Blog do Mario Magalhaes

Pedido a São Judas Tadeu: não permitais que o Cuéllar volte para o banco
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Mário Magalhães

O padroeiro do Clube de Regatas do Flamengo – Reprodução BandSports

 

Sim, hoje é dia de São Pedro.

Mas o pedido é para São Judas Tadeu, em sua condição de padroeiro do Clube de Regatas do Flamengo.

Misericórdia, não permitais que o Cuéllar volte para o banco. Ainda mais depois do golaço de ontem na vitória de 2 a 0 sobre o Santos.

Consoleis os aflitos, que se desesperam com a habitual injustiça do castigo da reserva como retribuição às boas atuações do colombiano.

Amém.

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Temer radicaliza e encarna personagem da piada do afogado no rio Guaíba
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Mário Magalhães

 

Michel Temer acaba de se pronunciar sobre a denúncia da Procuradoria-Geral da República, que o acusa do crime de corrupção passiva.

A despeito da voz rouca, tentou falar grosso, radicalizou.

Condenou o ''ataque injurioso, indigno, infamante à minha [dele] dignidade pessoal''.

Buscou ridicularizar Joesley Batista, o empresário recebido pelo presidente na calada da noite no Jaburu. ''Senhor grampeador'', cercado de ''capangas'', assim seria o sócio do conglomerado J&F. Até um boné usado por Joesley, seu antigo amigo, Temer ironizou.

No momento mais patético da declaração, Temer resumiu uma era: ''Não sei como Deus me colocou aqui''.

Ele sabe que não foi Deus, muito pelo contrário.

Temer lembra uma piada em que o personagem é gaúcho, mas poderia ter nascido em qualquer lugar.

O personagem, metido a valente, caiu do barco no rio Guaíba e começou a se afogar.

Não sabia nadar, e ninguém o viu se debatendo na água.

Antes do derradeiro suspiro, o valente de meia-tigela ameaçou: ''Te cuida, Guaíba, senão te bebo todo!''

Michel Temer acabou como personagem de anedota na grande tragédia brasileira.

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Sócio da Friboi, Joesley se gaba por comer menos comida industrializada
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Mário Magalhães

O empresário Joesley Batista

Joesley Batista encena cara angelical, mas não convence – Foto Danilo Verpa/Folhapress

 

Já era conhecida, na conversa mafiosa entre Michel Temer e Joesley Batista, a passagem sobre a dieta do empresário.

Mas ao ler hoje o trecho transcrito voltei a rir. As patifarias no Brasil às vezes são mais Molière do que Shakespeare _ou mais Dercy Gonçalves, como disse um médico chamado Mauricio.

Eis o diálogo, iniciado por Temer, nos termos do laudo do Instituto Nacional de Criminalística:

''Mas você tá bem de corpo, não é Joesley?''

''Tô bem. Deixa eu pegar (ininteligível)''.

Joesley conta que faz reeducação alimentar:

''Emagreci, tô bem''.

''Você emagreceu'', adula Temer.

''Emagreci.''

''Preciso fazer isso'', diz o marido de Marcela.

''É, eu … eu tô me alimentando bem'', prossegue o marido de Ticiana. ''Comendo mais saudável. Mas não é comendo pouco não. Tô comendo bastante. Mas coisa mais saudável''.

Temer: ''Entendi''.

Joesley: ''Menos, menos doce. Menos industrializado''.

O grotesco não é Joesley reduzir o consumo de comida industrializada. Ele é um dos donos das indústrias que produzem alimentos com as marcas Friboi, Vigor, Itambé, Leco, Seara, Faixa Azul, Maturatta.

Assim como fabricante de algemas não é obrigado a ser praticante de sexo sadomasô.

O risível é Joesley Batista se gabar por se sentir melhor ao evitar produtos que ele e seus sócios tentam vender para cada vez mais gente.

