominam cristãs 'pregam doutrinas demoníacas'''.

Crivella disse muito mais, vale a pena ler a reportagem.

Em resposta à empreitada arqueológica de Molica, o senador alegou que ao escrever o livro era um ''jovem missionário'', falou em ''zelo imaturo da fé'', reconheceu o ''lamentável erro'' e assegurou: ''Amo os católicos, espíritas, evangélicos e a todos. Se alguma vez os ofendi, peço perdão. O mesmo em relação à homossexualidade''.

Crivella, porém, manteve ao menos uma restrição do tempo de ''imaturidade''. Há dois anos, quando se candidatou sem sucesso ao governo do Estado do Rio, ele disse que homossexualidade ''é pecado''.

É direito democrático e constitucional manter crença e celebrar a fé. Mas tal ideia de ''pecado'' cultivada por um postulante à administração pública pode ter consequências para a coletividade. Como eu disse a Crivella pessoalmente, numa sabatina de 2014:

''Senador, se a questão fosse religiosa, eu não voltaria ao assunto, porque cada um tem o direito de ter a sua crença e de manifestar a sua crença. Mas há interesse público, um candidato a governador do Estado. Os poetas compuseram e cantaram o lindo verso 'Qualquer maneira de amor vale a pena'. Mas, como o preconceito e o ódio persistem, só no ano passado pelo menos 312 cidadãos e cidadãs foram assassinados no Brasil por motivações homofóbicas. Uma morte a cada 28 horas. Recorde mundial. O senhor, outro dia, afirmou que considera a homossexualidade um pecado. O senhor tem ideia de como tal convicção e tal declaração, na boca de um homem público, podem significar um incentivo à discriminação, à intolerância, à violência e ao ódio?''.

Para ler os trechos da sabatina que trataram desse tema, basta clicar aqui.

Para assistir à íntegra da sabatina, é só clicar na imagem no alto.

Marcelo Crivella é favorito para vencer Marcelo Freixo (PSOL) na eleição do dia 30.

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Sabáticas: O ratatouille de Anton Ego e o rosbife da vovó
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Mário Magalhães

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Em ''Ratatouille'', Anton Ego se comove com o prato de sua infância, acompanhado de vinho nacional

 

Os dois clichês combinam como arroz e feijão, picanha e sal grosso, molho de tomate e queijo parmesão: nunca houve comida tão boa quanto a da vovó; a convicção decorre mais das reminiscências de tempos menos bicudos do que de virtudes verdadeiras, da velha senhora, em forno e fogão.

Acontece que nem sempre o que parece é mesmo lugar-comum, por mais desumano que seja dissociar paladar e memória afetiva. Ainda estou para descobrir vatapá igual ao da minha vó.

Ou frango ao molho pardo. Semanas atrás eu me deliciava em Diamantina com uma galinha à cabidela, outro nome do prato. Não era como a da minha vó, mas o grande mestre-cuca Vandeca quase chegou lá.

Espantado com minha volúpia à mesa, um colega norte-americano quis saber o que me extasiava. Respondi com a tradução literal em inglês para galinha em seu próprio sangue. O gringo esboçou cara de nojo, e eu tripudiei, contando que na infância testemunhava minha vó, com uma faca bem afiada, degolar os frangos que comprava vivos na feira. Eficaz como um serial killer, ela sangrava os bichos sobre uma bacia.

Daquela época pré-histórica, em que forno micro-ondas só existia no desenho animado Os Jetsons, nada se compara ao rosbife sublime servido pela minha vó. A minha tia até que se esforça, mas se esqueceu da carne usada na obra-prima. Só lembra que não era de primeira.

Conhecedora da minha devoção pelo rosbife da avó já falecida, uma amiga indicou um mercadinho em Copacabana, e eu virei freguês. O rosbife é tenro, e não seco como tantos que nos empurram por aí. Apimentam-no, mas sem destemperos de incendiar a língua. Bom que só, contudo aquém do rosbife da minha vó.

Persisto na busca pelo rosbife campeão na minha arqueologia dos sabores. Fantasio que a descoberta será como numa cena do filme Ratatouille: o crítico gastronômico Anton Ego, impiedoso como exige o clichê, prova um quitute-surpresa criado pelo chef Rémy, um ratinho. À primeira colherada do ratatouille reinventado, Ego se emociona ao recordar o original que sua mãe cozinhava outrora na casa de campo.

