Blog do Mario Magalhaes

‘Os dias eram assim’: novela apanha, mas tem talento, beleza e dignidade
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Mário Magalhães

Reencontro de Renato e Alice bomba na web

Os personagens Renato e Alice se reencontram no comício da Candelária, em 1984 – Foto TV Globo

 

Há tempos não se via uma novela apanhar tanto como ''Os dias eram assim''. Apanha, da crítica e nas redes, mais que cachorro magro. No cartório, nem se chama novela. É uma supersérie, como a TV Globo batizou suas novelas mais curtas do fim de noite. Quanto mais apanha, maior fica o contraste entre a acidez das críticas e a qualidade do folhetim.

A novela escrita por Angela Chaves e Alessandra Poggi é achincalhada sobretudo pelos negacionistas dos crimes de lesa-humanidade de autoria da ditadura (1964-1985). É gente que nega ter havido tortura e extermínio. Parentes de quem sustenta ser ficção o genocídio de judeus na Segunda Guerra. Esse é o terreno da boçalidade, da ignorância e da má-fé. Deixo para lá.

Falo de arte e estética. Li e ouvi restrições às limitações de caracterização do tempo em que se passa a trama. Ora, ''Os dias eram assim'' não é um documentário, e sim ficção. O enredo não se concentra nas sombras daquele período, mas na paixão entre dois jovens. As circunstâncias da ditadura interferem na vida de Alice e Renato, porém são eles os protagonistas, e não o mundo em que vivem. À ficção recomenda-se (às vezes) verossimilhança, não exatidão. Acompanhamos uma história de amor fruto da criatividade das autoras. É isso que elas se propõem a contar. Não pretendem autopsiar a história.

Reclamam de alegados personagens caricaturais. O mais nítido seria o empresário vivido por Antonio Calloni. Ele financiava o aparato repressivo e presenciava sessões de tortura. Pois saibam os que não sabem que havia empresários que não apenas testemunhavam sessões de tortura como sentiam prazer físico e existencial com o suplício dos opositores da ditadura. Gozavam com a dor alheia.

Incomodou a ouvidos atentos ouvir música da Legião Urbana no comecinho dos anos 1970, quando a banda não existia. Ontem, ''Tempo perdido'' tabelou com os acontecimentos de abril de 1984, o mês dos gigantescos comícios pró-eleições diretas para presidente. A canção foi lançada em LP de 1986. A mim, não incomodou. Renato Russo é clássico. Liberdades poéticas e históricas são próprias da ficção. Curiosidade: Renato e a Legião participaram de show pró-diretas. É o de menos. Trilha sonora pode ou não guiar-se, em ficção, pela época que a história narra. Na não ficção, a minha praia, é outra conversa.

O que incomoda é o formato em que, mal principia, o capítulo termina. Já não basta o horário em que vai ao ar, adequado a quem não tem de acordar cedo. Costumam ser dois bloquinhos. Parece namoro interrompido ainda nas preliminares.

O que não impede grandes momentos. A seleção de elenco foi feliz. Dos novatos aos veteranos, o padrão é alto. Cassia Kiss se reafirma como uma das maiores atrizes brasileiras. Ela é a mãe que conspira contra a relação amorosa de um filho para, em troca, salvar a vida de outro rebento. Nos papéis principais, Renato Góes e Sophie Charlotte deram liga (ele, 30 anos, e Chay Suede, 24, que está em cartaz na novela ''Novo Mundo'', são dois dos destaques da nova geração televisiva).

Comparar ''Os dias eram assim'' com ''Anos rebeldes'', mais do que impróprio, beira a maldade. É como querer comparar o Vinicius Junior ao Zico. A série de 1992 foi a melhor que a Globo produziu. Era uma série de fato, com longos capítulos/episódios. Uma obra-prima da dramaturgia da TV.

Comentam que a novela de 2017 não estaria dando a audiência esperada. Será? Nesse caso, pior para a audiência. Quando se encerra um capítulo, dá vontade de ver o próximo. ''Os dias eram assim'' tem dignidade (não transforma verdugos em mocinhos), talento (inclusive da direção) e beleza (nunca é fácil falar de amor).