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Na solidão do Jaburu, Michel Temer sorri com Lula disparado no Datafolha
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Mário Magalhães

Dois dos oito cenários de 1º turno publicados hoje na ''Folha''

 

Pena que o Datafolha não tenha incluído o nome de Michel Temer (nem o de Aécio Neves) em nenhum dos oito cenários de primeiro turno das eleições presidenciais previstas para 2018. Até poucos meses atrás havia analista que o identificava com boas perspectivas nas urnas _sim, perdoem, eu me lembro.

O instituto constatou que a aprovação ao governo do missivista é de ridículos 7%. Se consultasse os entrevistados sobre a disputa eleitoral, talvez descobrisse que a intenção de voto nele não alcança nem 3% ou 4%, se tanto. Fica para a próxima.

Luiz Inácio Lula da Silva disparado em todas as simulações em que aparece reflete também a rejeição a Temer.

É curioso que, com a ampla aprovação popular à Lava Jato, o petista (42%) empate tecnicamente com o juiz Sergio Moro (44%) em eventual segundo turno.

Por mais nonsense que possa parecer, a pujança de Lula é bem vista por Temer. O maior receio daqueles que o sustentam é o retorno do ex-presidente ao Planalto _desafio complicado devido à rejeição expressiva que Lula acumula e por causa da provável inelegibilidade decorrente de decisões judiciais.

Na escuridão governamental e existencial de Temer, ele conta com o medo de Lula para se manter na cadeira onde não deveria nem ter se sentado.

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O fôlego do Rio
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Mário Magalhães

Rua do Catete fica alagada em noite de chuva forte na cidade do Rio de Janeiro

A rua do Catete, anteontem à noite, transformada em rio – Foto Divulgação/Centro de Operações Rio

 