Por mim, tudo bem: o cozinheiro pode ser rato, gato ou gente. Sei que o reencontro com o rosbife da vó Esmeralda me deixará tão comovido quanto Anton Ego diante do seu ratatouille.

(Publicado originalmente na revista Azul Magazine, dezembro de 2013)

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A lição da eleição de 2006, o efeito Garotinho e a aposta de Freixo no Rio
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Mário Magalhães

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Faz só dez anos, algo como, contemplando a história, o tempo de um espirro. Não custa contar, para quem não viveu ou não se lembra. Parece inacreditável, mas aconteceu de verdade.

Na eleição presidencial de 2006, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) alcançou maioria relativa no primeiro turno e absoluta no segundo. Não foi ele, porém, o protagonista da façanha incrível, e sim o candidato Geraldo Alckmin (PSDB).

No dia 1º de outubro daquele ano, o tucano obteve 39.968.369 votos. Voto pra caramba, o equivalente a 38,13% do total e a 41,64% dos sufrágios válidos.

Em 29 de outubro, deu-se o feito extraordinário: Alckmin foi escolhido por 37.543.178 cidadãos.

Isso mesmo: sua votação diminuiu, 2.425.191 eleitores a menos que quatro semanas antes. Caiu para 36,81% do total e 39,17% desprezando brancos e nulos.

Foi como se todos os eleitores dos demais candidatos tivessem preferido Lula (e milhões pró-Alckmin o abandonaram).

Como foi possível ocorrer a regressão inusitada?

Por muitos fatores, inclusive as circunstâncias em que Alckmin logrou evitar o triunfo lulista na rodada inicial.

Mas nenhum contribuiu mais para o desastre do hoje governador de São Paulo do que um gesto seu em 3 de outubro, dois dias depois da ida às urnas: ele se encontrou com o ex-governador do Rio Anthony Garotinho e a então governadora Rosinha Garotinho, ambos do PMDB. A família Garotinho anunciou apoio a Alckmin no mata-mata derradeiro. O presidente nacional do PMDB, um certo Michel Temer, estava presente. Deu no que deu.

Assim que soube da adesão dos Garotinho, o coordenador da campanha de Alckmin, o prefeito Cesar Maia (PFL, atual DEM), assinalou: ''[Alckmin] perde o discurso da ética''. A observação decorria das numerosas denúncias sobre Garotinho no trato do patrimônio público.

O efeito Garotinho também se manifestou no Estado do Rio. No comecinho de outubro, Alckmin colhera 25,95% dos conjunto de votos. No finzinho, praticamente não saiu do lugar, com 26,73%.

Além de conhecer a história, o que não faz mal a ninguém, qual o sentido de exumar as lições do pleito de 2006?

Entender a aposta de Marcelo Freixo (PSOL) na tentativa de diminuir a vantagem de Marcelo Crivella (PRB) na campanha em curso para prefeito do Rio. De acordo com o Ibope mais recente, o deputado tem um voto para cada dois do senador (33% a 67%).

O PR, partido de Garotinho, está coligado com Crivella. Conforme notícia veiculada no site do candidato, Garotinho indicou o vice da chapa, fato que Crivella agora nega. A rejeição ao ex-governador permanece expressiva.

O propósito de Freixo em entrevistas, discursos e propaganda na TV é enfatizar o acordo Crivella-Garotinho.

''O povo nem liga para isso'', deu de ombros Crivella nesta quinta-feira.

Garotinho minimiza sua rejeição: ''Eu acho que eles [adversários de Crivella] estão dando um tiro n'água na medida em que eles tentam associar o meu nome ao Crivella, achando que minha rejeição é grande. Porque minha rejeição já foi grande no Rio, mas, pelos últimos números que eu tenho, está na casa dos 20%, 22%. O PMDB roubou tanto que roubou até minha rejeição''.

A esmagadora maioria do PMDB carioca quer a vitória de Crivella no próximo dia 30.

Se a rejeição de Garotinho é pequena, por que Crivella o mantém afastado dos holofotes?

Ainda é cedo para saber se, em 2016, o efeito Garotinho se reproduzirá, ainda que em menor escala.