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A vertigem das surpresas hipócritas
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Mário Magalhães

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Michel Temer, prócer do PMDB – Foto Alan Marques/Folhapress

 

Depois do que Romero Jucá falou sobre ''estancar essa sangria'', ainda há quem se diga surpreendido por resultado de julgamento em tribunal.

Pelas tramoias de Michel Temer e seus correligionários.

Pelos feitos de Aécio Neves, ''o primeiro a ser comido''.

Pela ficha criminal de Sérgio Cabral, um dos donos do poder mais bajulados pelo jornalismo brasileiro no século 21.

Pelo desastre multiplicado por seu sucessor, Luiz Fernando Pezão, que os áulicos celebravam como ''o verdadeiro gestor'' do Estado do Rio de Janeiro.

Depois de tudo o que se soube das armações de Antonio Palocci no Ministério da Fazenda, alguns afetam surpresa com a conta suíça não declarada de Guido Mantega ou sua presença na delação de Joesley Batista.

No romance ''A mancha humana'', Philip Roth se refere à ''vertigem da indignação hipócrita'' como talvez a mais antiga paixão dos Estados Unidos (essa é a formulação da tradução francesa para o original ''the ecstasy of sanctimony''). O escritor falava do escândalo da fellatio na Casa Branca dos tempos de Bill Clinton e Monica Lewinski.

A vertigem da indignação hipócrita também habita o Brasil.

Mas dificilmente será maior do que a vertigem das surpresas hipócritas, fingidas, encenadas.

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Vinicius Junior é punido duas vezes; Guerrero vira mais um bode expiatório
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Mário Magalhães

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O rubro-negro Vinicius Junior, marcado no Fla-Flu – Foto UOL

 

O 2 a 2 no Fla-Flu só não foi mais frustrante para o Flamengo porque a igualdade foi alcançada quatro, cinco minutos depois dos 45 do segundo tempo.

Nenhum rubro-negro pode ficar satisfeito com o empate contra um time cujo elenco é muitíssimo mais barato do que o seu.

Não ficarei surpreso se a folha de pagamento do banco de reservas do Flamengo ontem for maior do que a de todos os titulares tricolores.

Com tanto investimento, até agora o ano foi pífio, com o revés supremo na Libertadores.

A ressaca da eliminação em Buenos Aires foi curada na vitória contra a Ponte Preta, 2 a 0 na na quarta-feira. Não serve mais como justificativa.

A maior deficiência da equipe é, já no meio do ano, não se apresentar arrumada. Costuma ser caótica. O maior problema é o arranjo coletivo. O que não ofusca os enganos individuais.

Zé Ricardo puniu ontem Vinicius Junior duas vezes. Primeiro, ao escalá-lo no lado do ataque, a direita, onde ele rende ou tem rendido menos. Vinicius tem 16 anos. Com todas as dificuldades naturais da idade, seu desafio aumenta, se ele é privado de atuar pela esquerda. A razão é priorizar Everton no setor onde vai melhor. Por que, então, Vinicius começa jogando?

Sim, ele pode ser bom também pela direita. Na semana passada, por ali, deu um passe para gol. No Maracanã, foi mal. Depois de obrigá-lo a ficar onde se sente menos à vontade, Zé Ricardo puniu-o pela segunda vez, retirando-o no intervalo. E já tem gente dizendo que Vinicius Junior não é tudo isso. A queimação começou.

Vinicius é destro. Há destros que jogam melhor pela direita ou pela esquerda. O destro Garrincha era extrema-direita. Mas o destro Muller, protagonista da próxima biografia de Anderson Olivieri, tornou-se mais perigoso quando Telê o transferiu para a esquerda. O destro Ribéry fica na esquerda. O canhoto Robben, na direita.

Cada um na sua, e a do Vinicius Junior é a esquerda. Outro castigo para o garoto foi ter jogado o tempo em que Márcio Araújo esteve em campo _o volante era quem avançava, com Cuéllar mais atrás! Com a entrada de Willian Arão para fazer dobradinha com o colombiano, a armação melhorou, mas aí Vinicius já tinha saído.