Choveu no Rio como em romance do García Márquez, mas ninguém, até onde se sabe, morreu por causa do temporal. Nosso santo é forte. Pena que tem tirado sonecas demais. O aguaceiro provocou o caos em muitos bairros. O prefeito disse que a cidade passou no teste. Quem caminhou com a água até o joelho, como eu na rua São Clemente, sabe que foi reprovada. Continua com bueiros entupidos, encostas inseguras. Pior, Marcelo Crivella secou o orçamento para prevenção de enchentes. Não tem verba suficiente para isso, no entanto, mimetizando administrações passadas, torra dinheiro público em propaganda no intervalo do Jornal Nacional. Mais grave, o serviço destinado a alertar os cariocas sobre a iminência da tempestade devastadora calou. Para não alarmar os cidadãos, alegou o secretário de Ordem Pública, antigo comandante do Bope, em raciocínio disparatado. Crivella prometeu governar para as pessoas. A promessa permanece como declaração de intenções. Em sua gestão, só o carro oficial que transporta o prefeito acelera. Em cinco dias de junho, colecionou sete multas por excesso de velocidade. Nesta semana, com Crivella a bordo, bateu no Ford Ka de um estudante de direito. O Fusion com o prefeito não parou para checar o estrago. Seu automóvel corre, e a cultura engata marcha a ré. O município não honra os editais de fomento às artes. Reduz a subvenção financeira às escolas de samba. As mesmas cujos dirigentes, em maioria esmagadora, abençoaram o senador na campanha eleitoral contra Marcelo Freixo. Os dirigentes que usam como bem entendem os reais bancados pelos contribuintes, sem controle público digno do nome. E que posam de surpreendidos com o gesto do prefeito, embora a igreja à qual (legitimamente) Crivella pertence proclame que no Carnaval ''os espíritos malignos se fortalecem''. Somos a terra da vertigem das surpresas hipócritas. Capital do Império, capital da República, cidade-Estado da Guanabara, capital do Estado do Rio de Janeiro. Para a memória alcançar perrengue semelhante ao de hoje, só consultando os alfarrábios. O Elio Gaspari, rato de biblioteca (há pouco doou a dele para uma instituição pública), cravou uma data-referência: ''É possível que o Rio não tenha vivido um período de tão baixo astral desde 1711, quando a cidade foi saqueada e sequestrada pelo corsário francês Duguay Troin''. A história é maltratada: o Arquivo Público ficou sem funcionar por falta de energia _o Estado não pagara a conta de luz. O abandono da Uerj parece perseguição sádica. Como o Estado atrasa os salários, e nem o 13º de 2016 saiu, um primeiro-bailarino do Teatro Municipal virou motorista do Uber. Há servidor que nem essa alternativa tem. O Rio é o Estado que mais perde empregos na economia privada. Em Brasília, querem retardar o saque do FGTS dos demitidos em todo o país. O governador avisou que não sabe se fica até o fim do mandato. O presidente da Assembleia Legislativa pediu sua cabeça. Só agora Picciani descobriu que Pezão, seu correligionário, não nasceu para tocar um Estado do tamanho do nosso. O Pezão tão bajulado por certo jornalismo que o promovia como ''o verdadeiro gestor'' do que seria o excepcional _assim chaleiravam_ governo Cabral. Poderíamos apelar ao bispo. A ideia ocorreu antes a Sérgio Cabral: o presidiário recorreu ao arcebispo dom Orani como testemunha em processo judicial. Todo dia algum negócio fecha, empreendedores quebram, e mais trabalhadores amargam o olho da rua. No feriadão mais recente, a ocupação de leitos nos hotéis não chegou à metade. Donos de hotéis e albergues vão desistindo. O Nova Capela está pela bola sete. O velho restaurante da Lapa, contudo, também tem culpa. Juntou às garfadas no magnífico carneiro que serve _os incautos o tomam por cabrito_ as garfadas no bolso dos comensais. Seus preços dispararam, anos atrás. Evoca a Modern Sound, loja de música que marcou época em Copacabana. No final, só quem tinha dinheiro ou pose de sobra comprava lá, estabelecimento caríssimo. Estamos mais por baixo que o Cuéllar no Flamengo _o colombiano é bom, joga bem, mas não o escalam como titular. O colapso apresenta a conta em vidas. O projeto meia-bomba das UPPs se arruinou ao som de tiros. Que ferem, matam e castigam sobretudo os moradores dos lugares mais pobres. No sábado à noite, pertinho de casa, ouvi o tiroteio. No domingo, anunciaram a contabilidade _um morto, muito menos do que no cotidiano mais distante, no Alemão. Volta e meia pronunciam a expressão cretina ''balas perdidas'', a sagração da hipocrisia.

O Rio está mais sem fôlego do que ficou quem conseguiu ler o parágrafo acima. Não me lembro da cidade com tão pouco fôlego. Um dia ela o retomará. Talvez nunca tenha sido tão difícil.

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‘Os dias eram assim’: novela apanha, mas tem talento, beleza e dignidade
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Mário Magalhães

Reencontro de Renato e Alice bomba na web

Os personagens Renato e Alice se reencontram no comício da Candelária, em 1984 – Foto TV Globo

 

Há tempos não se via uma novela apanhar tanto como ''Os dias eram assim''. Apanha, da crítica e nas redes, mais que cachorro magro. No cartório, nem se chama novela. É uma supersérie, como a TV Globo batizou suas novelas mais curtas do fim de noite. Quanto mais apanha, maior fica o contraste entre a acidez das críticas e a qualidade do folhetim.

A novela escrita por Angela Chaves e Alessandra Poggi é achincalhada sobretudo pelos negacionistas dos crimes de lesa-humanidade de autoria da ditadura (1964-1985). É gente que nega ter havido tortura e extermínio. Parentes de quem sustenta ser ficção o genocídio de judeus na Segunda Guerra. Esse é o terreno da boçalidade, da ignorância e da má-fé. Deixo para lá.

Falo de arte e estética. Li e ouvi restrições às limitações de caracterização do tempo em que se passa a trama. Ora, ''Os dias eram assim'' não é um documentário, e sim ficção. O enredo não se concentra nas sombras daquele período, mas na paixão entre dois jovens. As circunstâncias da ditadura interferem na vida de Alice e Renato, porém são eles os protagonistas, e não o mundo em que vivem. À ficção recomenda-se (às vezes) verossimilhança, não exatidão. Acompanhamos uma história de amor fruto da criatividade das autoras. É isso que elas se propõem a contar. Não pretendem autopsiar a história.

