Blog do Mario Magalhaes

Ex-diretor do Dops contou que espiãs iam para a cama em busca de segredos

Mário Magalhães

Antiga sede do Dops do Rio; Cecil Borer foi diretor – Foto Pedro Oswaldo Cruz/Acervo Inepac

 

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Foi Cecil de Macedo Borer (1913-2003), e não o delegado Sérgio Fernando Paranhos Fleury (1933-79) ou o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, 81, o mais marcante agente da repressão política no Brasil do século XX.

Os três serviram a ditaduras e barbarizaram à margem da lei, mas o mais influente e longevo como repressor foi o baiano Borer.

O ex-arremessador de peso ingressou na polícia política do antigo Distrito Federal, no Rio, em 1932. Aposentou-se em 1965, na condição de diretor da repartição que se celebrizou como Dops (Departamento de Ordem Política e Social), sua denominação por muitos anos.

Há meio século, às vésperas do golpe de Estado de 1964, Borer comandava o Dops carioca. Conspirou e atuou na deposição do presidente constitucional João Goulart. Ganhou fama como torturador e pioneiro do Esquadrão da Morte.

Em abril de 2001, escrevi na ''Folha de S. Paulo'' uma reportagem para a qual entrevistei Borer. Entre outras lembranças, o policial apontou o torturado mais resistente que conheceu e reconstituiu a introdução de mulheres na espionagem política. Contou que as arapongas, se necessário, iam para a cama em busca de informações.

A matéria anunciava a entrega do antigo prédio do Dops ao Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro, que também montaria lá um espaço de memória política. A cerimônia de transferência de fato ocorreu, como antecipara a reportagem.

Mas no ano seguinte, no mandato de Benedita da Silva, que sucedera Anthony Garotinho no Palácio Guanabara, o governo dobrou-se às pressões de policiais e cancelou a saída da Polícia Civil e a entrada do arquivo _tudo continuou como antes.

Hoje, entidades de defesa dos direitos humanos se mobilizam para que o velho prédio do Dops seja um ''centro de memória da resistência'' (leia aqui).

O blog reproduz na íntegra o texto de 2001, que recapitula um pouco da história da sede do Dops, que teve em Borer o seu chefe mais temido.

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Polícia do Rio perde símbolo da tortura

Na próxima terça-feira, às 11h, quando o ex-analista de informações do DOI (órgão de repressão aos opositores da ditadura 1964-85) Josias Quintal e a ex-guerrilheira e ex-presa política Jessie Jane Vieira de Souza se cumprimentarem, um pedaço da história do Brasil trocará de mãos.

Quintal, hoje secretário de Segurança Pública do Rio, e Jessie Jane, atual presidente do Arquivo Público do Estado, serão os protagonistas da solenidade de transferência do controle do prédio situado na rua da Relação, 40, esquina com a rua dos Inválidos, no centro da cidade.

Noventa e um anos após a construção do prédio de três andares, em 1910 (houve ampliação em 1922), num estilo arquitetônico chamado de ''''francês eclético'', a rua da Relação passará a sediar o Arquivo do Estado, e não mais repartições policiais.

O que foi um templo da tortura de adversários políticos de diversos regimes vai se transformar num centro dedicado à preservação da memória do país.

O local abrigou as polícias políticas da República Velha (até 1930), do primeiro governo de Getúlio Vargas (1930-45), de Eurico Gaspar Dutra (1946-51), do epílogo da era Vargas (1951-54), de Juscelino Kubitschek (1956-61), que transferiu a capital federal para Brasília, e dos Estados da Guanabara (1960-74) e do Rio de Janeiro (1974-83).

Ainda hoje o prédio que acolhe a Delegacia de Repressão a Entorpecentes e a Divisão de Fiscalização de Armas e Explosivos é conhecido como ''''sede do Dops''. O Dops (Departamento de Ordem Política e Social) foi o órgão estadual de polícia política na ditadura instituída com a a deposição de João Goulart. Em 1983, o governador Leonel Brizola (PDT) o extinguiu.