O adolescente preocupa os adversários. Abel contou depois da partida que perguntara a Mascarenhas, dois anos mais velho que o rubro-negro negociado com o Real Madrid, se já o tinha marcado. O tricolor disse que sim, e Abel desconfiou. Como, se Mascarenhas é lateral-esquerdo e, na base, Vinicius era ponta-esquerda? Aconteceu num jogo na Gávea, com Vinicius deslocado, e chocolate do Flamengo. ''Fodeu'', pensou Abel, que comentou: ''Esse garoto [Vinicius] é um diabinho''.

Pela direita, no entanto, assusta menos. Tem sido assim entre os profissionais.

Berrío entrou bem, mas continua com limitação crônica para acertar um cruzamento. Quando podia passar para Guerrero, sozinho, preferiu finalizar, e a defesa interceptou.

Dá dó a pobreza de criação no meio-campo do Flamengo. Sem opções, a fórmula é entregar a bola para Diego, luz na escuridão. Os oponentes sabem, concentram a marcação nele. Com a miséria criativa, a bola não chega redonda a Guerrero. O centroavante ontem a recebia de costas para o gol, com alguém fungando em seu cangote. Faz parte, é habitual, mas não pode ser só isso. Quando se desmarcou, Berrío não lhe passou. Guerrero tem de ser cobrado quando desperdiça gols. Se a bola não chega em condições favoráveis, colocar a culpa nele é criar mais um bode expiatório.

Não entendi por que Damião não entrou no segundo tempo. Ele pode não ser o atacante dos sonhos, mas foi bem no lugar de Guerrero na ausência recente deste. No desespero, podem jogar juntos. Emite-se uma mensagem ruim: você pode se superar, mas isso não valerá muita coisa, nem alguns minutos no Fla-Flu.

Os trintões Juan e Réver, a essa altura do campeonato, carecem da velocidade recomendável para marcar jovens rápidos como os do Fluminense. Querer comparar o Juan quase quarentão com o de anos atrás é descabido. Um dos dois zagueiros tem de ser veloz.

No segundo tempo, a equipe cresceu, sem Márcio Araújo. Será que ele permanecerá titular, diante da Chapecoense?

A despeito do futebol limitado que tem visto, a torcida gritou muito no Maracanã. O time honrou-a, lutando até o fim.

Luta é indispensável, mas não basta. O Flamengo precisa melhorar, para manter o sonho do título.

Dos próximos oito jogos, seis serão no Rio. Torcida não faltará.

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Uma noite para acabar com a ressaca do Flamengo
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Mário Magalhães

Elenco do Flamengo treina no Estádio Ilha do Urubu, nome escolhido pela torcida à arena

Jogadores treinam na Ilha do Urubu – Foto Gilvan de Souza/Flamengo

 

Quando o porre é grande, a ressaca não fica por menos. Pior que porre de bebida vagabunda é porre de frustração no futebol. Idem a ressaca. Se o porre for mais uma queda vexatória na Libertadores, o estrago será (foi) ainda maior.

Hoje a eliminação do Flamengo na Libertadores completa 29 dias. Faz quase um mês que o time parece tonto como pinguço perdido depois da bebedeira. E nada de a ressaca passar.

A partir das nove da noite, o rubro-negro inaugura, contra a Ponte Preta, a Ilha do Urubu. É a nova casa. Está na hora de superar a ressaca.

A equipe campineira acumula três pontos mais do que a carioca no Campeonato Brasileiro. Mas o anfitrião tem potencialmente mais time, apesar de enganos como uma série de contratações frustradas para a zaga. Basta comparar os orçamentos. Sim, futebol não é confronto de dinheiro. Seria constrangedora, contudo, mais uma derrota para elenco muito mais barato.

É preciso evitar erros como tantos na desgraça diante do San Lorenzo.

Tomara que logo mais o Vinicius Junior seja mantido como titular. De preferência fincado em um dos lados do campo, sem a ida e volta para a esquerda e a direita que dificulta a adaptação do garoto de 16 anos.

