Blog do Mario Magalhaes http://blogdomariomagalhaes.blogosfera.uol.com.br O blog nasceu no Rio, vive no Rio, vibra com o Rio e por isso mesmo cobra que o Rio seja bem tratado como merece Sat, 21 Jan 2017 09:00:38 +0000 pt-BR hourly 1 http://wordpress.org/?v=4.2.5 Sabáticas: Uma folha do passado http://blogdomariomagalhaes.blogosfera.uol.com.br/2017/01/21/sabaticas-uma-folha-do-passado/ http://blogdomariomagalhaes.blogosfera.uol.com.br/2017/01/21/sabaticas-uma-folha-do-passado/#comments Sat, 21 Jan 2017 09:00:38 +0000 http://blogdomariomagalhaes.blogosfera.uol.com.br/?p=19104 blog - cm 1934 a

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Reprodução do velho “Correio da Manhã” que encontrei em meio a folhas de abricó-de-macaco

 

Minha ignorância botânica me impede de saber qual é a espécie das árvores que têm transformado a calçada da praia de Botafogo, grudada à areia, num tapete de flores amarelas. Perguntei aqui e acolá, o pessoal especulou, sem certeza.

O outono como única estação em que flores e folhas caem em profusão talvez exista em livros infantis ilustrados, mas não no Rio. Na quarta-feira, o sol marrento do verão já torrava às oito e meia da manhã. Na esquina da rua São Clemente com a praia de Botafogo, uma brava gari recolhia sozinha um monte de folhas mortas.

Mal distingo girassol de margarida, porém reconheci as folhas de abricó-de-macaco, árvore cujos frutos grandões se assemelham a bolas de futebol. Mais adiante, um pouco depois do monumento ao Estácio de Sá, uma bolota daquelas caiu perto de uma ciclista. Se pegasse na cabeça, machucaria.

Não vi folhas de amendoeira em meio às de abricó-de-macaco. Mas reparei no que parecia uma página de jornal velho ou sujo. Era as duas coisas, velho e sujo. Abaixei-me e li o título, Correio da Manhã, diário extinto há décadas. O ano, 1934. Edição de três de junho de 1934.

O tempo cortou um anúncio da Casa dos Três Irmãos, loja que vendia seda na rua do Ouvidor. “A maior liquidação de todos os tempos”, apregoavam _esse papo é antigo. Um desenho mostrava os três maiores felinos: leão, tigre e jaguar, que vinha a ser a nossa onça. Virando a página, a poeta Maria A. Velloso gracejava em versos com a história de um cabra valente pra chuchu que, no entanto, se borrava diante de rato.

Coloquei o papel no bolso, e ele escapou da lata de lixo da história. Meu plano era correr. Inibido pelo calor sádico, só caminhei. Pensei no ano de 1934. O da nova Constituição do Brasil. Da Copa da Itália, vencida pelos italianos. Hitler alcançara o poder um ano antes. Faltavam dois para a guerra civil espanhola e cinco para a Segunda Guerra.

Em 1934, os cariocas cantaram pela primeira vez Cidade Maravilhosa. Quando eu vejo as lâminas de flores amarelas e de folhas de abricó-de-macaco tenho a impressão de que a marchinha do André Filho ainda vale. Será?

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Confronto Trump x imprensa decorre de jornalismo crítico, raro no Brasil http://blogdomariomagalhaes.blogosfera.uol.com.br/2017/01/19/confronto-trump-x-imprensa-decorre-de-jornalismo-critico-raro-no-brasil/ http://blogdomariomagalhaes.blogosfera.uol.com.br/2017/01/19/confronto-trump-x-imprensa-decorre-de-jornalismo-critico-raro-no-brasil/#comments Thu, 19 Jan 2017 14:34:39 +0000 http://blogdomariomagalhaes.blogosfera.uol.com.br/?p=19090 Resultado de imagem para uol donald trump

Donald Trump, que amanhã tomará posse na Presidência dos EUA – Foto Mike Segar/ Reuters

 

Em seu furor ressentido e intolerante contra o jornalismo, Donald Trump ameaçou acabar com a sala de entrevistas na Casa Branca. Recuou. Mas disse que escolherá os jornalistas que poderão participar das entrevistas. A barração seria ainda mais grave do que a atitude obscura, numa coletiva recente, de não permitir que o repórter da CNN lhe dirigisse uma pergunta.