Nunca tantos e tão importantes espiões e repressores brasileiros passaram tantos anos tendo o mesmo prédio como seu quartel-general.

Nunca um espaço de castigo físico sistemático de opositores políticos no Brasil do século 20 teve existência tão duradoura.

É para lá que vai voltar o arquivo com 2,5 milhões de fichas produzidas pelos agentes secretos em quase um século, na tarefa cotidiana de bisbilhotar a vida alheia. O acervo reúne documentos ainda mais antigos, a partir de 1795. Se os papéis fossem colocados numa pilha, a altura alcançaria 3 km.

Deterioração

Quem entra hoje no prédio se assusta com o cenário de terra arrasada: vêem-se baratas e pombos mortos, tetos e divisórias de madeira devastados por cupins, vitrais quebrados, azulejos destruídos, paredes esburacadas.

O elevador com duas portas rangentes de ferro no saguão é o mesmo do qual Luiz Carlos Prestes viu pela última vez sua mulher, Olga Benário, conforme relato de Fernando Morais no livro ''Olga''. Era 1936, e no ano anterior Prestes havia liderado um levante contra o governo Vargas. Judia alemã, Olga foi deportada e morreu num campo de concentração nazista.

No terceiro andar, uma proteção metálica de 2 metros de altura ainda sobrepõe-se ao corrimão de ferro. Após a dita Intentona Comunista, em 1935, o militante norte-americano Victor Allen Barron morreu ao atirar-se -ou ser atirado- no pátio interno, desesperado com as sessões de tortura a que era submetido. Resolveu-se, aí, instalar a proteção.

No mesmo terceiro andar ficava o Ratão, cela onde o deputado Fernando Gabeira (PV-RJ) ficou preso em 1970, quando era guerrilheiro. O nome se devia às ratazanas que atazanavam os presos.

Nem o relógio no alto de uma torre no pátio funciona: estacionou pontualmente às 11h03 (ou 23h03), não se sabe quando.

Até hoje funcionários dizem ouvir de madrugada barulho de almas penadas, fantasmas de torturados e mortos desde o começo do século no prédio -de 1924 a 1926, centenas de anarquistas foram encarcerados ali, onde também funcionou o Instituto Médico Legal do Distrito Federal.

Desde 1998 os documentos do Arquivo do Estado estão armazenados, em lastimáveis condições, num sobrado emprestado pelo Metrô, em Botafogo (zona sul).

O plano do arquivo é restaurar a fachada, remodelar as estruturas elétrica, hidráulica e de concreto e construir espaços temáticos na rua da Relação. Para isso, são necessários R$ 5 milhões, a serem levantados basicamente com empresas privadas, que terão o benefício das leis de incentivo cultural.

No mês que vem, a Polícia Civil vai retirar do local o depósito de 110 mil armas apreendidas -das quais 100 mil serão destruídas, com autorização da Justiça. As repartições que lá estão baseadas também sairão.

A diretora Jessie Jane nega que o projeto seja o de um museu da tortura, embora características se assemelhem às dos museus sobre o Holocausto erguidos na Europa.

Como concessão à Polícia Civil, corporação na qual houve restrições à cessão do prédio, será montado o Museu da História da Segurança Pública.

Uma faixa colocada por policiais civis está afixada na fachada, citando bandeira dos advogados da instalação do arquivo: ''''Em defesa dos direitos humanos, este prédio é nosso''.

A Folha tentou ouvir o secretário Josias Quintal na quinta e na sexta-feiras, mas ele estava incomunicável no interior do Rio.

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Ex-diretor revela como era espionagem

Quando o estudante Carlos Lacerda foi preso no centro do Rio panfletando na primeira metade dos anos 1930, foi o policial Cecil de Macedo Borer quem o prendeu. Quando quatro militantes comunistas foram recrutados como agentes duplos após o levante de 1935, foi Borer quem os recrutou.