E que não se reedite a dupla Márcio Araújo-Willian Arão _ao menos um tem de sair. Não basta a bola chegar ao Diego. Tem de chegar redonda, e não quadrada. É imprescindível forjar alternativas ao melhor do time. Sozinho na armação, o Diego se torna presa mais fácil dos marcadores. É necessário reforçar a criatividade no meio-campo, e não reprimi-la.

Mais do que tudo, os jogadores têm de entender que a Libertadores já é história. Triste, mas é. Cabe sobretudo ao Zé Ricardo convencê-los disso.

Apoio da torcida não faltará. O desafio do time é estar à altura da paixão e da fidelidade dos torcedores.

E se não der? Será sinal de que a ressaca do porre na noite portenha não passou. Recomenda-se, nessa hipótese funesta, encher a cara de novo. Até vomitar.

Isto é, colocar tudo para fora. No caso do Flamengo, os principais responsáveis pela campanha bisonha no Brasileiro.

Desconfio, porém, que os goles serão para comemorar a vitória rubro-negra.

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Covardia a bordo (ataques contra Míriam Leitão e leitor de ‘Carta Capital’)
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Mário Magalhães

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A jornalista Míriam Leitão, lançando livro em fevereiro – Foto Bruno Poletti/Folhapress

 

Em maio de 2015, o comerciante Elbio de Freitas Flores foi hostilizado durante um voo de Porto Alegre para Brasília.

Antipetistas fanáticos tentaram intimidá-lo porque estava lendo a revista ''Carta Capital''.

“Eles se mostraram muito covardes e tentaram me intimidar com gritos e impedir que eu falasse'', disse Freitas Flores.

Não o intimidaram, como documenta vídeo que pode ser assistido clicando aqui.

No fim de semana retrasado, a jornalista Míriam Leitão foi hostilizada durante um voo de Brasília para o Rio.

Petistas fanáticos tentaram intimidá-la devido à atividade jornalística dela.

''Fui ameaçada, tive meu nome achincalhado e fui acusada de ter defendido posições que não defendo'', disse Míriam Leitão.

Não a intimidaram, como documenta seu testemunho, que pode ser lido clicando aqui.

O comerciante foi atacado pela turba intolerante porque exercia seu direito constitucional e democrático de acesso à informação.

A jornalista foi atacada pela turba intolerante porque exerce seus direitos constitucionais e democráticos de difusão de informações e expressão de opinião.

Os covardes _estavam em ampla maioria_ são fanáticos. Nem todo antipetista é fanático. Nem todo petista é fanático.

A atitude corajosa e digna de Míriam Leitão e Freitas Flores deveria inspirar mais brasileiros contra a intolerância e a covardia.

Venham de onde vierem, pois a face do ódio é a mesma, sinistra.

P.S.: a assessoria de imprensa do PT enviou ao blog uma nota sobre o episódio no voo de Míriam Leitão. Assinada pela senadora Gleisi Hoffmann, a nota pode ser lida clicando aqui.

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‘Ame-o ou deixe-o’: Que tipo de torcida quer o presidente do Flamengo?
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Mário Magalhães

Bandeira de Mello não escondeu o abatimento com a eliminação na Libertadores

Eduardo Bandeira de Mello, presidente do Flamengo – Foto Pedro Ivo Almeida/UOL

 

Depois da disputa de 18 pontos no Campeonato Brasileiro, o Corinthians lidera com 16. Seguem-no Coritiba, com 13, e Grêmio, com 12 e um jogo a menos.

Numa campanha até agora bisonha, o Flamengo amarga a 15ª posição, com humilhantes 7 pontos, somente 2 acima do corte para o rebaixamento.

O presidente do clube, no entanto, relativizou o fiasco: ''Todos os times considerados favoritos estão perto do Flamengo, uns pontos à frente'', disse Eduardo Bandeira de Mello depois do empate dominical com o Avaí.

É óbvio como a má fase do Muralha que com seis rodadas seria impossível o líder deixar o lanterninha dezenas de pontos atrás. Até o mais inepto aluno de matemática sabe disso. Mas o Corinthians acumulou mais do que o dobro do rubro-negro.

