Blog do Mario Magalhaes

Igualar Freixo e Crivella equivale a equiparar séculos diferentes

Mário Magalhães

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Marcelo Crivella e Marcelo Freixo, candidatos a prefeito do Rio – Fotomontagem Folhapress

 

Se há atitude legítima em eleição, tão democrática quanto sufragar um ou outro candidato, é votar nulo ou branco.

Ou mesmo não comparecer às urnas. O voto obrigatório constitui coação do Estado, ato autoritário contra o direito de o cidadão não votar. Voto é direito, conquistado com sangue e suor, e não dever.

Noutras palavras, é evidente a legitimidade de votar em Marcelo Crivella, em Marcelo Freixo, em branco, anular, trocar a seção eleitoral por um dia na praia.

A votação do domingo será decisiva para o Rio dos próximos quatro anos? Será.

Mas se os dois candidatos provocarem engulho, qual a contraindicação de rejeitar ambos? Nesse caso, pena que não existam mais as cédulas de papel em que o eleitor garatujava mensagens ou palavrões ao anular o voto.

Dito isso, passemos ao segundo tempo: recusar os candidatos do PRB e do PSOL é do jogo, mas dizer que são iguais parece estranho.

Porque os dois são tão distantes quanto os séculos a que remetem suas pregações.

É possível amar ou odiar, gostar ou não, identificar-se muito, pouco ou nada, reconhecer mais aspectos negativos que positivos ou vice-versa, enfim, pensar o que se quiser sobre Freixo. No entanto, é inegável que sua agenda para a cidade e o país está fincada no século 21. São pautas contemporâneas, boas ou ruins, saudáveis ou daninhas. Talvez, como acusam seus adversários, o deputado ainda viva com a cabeça no século 20. Crivella o tem associado ao bolchevismo, numa pregação anticomunista hidrófoba que mimetiza o integralismo, o primo brasileiro do fascismo italiano. A Revolução de Outubro, comandada pelos bolcheviques, ocorreu em 1917 na Rússia. Os integralistas militaram na década de 1930. Se os contendores de Freixo estiverem corretos, as propostas alegadamente defasadas do candidato patinam no século 20. Para efeito de comparação, vá lá, que assim seja.

As consciências também são livres para endossar ou não os valores de Crivella. O que não elimina a impressão de que o senador parece trombetear ideias não dos anos 2000 ou 1900, mas de muitos séculos atrás. Ele afirmou, em 2011: ''Não sei se será na nossa geração, quando será, mas os evangélicos ainda vão eleger um presidente da República, que vai trabalhar por nós e por nossas igrejas e nós vamos cumprir a missão que há 2.000 anos é o maior desafio da igreja, que é levar o Evangelho a todas as nações da Terra''.

Um chefe de governo trabalhar por suas igrejas? Nos séculos 18 e 19 já se instituía ou defendia mundo afora a separação Igreja-Estado.

Num livro cuja edição brasileira foi lançada em 2002, Crivella pontificou que a Igreja Católica e outras religiões cristãs ''pregam doutrinas demoníacas''.

É preciso contar o que pensamentos assemelhados a esse causaram em eras medievais?

No mesmo livro, o autor, Crivella, aponta ''espíritos imundos'' no espiritismo e em religiões de matriz africana.

Interpretações dessa natureza custaram caro, século após século, também no Brasil.

Crivella tratou a homossexualidade como ''conduta maligna'' e ''terrível mal''.

Quantos seres humanos padeceram devido a tal preconceito?

Como organizador de um livro de frases do bispo Edir Macedo, seu tio, Crivella selecionou uma de orientação às mulheres: ''Não basta que ela seja de Deus e batizada com o Espírito Santo; é preciso que seja compatível com o marido, com o mesmo objetivo, sendo submissa, cumpridora de deveres como mulher, mãe e dona de casa'', ensinou Macedo. No prefácio, lê-se que ''os bispos Carlos Rodrigues [o outro organizador] e Marcelo Crivella 'pinçaram' dos escritos do bispo Macedo pensamentos que são verdadeiras pérolas para aqueles que comungam da fé cristã''.

O livro saiu em 1997 e foi reeditado até 2001. No século 19, movimentos de mulheres já lutavam por dignidade, igualdade, emancipação. Sabe quando Ana Floriano liderou o levante de mulheres, em Mossoró, contra o alistamento militar de seus maridos, filhos e irmãos? Em 1875.

Os apontamentos acima não significam que Marcelo Crivella tenha má índole, seja má pessoa, do mal. Nada indica isso. Mas representam valores e ideias manifestados por Crivella já adulto, ainda que ele tenha dito não mais comungar com certas declarações do passado. O senador é o que é. Na guerra contra o Grupo Globo, Crivella avacalha o conteúdo contra a família que seria característica de novelas da emissora. Esse tipo de olhar só não é mais antigo que o século 20 porque antes dele não havia televisão.

Respeito, porém me espanto com a equiparação de fundamentalismo religioso com o que seria fundamentalismo de esquerda.

Cada um concorda com quem quer, vota como prefere, mas Marcelo Crivella e Marcelo Freixo são figuras de séculos diferentes.

Igualá-los, tirando onda de sábio isento, é ignorar a obviedade do tempo que distancia os dois candidatos.

Esta é a síntese da votação de domingo no Rio: a escolha do século em que se deseja viver.

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