Se cumprida, a ameaça do presidente que toma posse amanhã será uma decisão antidemocrática. Ela vai além da antipatia de todos os governos e governantes pelo jornalismo de espírito crítico _pleonasmo, pois tal espírito é indissociável do jornalismo digno do nome. Trump impediria repórteres e meios dos quais não gosta de o indagarem sobre assuntos que o perturbam.

No Brasil, inexiste confronto ou mínima tensão entre Michel Temer e o jornalismo mais influente. É possível que isso decorra da alma em tese mais tolerante do peemedebista. Digo em tese porque não foi testada.

A principal distinção na relação do poder com a imprensa, lá e cá, é o jornalismo.

O jornalismo norte-americano tem acumulado vexames nos últimos tempos, nenhum deles maior que o endosso à mentira das armas de destruição em massa alegadamente mantidas por Saddam Hussein no Iraque. Mas preserva em parcela expressiva a concepção do jornalismo como serviço público. O jornalismo serve _ou deveria servir_ à sociedade,  não ao poder.

O jornalismo dos Estados Unidos incomoda Trump.

O do Brasil, muitas vezes dócil, não importuna Temer.

Um exemplo escancarado é como a imprensa precisou ser avisada pelo governo sobre a concentração de recursos em 2% das contas inativas do FGTS. O jornalismo tem se limitado a divulgar acriticamente a palavra e os atos do governo. Por que não foi fuçar, em apuração autônoma, os números do fundo?

Outro é a crise nos presídios. Temer chamou a primeira matança, em Manaus, de “acidente”. Essa imoralidade foi descrita como gafe, coisa desastrada porém leve. Por tratar o episódio de Manaus como “acidente”, o governo demorou a reagir.

O jornalismo brasileiro sabe ser crítico. Mas se habituou a ser seletivo.

Costuma evocar a sábia lição de Millôr Fernandes: “jornalismo é oposição; o resto é armazém de secos e molhados”.

Esquece que a regra vale para todos os governos, não apenas os escolhidos como objeto de rigor crítico do jornalismo.

No jornalismo nacional, Temer aparece como grande tribuno (um Obama), sedutor de sucesso (um FHC) ou dono de lábia envolvente (um Lula).

Talvez só não o promovam como grande estadista, um Churchill, porque até o ridículo tem limite.

P.S.: é evidente que as observações acima não generalizam; também no Brasil há jornalismo e “jornalismo” (propaganda fantasiada de jornalismo).

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Na melhor hipótese, Temer anunciou liberação sem conhecer números do FGTS http://blogdomariomagalhaes.blogosfera.uol.com.br/2017/01/19/na-melhor-hipotese-temer-anunciou-liberacao-sem-conhecer-numeros-do-fgts/ http://blogdomariomagalhaes.blogosfera.uol.com.br/2017/01/19/na-melhor-hipotese-temer-anunciou-liberacao-sem-conhecer-numeros-do-fgts/#comments Thu, 19 Jan 2017 12:45:19 +0000 http://blogdomariomagalhaes.blogosfera.uol.com.br/?p=19085 Resultado de imagem para folhapress michel temer

Quanto vale a palavra de Michel Temer? – Foto Pedro Ladeira/Folhapress

 

Na manhã de 22 dezembro, em café com jornalistas em Brasília, Michel Temer anunciou a liberação do dinheiro depositado em todas as contas inativas do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço.

A medida liberaria R$ 30 bilhões na deprimida economia nacional, vangloriou-se o presidente.

O noticiário de hoje informa que, ao contrário da promessa de dezembro, haverá restrições aos saques.