Reclamam de alegados personagens caricaturais. O mais nítido seria o empresário vivido por Antonio Calloni. Ele financiava o aparato repressivo e presenciava sessões de tortura. Pois saibam os que não sabem que havia empresários que não apenas testemunhavam sessões de tortura como sentiam prazer físico e existencial com o suplício dos opositores da ditadura. Gozavam com a dor alheia.

Incomodou a ouvidos atentos ouvir música da Legião Urbana no comecinho dos anos 1970, quando a banda não existia. Ontem, ''Tempo perdido'' tabelou com os acontecimentos de abril de 1984, o mês dos gigantescos comícios pró-eleições diretas para presidente. A canção foi lançada em LP de 1986. A mim, não incomodou. Renato Russo é clássico. Liberdades poéticas e históricas são próprias da ficção. Curiosidade: Renato e a Legião participaram de show pró-diretas. É o de menos. Trilha sonora pode ou não guiar-se, em ficção, pela época que a história narra. Na não ficção, a minha praia, é outra conversa.

O que incomoda é o formato em que, mal principia, o capítulo termina. Já não basta o horário em que vai ao ar, adequado a quem não tem de acordar cedo. Costumam ser dois bloquinhos. Parece namoro interrompido ainda nas preliminares.

O que não impede grandes momentos. A seleção de elenco foi feliz. Dos novatos aos veteranos, o padrão é alto. Cassia Kiss se reafirma como uma das maiores atrizes brasileiras. Ela é a mãe que conspira contra a relação amorosa de um filho para, em troca, salvar a vida de outro rebento. Nos papéis principais, Renato Góes e Sophie Charlotte deram liga (ele, 30 anos, e Chay Suede, 24, que está em cartaz na novela ''Novo Mundo'', são dois dos destaques da nova geração televisiva).

Comparar ''Os dias eram assim'' com ''Anos rebeldes'', mais do que impróprio, beira a maldade. É como querer comparar o Vinicius Junior ao Zico. A série de 1992 foi a melhor que a Globo produziu. Era uma série de fato, com longos capítulos/episódios. Uma obra-prima da dramaturgia da TV.

Comentam que a novela de 2017 não estaria dando a audiência esperada. Será? Nesse caso, pior para a audiência. Quando se encerra um capítulo, dá vontade de ver o próximo. ''Os dias eram assim'' tem dignidade (não transforma verdugos em mocinhos), talento (inclusive da direção) e beleza (nunca é fácil falar de amor).

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A vertigem das surpresas hipócritas
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Mário Magalhães

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Michel Temer, prócer do PMDB – Foto Alan Marques/Folhapress

 

Depois do que Romero Jucá falou sobre ''estancar essa sangria'', ainda há quem se diga surpreendido por resultado de julgamento em tribunal.

Pelas tramoias de Michel Temer e seus correligionários.

Pelos feitos de Aécio Neves, ''o primeiro a ser comido''.

Pela ficha criminal de Sérgio Cabral, um dos donos do poder mais bajulados pelo jornalismo brasileiro no século 21.

Pelo desastre multiplicado por seu sucessor, Luiz Fernando Pezão, que os áulicos celebravam como ''o verdadeiro gestor'' do Estado do Rio de Janeiro.

Depois de tudo o que se soube das armações de Antonio Palocci no Ministério da Fazenda, alguns afetam surpresa com a conta suíça não declarada de Guido Mantega ou sua presença na delação de Joesley Batista.

No romance ''A mancha humana'', Philip Roth se refere à ''vertigem da indignação hipócrita'' como talvez a mais antiga paixão dos Estados Unidos (essa é a formulação da tradução francesa para o original ''the ecstasy of sanctimony''). O escritor falava do escândalo da fellatio na Casa Branca dos tempos de Bill Clinton e Monica Lewinski.