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Vereadores do PMDB aderem a Crivella, cujo partido integra base de Temer
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Mário Magalhães

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Crivella, candidato do PRB à Prefeitura do Rio – Gustavo Serebrenick/Brazil Photo Press/Folhapress

 

O PMDB do Rio, derrotado no primeiro turno com o candidato Pedro Paulo, vai aderindo em peso a Marcelo Crivella (PRB) no mata-mata derradeiro.

O partido do prefeito Eduardo Paes, do governador licenciado Luiz Fernando Pezão, do ex-governador Sérgio Cabral e do presidente Michel Temer anunciou neutralidade na disputa entre Crivella e Marcelo Freixo (PSOL).

Mas peemedebistas influentes, como alguns vereadores, declaram apoio ao senador.

É a mesma opção de voto de figurões do PMDB que se manterão calados.

O partido de Crivella integra a base do governo Temer, em que ocupa o Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços.

Tem lógica, além de interesses paroquiais, a aliança informal no Rio, que Crivella prefere não expor em público.

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Na TV, Freixo fala para convertidos e ignora até o Dia das Crianças
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Mário Magalhães

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Marcelo Freixo, candidato do PSOL à Prefeitura do Rio – Foto Mídia Ninja; 15.set.2016/Divulgação

 

É possível que Marcelo Freixo tenha diminuído a distância que o separa de Marcelo Crivella (67% a 33% de intenção de votos, de acordo com o Ibope mais recente).

Passar de 11 segundos para 10 minutos o tempo no horário eleitoral é um salto e tanto. O candidato se torna mais conhecido. Antes, para cada segundo do postulante do PSOL, o concorrente do PRB contava com seis segundos e meio. Com igualdade na exibição de propaganda na TV, desde a segunda-feira, é mesmo possível que Freixo tenha avançado.

Possível, mas não garantido.

Porque até agora o deputado que inspirou o personagem Fraga do filme ''Tropa de Elite 2'' tem se concentrado na pregação para convertidos. Ou seja, aqueles que já estão dispostos a votar nele. Mais ou menos metade do tempo do programa desta quarta-feira à tarde foi dedicado a cenas de um comício do primeiro turno e ao clip com o (ótimo) jingle da campanha. São cenas que estimulam a militância. Teriam o efeito de multiplicar a votação? (Mal comparando: nas disputas presidenciais recentes, o PSDB, ao radicalizar o discurso à direita, mobilizou sua base social mais aguerrida, mas não conseguiu abocanhar o eleitorado de centro-esquerda que acabou contribuindo para os triunfos do PT.)

A leitura dos programas de Crivella e Freixo para governar mostra que o do segundo é muito mais amplo e detalhado. Na televisão, contudo, Crivella apresenta propostas mais concretas, enquanto Freixo se contenta com generalidades. O deputado sempre disse que o segundo turno lhe permitiria divulgar sua agenda para o Rio. No primeiro dia de campanha televisiva, nada propôs, causando ruído entre o prometido e o cumprido.

Os correligionários de Freixo dizem que ele é muito menos conhecido do que Crivella. Se de fato essa diferença é tamanha, fica difícil entender por que em 10 minutos seu programa só dedica 60 segundos para contar a trajetória do candidato. Gasta mais tempo com o clip do que com a biografia de quem pretende ter a história apregoada.

O programa noturno de ontem mostrou cenas do encontro de apoiadores de Freixo, realizado em praça pública na Tijuca, para celebrar a liberdade religiosa. Sequências bonitas, bem editadas, mas plenamente claras apenas para iniciados. É óbvio que a data escolhida para exibição não foi acaso. Era Dia de Nossa Senhora Aparecida. Não foi dito. Apareceu a menina que foi apedrejada no ano passado quando vestia trajes brancos do candomblé. O programa não forneceu muitas informações, porém, sobre o que foi o ato intolerante e covarde de fanáticos contra a garota. Além de difundir a mensagem generosa de tolerância com todas as crenças (e não crenças), o propósito do programa era diferenciar Freixo de Crivella, bispo (licenciado) da Igreja Universal do Reino de Deus. O programa de Freixo calou a respeito do pastor da Universal que na década de 1990 chutou uma imagem de Nossa Senhora. O desvario foi ao ar na TV Record, controlada pelo bispo Edir Macedo, tio de Crivella. Marketing eleitoral deve ser claro.