De acordo com as repórteres Renata Agostini e Daniela Lima, “após analisar detidamente os números, o governo descobriu que cerca de 2% dessas contas inativas concentram um montante muito expressivo do volume total de recursos que poderia ser sacado”.

Isso, evidentemente, é o que diz o governo.

Como se constata, o que diz o governo não vale muito, basta comparar a “decisão” de Temer mudada em menos de um mês.

O mais impressionante é o presidente ter alardeado aos brasileiros uma iniciativa sem antes analisar “detidamente os números”.

Além do aspecto moral, do não cumprimento do prometido, há um escândalo em matéria de gestão: decidir _e anunciar_ sem conhecer a numeralha do FGTS.

Existe outra hipótese, que implicaria supor que o governo mentiu: já preveria o recuo, mas teria preferido a promoção marqueteira por algumas semanas.

Curiosidade elementar: quantos milhões, então, serão liberados?

O fundo foi criado há meio século, como contrapartida às regras de estabilidade no emprego. Constituiu uma derrota dos trabalhadores.

Hoje eles perdem, com a remuneração do FGTS aos seus recursos muito aquém do que ganhariam em outras aplicações.

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Corrupção: a piada que virou verdade http://blogdomariomagalhaes.blogosfera.uol.com.br/2017/01/17/corrupcao-a-piada-que-virou-verdade-2/ http://blogdomariomagalhaes.blogosfera.uol.com.br/2017/01/17/corrupcao-a-piada-que-virou-verdade-2/#comments Tue, 17 Jan 2017 13:17:08 +0000 http://blogdomariomagalhaes.blogosfera.uol.com.br/?p=19081 Resultado de imagem para uol hospital pm rio de janeiro

O Hospital Central da PM do Rio de Janeiro, alvejado pela corrupção – Foto Zulmair Rocha/UOL

 

A piada é antiga.

Num jantar de quatro prefeitos, os ditos-cujos contaram vantagem sobre roubalheira.

Um puxou a fotografia de uma estrada e confidenciou o tamanho da propina que embolsara: “Dez por cento”.

Outro mostrou no celular o release da inauguração da nova praça de sua cidade: “Vinte por cento”.

Um terceiro sorriu com ar de menosprezo ao colega. Folheou a revista da prefeitura, onde se destacava em página dupla uma escola: “Cinquenta por cento”.

Com o prazer de quem dá o xeque-mate, o último abriu no tablet o arquivo com imagens de um hospital suntuoso: “Era  maquete. Nunca o construí. Cem por cento!”

A anedota tragicômica talvez tenha inspirado uma turma aqui no Rio.

Em dezembro de 2015, oficiais da Polícia Militar foram presos sob acusação de desviar dinheiro público do Fundo de Saúde da corporação.

Uma das armações teria sido o pagamento de R$ 4,2 milhões na compra de ácido peracético para o Hospital Central da PM. O tal ácido é usado para limpar material e equipamento hospitalares.

O busílis é que aparentemente o ácido nunca havia sido entregue.

Com o acordo de delação premiada de dois empresários fornecedores do hospital, agora se sabe o que de fato aconteceu. Suspeita confirmada: não entregaram nada.

Em entrevista ao repórter Eduardo Tchao, um dos sócios da empresa de produtos médico-hospitalares Medical West disse que o hospital encomendou 15 mil galões de ácido.

Seu depoimento: “A gente já sabia que não iria entregar. Eu fiquei com R$ 1,7 milhão, se não me engano. Aí eu paguei imposto, quase R$ 400 mil de impostos. Cinquenta e cinco por cento teriam que ficar com eles e quarenta e cinco por cento com a gente, da empresa. A gente repassou a ele R$ 2,1 milhões, para o major Delvo”.

Entregavam o butim em bar e shopping.

O major Delvo Nicodemos é um dos oficiais presos.

Trocando em miúdos: dos R$ 4,2 milhões destinados à compra do ácido, corruptos e corruptores ficaram com cem por cento, como o prefeito mais ladrão da piada.