Bandeira de Mello não julgava o Corinthians, ou o Grêmio, um dos favoritos ao título?

É estranho que um dirigente do Flamengo pareça achar natural um dos elencos mais caros da competição ter vencido uma única partida em seis. Pode ser natural noutra freguesia, não no Flamengo.

Nenhum clube carioca investiu tanto na montagem do time. Porém, o Flamengo é superado por Fluminense, Vasco e Botafogo. Por enquanto.

Para nada serve ponderar que o Atlético-MG, um dos favoritos, está pior. O Flamengo não se consola com reveses alheios. É um gigante, que se preocupa muito mais consigo do que com os outros.

Em vez de deixar claro à equipe que no Flamengo o sarrafo fica lá no alto, o desafio é muito maior, Bandeira de Mello tem preferido encrencar com torcedores e jornalistas.

Primeiro, mencionou ''falsos rubro-negros''. São os críticos. Quem definiria os ''verdadeiros'' e os ''falsos''? Bandeira de Mello? Com que autoridade?

Mais tarde, ele emendou: ''Posso ter me expressado mal quando usei a expressão 'falsos rubro-negros'. Houve quem interpretasse de forma que eu estivesse criticando a todos que estavam me criticando ou criticando o time. Quando eu disse falsos rubro-negros me referi a pessoas que comemoram quando a gente perde e lamenta quando a gente ganha. São pessoas que têm interesses pessoais acima da paixão pelo clube. Estou falando de um número muito pequeno de pessoas, não estava falando dos torcedores do Flamengo indignados''.

Ontem o presidente veio com a conversa de ''verdadeiros dirigentes''. Existem falsos? Alguém se apresenta como ''verdadeiro dirigente'' sem mandato para isso? Tudo porque se contrariou com comentários sobre a continuidade ou não do Zé Ricardo. ''Acho que tem gente que se imagina no lugar do dirigente do Flamengo e inventa o que teria feito se estivesse na reunião'', afirmou Bandeira de Mello. ''Prefiro que vocês acreditem nos verdadeiros dirigentes do Flamengo em vez de ir atrás de especulação de gente que tem até outro tipo de interesse''.

Qual é o outro interesse? Quem são esses traíras?

As declarações tempestuosas indicam que o presidente tem limitações para entender que isso aqui é Flamengo. Quem não quer torcida crítica, inteligente, apaixonada e generosa, com legitimidade para cobrar, deve dirigir clubinho, não o Clube de Regatas do Flamengo.

Essas manifestações de intolerância contradizem a tradição democrática rubro-negra. Nossa capacidade de convivência pelo amor comum ao clube, a despeito de eventuais ideias diferentes sobre outras coisas. Mais do que direito, é dever dos rubro-negros exigir bom desempenho. No mínimo, raça. E indignação diante de vexames em série. É graças à torcida, alma do clube, que o Flamengo é o que é.

O presidente não pode desqualificar quem se incomoda com o time caótico. Lembra a ditadura, que avacalhava os oposicionistas, denunciando-os por supostamente não gostar do Brasil. Os militares lançaram o slogan cretino ''Ame-o ou deixe-o'' _só seria ''bom brasileiro'', sugeria o governo, quem apoiasse os generais-presidentes.

A ditadura também não aceitava jornalistas que pensam com a própria cabeça. Gostava dos bajuladores.

Podemos concordar ou discordar sobre a permanência do Zé Ricardo; o Muralha titular até a semana passada; o Márcio Araújo e o William Arão; os experimentos sádicos com o Mancuello, que num dia vai para a ponta-direita, noutro é segundo homem do meio-campo; sobre, na Ressacada, tirar o Vinicius Junior e colocar o Vizeu, piorando o ataque. E muito mais.

A questão é mais profunda: divergir é do jogo. Nenhum cartola tem prerrogativa para amaldiçoar torcedor que cumpre o seu dever e exerce o seu direito.

Eduardo Bandeira de Mello faz um trabalho elogiável na administração e nas finanças do clube.

Graças aos progressos notáveis nesses departamentos foi possível investir mais no futebol.