Em seguida à detenção de integralistas, em 1938, e nazistas, na década de 40, os interrogatórios foram conduzidos por Borer. Quando uma pequena tropa de espiões se infiltrou em organizações revolucionárias e sindicatos às vésperas do golpe de Estado de 1964, seu chefe era Borer. Foi Borer (pronuncia-se ''Borér'') quem comandou a caçada a militantes de esquerda e partidários do governo João Goulart (61-64) nos meses posteriores ao golpe.

De 1932, quando tornou-se agente do serviço secreto do antigo Distrito Federal, até 1965, ao aposentar-se como diretor do Dops da Guanabara, Cecil Borer tornou-se uma legenda da polícia política -e sinônimo do prédio da rua da Relação, 40. Aos 87 anos, presidente do Sindicato das Empresas de Segurança Privada do Estado do Rio, ele revelou alguns de seus segredos à Folha.

Em 1932, aos 18 anos, Borer foi um dos 200 atletas convidados para ingressar na recém-criada Polícia Especial do governo de Getúlio Vargas. Alto e parrudo, era arremessador de peso e disco do Fluminense (seu irmão mais novo, Charles, viria a ser presidente do Botafogo). Foi destacado para o quadro móvel, eufemismo que designava o serviço de inteligência (espionagem) de Vargas.

Espécie de araponga da primeira metade do século 20, evitava o prédio da Polícia Central, na rua da Relação, para não ser reconhecido. ''Na época já se encostava em filhas de pessoas importantes para namorar, saber das coisas'', lembra Borer. ''Pela primeira vez usamos várias mulheres em serviço de inteligência no Brasil.'' Para obter informações, ''elas iam até à cama, se necessário''.

Em 1934, Borer passou a dar expediente em tempo integral na rua da Relação, como chefe de turma de sindicância e investigações. Nas semanas seguintes ao movimento comunista de novembro de 1935, seu principal objetivo era encontrar os cabeças da conspiração. ''Aliciei quatro militantes que estavam presos. Nós os soltamos, e eles nos levaram aos líderes, inclusive a Luiz Carlos Prestes.''

Na época, casas eram invadidas quando a repressão bem entendia: ''Não havia mandado de busca e apreensão, nada disso. A polícia era o poder absoluto''. Borer não é menos sincero ao falar da parcialidade da Justiça: ''No Tribunal de Exceção, a priori a pessoa já estava julgada''.

Sessenta e cinco anos depois das torturas que levaram à demência irreversível o comunista alemão Arthur Ernst Ewert, um dos artífices do levante de 1935, Borer não esquece a têmpera do homem que, por meses a fio de 1936, se negou a dar uma só informação aos algozes. ''Foi a pessoa com maior trabalho mental, determinação e inteligência que já conheci'', afirma Borer, referindo-se a Ewert por seu codinome, Harry Berger.

''Altamente preparado, Berger resistiu a todo o tipo de pressão. Batiam nele o dia inteiro no convento do morro de Santo Antônio (centro do Rio), onde estava preso, e não falava nada.''

Borer diz ter conhecido Ewert quando o alemão passou pela rua da Relação. Sobre ''todo o tipo de pressão'', é reticente: ''Punha-se de pé, nu, sem poder sentar. É normal. Se em troca disso alguém passasse informação, você usava. Quem vivesse a situação não veria nada de anormal. A ação era compatível com a circunstância. O objetivo era correr contra o tempo''.

Em contraste com contemporâneos que nas décadas seguintes se obstinaram em reescrever suas biografias, Borer ainda hoje defende a extradição na qual, em 1936, Vargas entregou a judia e comunista Olga Benário, mulher de Luiz Carlos Prestes, ao governo nazista da Alemanha, que a mataria num campo de concentração.