Só não o igualaram totalmente porque, na lavagem do dinheiro, recolheram impostos.

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Palavras malditas (22): descontinuar http://blogdomariomagalhaes.blogosfera.uol.com.br/2017/01/16/palavras-malditas-22-descontinuar/ http://blogdomariomagalhaes.blogosfera.uol.com.br/2017/01/16/palavras-malditas-22-descontinuar/#comments Mon, 16 Jan 2017 15:37:50 +0000 http://blogdomariomagalhaes.blogosfera.uol.com.br/?p=18969

Máquina de escrever de meados dos anos 1960 – Reprodução “The New York Times”

 

Outra noite informaram na TV que um programa científico público foi descontinuado.

Pelo rádio, eu soube que ameaçam descontinuar o fornecimento de leite para crianças pobres.

Toda semana noticiam a descontinuação de um periódico impresso.

Está errado? Não.

Mas o propósito do verbo descontinuar não é esclarecer e enfatizar, e sim eufemizar o fato.

Ele é mais suave para contar que preferiram gastar 6 bilhões de reais com veículos militares blindados a investir em ciência.

Falando descontinuar, parece menos imoral o sacrifício da alimentação de estudantes cujas famílias não têm como supri-la em níveis saudáveis.

Quando se escreve descontinuar, em vez de acabar, terminar, extinguir ou fechar, busca-se adoçar a pílula amarga.

Andam empregando tanto esse eufemismo que logo perguntarão a alguém como vai o casamento e ouvirão como resposta:

“Resolvemos descontinuar”.

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Rio adiado http://blogdomariomagalhaes.blogosfera.uol.com.br/2017/01/16/rio-adiado/ http://blogdomariomagalhaes.blogosfera.uol.com.br/2017/01/16/rio-adiado/#comments Mon, 16 Jan 2017 12:27:11 +0000 http://blogdomariomagalhaes.blogosfera.uol.com.br/?p=19040 xcxcxcxcx

Em 2015, com o serviço de limpeza interrompido, a Uerj já sofria com o lixo

 

Na UTI, abandonada pelo Estado do Rio, a Uerj adiou a volta às aulas. Já tinha adiado o vestibular.

Todo mês o governo adia o pagamento do salário dos servidores estaduais.

Carente de recursos, o Teatro Municipal adiou a ópera. A despeito do nome, o teatro se vincula ao Estado.

O Maracanã é uma goleada de adiamentos.

O Rio, como todo o Brasil, sofre com o adiamento do crescimento da economia, das oportunidades de trabalho e do progresso alardeado há meses. A ponte para o futuro desemboca no passado.

Como diria um otimista, é melhor adiar do que cancelar.

Nem por isso certos adiamentos são bons.

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Sabáticas: Falando sozinho http://blogdomariomagalhaes.blogosfera.uol.com.br/2017/01/14/sabaticas-falando-sozinho/ http://blogdomariomagalhaes.blogosfera.uol.com.br/2017/01/14/sabaticas-falando-sozinho/#comments Sat, 14 Jan 2017 02:01:37 +0000 http://blogdomariomagalhaes.blogosfera.uol.com.br/?p=19030 blog - robert durst

Robert Durst: “Matei todos eles, é claro” – Foto Edmund D. Fountain/The New York Times/2015

 

Li numa entrevista um psicólogo bambambã identificando como muito bem resolvidas pessoas que falam sozinhas. Conheço uma que adorou o diagnóstico. Bom para elas, mas sei não. Se for por aí, estou longe de me resolver.

É o que também acha a gurizada do prédio de um conhecido meu, tipo excêntrico que anda no elevador em conversas exaltadas. Com o espelho, ignorando os vizinhos. Sai pela calçada, volta para casa, sempre confabulando com ele mesmo. As crianças o têm na conta de maluco.

Deve ter suas vantagens. Jamais encontra um argumento contrário, alguém para lhe dizer que está por fora. Ou encontra? Vai que se contrapõe: “Sabe de nada, inocente!” Daí principia a discussão. Está explicado o tom passional do meu conhecido. Ele bate boca com sua sombra.