Se não fosse o tamanho e a devoção da torcida do Flamengo, os avanços não seriam possíveis. Quanto valeriam os patrocínios e os contratos de TV se a torcida não constituísse uma nação imensa?

O time pode _e vai dar_ a volta por cima no Campeonato Brasileiro.

Porque, de um jeito ou de outro, a torcida o empurrará.

Nos estádios e, quem não tem dinheiro para o ingresso caro, nos aeroportos.

E pressionando para mudar _o Muralha teria sido barrado se não fossem os torcedores?

Se depender da minha torcida, quero ver no fim do ano o Zé Ricardo campeão, atirado para o alto pelos jogadores.

Mas, se não houver logo melhora, o mais indicado será o afastamento do bom e promissor técnico.

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Janio de Freitas, gigante do jornalismo, faz 85 anos
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Mário Magalhães

Janio de Freitas, em 2012, no programa ''Roda Viva'' – Foto reprodução

 

O verbete ''Janio de Freitas'' abre assim, na enciclopédia Ela é carioca (Companhia das Letras), do jornalista Ruy Castro: ''Os que só conheceram Janio de Freitas de 1983 para cá, como colunista político da Folha de S. Paulo, não imaginam que, antes de tornar-se jornalista, em 1953, ele se formou em aviação civil, pilotou um DC-3, estudou jiu-jítsu e participou de um conjunto vocal, Os Modernistas, liderado por, ora veja, João Donato''.

Paulo Francis (1930-1997), um dos jornalistas brasileiros de maior projeção na segunda metade do século 20, assinalou: Janio é um ''dos dois maiores jornalistas da minha geração'' (ao lado de Cláudio Abramo). O depoimento consta de uma coletânea de artigos e crônicas de Francis, A segunda mais antiga profissão do mundo (Três Estrelas). Neste livro, organizado por Nelson de Sá, encontra-se outra observação de Francis, que não era dado a mesuras: ''Janio é um grande jornalista, decisivo como editor da minha geração. Logo, que ele esteja de volta à crista da onda, depois de uma ausência por excessivas preocupações morais, só surpreende quem não o conhece''.

O artigo saiu na Folha em novembro de 1983. Janio de Freitas atravessara a década de 1970 distante do jornalismo, ambiente então sufocado pela ditadura e seus amigos _nem ela nem eles gostavam de Janio. Daí as ''excessivas preocupações morais'' evocadas por Paulo Francis. Melhor excessivas que ausentes, eu emendo.

Nos idos de junho daquele 1983, quando ainda não caducara a expressão ''na crista da onda'', Janio veiculara uma revelação bombástica em sua recém-criada coluna no mesmo jornal em que Francis trabalhava: agravara-se a cardiopatia do general João Baptista Figueiredo, derradeiro presidente da ditadura; os médicos cogitavam nova cirurgia. Autoridades espezinharam Janio, classificaram-no como terrorista, e jornalistas desinformados ou submissos bancaram que a informação era falsa. Menos de um mês depois, o governante que preferia ''cheiro de cavalo ao cheiro de povo'' foi operado em Cleveland.

Janio foi introduzido à minha geração como o autor de furos antológicos como o do coração baqueado de Figueiredo. Um dos mais retumbantes foi a descoberta de cartas marcadas na concorrência para uma obra de custo bilionário, a ferrovia Norte-Sul. O repórter colunista não só descobriu a falcatrua, como a antecipou com um procedimento engenhoso. Publicou o resultado em código, na seção de classificados da Folha, antes do anúncio pelo governo. Desmascarado o conluio, anularam a licitação. Corriam o ano de 1987 e o governo José Sarney, a dita Nova República.

Naquela quadra histórica, Janio implodiu acertos semelhantes na administração estadual do Rio de Janeiro, governado por Wellington Moreira Franco. Nunca um jornalista incomodara tanto os negócios marotos das empreiteiras. Além das novidades factuais, ele oferecia análise densa, em contraste com o estilo simplório e vulgarizado por clichês que principiava a se expandir entre comentaristas políticos. A prosa classuda era característica inconfundível. Era, não. É, como evidencia uma reportagem que Janio escreveu outro dia, em inabitual concessão à primeira pessoa, nos 30 anos do furo da Norte-Sul (para ler, basta clicar aqui).