O mais estranho, contudo, foi o esquecimento do Dia das Crianças. Porque só esquecimento explica a ausência de qualquer referência às mazelas e encantos da infância, tanto no programa das 13h quanto no das 20h30. O que Freixo tem a dizer sobre creches, escolas, lazer, transporte, tantas questões relevantes para as crianças cariocas e suas famílias? Está tudo escrito no programa, mas nada foi falado na TV no feriado. À noite, Crivella ofereceu seu programa às crianças, como devem ter feito numerosos candidatos país afora. É óbvio que as ações de governo específicas para a infância não devem ser alardeadas somente no dia oficial que as celebra. Mas o Dia das Crianças era um motivo, um gancho para tratar do assunto.

Dez minutos são um latifúndio em TV. Era possível falar de liberdade religiosa, de temas da infância e apresentar propostas concretas.

No comecinho da campanha do mata-mata, Freixo evitou críticas mais duras a Crivella. A desvantagem muda o tom, mas o candidato busca evitar o aumento de rejeição. Mesmo assim, no programa de ontem à noite o deputado fez algo que, na opinião de nove em cada dez marqueteiros do primeiro time, constitui equívoco grave: na propaganda da TV, um locutor ou uma locutora deve bater no adversário, não o candidato. Foi Freixo quem deu a cara para falar da recusa de Crivella a debates e do apoio do partido do senador à decisão recente da Câmara que castiga os mais pobres. Nos anúncios de 30 segundos, quem fustiga a parceria Crivella-Garotinho é uma narradora, não Freixo. Esse é o padrão consagrado. (O anúncio tem a frase ''e ainda fez greve de fome'', sobre Garotinho, incompreensível para boa parcela dos espectadores/eleitores.)

Televisão, sozinha, não decide eleição. Mas é um instrumento valiosíssimo.

Se o programa de Freixo não começar a falar para segmentos nos quais ele teve baixa votação no primeiro turno, sobretudo na zona oeste, o caminho de Crivella será facilitado.

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TV Record cancela debate entre candidatos no Rio. Melhor para Crivella
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Mário Magalhães

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Marcelo Crivella (PRB), candidato a prefeito do Rio – Foto Marcos Oliveira/Agência Senado

 

A TV Record cancelou o debate que faria no dia 23 entre os candidatos a prefeito do Rio.

Em comunicado às campanhas, a empresa informou a Marcelo Crivella (PRB) e Marcelo Freixo (PSOL) que devido ''ao processo de mudança da sede da emissora que está em andamento'' não haverá debate no segundo turno. No primeiro, houve.

A Record é controlada pelo bispo Edir Macedo, tio de Crivella e líder da Igreja Universal do Reino de Deus, da qual o candidato do PRB é bispo (licenciado).

A decisão da emissora é boa notícia para Crivella e má para Freixo.

Pesquisa Ibope divulgada ontem estima a intenção de voto na base de dois eleitores do senador para cada um do deputado.

Para crescer, Freixo precisa acentuar diferenças com Crivella. Os debates podem ser úteis para esse propósito.

As TVs não são obrigadas a promover debates eleitorais. No entanto, encontros entre os candidatos constituem serviço público apropriado a concessionário público _as TVs abertas são concessão pública.

Quanto menos debates, pior para os cidadãos.

O maior esforço de Crivella na campanha, inclusive com anúncios na TV, tem sido apagar ou atenuar sua imagem _justa ou injusta_ de representante da Igreja Universal.

No dia 30 se saberá se o senador conseguiu.

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O recado de um tremendo samba finalista na Mangueira: Quem mandou duvidar?
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Mário Magalhães

 

No domingo, o professor de música Guilherme Sá toca o cavaquinho na apresentação ao lado de outros mestres e dezenas de alunos violinistas, violonistas, flautistas, percussionistas e cantores do coral. Manhã de samba, muitos clássicos, muito talento. Horas antes, o samba-enredo do qual o professor é um dos autores se classificou para a finalíssima da Mangueira. No próximo sábado, a Estação Primeira escolherá que composição levará à Sapucaí no Carnaval de 2017, com o enredo ''Só com ajuda do santo''. São três finalistas.