''Agora todos condenam'', diz. ''Na ocasião, não havia por que não atender o pedido de extradição da Alemanha.'' Borer esteve com Olga na rua da Relação, onde ela ficou presa dez dias. Lá, cansou-se de interrogar o secretário-geral do Partido Comunista Argentino, Rodolfo Ghioldi, outro líder do ''putsch'' de 1935. Foi Borer quem o levou de volta a seu país de origem, onde foi libertado.

Em 1954, às vésperas do suicídio de Getúlio Vargas no dia 24 de agosto, Borer foi chamado, conforme suas memórias, para interrogar na Base Aérea do Galeão o chefe de segurança do presidente, Gregório Fortunato. Gregório era acusado de planejar o atentado de dias antes na rua Tonelero contra o inimigo supremo de Vargas, Carlos Lacerda. Lacerda escapou, mas um segurança, o major-aviador Rubens Vaz, morreu.

Em 1960, quando seu antigo preso e depois amigo Carlos Lacerda (que abandonara o comunismo e se tornara conservador) elegeu-se governador da Guanabara, Borer deixou a direção do Dops e passou um tempo como delegado de vigilância -antes, conduzira a seção que investigava o movimento sindical. Trocou a perseguição a adversários políticos pela procura de bandidos com apelidos como Cara de Cavalo, Coisa Ruim e Mineirinho.

Em 1963, a pedido de Lacerda, voltou ao Dops. O tempo estava ficando quente. Borer ensina uma lição dos tempos em que correu atrás de criminosos comuns: ''Com os presos políticos, ao contrário do que acontece com os malandros, é preciso usar a inteligência, não só a força física''.

No fim do governo Lacerda, em 1965, Borer deixou o Dops e se aposentou. ''Esqueceu'' o nome dos infiltrados que acompanharam o séquito de Goulart no Uruguai. Conta ter se desfeito do arquivo particular de 700 kg.

Borer assegura não ter saudade dos tempos de Dops. Não foi convidado para a cerimônia de terça-feira, que marcará a despedida simbólica da polícia. Sobre o prédio, diz: ''Não é que lá residisse a repressão. Mais que isso: grande parte da história do Brasil aconteceu ali dentro''.

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'Hóspedes' do prédio narram experiências

Antigos ''hóspedes'' narraram suas experiências. O cartunista Ziraldo, 68, esteve preso em 1970. Quando chegou, havia dezenas de motoristas de ônibus detidos, porque a mulher de um general caíra de um ônibus na zona sul e culpara o chofer -desconhecido.

Ziraldo foi levado pela polícia com uma camisa cáqui, a mesma cor do uniforme dos condutores de ônibus. Ele a comprara em Nova York na mesma loja onde o escritor Ernest Hemingway encomendava as suas. Um adolescente de esquerda indagou-o sobre o grupo político a que pertencia.

''Qual a sua linha?'', perguntou o jovem, segundo Ziraldo. ''Sou um democrata, defendo a democracia'', disse. ''Não, linha de ônibus, qual é?'', insistiu o jovem, pensando que Ziraldo era mais um motorista detido pela polícia.

Preso três vezes, o jornalista Moacir Werneck de Castro, 86, se diz um ''usuário'' do local. ''O prédio tinha uma fama sinistra'', afirma. ''Evitava-se passar por sua calçada, com medo de ser apanhado e levado para dentro.''

O ator Mário Lago, 89, foi preso cinco vezes. Numa delas, um policial jogou à cela um mendigo com a roupa embebida em ácido. ''Isso é perfume francês, seus comunistas'', disse o carcereiro.

A psicóloga Cecília Coimbra, 60, vice-presidente do grupo Tortura Nunca Mais, do Rio, ficou na carceragem feminina em 1970. Ela conta ter sido recebida com a pergunta de um coronel: ''Sua prostituta, com quantos você trepou?''