O que a minha geração de jornalistas desconhecia, ou a parcela dela apresentada a Janio de Freitas nos anos 1980, é que ele influenciara decisivamente o jornalismo brasileiro nas décadas de 1950 e 1960. O jovem que já era repórter quando Getulio Vargas disparou contra o próprio peito, em 1954, seria cinco anos mais tarde o condutor da reforma ou revolução do Jornal do Brasil. Depois de impulsionar em 1959 o JB à liderança do acirrado mercado carioca, onde dezenas de diários concorriam nas bancas, Janio dirigiu a reforma do Correio da Manhã, em 1963. Foi a vez de a circulação do Correio passar à frente. Em 1967, tocaria a reforma da Última Hora do Rio. Consagrara-se como, nos termos de antigo jargão profissional, grande ''cozinheiro de jornal''. Noutras palavras, um exímio editor.

A reforma-revolução do Jornal do Brasil foi uma das mais importantes da imprensa nacional _a mais importante, no juízo de muita gente que sabe das coisas. A primeira página era ocupada na maior parte por classificados de empregos para datilógrafas, alfaiates, auxiliares de escritório, encanadores (no século seguinte, as primeiras se reinventariam como digitadoras; os segundos tentam escapar da extinção). De um dia para o outro, sem eliminar os anúncios que ajudavam a pagar as contas do matutino, o insípido JB, fundado em 1891, renasceu. Em data cravada, 2 de junho de 1959, às vésperas dos 27 anos de idade do ocupante do posto hoje denominado diretor de redação ou editor-chefe _Janio de Freitas.

''Basta comparar a edição dessa terça-feira com a que havia circulado no domingo, 31 de maio'', rememorou o jornalista Plínio Fraga (Folha, 8 de março de 2016). ''Parecem jornais produzidos em séculos diferentes, colocando o JB à frente de seu tempo.''

Nublado pela politicagem, pelo ressentimento e pela inveja que maltratam o jornalismo, o porvir assistiria a alguns contemporâneos da façanha no Jornal do Brasil relativizarem a condição protagonista de Janio. Volta e meia leio que o líder da equipe de reformadores teria sido o ótimo jornalista Odylo Costa, filho (1914-1979). Basta uma breve consulta às hemerotecas para se certificar que, meses antes da virada do JB, Odylo já se transferira para a Tribuna da Imprensa, o combativo vespertino de Carlos Lacerda (1914-1977).

''O autor da reforma não foi Odylo Costa Filho, e sim Janio de Freitas, nos cadernos principais'', testemunhou Paulo Francis. Ruy Castro endossou: ''A imprensa brasileira lhe deve [a Janio] a reforma do Jornal do Brasil, em 1959. […] Não foi somente uma reforma gráfica, como se costuma ensinar hoje nas escolas de 'comunicação'. Foi uma profunda reforma editorial, que só poderia ter sido feita por um jornalista. Por desinformação ou má-fé, a paternidade dessa reforma é atribuída a outros''.

O que impressiona mais em Janio não é ele ter deixado sua marca no jornalismo já aos 26 anos. Nem suas reminiscências saborosas e cabeludas das passagens pelo Diário Carioca e pelas revistas Manchete e O Cruzeiro. Ou das capas de disco que desenhou, como em dois de Nara Leão (leia aqui as lembranças de Janio sobre a cantora). Ou de suas venturas e desventuras no combate à ditadura parida em 1964.

Mais assombrosa é sua capacidade de manter a guarda alta depois de tantas pelejas jornalísticas. Num tempo em que jornalistas se juntam para manifestar a mesma opinião, desprezando o pluralismo de ideias e se empenhando em convencer pelo cansaço, Janio não teme escrever o que lhe vai na cachola. Sem se importar em ser igual, diferente, se vai agradar a esse ou contrariar aquele. Simplesmente disposto a exercer com dignidade o ofício apaixonante que abraçou 64 anos atrás. A difusão de informações pela internet renovou seu público. Muitíssimos jovens, fiéis leitores seus, concordando ou discordando dele, jamais o haviam lido no papel. Descobrem agora a pena que permanece afiada.