Quem se deu mal foi Robert Durst, protagonista de um documentário da HBO nos Estados Unidos. O milionário havia escapado da suspeita de três homicídios: de sua mulher, desaparecida em 1982 e dada como morta; da senhora, abatida com um tiro na cabeça, que deporia na Justiça sobre o sumiço da mulher de Durst; e, alegando legítima defesa para escapar da condenação, de um homem cujo cadáver acabou esquartejado.

Ferrou-se por falar sozinho. No derradeiro episódio da série The Jinx, ele deu uma longa entrevista e correu ao banheiro. Pareceu esquecer que estava com um microfone sem fio. E o microfone estava ligado. Em meio a digressões solitárias durante o xixi, Durst esclareceu: “Que diabos eu fiz? Matei todos eles, é claro”. Foi em cana, encurralado por muitas provas.

Outro perigo é falar dormindo. No décimo sono, uma amiga caprichou no dengo: “Que loiro lindo”, sussurrou. Seu marido, de cabelos mais pretos que o velho papel-carbono, estava acordado e surtou. Ela contou que sonhava com um sobrinho bebê.

Se o peixe morre pela boca, melhor ficar de boca fechada.

(Publicado originalmente na revista Azul Magazine, maio de 2015)

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Crivella brinca de ‘pós-verdade’ http://blogdomariomagalhaes.blogosfera.uol.com.br/2017/01/13/crivella-brinca-de-pos-verdade-2/ http://blogdomariomagalhaes.blogosfera.uol.com.br/2017/01/13/crivella-brinca-de-pos-verdade-2/#comments Fri, 13 Jan 2017 14:55:34 +0000 http://blogdomariomagalhaes.blogosfera.uol.com.br/?p=19016 Marcelo Crivella canta no programa do Silvio Santos, em 2015 – Reprodução/Folhapress

Marcelo Crivella canta no programa do Silvio Santos, em 2015 – Reprodução/Folhapress

 

A história é tão curta quanto eloquente.

A Companhia de Engenharia de Tráfego do Rio de Janeiro tinha novo titular, anunciado pelo governo Marcelo Crivella: Paulo Cezar Ribeiro, professor da Coppe/UFRJ.

Ao lado do vice-prefeito e secretário de Transportes, Fernando Mac Dowell, o professor deu entrevistas, foi à TV contar seus planos.

Na quarta-feira, o “Diário Oficial” do município, em vez de nomear Paulo Cezar Ribeiro presidente da CET-Rio, nomeou Virgínia Maria Salerno Soares.

Ribeiro, que não é leitor do “Diário Oficial”, soube da novidade por um repórter do jornal “O Globo”.

Crivella explicou anteontem, compungido, o motivo da mudança: “Paulo Cezar, infelizmente, foi diagnosticado com uma doença grave. Ele pediu para se afastar e ser tratado”.

Ribeiro tomou um susto. Não havia sido diagnosticado com doença grave, muito menos pedira para se afastar.

Ontem, o prefeito emendou, dizendo que confundira Ribeiro com uma servidora da Rioluz. Atacou um “repórter, talvez imaturo”, que o indagara sobre a Cet-Rio. “Eu pedi a esse repórter, porque era uma questão pessoal, de foro íntimo, de caso grave, que ele não mencionasse. Mas, infelizmente, isso foi vencido por ambições pessoais que eu acho que não constroem o relacionamento nosso com a imprensa. A gente, quando fala de doenças graves, essas coisas são particulares.”

Como comprova o vídeo da quarta-feira, quem falou em doença grave, diante de numerosos repórteres, foi Crivella.

“Não houve mentira nenhuma. Houve uma pequena confusão”, afirmou mais tarde o prefeito.

Pelo visto, ele parece brincar de “pós-verdade”. Uma coisa é o discurso, outra é o fato.

Sobre a troca, uma das versões informa que haveria problema para Ribeiro manter na CET-Rio o salário que recebe na universidade.

