Blog do Mario Magalhaes

Caso Pelé-Unicef: making of de uma investigação jornalística

Mário Magalhães

Ex-jogador acredita que clube paulista seria ideal para moldar base do time de Felipão

Pelé, craque genial. Ou Edson Arantes do Nascimento, empresário – Foto Shin Shikuma/UOL

 

( O blog está no Facebook e no Twitter )

Eis uma das infinitas definições de jornalismo: serviço público cuja atividade consiste em coletar, processar e difundir informações.

O gênero mais valioso do jornalismo é a reportagem.

Em 2010, a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo publicou pela Record ''11 gols de placa'', coletânea organizada pelo botafoguense Fernando Molica. O livro reúne reportagens sobre temas e personagens do futebol.

Antes da reprodução de cada uma delas, os autores contaram como trabalharam. O rubro-negro Sérgio Rangel e eu reconstituímos a coleta, o processamento e a difusão de informações sobre o episódio que acabou conhecido como Caso Pelé-Unicef.

O blog reproduz abaixo o making of editado em ''11 gols de placa''.

O melhor seria narrar na primeira pessoa do plural, mas essa opção impediria que escrevêssemos qual dos dois fez o quê. Portanto, escolhemos a terceira pessoa. Não fomos originais: Woodward e Bernstein haviam procedido assim em ''Todos os homens do presidente''.

* * *

Rascunho premiado

Por Sérgio Rangel e Mário Magalhães

O porteiro não encarou o visitante que ele anunciava pelo interfone, tal a fixação com que olhava a fumaceira em Nova York, mostrada pela TV de parcas polegadas, no canto da mesa da recepção. Era o dia 11 de setembro de 2001, e as duas torres do World Trade Center acabavam de ser abatidas por aviões no mais destruidor ataque terrorista já ousado nos Estados Unidos.

Ainda não se sabia bem o que se passava, e Mário Magalhães lembrou-se de que naquela manhã seu pai desembarcaria no aeroporto novaiorquino John Fitzgerald Kennedy. O repórter afligiu-se, telefonou em busca de notícias, não as obteve, subiu pelo elevador e se sentou na sala para esperar o anfitrião com o qual nunca estivera _o pai, são e salvo, testemunhara ao vivo o impacto do Boeing contra a segunda torre.

O encontro em um bairro da zona sul carioca era para ter ocorrido com outro jornalista e meses antes, quando o homem que Magalhães aguardava pediu ajuda a um conhecido para conversar com alguém da sucursal da Folha de S. Paulo no Rio. Seu interlocutor não teve dúvidas: o nome certo era o repórter de esportes Sérgio Rangel.

O celular de Rangel tocou em Teresópolis, onde ele cobria os primeiros treinos da seleção brasileira sob o comando de um novo técnico, Luiz Felipe Scolari, que enfrentaria em poucas semanas o desafio da Copa América.  No começo de um dia de junho, o time descansava na Granja Comary, e Rangel ainda não deixara a pousada em estilo suíço na qual se hospedava. Ele agradeceu o recado, transmitido por quem oito anos depois ainda optaria pelo anonimato. Em seguida, discou para a pessoa que o procurava.

Apesar da barulheira vinda do quarto vizinho, ocupado por um repórter que trombeteava o boletim radiofônico como se anunciasse o fim dos tempos, Rangel ouviu com nitidez o interlocutor. A dica era quente, em contraste com o frio que se insinuava na serra fluminense às vésperas do inverno: numa contenda trabalhista, figurava uma empresa de Pelé. Talvez houvesse informações de interesse jornalístico acerca do mais notável jogador de futebol da história e ministro dos Esportes de 1995 a 98.

Contudo, a pauta teria de hibernar, alertou o repórter. Ele viajaria à Colômbia para acompanhar o torneio inaugural da era Felipão e só tocaria a investigação na volta. A seleção veio a fracassar, eliminada por boleiros hondurenhos que de tão rechonchudos se assemelhavam mais a massagistas que a atletas.

Sérgio Rangel retornou ao Brasil, embrenhou-se num sem-número de reportagens, e sua fonte apelou a outro jornalista da sucursal da Folha: Mário Magalhães, antigo encarregado do noticiário esportivo que passara a cuidar também de outros temas. Ao saber que o colega fora informado antes, Magalhães ligou para se orientar.