Minha bronca com Janio: ele deve à história do jornalismo e do Brasil um livro de memórias. Tomara que, na moita, já o esteja preparando.

Neste 9 de junho de 2017, Janio de Freitas, gigante do jornalismo, faz aniversário de 85 anos.

Tim-tim.

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Em 1968, ‘às favas todos os escrúpulos’; em 2017, ‘modéstia às favas’
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Mário Magalhães

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O ministro Gilmar Mendes: ''Modéstia às favas'' – Foto Alan Marques/Folhapress

 

Na sessão liberticida do Conselho de Segurança Nacional que chancelou o Ato Institucional número 5, em 13 de dezembro de 1968, o coronel Jarbas Passarinho proclamou:

''Às favas, senhor presidente, neste momento, todos os escrúpulos de consciência!''

Alguns maldosos comentaram, com discrição, que desconheciam no ministro do Trabalho escrúpulos de consciência democrática para mandar às favas.

Em julgamento no Tribunal Superior Eleitoral, no dia 7 de junho de 2017, Gilmar Mendes exclamou:

''Essa ação só existe graças ao meu empenho, modéstia às favas!''

Os maledicentes de plantão indagaram: modéstia no ministro Gilmar Mendes?

Tudo é história.

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Para entender o noticiário do dia: ‘Com o Supremo, com tudo’
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Mário Magalhães

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O noticiário do dia está vinculado, é evidente, à conspiração que levou Michel Temer à Presidência.

A tramoia destinou-se, entre outros propósitos, a assegurar impunidade.

Sérgio Machado enunciou o caminho: ''A solução mais fácil era botar o Michel''.

Acrescentou: ''É um acordo, botar o Michel, num grande acordo nacional''.

Romero Jucá sentenciou: ''Com o Supremo, com tudo''.

É isso aí: com tudo.

Ressoa a Lei Jucá, para ''estancar essa sangria''.

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Zé Ricardo não pode ser tratado como inimputável
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Mário Magalhães

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Não basta ter bom elenco; é preciso saber usá-lo – Foto Rubens Cavallari/Folhapress

 

O Flamengo teve mérito ao apostar em sangue novo como técnico.

Zé Ricardo arrumou o time no Campeonato Brasileiro do ano passado e conquistou o título estadual invicto em 2017.

Mas a eliminação na Libertadores não constituiu um revés qualquer, e sim um tremendo vexame.

Com um dos elencos mais caros do continente, o rubro-negro foi superado por três clubes de orçamento mais baixo.

No Campeonato Brasileiro, o fiasco continua.

Esperava-se que ontem, contra o Sport, a equipe reagisse. Não reagiu, e levou 2 a 0.

A ideia é jogar com a bola no pé. Fica difícil, mantendo jogador com dificuldade para passar. Às vezes, Márcio Araújo compensa com luta as limitações técnicas. Na atual fase, não há combatividade que compense passe errado até para companheiro livre, a poucos metros de distância. Toque para o lado, em demasia, é embromação.

Com gramado ruim, os jogadores escorregaram o tempo inteiro, sem trocar as chuteiras. Ninguém cuida disso?

Perseverança é virtude. Teimosia, não. Por que escalar Muralha, bom goleiro, contudo em mau momento? Deu no que deu.

A entrada de Vinicius Junior pela esquerda tem dado certo. No Recife, ele criava problema para a marcação. Por que transferir o garoto para a direita do ataque?

Apostar em Zé Ricardo foi mesmo certo.

Porém, é estranho que ele seja tratado como inimputável, o técnico que não pode ter o trabalho julgado.

Novato ou experiente, ele é o treinador do Flamengo.

O sarrafo fica lá em cima. O técnico deve ser cobrado.

O que se tem visto é um bando, uma bagunça.

Ah, estão chegando novos jogadores.

Não basta bom elenco. É preciso saber o que fazer com ele.

Se o desempenho não melhorar logo, será hora de um novo treinador.

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