Fato: na terça-feira, a CET-Rio, onde Ribeiro já estava trabalhando informalmente, multou mais de 90 ônibus em torno da Central do Brasil.

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Trump, o desafio aos espiões e a lição do governo Collor http://blogdomariomagalhaes.blogosfera.uol.com.br/2017/01/13/trump-o-desafio-aos-espioes-e-a-licao-do-governo-collor-2/ http://blogdomariomagalhaes.blogosfera.uol.com.br/2017/01/13/trump-o-desafio-aos-espioes-e-a-licao-do-governo-collor-2/#comments Fri, 13 Jan 2017 14:01:45 +0000 http://blogdomariomagalhaes.blogosfera.uol.com.br/?p=19003 Fernando Collor, ainda presidente, em 1992 – Foto Lula Marques/Folhapress

Fernando Collor, ainda presidente, em 1992 – Foto Lula Marques/Folhapress

 

Os territórios e as circunstâncias são diferentes, mas há alguma semelhança entre o que acontece hoje nos Estados Unidos e o Brasil da virada da década de 1980 para a de 1990.

Desde a campanha o presidente eleito Donald Trump vem espinafrando as agências de informações do seu país.

Criticou-as pela conclusão de que a correspondência eletrônica do comitê de Hillary Clinton havia sido raqueada pela Rússia _anteontem voltou atrás e admitiu que tal espionagem ocorreu.

Malhou-as por terem avisado Barack Obama e o próprio Trump sobre um dossiê focado no presidente eleito.

Trump as enxovalha e, querendo ou não, provoca-as.

Voltemos no tempo, e ao Brasil.

Antes de vencer a eleição presidencial de 1989, Fernando Collor de Mello tentou conversar com o ministro-chefe do Serviço Nacional de Informações, Ivan de Souza Mendes. O general recusou-se a recebê-lo.

Collor queria tratar de documentos do SNI que haviam aparecido na imprensa e nos quais o ainda governador de Alagoas era descrito em termos pejorativos.

Humilhado, não deixou por menos: em seu primeiro dia no Planalto, março de 1990, acabou com o SNI.

O monstrengo criado pela ditadura em 1964 chegava ao fim com uma canetada, embora a estrutura e os conceitos que o embalaram por décadas permanecessem.

Sobreviveu, sobretudo, o pessoal, agora lotado no sucessor do “serviço”: o Departamento de Inteligência da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República.

Seu propósito, ao menos no papel, seria coletar e analisar informações.

A extinção do SNI prejudicou os interesses de muitos dos seus servidores, em particular militares.

Funcionários ou não do Departamento de Inteligência, eles foram a campo por conta própria para “coletar” um tipo específico de informações, as daninhas ao governo Collor. Com o olhar mais atento para falcatruas.

Arapongas foram fontes sigilosas importantes de jornalistas até a agonia de Collor e, em dezembro de 1992, seu justo impeachment.

Eles se vingavam do presidente que os atacou. A importância desses agentes no desfecho da administração Collor está por ser contada plenamente.

Do ponto de vista legal, o controle sobre as agências de informações e inteligência são muito mais severos nos EUA do que no Brasil.

Mas CIA, NSA e outras siglas têm vasto histórico de burla às leis.

Trump pode ter problemas se os espiões, provocados e desafiados, resolverem ir à forra.

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O papelão dos repórteres diante de Trump http://blogdomariomagalhaes.blogosfera.uol.com.br/2017/01/12/o-papelao-dos-reporteres-diante-de-trump/ http://blogdomariomagalhaes.blogosfera.uol.com.br/2017/01/12/o-papelao-dos-reporteres-diante-de-trump/#comments Thu, 12 Jan 2017 15:58:57 +0000 http://blogdomariomagalhaes.blogosfera.uol.com.br/?p=18985 Donald Trump, presidente eleito dos Estados Unidos - Foto Seth Wenig/AP

Donald Trump, presidente eleito dos Estados Unidos – Foto Seth Wenig/AP

Na primeira entrevista coletiva na condição de presidente eleito, Donald Trump foi o de sempre. Quer dizer, agora com mais poder. Que será ainda maior a partir do dia 20, quando tomará posse.