Sobrecarregado de pautas, Rangel tabelou: fariam a matéria juntos, e que Magalhães se encontrasse com o informante _ainda em agosto a dupla assuntou algumas fontes. Não seria a primeira investigação conjunta. Desde outubro de 1997 eles trabalhavam em dobradinha. Enquanto no 11 de setembro o homem discorria sobre o imbróglio judicial, Magalhães constatou que havia mesmo novidades. No entanto, teve a impressão de que o dono da casa não se dera conta do tamanho da notícia.

* * *

Fontes sempre têm motivação.  Do cidadão escrupuloso que zela pelo Estado de Direito ao crápula com propósitos sombrios, elas fornecem informações. A relevância jornalística do que contam se mede pelo interesse público e pela veracidade. O caminho mais curto para a derrota do jornalista é considerar que um “garganta profunda” seja a apuração, e não o que é: o começo, o primeiro passo de investigação autônoma na qual cada versão será checada para compor o relato cujo responsável é o repórter.

Fonte auxilia o trabalho do jornalista, não o substitui. Fontes têm causas diversas; a causa do jornalista é prestar um serviço público, o de informar. O ceticismo em relação a fontes não acarreta danos colaterais.

Rangel e Magalhães jamais escutaram de sua fonte original um só resmungo contra o negócio que seria objeto de suas reportagens. Apenas foram avisados de que, em virtude de um projeto beneficente na Argentina, o empresário Roberto Seabra recorria à Justiça do Trabalho contra a Pelé Sports & Marketing Ltda., companhia cujos sócios eram Edson Arantes do Nascimento, o Pelé, detentor de 60% das cotas, e Hélio Viana, de 40%.

Os três se associaram para promover um evento em favor da seção argentina do Unicef, o Fundo das Nações Unidas Para a Infância. Em contratos paralelos, o que era altruísmo transfigurou-se em empreitada para gerar lucro privado. O Move the World (Movimente o Mundo) não se realizou, e os US$ 700 mil amealhados com a sua preparação, em nome do amparo às crianças pobres do país de Maradona, foram embolsados por uma firma denominada Pelé Sports & Marketing Inc. Seabra reivindicou uma fatia.

A fonte dos repórteres, cuja identidade não seria revelada, sugeria o foco na ação trabalhista. Para eles, o mais importante seria jogar luz sobre um lance atrevido do trio: invocar solidariedade e, na contramão, permitir que a PS&M Inc. se apropriasse dos recursos.

No Tribunal Regional do Trabalho, a poucas centenas de metros do prédio da sucursal da Folha no Centro do Rio, Rangel e Magalhães tiveram claro o que constituíra o empreendimento que se viria a conhecer como Caso Pelé-Unicef. Eles se dedicaram à análise compulsiva das 1.501 folhas dos sete volumes do processo 1.526, instaurado em 1997 na 18ª Vara.

Na reta derradeira de esquadrinhamento dos autos, aos quais é assegurado acesso público, um funcionário graduado do TRT advertiu Rangel: se pretendiam citar o que leram, haveriam de possuir cópia, já que seria habitual o sumiço de documentos. O autor do alerta foi além: permitiu que os jornalistas não ficassem desprotegidos diante de eventuais desmentidos _e mais do que isso não se pode, nem é preciso explicar.

O processo descortinava a triangulação de empresas cujo resultado foram os US$ 700 mil, todavia estava longe de elucidar toda a trama. Graças às regras de transparência do Estado da Flórida, cujos registros de corporações podem ser consultados na internet, os repórteres descobriram ser falsa a data do principal contrato para a promoção do evento do Unicef: o acordo incluía a Sports Vision Corp., firma americana que só foi fundada meses depois.

Proposital ou não, a troca de data escondia que, já ministro, Pelé continuava a operar no setor em que respondia pelo governo FHC. A teia empresarial exposta pelos papéis contradizia outras versões, e o cotejo de dados documentados com relatos dos envolvidos tomou mais tempo.