A vertigem da indignação hipócrita também habita o Brasil.

Mas dificilmente será maior do que a vertigem das surpresas hipócritas, fingidas, encenadas.

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Vinicius Junior é punido duas vezes; Guerrero vira mais um bode expiatório
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Mário Magalhães

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O rubro-negro Vinicius Junior, marcado no Fla-Flu – Foto UOL

 

O 2 a 2 no Fla-Flu só não foi mais frustrante para o Flamengo porque a igualdade foi alcançada quatro, cinco minutos depois dos 45 do segundo tempo.

Nenhum rubro-negro pode ficar satisfeito com o empate contra um time cujo elenco é muitíssimo mais barato do que o seu.

Não ficarei surpreso se a folha de pagamento do banco de reservas do Flamengo ontem for maior do que a de todos os titulares tricolores.

Com tanto investimento, até agora o ano foi pífio, com o revés supremo na Libertadores.

A ressaca da eliminação em Buenos Aires foi curada na vitória contra a Ponte Preta, 2 a 0 na na quarta-feira. Não serve mais como justificativa.

A maior deficiência da equipe é, já no meio do ano, não se apresentar arrumada. Costuma ser caótica. O maior problema é o arranjo coletivo. O que não ofusca os enganos individuais.

Zé Ricardo puniu ontem Vinicius Junior duas vezes. Primeiro, ao escalá-lo no lado do ataque, a direita, onde ele rende ou tem rendido menos. Vinicius tem 16 anos. Com todas as dificuldades naturais da idade, seu desafio aumenta, se ele é privado de atuar pela esquerda. A razão é priorizar Everton no setor onde vai melhor. Por que, então, Vinicius começa jogando?

Sim, ele pode ser bom também pela direita. Na semana passada, por ali, deu um passe para gol. No Maracanã, foi mal. Depois de obrigá-lo a ficar onde se sente menos à vontade, Zé Ricardo puniu-o pela segunda vez, retirando-o no intervalo. E já tem gente dizendo que Vinicius Junior não é tudo isso. A queimação começou.

Vinicius é destro. Há destros que jogam melhor pela direita ou pela esquerda. O destro Garrincha era extrema-direita. Mas o destro Muller, protagonista da próxima biografia de Anderson Olivieri, tornou-se mais perigoso quando Telê o transferiu para a esquerda. O destro Ribéry fica na esquerda. O canhoto Robben, na direita.

Cada um na sua, e a do Vinicius Junior é a esquerda. Outro castigo para o garoto foi ter jogado o tempo em que Márcio Araújo esteve em campo _o volante era quem avançava, com Cuéllar mais atrás! Com a entrada de Willian Arão para fazer dobradinha com o colombiano, a armação melhorou, mas aí Vinicius já tinha saído.

O adolescente preocupa os adversários. Abel contou depois da partida que perguntara a Mascarenhas, dois anos mais velho que o rubro-negro negociado com o Real Madrid, se já o tinha marcado. O tricolor disse que sim, e Abel desconfiou. Como, se Mascarenhas é lateral-esquerdo e, na base, Vinicius era ponta-esquerda? Aconteceu num jogo na Gávea, com Vinicius deslocado, e chocolate do Flamengo. ''Fodeu'', pensou Abel, que comentou: ''Esse garoto [Vinicius] é um diabinho''.

Pela direita, no entanto, assusta menos. Tem sido assim entre os profissionais.

Berrío entrou bem, mas continua com limitação crônica para acertar um cruzamento. Quando podia passar para Guerrero, sozinho, preferiu finalizar, e a defesa interceptou.