Guilherme integra a parceria do grande Tantinho da Mangueira, composta também por Deivid Domênico, Felipe Filósofo, André Braga e Jorge Fernando TR. ''Quem mandou duvidar'' é um desses sambas belíssimos que aparecem de tempos em tempos (para ouvir a gravação, valorizada pela interpretação de Joyce Cândido, basta clicar na imagem do alto). Uma palinha: ''Se cruzar meu caminho vai sambar/ Só quem pode com mandinga que carrega patuá''.

A Mangueira cantará o sincretismo e a tolerância numa época em que intolerantes, entre outras desgraças, empenham-se em intimidar e castigar o povo de santo das religiões afro-brasileiras.

A parada do pessoal do professor será dura. Um dos sambas finalistas tem entre os autores Nelson Sargento e Arlindo Cruz. Outro, Lequinho.

Ganhando ou perdendo, ''Quem mandou duvidar'' veio para ficar.

Que ninguém duvide.

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O bom debate de Crivella e Freixo na Band e o furor de Trump contra Hillary
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Mário Magalhães

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Na Band, nenhum candidato se expôs a nocaute – Gustavo Serebrenick/Brazil Photo Press/Folhapress

 

Para quem gosta de MMA, o debate entre os Marcelos Crivella (PRB) e Freixo (PSOL) foi decepcionante.

Mas quem está interessado em propostas e opiniões sobre o Rio assistiu na Band ao mais profícuo encontro entre candidatos de toda a campanha para prefeito.

O conhecimento de cada um sobre a cidade, objetividade versus platitudes, abobrinhas contra conceitos, compromissos assinalados em programa em contraste com programa genérico _tudo esteve mais ou menos claro na noite da sexta-feira.

Foi também um embate cerebral, em que os contendores seguiram à risca o planejado, sem se arriscar a ir à lona _noutras palavras, multiplicar a rejeição a pouco mais de três semanas das urnas do segundo turno.

Crivella cumpriu o papel previsível de quem lidera pesquisa: tocou a bola para o lado, esperando o tempo passar.

Hillary Clinton, na medida do possível, comportou-se da mesma maneira ontem no debate com Donald Trump. Não foi incisiva como poderia, pois está na frente da corrida presidencial.

Nos Estados Unidos, Trump surtou. Mas foi um surto, contradição em termos, de caso pensado. Disse que, se fosse presidente, a adversária estaria na cadeia. Para conquistar eleitores de centro, o ricaço ''republicano'' deveria pegar leve. Pegou pesado porque seu principal objetivo era galvanizar seu eleitorado de direita, abalado com a revelação de fita em que Trump pronuncia barbaridades sobre sua relação com as mulheres. Tão acossado ele esteve no fim de semana que sua meta foi enfatizar a ideia de que não renunciaria à candidatura. Seus fiéis vibraram, mas é pouco provável que Trump tenha amealhado muitos votos. Hillary tem hoje mais chances de se eleger. Ela não o atropelou na discussão sobre a gravação que beira _ou equivale_ a agressão sexual. Marqueteiros tarimbados apostam que os próximos anúncios da democrata na TV reproduzirão as falas ignóbeis do oponente da ex-secretária de Estado.

Freixo não atacou Crivella com o mesmo apetite com que jantou o peemedebista Pedro Paulo na TV Globo, às vésperas do primeiro turno. Foi atitude premeditada. Sem deixar de expor o que pensa, o postulante do PSOL não caiu na armadilha: depois de uma semana bombardeado com boatos, rumores e inverdades disseminados por apoiadores de Crivella _que condenou tais procedimentos_, muitos esperavam que agisse feito um líder estudantil _combativo, porém imaturo. Em vez disso, comportou-se com sobriedade. No lugar de um ''enfant terrible'', procurou passar a imagem de alguém confiável para administrar o município. Aos 49 anos, Freixo aparenta menos idade. Com 59, completados ontem, Crivella parece sessentão.

Freixo aposta na campanha televisiva do mata-mata. É menos conhecido do que Crivella. Antes, no horário eleitoral, o ex-ministro de Dilma Rousseff tinha seis segundos e meio para cada segundo de Freixo. A partir desta segunda-feira, quando a campanha volta ao ar, haverá igualdade de tempo.

Se a distância de Crivella permanecer grande, Freixo será obrigado a confrontar mais abertamente seu antagonista.

Para bom entendedor, Crivella se apressou em esclarecer o que aconteceu na Band: ele ameaça não comparecer ao debate do SBT marcado para a sexta-feira.

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