* * *

A primeira reportagem saiu em uma página e meia nos 495.725 exemplares do domingo 18 de novembro de 2001. Na capa do caderno Esporte, com o título “Empresa ligada a Pelé arma evento beneficente e fica com o dinheiro”. Dentro, “O amigo das criancinhas”. Em poucas semanas, a repercussão se espalhou por dezenas de países de todos os continentes. O ombudsman do jornal elogiou. A série conquistaria o Prêmio Folha de Reportagem. O episódio com Pelé e seus associados foi um dos pilares de matéria de capa da revista Veja sobre bastidores do futebol.

O que nunca se soube é que o texto principal veiculado era na verdade um rascunho, transmitido à Redação em São Paulo mais de uma semana antes do fechamento.  Por engano, editou-se o esboço, e não a reportagem encaminhada na sexta-feira, antevéspera da circulação. Como o raio não caiu duas vezes no mesmo lugar, restou um sopro de sorte: o “primeiro tratamento” não continha números ou afirmações fake _era jornalisticamente correto. Escapou-se da catástrofe, mas os leitores perderam clareza: muitas passagens estavam longe da síntese que facilitava a compreensão e que acabou por ser impressa somente nas edições dos dias seguintes.

Uma das características das reportagens foi oferecer oportunidades ilimitadas de manifestação a Pelé, Viana e Seabra. Os dois últimos alternaram pronunciamentos lacônicos com o silêncio. O ex-ministro de início negou os fatos, e a seguir escudou-se no argumento de que ignorava o que ocorrera. Atacou o sócio Viana, com quem rompera. Existiam duas empresas Pelé Sports & Marketing: a Ltda., sediada no Rio, e a Inc., no paraíso fiscal das Ilhas Virgens Britânicas. Pelé dizia desconhecer a segunda.

Havia um trunfo particular da cobertura: a maioria dos documentos que a fundamentaram foi anexada ao processo 1.526 pelos três empresários _uma parte os repórteres garimparam com fontes protegidas por sigilo. Nenhum papel foi questionado. Ou seja, todos reconheceram a autenticidade. Como consequência, a cada negativa, sobrevinha uma nova reportagem esclarecendo os fatos, com base em papéis fidedignos.

Com o tempo, tornou-se uma espécie de jogo de gato e rato.

Pelé disse que nunca cobrou por evento beneficente; reportagem exibiu contrato assinado por ele, Viana e Seabra prevendo lucro com o Move the World.

Pelé e Viana contestaram manter relação com a PS&M Inc.; a Folha revelou procuração daquela companhia para a homônima brasileira.

Pelé reafirmou nada saber de negócio em paraíso fiscal; novos furos trouxeram documentos com sua assinatura como “diretor-presidente” da firma das Ilhas Virgens Britânicas, não declarada ao Fisco.

Ele insistiu que não o haviam informado acerca do recebimento dos R$ 700 mil; um memorando evidenciou que o antigo jogador foi avisado sobre o dinheiro por seu advogado de confiança, o mesmo a declarar em carta que a PS&M Inc. pertencia a Pelé.

O ex-ministro especulou que haviam falsificado suas assinaturas; mas elas constavam dos papéis que ele mesmo apresentou à Justiça para se defender no processo trabalhista.

E assim por diante.

Em 2003, Rangel e Magalhães produziram outras matérias sobre negócios ocultos de Pelé e Hélio Viana em paraísos fiscais.

Ainda em 2001, a Receita multou a PS&M Ltda. devido a problemas anteriores à série da Folha. Pelé, Viana e Seabra jamais responderam criminalmente pela operação com o Unicef _a rigor, as reportagens tratavam de ética, não do Código Penal. A despeito da vigorosa repercussão midiática, um segmento do jornalismo não disfarçou o constrangimento em noticiar as jogadas de um herói nacional como Pelé, ainda que ele as tenha desenvolvido quando ocupava a função de ministro de Estado.

No calor da publicação, Pelé prometeu que, se confirmado o depósito de US$ 700 mil em uma empresa sua, ressarciria o Unicef.  À época, Mário Magalhães tinha 37 anos e Sérgio Rangel, 30. Em 2009, os cabelos do primeiro haviam embranquecido e os do segundo, rareado. As transações do Caso Pelé-Unicef haviam sido exaustivamente comprovadas. Até então não se tinha notícia da devolução de um só centavo ao fundo da ONU.