Dá dó a pobreza de criação no meio-campo do Flamengo. Sem opções, a fórmula é entregar a bola para Diego, luz na escuridão. Os oponentes sabem, concentram a marcação nele. Com a miséria criativa, a bola não chega redonda a Guerrero. O centroavante ontem a recebia de costas para o gol, com alguém fungando em seu cangote. Faz parte, é habitual, mas não pode ser só isso. Quando se desmarcou, Berrío não lhe passou. Guerrero tem de ser cobrado quando desperdiça gols. Se a bola não chega em condições favoráveis, colocar a culpa nele é criar mais um bode expiatório.

Não entendi por que Damião não entrou no segundo tempo. Ele pode não ser o atacante dos sonhos, mas foi bem no lugar de Guerrero na ausência recente deste. No desespero, podem jogar juntos. Emite-se uma mensagem ruim: você pode se superar, mas isso não valerá muita coisa, nem alguns minutos no Fla-Flu.

Os trintões Juan e Réver, a essa altura do campeonato, carecem da velocidade recomendável para marcar jovens rápidos como os do Fluminense. Querer comparar o Juan quase quarentão com o de anos atrás é descabido. Um dos dois zagueiros tem de ser veloz.

No segundo tempo, a equipe cresceu, sem Márcio Araújo. Será que ele permanecerá titular, diante da Chapecoense?

A despeito do futebol limitado que tem visto, a torcida gritou muito no Maracanã. O time honrou-a, lutando até o fim.

Luta é indispensável, mas não basta. O Flamengo precisa melhorar, para manter o sonho do título.

Dos próximos oito jogos, seis serão no Rio. Torcida não faltará.

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Uma noite para acabar com a ressaca do Flamengo
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Mário Magalhães

Elenco do Flamengo treina no Estádio Ilha do Urubu, nome escolhido pela torcida à arena

Jogadores treinam na Ilha do Urubu – Foto Gilvan de Souza/Flamengo

 

Quando o porre é grande, a ressaca não fica por menos. Pior que porre de bebida vagabunda é porre de frustração no futebol. Idem a ressaca. Se o porre for mais uma queda vexatória na Libertadores, o estrago será (foi) ainda maior.

Hoje a eliminação do Flamengo na Libertadores completa 29 dias. Faz quase um mês que o time parece tonto como pinguço perdido depois da bebedeira. E nada de a ressaca passar.

A partir das nove da noite, o rubro-negro inaugura, contra a Ponte Preta, a Ilha do Urubu. É a nova casa. Está na hora de superar a ressaca.

A equipe campineira acumula três pontos mais do que a carioca no Campeonato Brasileiro. Mas o anfitrião tem potencialmente mais time, apesar de enganos como uma série de contratações frustradas para a zaga. Basta comparar os orçamentos. Sim, futebol não é confronto de dinheiro. Seria constrangedora, contudo, mais uma derrota para elenco muito mais barato.

É preciso evitar erros como tantos na desgraça diante do San Lorenzo.

Tomara que logo mais o Vinicius Junior seja mantido como titular. De preferência fincado em um dos lados do campo, sem a ida e volta para a esquerda e a direita que dificulta a adaptação do garoto de 16 anos.

E que não se reedite a dupla Márcio Araújo-Willian Arão _ao menos um tem de sair. Não basta a bola chegar ao Diego. Tem de chegar redonda, e não quadrada. É imprescindível forjar alternativas ao melhor do time. Sozinho na armação, o Diego se torna presa mais fácil dos marcadores. É necessário reforçar a criatividade no meio-campo, e não reprimi-la.

Mais do que tudo, os jogadores têm de entender que a Libertadores já é história. Triste, mas é. Cabe sobretudo ao Zé Ricardo convencê-los disso.

Apoio da torcida não faltará. O desafio do time é estar à altura da paixão e da fidelidade dos torcedores.

E se não der? Será sinal de que a ressaca do porre na noite portenha não passou. Recomenda-se, nessa hipótese funesta, encher a cara de novo. Até vomitar.

Isto é, colocar tudo para fora. No caso do Flamengo, os principais responsáveis pela campanha bisonha no Brasileiro.

Desconfio, porém, que os goles serão para comemorar a vitória rubro-negra.

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