Trump avacalhou as agências de inteligência; comemorou a construção de fábricas de automóveis nos Estados Unidos, e não no México; confirmou que erguerá um muro entre os dois países; reconheceu que os EUA são raqueados por todo mundo, inclusive Rússia e China; mencionou informações sobre a campanha eleitoral de Hillary Clinton obtidas por interceptação ilegal de correspondência eletrônica; negou conflito de interesses no modelo que definiu para tocar seus negócios particulares enquanto ocupar a Casa Branca; e reiterou que certas notícias divulgadas sobre ele são típicas da Alemanha nazista.

Escolheu a dedo, o indicador direito ou esquerdo, os repórteres que poderiam lhe fazer perguntas. Houve repórter que, em tom submisso, agradeceu por ter sido um dos eleitos.

Antes da entrevista, o futuro presidente fez uma preleção sobre jornalismo e liberdade de imprensa. Em seguida ironizou repórter, interrompeu pergunta.

Muito mais grave, proibiu que o repórter da CNN lhe dirigisse uma pergunta.

Trump acusou a emissora de veicular mentiras, por ter informado a existência de um alegado dossiê sobre Trump. A CNN silenciou sobre o conteúdo do suposto dossiê. Ao contrário do BuzzFeed, que publicou a tal papelada na íntegra.

“Você não”, disse Trump agressivamente a Jim Acosta, o repórter da CNN que tentava perguntar. “Sua empresa é terrível”. Emendou: “Vocês são notícias falsas”.

É prerrogativa de Donald Trump e de qualquer pessoa achar o que bem quiser da CNN, do BuzzFeed e do jornalismo em geral. Quando mais uma sociedade pensa, escrutina e discute o jornalismo, mais chances têm a sociedade e o jornalismo de serem melhores.

O jornalismo é um serviço público cuja essência é a difusão de informações. Mesmo se exercido por companhias privadas, é _ou deve ser_ um serviço público. Informar é contraditório com propagandear. A principal deficiência do jornalismo contemporâneo é o sufocamento da informação pela propaganda.

Nenhuma autoridade com mandato conferido pelos cidadãos tem o direito de escolher repórter e pergunta conforme as convicções e idiossincrasias do poder.

Até aí, Trump foi Trump.

Lamentável foi observar que os repórteres presentes, ao menos os que perguntaram depois da atitude contra o jornalista da CNN, continuaram como se nada tivesse acontecido.

Aceitaram como cordeiros que Trump proibisse pergunta.

Não se trata de solidariedade corporativa com Acosta, mas de consciência democrática e jornalística sobre uma aberração como a imposta por Trump.

O problema não foram as perguntas, todas jornalisticamente legítimas e a maioria com espírito crítico _ao contrário do que se vê em determinada bajulação cotidiana a Michel Temer.

Mas o papelão de submeter-se a um capricho antidemocrático.

Os repórteres participaram da coletiva representando empresas privadas e públicas. O vexame foi da imprensa.

Não interessa a opinião de cada um sobre Trump. A ideia vale para qualquer situação e qualquer político. Depois do veto do presidente eleito, os repórteres só deveriam perguntar depois de o jornalista da CNN fazer a sua pergunta.

Em 1999, o repórter Luiz Maklouf Carvalho foi convidado pelo programa “Roda Viva” para ser um dos entrevistadores de Luiz Inácio Lula da Silva. O futuro presidente barrou a presença de Maklouf. O “Roda Viva” e os demais entrevistadores aceitaram. Se eu fosse um deles, teria ido embora na hora _se soubesse antes, não teria comparecido. Quando entrevistado escala entrevistador, o espírito crítico cede lugar à camaradagem, e o jornalismo se descaracteriza.

Ontem, pior que Trump, foram os repórteres.

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